# A Lenda do Saci-Pererê

_João Simões Lopes Neto_ · 6 min read · ages 5-10

Um tropeiro chamado Firmino atravessa sozinho a mata à noite quando sente o Saci-Pererê saltar na garupa do seu cavalo e passar a atormentá-lo, pulando ágil demais de garupa em garupa para ser pego. Por mais que discuta e tente espantá-lo, Firmino perde a queda de braço, pois o caboclinho comanda mosquitos e mutucas contra ele e a tropa até o amanhecer, quando chega à vila coberto de picadas ouvindo ao longe a risada do Saci sumindo mata adentro.

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Firmino era tropeiro havia mais de vinte anos e conhecia cada palmo dos trilheiros que cortavam a mata entre uma fazenda e outra. Vinha carregado de couros e não queria perder o dia de negócio na vila, por isso, naquela noite, tocava sua tropa de mulas sozinho, sem parceiro de estrada, decidido a vencer o caminho até lá antes que o sol nascesse. Preferia isso a armar rancho no meio do mato e perder a manhã dormindo. Por isso, quando a escuridão fechou de vez sobre a estrada, ele não parou: seguiu tropa adentro, por baixo das árvores, apertando o passo, até chegar a uma encruzilhada onde dois caminhos se cruzavam debaixo de copas bem fechadas.

Foi ali que sentiu o peso pousar na garupa do cavalo, logo atrás da sela. Não precisou nem virar o pescoço para saber do que se tratava. Firmino já tinha ouvido falar do Saci-Pererê vezes demais nas rodas de fogueira e conhecia bem a fama: um caboclinho de perna só, ligeiro e ágil como bicho do mato, que gostava de trilheiro de mata e de encruzilhada de estrada coberta, e adorava se pendurar na garupa dos animais de quem viajava à noite. Quando por fim espiou de canto de olho, viu o boné vermelho balançando com o trote do cavalo, feito daquelas florezinhas que só nascem vermelhas em certas árvores no fim do inverno.

Diziam por aí que aquele menino nem tinha perna faltando coisa nenhuma, que as duas pernas ele tinha, só que era manco de uma e carregava uma ferida em cada joelho. Firmino nunca soube dizer qual das duas histórias era a certa, e naquela noite também não teve tempo de resolver a dúvida, porque o caboclinho, fosse lá como fossem suas pernas, estava firme e sorrindo atrás dele como se aquele cavalo já fosse seu por direito.

— Não adianta, moleque — disse Firmino, sem se virar de todo. — Desce daí e vai arrumar garupa de outro cristão, que essa tropa já tem dono.

A resposta foi uma risada fina, quase um assobio, e o peso na garupa nem se mexeu. Firmino esticou o braço para trás e tentou empurrar o intruso pelo ombro, mas a mão só encontrou ar: o caboclinho já tinha saltado, num pulo só, para a garupa da mula seguinte, rindo mais ainda.

— Ah, é assim? — resmungou o tropeiro. — Pois desce dessa também.

Girou o rebenque com jeito, sem força de machucar, só para espantar, mas o caboclinho era rápido demais para um bicho que corria mancando: pulava de garupa em garupa antes que o couro chegasse perto, e a tropa toda começou a bufar e a puxar rédea, incomodada com aquele vaivém no escuro. Firmino gastou boa meia hora tentando cercar o menino entre duas mulas, resmungando baixinho, e não conseguiu encostar nem a ponta do dedo nele uma vez sequer.

— Estou cansado dessa brincadeira — disse por fim, parando o cavalo no meio do trilheiro. — Ou desce e me deixa em paz, ou eu não respondo por mim.

Foi aí que o caboclinho, ainda montado na garupa de trás, resolveu mostrar a Firmino quem mandava ali: de todo canto da mata vieram voando os mosquitos, e atrás deles as mutucas, gordas e zunindo, e por cima de tudo aquelas moscas que não deixam bicho nem gente em paz. Cercaram Firmino e os animais como se alguém tivesse aberto um portão só para elas, e o tropeiro entendeu, tarde demais, quem mandava naquele exército.

Passou o resto da noite assim: uma mão na rédea, a outra espantando bicho, o pescoço ardendo, os braços ardendo, o rosto ardendo, a tropa inteira sacudindo o rabo, batendo casco e resfolegando, tão incomodada quanto ele. Uma das mulas mais novas chegou a empacar no meio do trilheiro, batendo com as patas da frente, e Firmino teve que descer para acalmá-la no escuro, coçando os braços o tempo todo. Cada vez que conseguia respirar sossegado por um instante, ouvia de novo a risadinha fina vindo de alguma garupa e sabia que o caboclinho continuava ali, se divertindo à larga com tudo aquilo.

— Você não cansa não, moleque? — gritou Firmino a certa altura, mais de raiva do que de esperança de resposta.

Aquilo só rendeu mais risada, e mais um zunido de mosquito bem no ouvido dele.

Assim foi até o céu começar a clarear por trás das árvores. Foi nessa hora, sem barulho nenhum, que o peso sumiu da garupa: o caboclinho tinha saltado para dentro do mato, tão rápido quanto chegara, e o zunido dos bichos foi minguando atrás dele como quem segue o dono estrada adentro.

Firmino entrou na vila com o sol já nascendo, coberto de picada da testa ao tornozelo, a voz rouca de tanto resmungar sozinho a noite inteira, e um humor dos piores. As mulas vinham arreadas de qualquer jeito, ainda arredias, batendo casco na terra da rua principal, e quem via aquela tropa passar naquele estado nem precisava perguntar por onde é que o tropeiro tinha vindo. Firmino não parou para contar nada a ninguém: amarrou os animais no primeiro curral que encontrou e foi só cuidar deles, coçando um braço e depois o outro, resmungando baixinho ainda.

Foi então, já perto do curral, que ouviu de novo, lá longe, do lado da mata por onde tinha vindo, aquela risada fina que conhecia demais: o Saci-Pererê se despedindo rindo, mata adentro, de mais uma noite de peça pregada.

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- Source: Lendas do Sul, J. Simões Lopes Neto (Echenique & C., Pelotas, 1913) (https://pt.wikisource.org/wiki/Lendas_do_Sul/O_Sací)
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