# A Bela e a Fera

_Jeanne-Marie Leprince de Beaumont_ · 15 min read · ages 6-11

Bela, caçula de um mercador arruinado, aceita morar no palácio da Fera para salvar o pai e aos poucos deixa de temer aquela figura assustadora. Ao quebrar a promessa de voltar, sonha com a Fera moribunda, corre ao jardim e jura que será só sua, e o monstro volta a ser o príncipe que se casa com ela no reino dele.

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Era uma vez um mercador riquíssimo, pai de três rapazes e três moças. As filhas eram bonitas, mas a caçula encantava todo mundo, e desde pequena ninguém a chamava de outra coisa senão bela menina. O apelido virou o nome dela, para inveja das irmãs, que se orgulhavam da riqueza da família e riam dela por gostar de ficar em casa lendo.

De repente o mercador perdeu tudo. Sobrou-lhe apenas uma casinha no campo, e ele contou aos filhos, chorando, que teriam de morar lá e trabalhar a terra como camponeses. As mais velhas juraram que não sairiam da cidade, pois tinham pretendentes de sobra; enganavam-se, porque, assim que ficaram pobres, ninguém mais as procurou.

No começo Bela sofreu com a perda da fortuna, mas logo pensou consigo mesma: “De que adianta chorar? As lágrimas não vão me devolver nada. Preciso aprender a ser feliz sem dinheiro.”

Na casa de campo, o mercador e os filhos cuidavam da lavoura. Bela levantava às quatro da manhã, arrumava a casa e preparava a comida; depois lia, tocava cravo ou cantava enquanto fiava. As irmãs morriam de tédio: levantavam às dez, lamentavam o dia inteiro as festas perdidas e diziam uma para a outra que a caçula era boba de estar contente com aquela vida. Além de deixarem todo o serviço para ela, ainda a ofendiam a toda hora, e o pai admirava a paciência da moça.

Fazia um ano que viviam ali quando chegou uma carta: um navio do mercador tinha aportado em segurança. As mais velhas, já se vendo de volta à cidade, pediram vestidos e toucados. Bela não pediu nada.

— Você não quer que eu lhe traga alguma coisa? — perguntou o pai.

— Já que o senhor tem a bondade de pensar em mim — respondeu ela —, traga uma rosa, que aqui não nasce nenhuma.

A viagem foi inútil, e o mercador voltou tão pobre quanto antes. Perto de casa, perdeu-se num bosque. Nevava sem parar, o vento o derrubou do cavalo, e ele pensou que morreria de frio ou nas garras dos lobos que uivavam por perto. Foi então que viu uma luz ao longe.

Era um palácio inteiramente iluminado, sem viva alma nos pátios. O cavalo entrou sozinho numa cavalariça e se atirou faminto sobre o feno; na grande sala, o mercador encontrou um bom fogo e uma mesa posta com um único lugar. Esperou pelo dono até as onze horas, comeu e foi dormir.

Acordou às dez da manhã e, no lugar da sua roupa estragada, havia um traje novo. Pela janela não se via mais neve, e sim caramanchões de flores; na sala, uma mesinha o esperava com chocolate.

— Muito obrigado, senhora fada — disse em voz alta —, pela bondade de pensar no meu café da manhã.

Depois saiu para buscar o cavalo e, ao passar por um caramanchão de rosas, lembrou-se do pedido de Bela e colheu um ramo. No mesmo instante ouviu um estrondo e viu vir na sua direção uma Fera medonha.

— Você é muito ingrato — disse a Fera, com voz terrível. — Salvei a sua vida ao recebê-lo aqui, e em troca você me rouba as rosas que eu mais amo no mundo. Vai pagar com a vida.

— Meu senhor, perdoe-me — suplicou o mercador, de joelhos. — Colhi uma rosa apenas para uma das minhas filhas, que tinha me pedido uma.

— Não me chame de meu senhor — respondeu o monstro. — Meu nome é Fera, e bajulação não me comove. Mas você falou que tem filhas: vou perdoá-lo se uma delas vier, por vontade própria, morrer no seu lugar. Se nenhuma quiser, jure que volta em três meses.

O bom homem não pretendia sacrificar nenhuma filha, mas pensou que ao menos as abraçaria mais uma vez, e jurou que voltaria.

— Não quero que vá de mãos vazias — disse a Fera. — No quarto onde dormiu há um baú vazio. Encha com o que quiser, que eu mandarei entregá-lo na sua casa.

Assim que a Fera se retirou, ele encheu o baú com as moedas de ouro do quarto e deixou o palácio tão triste quanto tinha entrado alegre. O cavalo tomou sozinho um caminho da floresta e em poucas horas chegaram em casa.

Os filhos correram para recebê-lo, mas o mercador começou a chorar, com o ramo de rosas na mão.

— Tome, Bela — disse ele. — Estas flores vão custar muito caro ao seu pobre pai.

E contou tudo. As duas mais velhas deram gritos e cobriram de acusações a caçula, que não chorava.

— Vejam o que o orgulho desta criaturinha causou — diziam. — Por que ela não pediu roupas como nós? Vai matar o nosso pai e não derrama uma lágrima.

— De que serviriam as lágrimas? — respondeu Bela. — Meu pai não vai morrer. Já que o monstro aceita uma das filhas, eu me entrego à fúria dele, feliz de poder salvá-lo.

Os três irmãos juraram que iriam matar o monstro, mas o pai respondeu que o poder da Fera era grande demais e que não deixaria a filha se expor à morte.

— O senhor não irá a esse palácio sem mim — disse Bela com firmeza. — Prefiro ser devorada por esse monstro a morrer da dor que a sua perda me daria.

Não adiantou insistir: Bela quis partir de todo jeito, para o encanto das irmãs invejosas.

Naquela noite o mercador encontrou o baú de ouro ao lado da cama, mas não contou nada aos filhos: as mais velhas iam querer voltar para a cidade. Só Bela soube do segredo, e pediu que ele casasse as irmãs com dois rapazes que tinham aparecido durante a ausência dele, pois lhes perdoava tudo.

Na hora da partida, as duas malvadas esfregaram os olhos com cebola para conseguir chorar. Os irmãos e o pai choravam de verdade; só Bela não chorava, para não aumentar a dor deles.

Ao anoitecer, viram o palácio iluminado como da primeira vez, e na grande sala uma mesa posta com dois lugares. O mercador não tinha coragem de comer; Bela se sentou e pensava: “A Fera quer me engordar antes de me comer.” Terminada a ceia, ouviram um barulho, e o pai se despediu chorando.

Bela estremeceu diante daquela figura horrível, mas, quando o monstro lhe perguntou se tinha vindo de bom grado, respondeu, tremendo, que sim.

— Você é muito boa — disse a Fera —, e eu lhe sou muito grato. Bom homem, parta amanhã de manhã e nunca mais volte aqui. Adeus, Bela.

— Adeus, Fera — respondeu ela, e o monstro se retirou.

O mercador, meio morto de medo, quis ficar no lugar da filha.

— Não, meu pai — respondeu ela. — O senhor parte amanhã cedo, e o céu talvez tenha pena de mim.

Achavam que não pregariam o olho, mas mal se deitaram e o sono chegou. Bela sonhou com uma dama que lhe disse estar contente com o seu bom coração e que aquela boa ação não ficaria sem recompensa.

O mercador chorou alto ao se separar da filha. Bela chorou também, mas resolveu não se afligir com o pouco tempo que julgava ter de vida e foi conhecer o castelo. Ficou espantada ao encontrar uma porta com esta inscrição: Aposento de Bela.

Abriu depressa e ficou deslumbrada com a enorme biblioteca, o cravo e as partituras. “Se eu tivesse só um dia de vida aqui, não teriam preparado tudo isto para mim”, pensou. Num dos livros estava escrito, em letras de ouro: Deseje, ordene; aqui você é a rainha e a senhora.

“Ai de mim”, suspirou, “eu não desejo nada, a não ser ver meu pobre pai.” Nesse instante, num grande espelho, viu a própria casa e o pai chegando muito triste, e as irmãs correndo ao encontro dele mal disfarçando a alegria. A imagem sumiu, e Bela pensou que nada tinha a temer de uma Fera tão gentil.

Ao meio-dia a mesa estava posta e um concerto tocou sem que ela visse ninguém. À noite, quando ia cear, ouviu o barulho da Fera e estremeceu.

O monstro pediu licença para vê-la cear, e Bela respondeu, tremendo, que ele era o dono da casa.

— Aqui a única dona é você — disse a Fera. — Basta me mandar sair, se eu estiver incomodando. Diga uma coisa: você não me acha muito feio?

— Acho — disse Bela —, porque não sei mentir. Mas acredito que você é muito bom.

— Além de feio, não tenho inteligência nenhuma — respondeu o monstro. — Sei muito bem que não passo de uma fera.

— Quem se acha sem inteligência não é fera nenhuma — disse Bela. — Um tolo jamais soube disso. E confesso que gosto do seu coração: quando penso nisso, você já nem me parece tão feio. Há muitos homens mais monstruosos do que você, gente que esconde um coração falso e ingrato atrás de cara de pessoa.

Bela ceou com bom apetite, já quase sem medo, mas quase morreu de susto quando ele perguntou:

— Bela, você quer ser minha mulher?

Ela ficou sem responder, com medo de irritá-lo. Por fim disse, tremendo:

— Não, Fera.

O pobre monstro quis suspirar, e o suspiro saiu como um assobio tão terrível que ecoou pelo palácio. Mas a Fera apenas disse, com tristeza:

— Adeus, então, Bela.

Saiu da sala, virando-se de vez em quando para olhá-la. “Que pena que ela seja tão feia”, pensou Bela, “sendo tão boa.”

Bela passou três meses no palácio com tranquilidade. Todas as noites, às nove em ponto, a Fera vinha conversar com ela durante a ceia, e o hábito acostumou a moça com a feiura: em vez de temer aquela hora, passou a esperá-la. Só uma coisa lhe doía. Antes de se recolher, o monstro perguntava:

— Bela, você quer ser minha mulher?

E ficava tomado de tristeza quando ela respondia:

— Não, Fera.

Um dia Bela lhe disse que jamais poderia se casar com ele, mas que seria sempre sua amiga.

— Não tenho escolha — respondeu a Fera. — Sei que sou horrível, mas gosto muito de você. Prometa ao menos que nunca vai me deixar.

No espelho, Bela tinha visto que o pai estava doente de tristeza por tê-la perdido.

— Posso prometer que nunca vou deixar você de vez — disse ela. — Mas tenho tanta vontade de rever meu pai que vou morrer de desgosto se você me negar esse prazer.

— Prefiro morrer a lhe dar essa tristeza — disse o monstro. — Vou mandá-la para a casa do seu pai. Você fica lá, e a sua pobre Fera morre de dor.

— Não — disse Bela, chorando. — Gosto demais de você para querer a sua morte, e prometo voltar dentro de oito dias. Meu pai está sozinho: minhas irmãs se casaram e meus irmãos partiram para o exército. Deixe que eu passe uma semana com ele.

— Amanhã de manhã você estará lá — disse a Fera. — Mas lembre-se da sua promessa. Quando quiser voltar, basta deixar o seu anel sobre a mesa antes de dormir. Adeus, Bela.

Ao acordar, Bela estava na casa do pai, que quase morreu de alegria ao rever a filha. No quarto ao lado havia um baú cheio de vestidos bordados de ouro e diamantes. Ela escolheu o menos rico e mandou guardar os outros para dar às irmãs; o baú sumiu na hora, e só voltou quando o pai explicou que a Fera queria tudo aquilo para ela.

As irmãs chegaram correndo com os maridos, e as duas eram muito infelizes: uma se casara com um moço bonito como o sol, mas tão apaixonado pela própria imagem que nem reparava na beleza da mulher, e a outra com um homem espirituoso que usava a inteligência só para irritar a esposa. Ao ver Bela vestida como uma princesa e ouvi-la contar como era feliz, quase morreram de raiva.

As invejosas desceram ao jardim para chorar à vontade e ali combinaram um plano: segurar a irmã em casa além dos oito dias, para que a Fera se enfurecesse com a promessa quebrada e talvez a devorasse. Foram tão afetuosas, e fizeram tanto drama quando o prazo acabou, que Bela prometeu ficar mais uma semana.

Mesmo assim, Bela se culpava pela tristeza que causava à Fera, a quem amava de todo o coração. Na décima noite, sonhou que a via caída na grama, à beira do canal do jardim, quase morrendo, censurando a sua ingratidão. Acordou sobressaltada e em prantos.

“Como sou ingrata”, pensou, “fazendo sofrer quem é tão bom comigo. Ela tem culpa de ser feia? É boa, e isso vale mais do que todo o resto. Eu seria mais feliz ao lado dela do que minhas irmãs ao lado dos maridos, porque não é a beleza que faz a felicidade de uma esposa.”

Bela levantou, colocou o anel sobre a mesa e voltou a dormir. Acordou no palácio, vestiu-se magnificamente para agradar a Fera e esperou o dia inteiro pelas nove da noite. O relógio bateu, e a Fera não apareceu.

Com medo de ter causado a morte dela, Bela correu o palácio aos gritos. Depois lembrou-se do sonho e correu ao jardim, à beira do canal. Encontrou a pobre Fera caída, sem sentidos, e achou que estava morta. Atirou-se sobre ela sem sentir horror nenhum e, sentindo que o coração ainda batia, jogou água na cabeça dela. A Fera abriu os olhos.

— Você esqueceu a sua promessa — disse ela. — A tristeza de ter perdido você me fez decidir morrer. Mas morro contente, porque tive o prazer de ver você mais uma vez.

— Não, minha querida Fera, você não vai morrer — disse Bela. — Você vai viver para ser meu marido. A partir deste momento eu lhe dou a minha mão e juro que serei só sua. Eu pensava que sentia apenas amizade, mas a dor que sinto mostra que não posso viver sem você.

Mal Bela disse essas palavras, o castelo se encheu de luz, fogos de artifício e música de festa. Nada daquilo prendeu o olhar da moça: ela se virou para a sua querida Fera, e qual não foi a sua surpresa! No lugar do monstro estava um príncipe mais belo que o amor, que lhe agradecia por ela ter desfeito o encantamento. Bela perguntou onde estava a Fera.

— Você a está vendo aos seus pés — disse o príncipe. — Uma fada má me condenou a essa figura até que uma bela moça aceitasse se casar comigo, e me proibiu de mostrar qualquer inteligência. Só você foi boa o bastante para se comover com a bondade do meu caráter. Nem a minha coroa paga o que devo a você.

Bela deu a mão ao príncipe para que ele se levantasse, e os dois foram até o castelo, onde ela encontrou com enorme alegria o pai e toda a família: a dama do sonho os tinha trazido até ali.

— Bela — disse a dama, que era uma grande fada —, venha receber a recompensa pela sua boa escolha. Você preferiu a virtude à beleza e à inteligência, e merece encontrar tudo isso numa só pessoa. Será uma grande rainha; espero que o trono não destrua as suas virtudes.

Depois a fada se voltou para as duas irmãs.

— Quanto a vocês, conheço a maldade que os seus corações guardam. Virem duas estátuas, mas conservem a consciência sob a pedra. Ficarão à porta do palácio da irmã, e a única pena que lhes imponho é assistir à felicidade dela. Voltarão a ser o que eram no dia em que reconhecerem os seus erros, mas tenho medo de que fiquem estátuas para sempre: a gente se corrige do orgulho e da preguiça, mas a conversão de um coração invejoso é quase um milagre.

No mesmo instante a fada deu um toque de varinha e transportou todos para o reino do príncipe, onde os súditos o receberam com alegria. Ele se casou com Bela, e os dois viveram muitos e muitos anos numa felicidade perfeita, construída sobre a bondade.

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- Source: La Belle et la Bête, dans les Contes moraux pour l’instruction de la jeunesse (Leprince de Beaumont, éd. 1806) (https://fr.wikisource.org/wiki/Contes_moraux_pour_l’instruction_de_la_jeunesse/La_Belle_et_la_Bête)
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