# O Negrinho do Pastoreio

_Retold by Talerie (talerie.com) from Lendas do Sul, after João Simões Lopes Neto_ · 14 min read · ages 9+

Castigado por um estancieiro sovina, o Negrinho perde duas vezes a tropilha, é surrado até parecer morto e jogado num formigueiro. Três dias depois, o patrão o encontra de pé, curado, ao lado da Virgem, Nossa Senhora, e desde então o Negrinho atravessa os campos e acha as coisas perdidas de quem acende um toco de vela.

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Naquele tempo os campos ainda eram abertos. Não havia entre eles nem divisas nem cercas; o gado xucro só se juntava nos rodeios, e os cervos e as emas corriam por toda parte sem nada que os detivesse.

Era uma vez um estancieiro que tinha uma pilha de bolsas de couro cheias de onças e meias-doblas, que eram moedas de ouro, e ainda muita prataria. Mas era muito sovina e muito mau. Não dava pouso a ninguém e não emprestava um cavalo a quem passasse a pé pela estrada. No inverno, o fogo da casa dele não chegava a fazer brasa; a geada e o minuano, o vento gelado do sul, podiam gelar um viajante até os ossos, e a porta dele não se abria. No verão, a sombra dos umbus só abrigava os cachorros, e ninguém de fora bebia água das cacimbas dele.

Por isso, quando havia serviço na estância, ninguém vinha de boa vontade dar uma ajuda, e os peões não gostavam de se empregar com ele. O homem só dava para comer um churrasco de novilho magro, farinha grossa e erva-mate ordinária, e nem um pedacinho de fumo. E dava tudo isso com tanta avareza e tanta lamúria que parecia estar cortando tiras do próprio couro.

Só para três seres vivos o estancieiro olhava nos olhos. O primeiro era o filho, um menino implicante feito mosca. O segundo era um cavalo baio de crina, cauda e patas negras, o parelheiro de confiança dele para as carreiras. O terceiro era um escravo, ainda pequeno e muito bonitinho, a quem todos chamavam só de Negrinho.

Ao Negrinho não tinham dado padrinhos nem nome. Por isso ele dizia que era afilhado da Virgem, Nossa Senhora, que é a madrinha de quem não tem. Todas as madrugadas ele galopava o baio; depois levava as coisas do chimarrão, e à tarde aguentava os maus-tratos do filho do patrão, que o atormentava e ria dele.

Um dia, depois de muito rodeio, o estancieiro combinou uma carreira com um vizinho. O vizinho queria que a aposta fosse para os pobres; o estancieiro dizia que não, que não! A aposta tinha de ser do dono do cavalo que ganhasse. E acertaram assim: a cancha, a pista da carreira, teria trinta quadras, e a aposta seria de mil onças de ouro.

No dia marcado, havia gente na cancha como em festa de santo grande. A gauchada não sabia por qual dos dois cavalos se decidir, de tão bonitos e bem-feitos que eram. Do baio diziam que, quando corria, o vento assobiava nas crinas dele, e que corria tanto que só se ouvia o barulho, sem que se vissem as patas tocarem o chão. Do mouro, de pelo escuro mesclado de fios brancos, diziam que quanto mais longa a cancha, mais ele aguentava, e que desde a largada ia ser como um laço que arrebenta.

Os partidários de cada lado abriram as guaiacas, os cintos de guardar dinheiro, e ali mesmo se apostavam arreios contra rebanhos e potros contra lenços.

— Pelo baio! Aposto o dobro!

— Pelo mouro! O dobro, e ainda dou vantagem!

Os dois corredores fizeram as suas partidas de ensaio, primeiro à vontade e depois as obrigatórias. Na última, fizeram um para o outro o sinal combinado e se desafiaram. Então, curvando o corpo e com o rebenque no ar, largaram, e os cascos dos parelheiros batiam no chão como uma tempestade.

— Empate! Empate! — gritavam os entendidos ao longo da cancha, por onde passava a parelha veloz, lado a lado como dois bois na mesma canga.

— Valha-me, Virgem madrinha, Nossa Senhora! — gemia o Negrinho. — Se o sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! Hip! Hip!

E baixava o rebenque, puxando pelo baio.

— Se o corta-vento ganhar, é tudo para os pobres! — respondia o outro corredor. — Hip! Hip!

E cravava as esporas no mouro.

Mas os dois cavalos corriam, lado a lado como dois bois na mesma canga. Na última quadra, o mouro vinha num galope cerrado, e o baio, aos arrancos, mas sempre juntos, sempre emparelhados. E a duas braças da raia, quase em cima do laço da chegada, o baio sentou de repente nas patas de trás, empinou e deu meia-volta, de modo que o mouro teve tempo de sobra para passar e ganhou com folga. O Negrinho, que montava em pelo, sem sela nenhuma, se agarrou firme como um grande ginete.

— Foi jogo sujo! — gritava o estancieiro.

— Jogo sujo! — repetiam os do lado dele.

A gauchada estava dividida. Mais de um rapaz valente levou a mão ao cabo da adaga, mais de um soltou a pistola do cinto, mais de um virou as esporas para cima do pé, pronto para brigar. Mas o juiz era um velho do tempo da guerra de Sepé Tiaraju, um juiz de respeito, que já tinha visto muito mundo. Balançando a cabeça branca, deu a sentença para todos ouvirem:

— Foi na lei! Carreira justa, aposta sem volta: perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem éguas gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!

Não havia o que discutir. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a aposta na frente de todos, jogando as mil onças de ouro sobre o poncho do adversário, estendido no chão.

Foi uma alegria por toda aquela região, porque o ganhador logo mandou distribuir vacas de leite e bezerros mansos, cortes de baeta e potros xucros, e deu o resto, em dinheiro, aos pobres. Depois as carreiras continuaram com os cavalinhos que ainda havia.

O estancieiro voltou para casa calado, pensando, pensando, o caminho inteiro. Tinha o rosto quieto, mas o coração corcoveava como um touro de banhado laçado pelo meio do lombo. A perda das mil onças tinha arrebentado a alma dele. Assim que apeou, mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque, um poste grosso de madeira, e dar nele, dar nele uma surra de relho, o chicote de couro trançado.

De madrugada, saiu com o Negrinho, e quando chegou ao alto da coxilha, uma das colinas baixas e compridas do campo, falou assim:

— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeu: trinta dias tu vai ficar aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros. O baio fica amarrado na soga, e a estaca vai ser tu!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos pastavam. Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. Tonto de fome e já sem força nas mãos, ele enrolou a soga, a corda de couro cru, num dos pulsos e se deitou encostado a um cupim, um montinho de terra dura que os cupins levantam no campo.

Vieram então as corujas e fizeram roda em volta dele, paradas no ar, e todas olhavam para ele com os olhos reluzentes, amarelos no escuro. Uma piou, e todas piaram, como se rissem dele, paradas no ar, sem barulho nas asas. O Negrinho tremia de medo. Mas de repente pensou na sua madrinha, Nossa Senhora, e se acalmou, e dormiu.

E dormiu. A noite já ia alta, e as estrelas iam passando. O Cruzeiro do Sul apareceu, subiu e passou; passaram as Três Marias; subiu a estrela-d’alva. Então vieram os graxains ladrões, aquelas raposas do campo, e farejaram o Negrinho e roeram o couro da soga.

Quando se viu solto, o baio disparou a galope, e toda a tropilha com ele, aos pinotes no escuro, cada cavalo se perdendo para um lado nas canhadas, as baixadas entre as coxilhas. O tropel acordou o Negrinho, e os graxains fugiram, latindo como quem caçoa. Os galos já estavam cantando, mas não se enxergava nem o céu nem a primeira claridade do dia: a cerração tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

O filho do estancieiro foi até lá e voltou para contar ao pai que os cavalos tinham sumido. O estancieiro mandou de novo amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar nele, dar nele uma surra de relho. E quando já era noite fechada, mandou que ele fosse procurar o que tinha perdido.

Mancando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha, Nossa Senhora. Foi ao oratório da casa, pegou o toco de vela que ardia diante da imagem e saiu para o campo.

Pelas coxilhas e canhadas, na beira das lagoas, nos pousos do gado e nos capões de mato, por onde quer que o Negrinho passasse, a vela benta ia pingando cera no chão. E de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não cavoucaram a terra e as manadas xucras não dispararam.

Quando os galos cantaram, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou a tropilha à sua frente até a coxilha que o seu senhor tinha marcado.

E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu.

Gemendo, gemendo, ele se deitou encostado ao cupim, e no mesmo instante todas as luzes se apagaram. Sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu.

Dessa vez não apareceram as corujas agourentas nem os graxains ladrões. Mas, pior do que os bichos maus, quando o dia clareou veio o menino, o filho do estancieiro, e espantou os cavalos. Eles se espalharam e dispararam campo afora, pinoteando e se perdendo nas canhadas. O tropel acordou o Negrinho, e o filho do estancieiro foi dizer ao pai que os cavalos não estavam lá.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar nele, dar nele uma surra de relho. Dar nele até que não chorasse mais nem se mexesse, com a carne toda cortada e o sangue vivo escorrendo do corpo. O Negrinho chamou pela Virgem, sua madrinha e Nossa Senhora, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que tinha morrido.

Como já era noite, e para não gastar a enxada abrindo uma cova, o estancieiro mandou jogar o corpo do Negrinho na boca de um formigueiro, para que as formigas lhe devorassem a carne, o sangue e os ossos. E atiçou bem as formigas. Só depois que elas, enfurecidas, cobriram o corpo inteiro do menino e começaram a mordê-lo, o estancieiro foi embora, sem olhar para trás.

Naquela noite, o estancieiro sonhou que era mil vezes ele mesmo, e que tinha mil filhos e mil escravos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro. E tudo isso cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno.

Caiu o sereno em silêncio e molhou os pastos, as asas dos passarinhos e a casca das frutas. Passou a noite de Deus, e veio a manhã com o sol encoberto. Durante três dias houve uma cerração fechada, e durante três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.

A peonada correu o campo inteiro, mas ninguém achou a tropilha, nem sequer um rastro. Então o patrão foi até o formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.

Que espanto o estancieiro levou quando chegou perto! Na boca do formigueiro estava o Negrinho, de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo as formigas que ainda o cobriam. Ali ao lado estava o cavalo baio, e logo adiante a tropilha dos trinta tordilhos. E bem na frente do menino, de guarda, o patrão viu a madrinha dos que não têm madrinha: viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu.

Quando viu aquilo, o patrão caiu de joelhos diante do escravo.

O Negrinho, curado e sorridente, pulou em pelo no baio, sem rédeas, estalou a língua e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, nem se riu.

Pela vizinhança correu a notícia da sina e da morte triste do Negrinho, devorado no formigueiro. Mas logo, de perto e de longe, começaram a chegar histórias de uma coisa que parecia um milagre novo.

Os posteiros e os viajantes, os que dormiam debaixo do telhado de palha dos ranchos e os que dormiam no meio do capim alto, os mensageiros que cortavam caminho por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, os mascates e os carreteiros, todos contavam a mesma coisa. Na mesma hora, tinham visto passar, como quem leva a tropa ao pasto, uma tropilha de tordilhos tocada por um Negrinho, montado em pelo num cavalo baio!

Então muitos acenderam velas e rezaram o pai-nosso pela alma do menino tão maltratado. Daí em diante, quando alguém perdia alguma coisa, fosse o que fosse, o Negrinho procurava e achava no meio da noite. Mas só entregava a quem acendesse uma vela, porque levava a luz dela para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o resgatou e o salvou e lhe deu uma tropilha, que ele conduz e pastoreia sem ninguém ver.

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece. Está metido em algum formigueiro grande, visitando as formigas, suas amigas. A tropilha dele se espalha, um cavalo aqui, outro lá, brincando no meio das manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu cavaleiro; o Negrinho monta e vai juntar os cavalos. É quando, nas estâncias, as cavalhadas disparam de repente, e as pessoas olham, olham, e não veem ninguém, nem na frente nem atrás da tropa.

Desde então, e até hoje, tocando o seu pastoreio, o Negrinho, curado e sorridente, atravessa os campos, corta os capinzais, cruza os capões de mato, contorna os banhados, passa os arroios a vau, sobe as coxilhas e desce às canhadas.

O Negrinho anda sempre à procura das coisas perdidas e as deixa num lugar onde os donos possam encontrá-las, quando eles acendem um toco de vela. A luz dessa vela ele leva para o altar da Virgem, Nossa Senhora, madrinha dos que não têm madrinha.

Quem perder alguma coisa no campo não perca a esperança. Junto de algum mourão de cerca ou debaixo dos galhos de uma árvore, acenda uma vela para o Negrinho do Pastoreio e vá dizendo:

— Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi…

Se ele não achar… ninguém mais.

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- Source: Lendas do Sul, J. Simões Lopes Neto (Echenique & C., Pelotas, 1913) (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lendas_do_Sul_(Lopes_Neto,_1913).pdf)
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