# A Lenda do Jabuti

_Retold by Talerie (talerie.com) from O Selvagem, after José Vieira Couto de Magalhães_ · 4 min read · ages 5+

Um jabuti pequeno que tinha matado uma anta aceita apostar uma corrida com o cervo, cada um de um lado do rio, e põe os parentes ao longo da margem para responder lá da frente toda vez que o cervo grita. O cervo corre até morrer de cansaço, e o jabuti tira um osso dele para fazer a sua gaita e vai embora tocando.

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Era uma vez um jabuti pequeno que tinha matado uma anta, e uma anta bem grande! Todo contente, ele seguiu pela beira do rio para chamar os parentes, e no caminho deu de cara com o cervo.

— Aonde você vai, jabuti? — perguntou o cervo.

— Vou chamar meus parentes. Quero que eles venham ver a minha caça: uma anta enorme!

— Então você matou uma anta?! — disse o cervo. — Pois vá chamar a sua gente toda. Eu fico aqui mesmo, quero ver essa turma chegar.

O jabuti pensou melhor.

— Então não vou mais. Volto daqui mesmo e espero a anta apodrecer, para tirar um osso dela e fazer a minha gaita. Bom, cervo, já vou indo.

Mas o cervo não acreditava que o bicho mais lento da mata tivesse dado conta de uma anta.

— Você matou uma anta, é? Pois então quero ver você apostar uma corrida comigo.

— Então me espere aqui — respondeu o jabuti. — Vou ver por onde eu corro.

— Você corre pelo outro lado do rio — disse o cervo. — E toda vez que eu gritar, você responde.

— Então já vou.

O cervo ainda caçoou dele:

— Vai, e nada de ficar para trás! Quero ver essa sua coragem.

— Me espere mais um pouco — pediu o jabuti. — Deixe eu chegar à outra margem.

Assim que chegou lá, longe dos olhos do cervo, o jabuti chamou todos os seus parentes. Foi pondo um depois do outro ao longo da margem do riozinho, todos prontos para responder ao cervo bobo.

— Fiquem aqui — disse ele. — Quando o cervo gritar, vocês respondem.

Depois gritou para o outro lado do rio:

— Cervo, você já está pronto?

— Já estou pronto!

— E quem corre na frente?

O cervo deu risada.

— Pode ir na frente, seu molenga.

Mas o jabuti não correu nada. Enganou o cervo direitinho e foi esperar no fim da corrida.

E o cervo estava tranquilo, porque confiava nas próprias pernas.

Lá na frente, um dos parentes do jabuti chamou pelo cervo, que respondeu de longe, lá de trás:

— Lá vou eu, tartaruga do mato!

O cervo correu, correu, correu, e depois gritou:

— Jabuti!

E lá da frente, sempre da frente, um parente do jabuti respondeu.

— Lá vou eu, tartaruga do mato! — disse o cervo.

Correu, correu, correu, e gritou de novo:

— Jabuti!

E lá da frente, sempre da frente, um parente do jabuti respondeu.

A essa altura, o cervo já não aguentava mais.

— Vou beber um pouco de água — disse.

E ali mesmo se calou.

No fim da corrida, o jabuti gritou, gritou, gritou… Ninguém respondeu.

— Será que aquele lá já morreu?

E disse aos companheiros:

— Vou lá ver o cervo, devagarinho.

Quando chegou à margem do rio, bem devagar, o jabuti disse, todo prosa:

— Eu nem suei.

Então chamou:

— Cervo!

Nem um pio. O cervo não respondeu nada.

Os parentes do jabuti olharam bem para o cervo e disseram:

— É verdade, ele já está morto.

O cervo tinha morrido de cansaço, de tanto correr.

— Vamos tirar um osso dele — disse o jabuti.

— Para que você quer esse osso? — perguntaram os outros.

— Para fazer a minha gaita e soprar nela para todo o sempre. Agora eu vou embora daqui. Até um dia!

E o jabuti foi embora com o osso do cervo, para tocar a sua gaita.

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- Source: O Selvagem, por Couto de Magalhães (Rio de Janeiro, Typ. da Reforma, 1876), «Jabuti e Veado», pp. 185-191 (https://archive.org/details/trabalhoprepara00magagoog)
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