# O Alfaiate Valente

_Irmãos Grimm_ · 10 min read · ages 5-10

Um alfaiate mata sete moscas de um golpe, borda a façanha numa cinta e enfrenta gigantes, um unicórnio e um javali para conquistar meio reino. Ao ouvi-lo falar dormindo, a rainha descobre que é só um alfaiate, mas os guardas enviados para prendê-lo fogem apavorados, e ele reina até o fim da vida.

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Numa manhã de verão, um alfaiate pequeno estava sentado à mesa junto à janela, contente e costurando com toda a força. Uma camponesa passou pela rua anunciando geleia fresca. O alfaiate a chamou até seu andar, examinou os potes um por um e comprou uma pequena porção, regateando o preço até ela ir embora resmungando. Cortou uma fatia grossa de pão, espalhou a geleia por cima e deixou-a de lado, pois queria terminar o casaco antes de comer. Enquanto costurava, o cheiro doce subiu pela parede e atraiu um bando de moscas, que pousaram todas sobre o pão. Ele as espantou, mas elas voltaram em maior número ainda, e por fim, irritado, pegou um pedaço de pano e bateu com força sobre elas. Quando contou os corpinhos caídos, eram sete. Maravilhado com a própria proeza, cortou uma cinta, costurou-a e bordou nela, em letras grandes: Sete de um só golpe! E decidiu, cheio de orgulho, que o mundo inteiro devia saber disso.

Amarrou a cinta à cintura e partiu, pois sua oficina lhe parecia pequena demais para tanta coragem. Antes de sair, só encontrou em casa um pedaço de queijo velho, que guardou no bolso, e diante do portão capturou um passarinho preso nos arbustos, que foi parar no mesmo bolso. Andou léguas sem cansar, leve como era, até chegar a um monte, e no alto dele estava sentado um gigante enorme, contemplando a paisagem com calma. O alfaiate aproximou-se sem medo e perguntou se ele não gostaria de sair mundo afora em sua companhia. O gigante olhou-o com desprezo e disse que ele não passava de um verme miserável.

— Ora essa — respondeu o alfaiate, desabotoando o casaco e mostrando a cinta. — Aqui pode ler que tipo de homem eu sou.

O gigante leu na cinta as palavras Sete de um só golpe e, pensando que fossem sete homens abatidos de uma vez, passou a respeitar um pouco o homenzinho. Ainda assim quis testá-lo: apertou uma pedra na mão até a água escorrer dela e mandou o alfaiate repetir o feito. O alfaiate tirou do bolso o queijo mole e apertou-o até sair o soro.

— Viu? — disse ele. — Um pouco melhor que a sua, não acha?

O gigante, sem saber o que responder, pegou uma pedra e a lançou tão alto que os olhos mal a alcançavam, desafiando-o a fazer o mesmo. O alfaiate tirou o passarinho do bolso e o soltou no ar; livre, o bichinho voou para longe e nunca mais voltou.

— Que tal essa, camarada? — perguntou o alfaiate.

Impressionado, o gigante o levou então até um carvalho derrubado e pediu ajuda para tirá-lo da floresta, carregando o tronco no ombro. O alfaiate sentou-se sobre os galhos, e como o gigante não podia olhar para trás, acabou carregando a árvore inteira com o alfaiate junto, que ia assobiando como se aquilo fosse brincadeira de criança. Quando o gigante, exausto, avisou que ia deixar cair o tronco, o alfaiate saltou ágil para o chão, segurou a árvore com os dois braços como se a tivesse carregado o tempo todo e ainda zombou dele por não aguentar tão pouco peso.

Seguiram juntos, e ao passar por uma cerejeira o gigante curvou a copa carregada de frutos maduros e entregou os galhos ao alfaiate para que comesse. Mas o homenzinho era fraco demais para segurar aquele peso, e quando o gigante soltou, a árvore voltou para cima e o lançou pelos ares junto com ela. Caiu ileso, e o gigante perguntou se lhe faltava força até para segurar um galho fino.

— Força não me falta — respondeu o alfaiate. — Acha que isso seria algo para quem mata sete de um só golpe? Pulei por cima da árvore porque há caçadores atirando no mato logo abaixo. Pule você atrás, se for capaz.

O gigante tentou, mas ficou preso nos galhos sem conseguir passar, e assim o alfaiate levou a melhor mais uma vez.

O gigante o convidou então para passar a noite na caverna com os outros de sua espécie, que comiam carneiro assado ao redor do fogo. Deram-lhe uma cama, mas era grande demais, então o alfaiate preferiu se enrolar num canto. À meia-noite, o gigante, achando que ele dormia profundamente na cama, ergueu uma barra de ferro e a atravessou com um só golpe, certo de ter acabado com o gafanhoto. Pela manhã os gigantes saíram cedo para a floresta, já esquecidos dele, e quando o viram chegar são e alegre, tomaram tanto susto que fugiram apavorados.

O alfaiate seguiu viagem, sempre atrás do próprio nariz, até chegar ao pátio de um palácio real, onde, cansado, deitou-se na grama e adormeceu. As pessoas que passaram por ali leram em sua cinta Sete de um só golpe e correram a contar ao rei, certas de que um guerreiro tão temível seria valioso em tempos de guerra. O rei gostou da ideia e mandou um cortesão oferecer-lhe um posto no exército assim que acordasse. O alfaiate aceitou de bom grado e recebeu moradia digna no palácio.

Mas os soldados do rei logo se enfezaram com ele e desejavam que estivesse a mil léguas dali.

— O que será de nós — diziam entre si — se brigarmos com ele e ele bater? A cada golpe caem sete, sete de um só golpe, e nenhum de nós vai sobreviver.

Foram todos juntos ao rei e pediram a dispensa.

— Não fomos feitos — disseram — para resistir ao lado de um homem que mata sete de um só golpe.

O rei ficou triste por temer perder todos os seus fiéis servos por causa de um só, e teria preferido nunca o ter visto, mas não ousava despedi-lo, com medo de que ele o matasse e tomasse o trono. Depois de muito pensar, encontrou um plano: mandou dizer ao alfaiate que, sendo ele um guerreiro tão grande, tinha uma missão para lhe oferecer. Numa floresta do reino viviam dois gigantes que roubavam, matavam e incendiavam tudo ao redor, e ninguém ousava se aproximar deles. Se o alfaiate os vencesse, receberia a filha do rei em casamento e metade do reino, além de cem cavaleiros para apoiá-lo.

“Isso sim é coisa para um homem como eu”, pensou o alfaiate, que não via todo dia oferecerem uma princesa e meio reino.

— Pois vou domar esses gigantes — respondeu — e não preciso dos cem cavaleiros. Quem mata sete de um só golpe não precisa temer dois.

O alfaiate partiu com os cem cavaleiros, mas na beira da floresta pediu que esperassem, pois queria resolver aquilo sozinho. Encontrou os dois gigantes dormindo debaixo de uma árvore, roncando tão forte que os galhos balançavam. Encheu os bolsos de pedras, subiu na árvore e, sentado bem acima dos dois, deixou cair uma pedra após outra sobre o peito de um deles. O gigante acordou e acusou o companheiro de tê-lo golpeado; o outro negou, voltaram a dormir, e o alfaiate atirou então no segundo, que também acusou o primeiro. Discutiram, mas, cansados, logo adormeceram de novo. O alfaiate escolheu então a pedra mais pesada e a atirou com toda a força no peito do primeiro, que, furioso, saltou e empurrou o companheiro contra a árvore. O outro revidou, e os dois entraram em tal fúria que arrancaram árvores inteiras e se golpearam até caírem mortos ao mesmo tempo.

O alfaiate desceu da árvore e foi até os cavaleiros.

— O trabalho está feito — disse. — Acabei com os dois, mas foi duro, eles arrancavam árvores em desespero. Ainda assim, não há nada que resista a quem mata sete de um só golpe.

— Vocês não se feriram? — perguntaram os cavaleiros.

— Nem um fio de cabelo — respondeu ele.

Como não acreditaram, foram ver com os próprios olhos e encontraram os gigantes mortos entre as árvores arrancadas.

O rei, porém, arrependido da promessa, inventou nova condição: o alfaiate teria de capturar um unicórnio que assolava a floresta.

— Temo um unicórnio ainda menos que dois gigantes. Sete de um só golpe, esse é o meu forte.

Levou apenas uma corda e um machado, entrou na floresta sozinho e não precisou esperar muito: o unicórnio veio direto contra ele, pronto para espetá-lo. No último instante, o alfaiate saltou atrás de uma árvore, e o animal, lançando-se com toda a força, cravou o chifre tão fundo no tronco que não conseguiu se soltar. Foi assim capturado: o alfaiate laçou-lhe o pescoço, cortou o chifre preso com o machado e o levou ao rei.

Ainda relutante, o rei impôs uma terceira prova: capturar um javali que devastava a mata, com a ajuda dos caçadores.

— Com prazer — disse o alfaiate. — Isso é brincadeira de criança.

Foi sozinho, e quando o javali o avistou, correu contra ele espumando pela boca. O alfaiate se refugiou numa capela ali perto e saltou pela janela alta, enquanto o bicho entrava atrás dele; então correu por fora e fechou a porta, prendendo o javali lá dentro, pesado demais para escapar pela janela. Chamou os caçadores para verem com os próprios olhos, e o rei, sem mais como recusar, entregou-lhe a filha e metade do reino. O casamento foi celebrado com grande pompa e pouca alegria, e de alfaiate ele se tornou rei.

Algum tempo depois, a jovem rainha ouviu o marido falar durante o sono:

— Menino, faz-me o gibão e remenda as calças, ou levo a régua às tuas orelhas!

Assim descobriu de que rua vinha o marido, e no dia seguinte foi chorar ao pai, pedindo que a livrasse de um homem que não passava de alfaiate. O rei tentou consolá-la e prometeu que, na noite seguinte, com a porta do quarto aberta, seus guardas entrariam assim que ele adormecesse, o amarrariam e o levariam num navio para bem longe. Mas o porta-armas do rei, que tudo ouvira, era amigo do jovem rei e lhe contou o plano.

— Esse plano eu vou trancar bem trancado — disse o alfaiate.

À noite deitou-se com a esposa na hora de costume; quando ela pensou que ele dormia, levantou-se, abriu a porta e voltou a deitar-se. O alfaiate, que só fingia dormir, começou então a gritar bem alto:

— Menino, faz-me o gibão e remenda as calças, ou levo a régua às tuas orelhas! Já matei sete de um só golpe, dois gigantes, capturei um unicórnio e prendi um javali, e havia de temer os que estão parados atrás da porta?

Os guardas, ao ouvi-lo falar assim, tomaram um medo tão grande que fugiram como se o próprio exército selvagem os perseguisse, e nenhum deles ousou mais se aproximar dele. E assim o alfaiate viveu, e permaneceu, rei pelo resto de seus dias.

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- Read online: https://talerie.com/pt/contos/o-alfaiate-valente
- Source: Kinder- und Hausmärchen, 7. Auflage (1857) (https://de.wikisource.org/wiki/Das_tapfere_Schneiderlein_(1857))
- Public-domain basis: Talerie contemporary retelling (CC0 2026), based on: Kinder- und Hausmärchen, 7. Auflage (1857) — original: author died 1859/1863 (+70 passed)
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