# Pinóquio

_Carlo Collodi_ · 15 min read · ages 6-11

Um boneco de madeira talhado por Gepeto vende a cartilha da escola, acredita na Raposa e no Gato e vira burrinho no País dos Brinquedos. Pinóquio tira o pai de dentro do tubarão, trabalha no poço do lavrador e acorda menino de carne e osso, com roupa nova e quarenta moedas de ouro na carteirinha.

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Era uma vez um velho marceneiro chamado Gepeto. Era tão pobre que o fogo da sua lareira era pintado na parede, com panela e tudo.

Um vizinho lhe deu um pedaço de lenha, e Gepeto resolveu fazer com ela um boneco de madeira.

— Vou chamá-lo de Pinóquio — disse, esfregando as mãos. — Com esse nome a gente vai longe.

Mal terminou os olhos, os olhos já o encaravam. Mal terminou a boca, a boca já ria dele. E, assim que pregou as mãos no lugar, uma delas se esticou e arrancou a peruca da cabeça do velho.

— Menino malcriado! — disse Gepeto, com a voz embargada. — Nem acabei de fazer você e já me falta com o respeito.

Fez então as pernas e os pés. O primeiro uso que Pinóquio deu a eles foi um chute no nariz do pai. O segundo foi sair correndo porta afora, rua abaixo, feito uma lebre.

Gepeto saiu atrás, gritando que parassem o boneco. Um soldado agarrou Pinóquio pelo nariz e o devolveu ao velho, mas já havia gente demais em volta.

— Coitado do bonequinho — diziam. — Esse velho deve bater nele. Vai acabar quebrando o pobrezinho.

Falaram tanto que o soldado soltou Pinóquio e levou preso o próprio Gepeto, que não havia feito nada além de dar vida a um filho de madeira.

Sozinho em casa, Pinóquio ouviu uma vozinha na parede: cri-cri-cri.

— Quem está aí? — perguntou.

— Sou o Grilo Falante. Moro nesta sala há mais de cem anos.

— Pois hoje a sala é minha. E amanhã cedo eu vou embora, porque não quero escola nem estudo. Quero comer, brincar e dormir o dia inteiro.

— Menino que só quer isso acaba no hospital ou na cadeia — respondeu o grilo, sem se alterar. — E menino que não estuda vira burro, e todo mundo ri dele.

Pinóquio ficou vermelho de raiva, pegou um martelo e jogou nele. Talvez nem quisesse acertar, mas acertou, e o Grilo Falante não falou nunca mais.

A noite foi comprida e a fome, maior ainda. De manhã bateram à porta: era Gepeto, solto da cadeia, com três peras no bolso. Deu as três ao filho e não comeu nenhuma.

De barriga cheia, Pinóquio prometeu tudo o que se promete: que ia à escola, que ia estudar, que seria o orgulho do pai.

Sem um tostão no bolso, Gepeto fez para ele uma roupinha de papel florido, sapatos de casca de árvore e um gorro de miolo de pão.

— Só que, para ir à escola, eu preciso de uma cartilha — lembrou Pinóquio.

Gepeto olhou a neve lá fora, vestiu o casaco velho cheio de remendos e saiu. Voltou pouco depois com uma cartilha nova debaixo do braço, em mangas de camisa.

— E o casaco, papai?

— Vendi.

— Por quê?

— Porque estava me dando calor.

Pinóquio entendeu na hora e encheu o rosto do velho de beijos.

No dia seguinte lá foi ele para a escola, com a cartilha debaixo do braço. No caminho ouviu um tambor e um pífano. Na praça havia um teatro de bonecos, e a entrada custava quatro tostões.

Ele vendeu a cartilha ali mesmo, por quatro tostões, a um homem que comprava roupa usada. A mesma cartilha que o pai tinha comprado com o casaco que tirou das costas.

Dentro do teatro, os bonecos o reconheceram e pararam a peça no meio para abraçá-lo. Aí apareceu o dono, um homenzarrão de barba preta até os pés e voz de trovão, que todos chamavam de Come-Fogo.

— Peguem esse boneco novo — mandou ele. — Está faltando lenha para assar o carneiro da minha ceia, e madeira seca dá um fogo bonito.

— Papai, me salva! — chorou Pinóquio. — Eu não quero morrer!

Come-Fogo deu um espirro enorme, que era o jeito dele de ter pena das pessoas. Mas mandou buscar Arlequim no lugar do recém-chegado.

— Isso não! — gritou Pinóquio, atirando o gorro no chão. — Se alguém tem que ir para o fogo, que eu vá. O Arlequim é meu amigo.

O homenzarrão espirrou três vezes seguidas e não queimou ninguém. De manhã, chamou o boneco de lado.

— Você é um menino valente — disse, pondo cinco moedas de ouro na mão dele. — Leve isto para o seu pai e diga que eu mandei lembranças.

Na estrada de volta, Pinóquio encontrou uma Raposa manca e um Gato cego. Quando o boneco abriu a mão com as cinco moedas de ouro, a Raposa esticou a perna manca e o Gato arregalou os olhos.

— Cinco moedas? — disse a Raposa. — Podiam ser duas mil. Aqui perto existe o Campo dos Milagres. Você cava um buraquinho, enterra o dinheiro e rega com um pouco de água. De manhã encontra uma árvore carregada de moedas.

— Carregadinha — repetiu o Gato.

E Pinóquio, que já tinha esquecido o pai e a cartilha, foi com os dois.

Pararam numa hospedaria, onde a Raposa e o Gato comeram por seis e ele pagou a conta com uma das moedas. De madrugada os dois sumiram, deixando recado de que o esperavam no campo.

Pinóquio saiu sozinho no escuro, atrás deles. Já não aguentava mais de frio e de fome quando viu, no meio do bosque, uma casinha branca. Quem abriu a porta foi uma menina de cabelos azuis, que era uma fada.

A Fada dos Cabelos Azuis o pôs numa cama de verdade, deu-lhe sopa quente e só depois quis saber da viagem.

— E as suas moedas de ouro? — perguntou ela.

— Perdi na floresta — respondeu Pinóquio.

O nariz dele cresceu dois dedos.

— Quer dizer, não foi bem assim. Um ladrão levou. Não, agora lembrei: eu engoli sem querer.

A cada mentira o nariz crescia mais um palmo, até ficar tão comprido que o boneco não conseguia mais se virar no quarto nem passar pela porta. A Fada olhava e ria.

— As mentiras se reconhecem na hora, meu filho — disse ela. — Umas têm perna curta e outras têm nariz comprido. As suas são dessas de nariz comprido.

Sem saber onde se enfiar de vergonha, Pinóquio contou tudo desde o começo: a cartilha vendida, o teatro, o fogo e as quatro moedas que ainda estavam no bolso dele. E, à medida que dizia a verdade, o nariz ia voltando devagarinho ao tamanho de antes.

— Fique comigo — disse a Fada. — Eu serei a sua mãe, e daremos um jeito de trazer o Gepeto para morar com a gente.

— E um dia eu deixo de ser um boneco de madeira?

— Deixa, se merecer. E merecer é isto: obedecer, estudar, trabalhar e dizer sempre a verdade. Nada disso se ganha de presente.

Pinóquio prometeu de coração. Mas não se passou uma semana e ele deu de cara outra vez com a Raposa e o Gato.

— O Campo dos Milagres fecha amanhã — disse a Raposa. — Depois não deixam mais ninguém plantar lá.

E o boneco foi com eles. No Campo dos Milagres, Pinóquio cavou um buraco, enterrou as quatro moedas que lhe restavam e regou a terra com água do poço, carregada no próprio sapato. Depois sentou-se para esperar.

Pegou no sono ali mesmo e só acordou de manhã. Por fim cavou de novo, com as unhas, até abrir um buraco enorme. Não havia árvore nenhuma, nem moeda nenhuma.

Num galho ali perto, um papagaio ria.

— A Raposa e o Gato voltaram aqui enquanto você dormia — disse o papagaio. — Dinheiro não dá em árvore, meu filho. Ou se ganha com as mãos, ou se ganha com a cabeça.

Pinóquio foi se queixar ao juiz da cidade, e quem acabou na cadeia foi ele: quatro meses, como o Grilo tinha avisado.

Pinóquio voltou para a casinha branca sem um tostão e morrendo de vergonha. A Fada ouviu tudo até o fim e o perdoou, dizendo que era a última vez.

E dessa vez ele cumpriu. Durante um ano inteiro foi o primeiro a chegar à escola e o último a sair. Nos exames, tirou o primeiro lugar da classe.

— Amanhã de manhã — disse a Fada, feliz da vida — você deixa de ser boneco e vira um menino de verdade.

Naquela mesma tarde, saindo para convidar os colegas para uma festa, Pinóquio encontrou Pavio, o menino mais levado da escola, encostado debaixo de um alpendre.

— Estou esperando a meia-noite — contou Pavio. — Vou embora para o País dos Brinquedos. Lá não tem escola, não tem professor, não tem livro. A semana tem seis sábados e um domingo, e as férias começam no dia primeiro de janeiro e terminam no último dia de dezembro.

— Não posso — disse Pinóquio. — Prometi à minha mãe que seria um bom menino.

Mas ficou. Ficou só mais dois minutos, e mais dois, até que uma carroça chegou na escuridão, carregada de meninos, e todos gritaram juntos:

— Vem com a gente e seja feliz para sempre!

Pinóquio deu um suspiro, depois outro, depois um terceiro. Então disse baixinho:

— Me arruma um lugar. Eu vou.

A carroça era puxada por doze parelhas de burrinhos calçados com botinhas brancas, e na boleia ia um homenzinho gordo e redondo, de sorriso doce e voz macia de gato. E cantarolava entre os dentes:

A noite inteira eles dormem,  
e eu não durmo nunca...

O País dos Brinquedos era só meninos e um barulho de trombetas que fazia doer a cabeça. Pinóquio e Pavio passaram cinco meses sem ver um livro aberto.

Numa manhã, ao coçar a cabeça, Pinóquio sentiu duas orelhas compridas e peludas onde antes quase não havia nada. Enfiou o gorro até tapá-las e correu à casa do amigo, onde encontrou Pavio com outro gorro enterrado até o pescoço.

— Tire o gorro — pediu Pinóquio.

— Tire você primeiro.

Tiraram os dois ao mesmo tempo e caíram na gargalhada, um rindo das orelhas do outro. O riso parou no meio. Os dois caíram de quatro no chão, e o que saiu da boca deles não foi palavra nenhuma: foi um zurro.

O homenzinho gordo bateu à porta na mesma hora. Levou os dois pelo cabresto até a feira e os vendeu. Era assim que ele vinha ficando rico: juntava os meninos que não queriam estudar e vendia os burrinhos em que eles se transformavam.

Pavio foi comprado por um lavrador. Pinóquio, pelo dono de um circo, que o ensinou a dançar e a saltar arcos com muito chicote e nenhuma paciência, e o anunciou nos cartazes como a Estrela Dançarina.

Na noite da estreia, Pinóquio viu na plateia uma moça bonita com um medalhão no pescoço, e no medalhão o retrato de um boneco de madeira. Quis chamar pela Fada e só lhe saiu um zurro. Escorregou, caiu de mau jeito e machucou uma pata.

— Burro manco não me serve para nada — disse o dono do circo.

E o vendeu na praça, por vinte e cinco centavos, a um homem que não queria carga nenhuma: queria só o couro, para forrar um tambor.

O homem levou o burrinho até um penhasco, amarrou no pescoço dele uma pedra e uma corda comprida, e o atirou no mar. Uma hora depois puxou a corda. Em vez de um burro, veio para fora um boneco de madeira vivo, se sacudindo feito peixe na rede.

— A minha mãe é uma fada e mandou um cardume de peixes — explicou Pinóquio, rindo. — Eles comeram toda a pele de burro que havia em mim. Por baixo era só madeira, e madeira nenhum peixe quer.

Pinóquio pulou na água e nadou para longe antes que o homem se recuperasse. Nadava feliz quando o mar se levantou na frente dele e uma boca enorme o engoliu de um gole só.

Era um tubarão, o maior daquelas águas. Lá dentro estava escuro como tinta, mas bem longe tremia uma luzinha, e Pinóquio caminhou naquela direção.

No fim daquele corredor escuro havia uma mesinha posta, com uma vela espetada numa garrafa de vidro verde. Atrás da mesa, naquela luzinha, estava um velhinho magro de peruca cor de milho.

— Papai! — gritou Pinóquio, pendurando-se no pescoço dele.

— Meu filho, é você mesmo? — disse Gepeto, esfregando os olhos.

— Sou eu, papai. E nunca mais eu largo o senhor.

— Faz dois anos que estou aqui, Pinóquio. Fiz um barquinho e saí pelo mar para procurar você do outro lado do mundo. O tubarão engoliu o barco inteiro, com mantimentos e tudo. Hoje estou acendendo a minha última vela.

— Então não temos tempo a perder — disse o boneco. — O tubarão é velho e dorme de boca aberta. Suba nas minhas costas.

— Eu não sei nadar, meu filho.

— Mas eu sei. Segure firme e não olhe para baixo.

Subiram pela garganta na ponta dos pés, passaram pela língua e pelas três fileiras de dentes, e de repente estavam lá fora, debaixo de um céu cheio de estrelas. Pinóquio nadou a noite inteira com o pai nas costas. Quando pensou que não tinha mais força, nadou mais um pouco, e ao amanhecer os dois pisaram na areia.

Gepeto estava tão fraco que mal se firmava nas pernas. Andaram devagar até encontrar uma cabana vazia, onde Pinóquio arrumou uma cama de palha para o pai.

Não muito longe dali morava um lavrador que tinha vacas, e Pinóquio foi pedir um copo de leite.

— Um copo de leite custa um tostão — disse o homem. — Você tem?

— Não tenho nada.

— Então tire cem baldes de água do meu poço, e o leite é seu.

Pinóquio tirou os cem baldes. Nunca tinha trabalhado assim na vida. Voltou encharcado de suor, com o copo cheio nas mãos.

E foi assim todas as manhãs, durante cinco meses. Acordava antes do sol para tirar água do poço, de tarde trançava esteiras de palha para vender e à noite, com um toco de vela, treinava a leitura e a escrita.

No curral do lavrador havia um burrinho doente, que antes puxava a água e já não levantava a cabeça. Pinóquio achou que o conhecia e perguntou, na língua dos burros, quem ele era.

— Sou o Pavio — respondeu o bichinho, e fechou os olhos de novo.

Pinóquio buscou um punhado de feno e ficou ali, com a mão no pescoço do amigo. Pavio não voltou a ser menino. Poucos dias depois, o lugar dele no curral amanheceu vazio, e Pinóquio chorou por ele em silêncio.

Numa manhã, com quarenta tostões guardados, Pinóquio saiu para comprar um paletó, um boné e um par de sapatos, os primeiros que ele mesmo ia pagar. Na estrada, um caracol o chamou pelo nome: era o caracol que morava com a Fada.

— A Fada está doente, num hospital — disse o caracol, com a lentidão de sempre. — Está tão pobre que come um pedaço de pão por dia.

— Leve isto para ela, depressa — disse Pinóquio, entregando os quarenta tostões. — E volte daqui a dois dias, que eu terei mais.

— E as suas roupas novas?

— Elas esperam. Estes trapos ainda me servem.

Naquela noite, antes de dormir, o boneco trançou esteiras até a meia-noite. No sonho veio a Fada, bonita e sorridente, que lhe deu um beijo na testa.

— Muito bem, Pinóquio — disse ela. — Pelo seu bom coração, eu perdoo tudo o que você fez. Filhos que cuidam dos pais nas horas difíceis merecem ser amados, mesmo os que já foram muito levados.

Quando acordou, Pinóquio não era mais um boneco de madeira. Era um menino de carne e osso, de cabelos castanhos e olhos vivos. O quarto tinha móveis novos e, na cadeira, roupa nova do tamanho dele.

No bolso do paletó achou uma carteirinha de madrepérola: “A Fada dos Cabelos Azuis devolve os quarenta tostões ao seu querido Pinóquio e agradece de todo o coração.” Dentro, em vez de quarenta tostões, havia quarenta moedas de ouro.

Correu para o quarto ao lado e encontrou Gepeto sadio, de volta à bancada, com o formão na mão e um cavalinho quase pronto.

— Papai, o que foi que aconteceu? — perguntou o menino.

— Aconteceu que, quando um menino levado resolve ser bom, tudo em volta dele melhora, e a casa inteira fica feliz.

— E o boneco de madeira, onde foi parar?

— Está ali — disse Gepeto, apontando.

Encostado numa cadeira, com a cabeça tombada, os braços caídos e as pernas cruzadas, estava o velho Pinóquio de madeira, quietinho.

O menino ficou um bom tempo olhando para ele e disse, sorrindo:

— Como eu era engraçado quando era um boneco! E como estou feliz agora que virei um menino de verdade!

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- Wikidata: https://www.wikidata.org/wiki/Q8065468
- Source: The Adventures of Pinocchio (1904), Carlo Collodi, translated from the Italian by Walter S. Cramp, ed. Sara E. H. Lockwood, Copp Clark Co., Toronto (https://en.wikisource.org/wiki/The_Adventures_of_Pinocchio_(1904))
- Public-domain basis: Talerie contemporary retelling (CC0 2026), based on: The Adventures of Pinocchio (1904), Carlo Collodi, translated from the Italian by Walter S. Cramp, ed. Sara E. H. Lockwood, Copp Clark Co., Toronto — translation: author died 1890/1932 (+70 passed); translator Walter S. Cramp died 1932 (+70 passed)
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