# O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos

_E. T. A. Hoffmann_ · 15 min read · ages 7-12

Na véspera de Natal, Marie ganha um homenzinho de madeira que quebra nozes com os dentes, e passa a cuidar dele quando o exército de camundongos invade a sala. Depois da viagem ao Castelo de Marzipã, o sobrinho de Drosselmeier chega de Nuremberg, se ajoelha ao lado do armário e pede Marie em casamento.

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No dia vinte e quatro de dezembro, os filhos dos Stahlbaum ficaram o dia inteiro proibidos de entrar na sala. Fritz e Marie esperaram no escuro, ouvindo passos e sussurros do outro lado da porta.

O padrinho Drosselmeier também viria: pequeno, enrugado, com um tapa-olho preto e uma peruca de vidro fiado. Entendia de relógios melhor do que qualquer um na cidade, e todo Natal construía para as crianças alguma coisa maravilhosa.

Então um sininho tocou, tlim-tlim, tlim-tlim, as portas se abriram, e lá estava a árvore. Maçãs de ouro e de prata nos galhos, velinhas acesas como olhos amigos, e os presentes espalhados embaixo.

Atrás de uma cortina esperava o trabalho do padrinho: um castelo de torres douradas, onde damas e cavalheiros minúsculos andavam sempre pelo mesmo caminho. Fritz olhou e logo voltou para os seus soldados.

Marie ficou. Tinha encontrado um homenzinho que ninguém mais havia notado, parado ali, quieto e paciente, como se esperasse a sua vez.

O corpo dele era grosso demais para as pernas finas, e a cabeça, grande demais para os dois. Mas o rosto era cheio de bondade.

— Pai, de quem é esse homenzinho tão querido ali perto da árvore? — perguntou ela.

— Ele quebra as nozes mais duras com os dentes — disse o pai. — E é tanto seu quanto do Fritz.

O pai levantou a capa de madeira nas costas do homenzinho. Marie pôs uma noz na boca dele e, craque, a amêndoa doce caiu na mão dela. Ele era da velha família dos Quebra-Nozes.

Marie escolhia sempre as nozes menores. Fritz escolheu as maiores e, craque, craque, três dentes caíram e o pobre queixo ficou solto.

— Me dá ele — disse Fritz. — Quebra-nozes com dente ruim não entende do ofício.

— Você não vai levar ele — gritou Marie, e amarrou o queixo machucado com uma fita branca do vestido.

— Bom soldado não exige serviço de quem está ferido — disse o pai, e entregou o Quebra-Nozes aos cuidados dela.

Naquela noite Marie pediu para ficar acordada mais um pouco. A mãe foi dormir e deixou com ela a luminária e o alto armário de vidro em que as crianças guardavam seus tesouros.

— Vou cuidar de você até melhorar — disse ela ao Quebra-Nozes. — E o padrinho Drosselmeier vai consertar os seus dentes, porque ele entende disso.

Clara, a boneca nova e orgulhosa, teve que ceder a caminha. Marie cobriu o Quebra-Nozes até o nariz e o deixou na prateleira, ao lado dos hussardos.

Ela trancou o armário, e alguma coisa começou a farfalhar atrás do fogão.

O relógio grande rangeu, mas não conseguiu bater as horas: a coruja dourada em cima dele tinha baixado as asas sobre o mostrador. E do relógio saíram palavras:

Tique-taque, tique-toque,  
ronrone baixinho, relógio.  
O Rei dos Camundongos ouve tudo muito bem,  
cante a cantiga de que ele gosta também.  
Bata bem baixo, bata devagar,  
ou o susto o faz fugir sem voltar.

O relógio bateu meia-noite com um som abafado, e Marie viu o padrinho Drosselmeier sentado onde estava a coruja, com as abas do casaco abertas como asas.

Guinchos estouraram por todos os lados. Camundongos subiram pelas frestas do assoalho e se puseram em fileiras. Então o chão se abriu aos pés dela, e de lá surgiu um camundongo de sete cabeças e sete coroas brilhantes.

O exército veio direto para cima dela. Marie recuou e esbarrou no armário, uma vidraça se quebrou, ela sentiu uma dor aguda no braço esquerdo, e os guinchos pararam de repente.

Atrás dela, o Quebra-Nozes jogou as cobertas longe, pulou com os dois pés e gritou bem alto:

Craque, craque, bando bobo!  
Sai da frente, some logo!  
Crique, craque, rato tonto,  
craque, craque, bando bobo!

Clara o segurou quando ele saltou da prateleira, mas ele não quis a faixa de lantejoulas dela: preferiu a fita simples de Marie.

As tampas das caixas do Fritz se abriram, os soldados desceram marchando, e os canhões dispararam confeitos no meio do bando.

Mesmo assim eles avançavam. Os canhões foram tomados, os hussardos galoparam para casa, e o exército recuou passo a passo, até o Quebra-Nozes ficar sozinho e o Rei dos Camundongos saltar em cima dele.

— Ah, meu pobre Quebra-Nozes! — gritou Marie.

Quase sem saber o que fazia, ela tirou o sapato esquerdo e o atirou com toda a força bem no rei deles.

Tudo se espalhou. A dor no braço ficou mais forte, e Marie desmaiou no chão.

Ela acordou na própria cama. A mãe disse que algum camundongo perdido devia tê-la assustado, que ela tinha cortado o braço na vidraça quebrada e que o Quebra-Nozes estava são e salvo.

Uma noite o padrinho Drosselmeier apareceu, e Marie não se conteve:

— Eu vi o senhor sentado no relógio, cobrindo ele com as asas. Por que o senhor não ajudou a gente?

O padrinho fez uma careta esquisita e cantou com uma voz seca e rangida:

Tique-taque, tique-toque,  
zumba e ronrone sem parar.  
O pêndulo vai e vem, vai e vem,  
cansado de tanto marcar.  
Bim, bam, dim, dom,  
o Rei dos Camundongos foge do som.

— É só a minha canção de relojoeiro — disse ele, rindo.

E tirou do bolso o próprio Quebra-Nozes, com os dentes firmes no lugar e o queixo inteiro.

— Mas você tem que admitir que ele não é bonito. Quer que eu conte como essa feiura entrou na família dele? É a história da Noz Dura.

Era uma vez um rei cuja filha, a princesa Pirlipat, era a criança mais linda que já havia nascido. Mesmo assim, seis amas vigiavam o berço dela todas as noites, cada uma com um gato no colo que precisava ficar ronronando.

O motivo era este. Naquele inverno, a rainha picava a banha para uma festa de linguiças, e quando a gordura começou a fritar, uma vozinha falou lá de dentro da lareira.

— Me dê um pouquinho dessa banha, irmã. Eu também sou rainha.

Era Dona Camundonga, que tinha corte embaixo da lareira e se dizia rainha dos camundongos. A rainha a recebeu bem, mas atrás dela vieram os sete filhos, que comeram quase toda a banha.

Na festa, o rei chorou dentro do prato: banha de menos. Jurou vingança, e o relojoeiro da corte, Christian Elias Drosselmeier, armou ratoeiras que custaram a Dona Camundonga os sete filhos.

Ela foi embora do palácio, mas antes surgiu da lareira ao lado da rainha.

— Tome cuidado — disse ela — para que a rainha dos camundongos não morda a sua princesinha ao meio.

Então os gatos ronronaram e as amas vigiaram, até que numa noite todas pegaram no sono. Quando acordaram, um camundongo enorme estava junto ao berço, e sumiu por um buraco no assoalho.

Pirlipat estava viva, mas não era mais a mesma. Uma cabeça pesada num corpinho magro, olhos verdes e parados, e uma boca que ia de orelha a orelha.

O rei deu ao relojoeiro quatro semanas para deixá-la bonita de novo. Drosselmeier descobriu uma coisa só: a criança transformada passava o dia contente, desde que tivesse nozes para quebrar.

Então ele e o astrônomo da corte leram as estrelas dela à meia-noite, até que enfim ficou claro: Pirlipat voltaria a ser ela mesma se comesse a amêndoa da noz Krakatuk.

Só que a casca era tão dura que um canhão podia passar por cima sem rachá-la. E quem a quebrasse diante da princesa tinha que ser um rapaz que nunca tivesse se barbeado nem calçado botas, e que depois desse sete passos para trás de olhos fechados.

Procuraram pelo mundo inteiro durante quinze anos e não acharam nada, até que Drosselmeier ficou com saudade de casa, e o astrônomo disse que podiam muito bem procurar em Nuremberg.

Lá morava o irmão de Drosselmeier, um fabricante de bonecos, que jogou o chapéu para o alto. Anos antes tinha comprado uma noz dourada, e debaixo do ouro estava escrito na casca: Krakatuk.

O irmão tinha um filho que nunca havia se barbeado nem calçado botas e quebrava nozes com tanto capricho que todo mundo o chamava de belo Quebra-Nozes. Prenderam um rabicho de madeira na nuca dele e o levaram ao palácio.

O jovem Drosselmeier pôs a noz entre os dentes, puxou o rabicho e, craque, a casca se partiu. Entregou a amêndoa à princesa e fechou os olhos. Ela engoliu e ficou linda outra vez.

A corte dançou de alegria, e no meio da barulheira o rapaz ia contando os passos para trás. No sétimo, Dona Camundonga saiu guinchando do assoalho, ele tropeçou nela e a pisou.

Quando se levantou, estava mudado. A cabeça enorme, o corpo pequeno, a boca de orelha a orelha, e uma capa estreita de madeira descendo pelas costas para mover o queixo.

Dona Camundonga ficou caída onde havia tombado. Com uma vozinha rancorosa, ela sussurrou:

Krakatuk, noz dura, noz dura,  
por sua causa eu vou morrer.  
Meu filho das sete coroas  
ainda vai morder o rapaz.

E Dona Camundonga não se levantou mais.

A princesa não quis nem olhar para o rapaz que a tinha salvado.

— Levem esse Quebra-Nozes feio daqui — gritou ela.

Ele foi posto para fora, e os dois viajantes foram banidos para sempre.

Mas o astrônomo leu as estrelas mais uma vez. O rapaz seria rei, apesar da forma que tinha, e o rosto dele voltaria quando o filho de sete cabeças de Dona Camundonga morresse pelas mãos dele e uma menina o amasse mesmo assim.

— E essa — disse o padrinho Drosselmeier — é a história da Noz Dura, e é por isso que os quebra-nozes são feios.

Quando Marie ficou boa, ela parou diante do armário de vidro, e entendeu tudo. O seu Quebra-Nozes era o jovem Drosselmeier, e o relojoeiro da história era o padrinho dela.

— Você não pode falar comigo — disse ela —, mas eu sei que você me entende, e pode contar com a minha ajuda.

O Quebra-Nozes não se mexeu. Mesmo assim, um suspiro pequenininho atravessou o armário, e uma voz tiniu como um sininho:

Marie, minha Marie,  
eu serei todo seu,  
e você será minha,  
Marie, minha Marie.

Quando ela perguntou ao padrinho por que ele não ajudava o sobrinho, a mãe e o Fritz riram. Mas o padrinho disse baixinho:

— Eu não posso salvar ele, minha querida Marie. Só você pode. Seja corajosa e seja fiel.

Pouco depois, ela acordou à meia-noite. O Rei dos Camundongos saiu de um buraco na parede e pulou na mesinha ao lado da cama.

Confeitos e pão de mel, entregue tudo pra mim,  
menininha, menininha, senão é assim:  
eu mordo o seu Quebra-Nozes, mordo ele bem no meio!

Ela não contou para ninguém, porque ninguém ia acreditar. Naquela noite, deixou os confeitos e o pão de mel na frente do armário, e de manhã só havia farelo.

Na noite seguinte ele voltou.

Bonecas de açúcar, homens de chocolate, entregue tudo pra mim,  
menininha, menininha, senão é assim:  
eu mordo o seu Quebra-Nozes, mordo ele bem no meio!

Marie tinha pastores de açúcar, cordeirinhos brancos e um bebê de bochechas vermelhas que ela amava mais que tudo. Beijou um por um, deixou todos ali, e de manhã estavam mordidos em pedacinhos.

Na terceira noite, ele guinchou bem perto do ouvido dela.

Livros de figuras e vestido de Natal, entregue tudo pra mim,  
menininha, menininha, senão é assim:  
eu mordo o seu Quebra-Nozes, mordo ele bem no meio!

De manhã Marie chorou na frente do armário.

— Querido senhor Drosselmeier, quando eu tiver dado tudo, ele vai acabar querendo a mim, e não mais a você.

Foi então que ela viu a marca escura que a batalha deixou no pescoço dele. Esfregou a marca com o lenço, e o Quebra-Nozes ficou morno na sua mão e começou a se mexer.

— Querida senhorita Stahlbaum — disse ele com muito esforço, enrolando a língua —, nada de livros de figuras, nada de vestido de Natal. Consiga uma espada para mim. Uma espada.

E ficou quieto de novo.

Fritz tinha acabado de aposentar um velho coronel dos couraceiros, e ele mesmo prendeu o sabre de prata na cintura do Quebra-Nozes.

Perto da meia-noite houve um barulho de metal na sala, um guincho agudo e depois silêncio. Então bateram na porta de Marie: era o Quebra-Nozes, de joelhos, com a espada na mão.

— Só você deu coragem a este braço — disse ele. — O Rei dos Camundongos está derrotado. Aceite estas provas de um cavaleiro que é seu até a morte.

E entregou a ela as sete coroas.

— Agora, se você me acompanhar por alguns passos, eu posso te mostrar as coisas mais bonitas do mundo.

Ele a levou até o guarda-roupa antigo e puxou o cordão do casaco de viagem do pai dela. Uma escada de cedro veio deslizando da manga.

Marie subiu pela manga e saiu num campo de cheiro doce, onde o ar ficava cor-de-rosa. Cisnes de prata cantavam no Lago das Rosas, e dois golfinhos levaram os dois até a outra margem.

Lá ficava a capital, a Cidade dos Confeitos, com coroas no lugar de telhados e um portão de biscoitos de amêndoa. Mais adiante, o Castelo de Marzipã, salpicado de estrelas.

Quatro princesas correram para fora, abraçaram o pescoço do Quebra-Nozes, e ele contou que Marie tinha salvado a sua vida.

Aos poucos a voz dele foi ficando mais fraca, uma névoa prateada subiu, e Marie sentiu que subia junto, cada vez mais alto.

Então, pru, puf, ela caiu de uma altura enorme e abriu os olhos na própria cama.

— Você teve um sonho lindo — disse a mãe, quando Marie contou tudo.

Então Marie foi buscar as sete coroas na sua caixinha. Eram tão bem trabalhadas que nenhuma mão humana poderia tê-las feito, e mesmo assim o pai não acreditou.

Nisso o padrinho Drosselmeier entrou e, assim que viu as coroas, começou a rir.

— Bobagem! Bobagem! — gritou ele. — São as coroas que eu usava na corrente do meu relógio, anos atrás.

Mas quando ela implorou que ele contasse a todos que o Quebra-Nozes era sobrinho dele, o rosto do padrinho ficou sério e fechado, e ele só resmungou:

— Bobagem! Bobagem!

— De uma vez por todas, tire essa bobagem da cabeça — disse o pai. — Se eu ouvir isso outra vez, jogo esse Quebra-Nozes feio pela janela.

Então Marie não falou mais nada, embora pensasse ainda mais no reino. Um dia, enquanto o padrinho consertava um relógio, ela olhava para o Quebra-Nozes, e as palavras saíram sozinhas.

— Querido senhor Drosselmeier, se você fosse mesmo vivo, eu não seria como a princesa Pirlipat. Eu nunca daria as costas para você por ter perdido a sua beleza por minha causa.

— Bobagem! Bobagem! — gritou o padrinho.

Houve um estrondo e uma pancada tão fortes que Marie escorregou da cadeira e desmaiou.

Quando abriu os olhos, a mãe estava debruçada sobre ela.

— Aqui está o sobrinho do padrinho Drosselmeier, que veio lá de Nuremberg.

Ali estava um rapaz bem-apessoado, de casaco vermelho debruado de ouro, com uma espada que brilhava como uma joia. E tinha trazido para Marie as mesmas figurinhas de açúcar que o Rei dos Camundongos havia mordido.

À mesa, ele quebrou as nozes mais duras para todo mundo, e depois levou Marie até o armário e se ajoelhou diante dela.

— Querida senhorita Stahlbaum, aos seus pés está o Drosselmeier cuja vida você salvou neste mesmo lugar. Você disse que não daria as costas para mim por eu ser feio, e naquele instante eu voltei a ser eu mesmo.

— Divida comigo a minha coroa e o meu reino, e governe ao meu lado no Castelo de Marzipã, porque lá eu ainda sou rei.

Marie o fez levantar.

— Você é um rapaz bom e gentil — disse ela —, e governa um país tão bonito, que eu vou ser a sua noiva.

Um ano e um dia depois, ele veio buscá-la numa carruagem de ouro puxada por cavalos de prata, e vinte e dois mil bonequinhos brilhantes dançaram no casamento.

E até hoje Marie é rainha de um país onde se veem bosques de Natal cintilantes, castelos de marzipã transparentes e todas as coisas mais maravilhosas que existem, se você tiver olhos para enxergar.

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- Read online: https://talerie.com/pt/contos/o-quebra-nozes-e-o-rei-dos-camundongos
- Wikidata: https://www.wikidata.org/wiki/Q744557
- Source: Nutcracker and Mouse-King (1853), E. T. A. Hoffmann, translated from the German by Mrs. St. Simon, D. Appleton & Company, New York (https://en.wikisource.org/wiki/Nutcracker_and_Mouse-King)
- Public-domain basis: Talerie contemporary retelling (CC0 2026), based on: Nutcracker and Mouse-King (1853), E. T. A. Hoffmann, translated from the German by Mrs. St. Simon, D. Appleton & Company, New York — EU anonymous-work rule, translation published ≤1853 (+70 passed)
- License: CC0-1.0 (https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/)
