# A Lenda da Caipora

_João Simões Lopes Neto_ · 6 min read · ages 7-11

Um caçador guloso da campanha gaúcha topa na floresta com a Caipora, o espírito gigante, peludo e triste que comanda as varas de porcos-do-mato, e o encontro muda sua sorte para sempre. Incapaz de reverter o azar que passa a segui-lo, ele aprende a viver com menos do que o mato lhe oferecia antes, enquanto a Caipora continua, sozinha e melancólica, protegendo a caça selvagem da floresta.

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Nos campos do Sul, onde o pampa encontra as primeiras árvores do mato fechado, vivia um caçador chamado Chico. Ninguém conhecia as trilhas da floresta como ele, e ninguém trazia para casa tantos porcos-do-mato quanto Chico trazia. Ele saía ao amanhecer, com a espingarda ao ombro e o cachorro correndo à frente, e voltava ao entardecer com mais carne do que a família podia comer numa semana inteira. O que sobrava ele secava, salgava e vendia na venda do povoado, e as pessoas gostavam de comprar dele, porque Chico sempre tinha mais do que qualquer outro caçador da redondeza. Aos poucos, sua casa ficou cercada de couros pendurados a secar no varal, e ele se orgulhava daquilo como quem se orgulha de uma colheita farta, sem nunca se perguntar se o mato tinha fôlego para dar tanto para sempre.

A vizinha mais velha, dona Bina, vivia repreendendo-o quando o via passar com mais um bicho amarrado nas costas.

— Chico, você caça mais do que precisa — dizia ela, sacudindo a cabeça. — O mato não é um armazém pra gente esvaziar as prateleiras. É casa de bicho, e casa de bicho tem dono.

— O mato é grande, dona Bina — respondia ele, rindo. — Sempre vai ter porco pra mim e pra todo mundo.

E seguia seu caminho, satisfeito consigo mesmo, sem dar mais ouvidos ao aviso.

Numa noite de lua cheia, Chico ouviu ao longe o roncar surdo de uma vara inteira de porcos-do-mato cruzando a floresta, e não resistiu: pegou a espingarda e entrou mato adentro atrás do rastro, sem se importar que já fosse tarde e que o dia de caça já tivesse dado carne de sobra. Foi seguindo o barulho por entre as árvores, cada vez mais fundo, saltando riachos e desviando de galhos, até perder de vista as luzes da própria casa e até perder a conta do tempo que andava. O mato ali era mais fechado, mais escuro, e mesmo assim ele seguiu, atraído pelo som daquela vara enorme que parecia não ter fim.

Foi então que o mato à sua frente se abriu numa pequena clareira tomada de luar, e ali, no meio dela, Chico viu o que nenhum caçador quer ver. Montado sobre um dos porcos, na frente de toda a vara, vinha um vulto gigante, coberto dos pés à cabeça de pelos compridos, com a forma de um homem, mas maior que qualquer homem que Chico já tivesse visto. Os porcos passavam ao redor dele obedientes, como um rebanho ao redor do seu guia, e o vulto os conduzia sem pressa, com um jeito calmo que não combinava com o tamanho dele. O rosto daquele gigante era o mais triste que Chico já encontrara: não havia raiva ali, nem fúria, só uma tristeza funda e antiga, como quem carrega o peso de todo o mato nos ombros havia muitos e muitos anos.

Era a Caipora.

Chico ficou paralisado, a espingarda esquecida na mão. A Caipora não avançou contra ele nem ergueu um dedo. Apenas o olhou, por um instante que pareceu não ter fim, com aqueles olhos tristes que pareciam enxergar tudo o que Chico já tinha tirado do mato sem nunca precisar tanto. Depois, sem pressa, virou o porco em que montava e guiou sua vara inteira para dentro das árvores, sumindo na escuridão e deixando só o eco dos cascos entre os troncos, cada vez mais fraco, até o silêncio voltar.

Chico correu de volta para casa como nunca tinha corrido, tropeçando nas próprias pernas, e naquela noite, pela primeira vez em anos, chegou com as mãos vazias e o coração disparado.

Dali em diante, nada mais lhe saiu certo. Ele que conhecia cada palmo daquelas trilhas de olhos fechados agora tropeçava nas pedras do caminho que sempre soubera contornar. Nas roçadas onde tantas vezes tinha passado sem um arranhão, os espinhos agora rasgavam sua roupa e sua pele. Perdia a faca, perdia a corda, perdia o rumo até em caminhos que andava desde menino. Chegava sempre atrasado aonde quer que fosse, o peixe fugia do seu anzol, e a caça sumia entre as árvores um instante antes de ele conseguir mirar, como se soubesse de longe que ele vinha.

Nem os animais da sua casa escaparam daquela sombra. O cavalo que sempre fora firme e manso começou a mancar sem motivo nenhum. As galinhas do quintal ficaram roucas e fracas, mal conseguindo cacarejar. O cachorro que corria à sua frente todas as manhãs criou uma ferida na pata que não sarava, por mais que Chico cuidasse dela todos os dias com paciência.

Foi dona Bina quem, ao ver tudo aquilo se abater sobre a casa de Chico em poucas semanas, entendeu primeiro.

— Você encontrou a Caipora, não foi? — perguntou ela, sentando-se ao lado dele na varanda.

Chico contou, então, tudo o que tinha visto na clareira: o gigante peludo e triste, montado no porco, guiando a vara inteira mato adentro sem lhe fazer mal algum, só olhando.

— Não tem cura pra isso, meu filho — disse dona Bina, com a voz mansa. — Quem topa com a Caipora carrega o azar pelo resto da vida. Foi sempre assim, desde os tempos da minha avó, e vai continuar sendo.

Chico baixou a cabeça, mas não chorou. Aos poucos, foi aprendendo a viver com aquele azar miúdo que passou a segui-lo todos os dias: as trombadas, os atrasos, as coisas perdidas. Caçava cada vez menos, não porque tivesse decidido parar de uma vez, mas porque a caça simplesmente não vinha mais até ele como antes, por mais cedo que saísse ou mais fundo que entrasse no mato. Passou então a plantar um pedaço de terra atrás de casa, a criar suas galinhas com paciência redobrada, a viver do pouco que conseguia tirar com as próprias mãos, sem depender tanto da floresta como antes.

Envelheceu assim, sempre um pouco enguiçado, sempre chegando um pouco tarde a tudo, mas em paz com a vida que lhe restara. E dizem que, de vez em quando, ao entardecer, quando caminhava sozinho pela beirada do mato, Chico ainda avistava ao longe, entre as sombras compridas das árvores, um vulto grande e peludo passando montado em seu porco, sempre triste, sempre calado, guiando a vara inteira para bem fundo da floresta, onde nenhum outro caçador jamais conseguia chegar, e onde os bichos do mato continuavam, ano após ano, tão fartos e tão livres como sempre tinham sido.

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- Source: Lendas do Sul, J. Simões Lopes Neto (Echenique & C., Pelotas, 1913) (https://pt.wikisource.org/wiki/Lendas_do_Sul/O_Caapóra)
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