# Polegarzinha

_Hans Christian Andersen_ · 23 min read · ages 6-10

Do tamanho de um polegar, Polegarzinha é roubada por uma sapa, levada para uma árvore por um besouro e acaba num buraco debaixo do trigo, prometida ao senhor Toupeira. A andorinha que ela salvou no inverno a leva para as terras quentes, onde o anjo da flor põe a coroa de ouro na cabeça dela e a chama de Maia.

---

Era uma vez uma mulher que queria muito ter um filhinho bem pequenininho, mas não sabia onde poderia conseguir um. Então foi procurar uma velha feiticeira e disse a ela:

— Eu queria tanto ter uma criancinha. Você não pode me dizer onde consigo uma?

— Ah, isso a gente resolve num instante! — disse a feiticeira. — Aqui está um grão de cevada. Não é da espécie que cresce no campo do lavrador, nem da que se joga para as galinhas comerem. Plante o grão num vaso de flores e você vai ver o que acontece.

— Muito obrigada! — disse a mulher, e deu doze moedas à feiticeira, porque era esse o preço.

Depois foi para casa e plantou o grão de cevada. Na mesma hora brotou dali uma flor grande e linda, parecida com uma tulipa, só que as pétalas continuavam bem fechadas, como se ainda fosse um botão.

— Que flor mais bonita! — disse a mulher, e beijou as pétalas vermelhas e amarelas.

Mas, no instante do beijo, a flor se abriu com um estalo. Era mesmo uma tulipa, agora dava para ver; e no meio dela, sentada no pistilo verde de veludo, estava uma menininha delicada e encantadora. Não tinha nem meio polegar de altura, e por isso foi chamada de Polegarzinha.

Uma casca de noz envernizada e bonita virou o berço de Polegarzinha; pétalas azuis de violeta eram os colchões, e uma pétala de rosa era a coberta. Era ali que ela dormia de noite. De dia brincava em cima da mesa, onde a mulher tinha posto um prato cercado por uma coroa de flores, com os talos mergulhados na água. Na água boiava uma pétala grande de tulipa, e Polegarzinha podia sentar nela e navegar de uma beirada do prato até a outra, com dois fios brancos de crina de cavalo como remos. Era uma beleza de se ver. Ela também sabia cantar, com uma voz tão suave e tão delicada como nunca ninguém tinha ouvido.

Uma noite, enquanto ela dormia na sua caminha bonita, entrou pela janela, por um vidro quebrado, uma velha mãe sapo. Era feia, grande e molhada, e desceu num pulo até a mesa, onde Polegarzinha dormia debaixo da pétala vermelha de rosa.

— Esta daria uma bela esposa para o meu filho! — disse a mãe sapo.

E pegou a casca de noz com Polegarzinha dormindo dentro, e saiu aos pulos pela janela, jardim abaixo.

Ali corria um riacho largo e cheio, mas a margem era um brejo de lama mole. Era ali que a mãe sapo morava com o filho. Ai, que filho feio e nojento, igualzinho à mãe!

— Coaxa, coaxa, brequequex! — foi tudo o que ele soube dizer quando viu a criaturinha linda dentro da casca de noz.

— Não fale tão alto, senão ela acorda! — disse a velha mãe sapo. — Ela ainda pode escapar de nós, porque é leve como uma pluminha de cisne. Vamos colocá-la no riacho, numa daquelas folhas largas de nenúfar. Para uma coisinha tão leve e tão pequena, aquilo é uma ilha inteira! De lá ela não foge, e nesse meio-tempo a gente arruma o salão lá embaixo no brejo, onde vocês dois vão morar.

No riacho cresciam muitos nenúfares de folhas verdes e largas, que pareciam boiar em cima da água. A folha mais distante era também a maior. A velha mãe sapo nadou até lá e pousou nela a casca de noz com Polegarzinha.

A pobre Polegarzinha acordou bem cedo de manhã e, quando viu onde estava, começou a chorar de dar dó, porque havia água por todos os lados daquela folha verde e grande, e não tinha jeito de chegar até a terra firme.

A velha mãe sapo estava lá embaixo no brejo, enfeitando a sala com juncos e nenúfares amarelos, para deixar tudo bem bonito para a nova nora. Depois nadou com o filho feio até a folha onde estava Polegarzinha. Os dois queriam buscar a caminha bonita dela, que precisava ser posta no quarto dos noivos antes que a própria Polegarzinha entrasse ali. A velha mãe sapo fez uma reverência funda dentro da água e disse:

— Aqui está o meu filho. Ele vai ser o seu marido, e vocês dois vão morar muito bem lá embaixo no brejo!

— Coaxa, coaxa, brequequex! — foi tudo o que o filho soube dizer.

Então os dois pegaram a caminha bonita e foram embora nadando com ela. Polegarzinha ficou sozinha na folha verde, chorando, porque não queria morar com aquela sapa nojenta nem ter o filho feio como marido. Os peixinhos que nadavam ali embaixo tinham visto a mãe sapo e ouvido tudo o que ela disse; por isso puseram a cabeça para fora da água, para ver a menininha também. Assim que a viram, acharam-na tão bonita que ficaram com pena de ela ter que descer para a casa da sapa feia. Não, isso não podia acontecer de jeito nenhum! Juntaram-se debaixo da água em volta do talo verde que segurava a folha e roeram o caule com os dentes. A folha desceu o riacho levando Polegarzinha para longe, bem longe, onde a sapa não podia mais alcançá-la.

Polegarzinha passou navegando por muitas cidades, e os passarinhos, sentados nos arbustos, olhavam para ela e cantavam:

— Que menininha mais linda!

A folha ia com ela cada vez mais longe, e foi assim que Polegarzinha viajou para fora do país.

Uma borboleta branca, pequena e bonita, ficou esvoaçando ao redor dela o tempo todo e por fim pousou na folha. A borboleta gostou de Polegarzinha, e Polegarzinha ficou muito contente com isso, porque agora a sapa não podia mais alcançá-la, e era tão bonito por onde ela passava: o sol batia na água, e a água reluzia como a mais linda prata. Polegarzinha tirou o cinto, amarrou uma ponta na borboleta e prendeu a outra ponta na folha. Agora a folha deslizava bem mais depressa, e ela junto, porque ia em cima dela.

Nisso chegou voando um besouro grande. Viu a menina, agarrou na hora o corpinho fino dela com as garras e voou com ela até a árvore. A folha verde desceu o riacho, e a borboleta foi junto, porque estava amarrada à folha e não conseguia se soltar.

Meu Deus, que susto levou a pobre Polegarzinha quando o besouro subiu com ela até a árvore! Mas o que mais lhe doía era a borboleta branca e bonita que ela tinha amarrado ali: se a borboleta não conseguisse se soltar, ia acabar morrendo de fome. O besouro não estava nem aí para isso. Pousou com ela na maior folha verde da árvore, deu-lhe o mel das flores para comer e disse que ela era muito bonitinha, embora não se parecesse nem um pouco com um besouro. Depois vieram todos os outros besouros que moravam naquela árvore, para fazer uma visita. Ficaram olhando para Polegarzinha, e um deles disse:

— Vejam só, ela tem duas pernas e nada mais! Que coisa mais sem graça!

— E não tem antenas! — disse outro.

— Que cintura fina, que horror! Parece gente! — disseram todas as senhoras besouro. — Como ela é feia!

E, no entanto, Polegarzinha era um encanto. O besouro que a tinha raptado sabia disso muito bem. Mas, como todos os outros diziam que ela era feia, no fim ele acabou acreditando também e não a quis mais: que fosse para onde quisesse. Levaram-na voando árvore abaixo e a puseram em cima de uma margarida. Ali ela chorou, porque era tão feia que nem os besouros a queriam; e mesmo assim era a coisa mais linda que se pode imaginar, delicada e suave como a mais bonita pétala de rosa.

O verão inteiro a pobre Polegarzinha viveu sozinha na floresta grande. Trançou uma cama com fios de capim e pendurou a cama debaixo de uma folha de trevo, para ficar protegida da chuva. Colhia o mel das flores para comer e bebia o orvalho que amanhecia todas as manhãs sobre as folhas. Assim passaram o verão e o outono. Mas então chegou o inverno, o inverno longo e frio. Todos os passarinhos que tinham cantado tão bonito para ela foram embora. As árvores e as flores perderam as folhas; o trevo grande debaixo do qual ela morava se enrolou e virou um talo murcho, e mais nada. Ela sentia um frio terrível, porque suas roupinhas estavam rasgadas e ela mesma era tão miúda e delicada, a pobre Polegarzinha: ia morrer congelada. Começou a nevar, e cada floco que caía em cima dela era como uma pá cheia de neve jogada em cima de nós, porque nós somos grandes e ela tinha só uma polegada. Ela se embrulhou numa folha seca, mas a folha rasgou no meio e não esquentava nada, e ela tremia de frio.

Bem na saída da floresta onde ela tinha chegado havia um campo grande de trigo. Mas o trigo tinha sido colhido fazia muito tempo, e da terra gelada só apareciam os restolhos secos e nus. Para ela, aquilo era uma floresta inteira para atravessar. Ai, como ela tremia de frio! Foi assim que chegou à porta de uma ratinha do campo, que tinha um buraquinho debaixo dos restolhos. Ali a ratinha morava quentinha e aconchegada, com a sala cheia de trigo, uma cozinha maravilhosa e uma despensa. A pobre Polegarzinha parou na porta como uma menina mendiga e pediu um pedacinho de um grão de cevada, porque fazia dois dias que não comia coisa nenhuma.

— Coitadinha! — disse a ratinha do campo, que no fundo era uma boa velhinha. — Entre aqui na minha sala quentinha e coma comigo.

A ratinha simpatizou com Polegarzinha e disse:

— Por mim, você pode passar o inverno inteiro aqui em casa. Mas tem que deixar a minha sala limpa e arrumada e me contar histórias, porque eu adoro histórias.

E Polegarzinha fez tudo o que a boa velha ratinha do campo pediu, e viveu ali muito bem.

— Logo vamos receber uma visita — disse a ratinha do campo. — Meu vizinho costuma vir aqui uma vez por semana. Ele vive ainda melhor do que eu, tem salões grandes e usa um lindo casaco de veludo preto. Se você conseguisse casar com ele, estaria bem de vida para sempre. Só que ele não enxerga. Conte para ele as histórias mais bonitas que você souber!

Mas Polegarzinha não deu a mínima para isso. Não queria saber do vizinho, porque o vizinho era uma toupeira.

O senhor Toupeira veio fazer a visita com seu casaco de veludo preto. Era muito rico e muito sábio, dizia a ratinha do campo, e a casa dele era mais de vinte vezes maior do que a dela. Sabedoria ele tinha, sim, mas não suportava o sol nem as flores bonitas, e falava mal delas, porque nunca tinha visto nenhuma.

Polegarzinha teve que cantar, e cantou a canção do besouro que voa e a canção do padre que sai pelo campo. O senhor Toupeira se apaixonou por ela por causa daquela voz bonita, mas não disse nada, porque era um homem ponderado.

Fazia pouco tempo que ele tinha cavado um túnel comprido pela terra, da casa dele até a casa da ratinha, e deu permissão para as duas passearem por ali o quanto quisessem. Só pediu que não se assustassem com o pássaro morto que estava no túnel. Era um pássaro inteiro, com penas e bico, que devia ter morrido havia pouco e tinha ficado enterrado bem no lugar onde ele abriu a passagem.

O senhor Toupeira pegou na boca um pedaço de madeira podre, que brilha como fogo no escuro, e foi na frente, iluminando o caminho das duas naquele túnel comprido e escuro. Quando chegaram ao lugar onde estava o pássaro morto, ele encostou o focinho largo no teto e empurrou a terra para cima até abrir um buraco grande, por onde a luz pôde descer. No meio do chão estava uma andorinha morta, com as belas asas apertadas contra o corpo e as patas e a cabeça escondidas debaixo das penas. Com certeza o pobre pássaro tinha morrido de frio. Polegarzinha ficou com muita pena. Gostava demais de todos os passarinhos, que tinham cantado e chilreado tão bonito para ela o verão inteiro. Mas o senhor Toupeira cutucou a andorinha com as patas tortas e disse:

— Agora ela não assobia mais! Deve ser uma desgraça nascer passarinho. Graças a Deus nenhum filho meu vai ser assim. Um bicho desses não tem nada além do seu quivite, e no inverno morre de fome.

— É, você fala como um homem sensato — disse a ratinha do campo. — O que é que o pássaro ganha com todo esse quivite quando o inverno chega? Passa fome e passa frio. Mas dizem que isso é muito fino!

Polegarzinha não disse nada. Mas, quando os dois viraram as costas para o pássaro, ela se abaixou, afastou as penas que cobriam a cabecinha e beijou os olhos fechados da andorinha.

“Quem sabe foi ela que cantou tão bonito para mim no verão”, pensou Polegarzinha. “Quanta alegria ela me deu, esse pássaro querido e lindo!”

O senhor Toupeira tapou o buraco por onde entrava a luz do dia e acompanhou as damas de volta para casa. Mas de noite Polegarzinha não conseguiu dormir. Levantou da cama, trançou com feno um tapete grande e bonito, levou o tapete até lá, estendeu-o sobre o pássaro morto e pôs dos dois lados dele os fios finos de pólen das flores, macios como algodão, que tinha encontrado na sala da ratinha do campo, para que a andorinha ficasse quentinha dentro da terra.

— Adeus, passarinho lindo! — disse ela. — Adeus, e obrigada pelo seu canto maravilhoso no verão, quando todas as árvores estavam verdes e o sol brilhava quente sobre nós!

Então encostou a cabeça no coração do pássaro. Mas o pássaro não estava morto: estava apenas entorpecido pelo frio, e agora, aquecido, voltou a viver.

No outono todas as andorinhas partem para as terras quentes; mas, se alguma se atrasa, o frio a pega de tal jeito que ela cai como morta e fica onde caiu, e depois a neve fria cobre tudo.

Polegarzinha tremia de susto, porque o pássaro era grande, enorme perto dela, que tinha só uma polegada. Mesmo assim, criou coragem, ajeitou o algodão bem juntinho ao corpo da pobre andorinha, foi buscar uma folha de hortelã que ela mesma usava como coberta e pôs a folha sobre a cabeça do pássaro.

Na noite seguinte ela voltou escondida. A andorinha estava viva, mas muito fraca: só conseguiu abrir os olhos um instantinho e olhar para Polegarzinha, que estava de pé na frente dela com um pedaço de madeira podre na mão, porque outra lanterna ela não tinha.

— Obrigada, minha criancinha querida! — disse a andorinha doente. — Estou tão bem aquecida! Logo, logo recupero as forças e vou poder voar lá fora, no sol quentinho.

— Ah, não! — disse Polegarzinha. — Lá fora está frio, está nevando e gelando. Fique na sua caminha quente, que eu cuido de você.

Então levou água para a andorinha numa pétala de flor. A andorinha bebeu e contou que tinha ferido uma asa num espinheiro e por isso não conseguira voar tão depressa quanto as outras andorinhas, que tinham ido embora para muito longe, para as terras quentes. No fim tinha caído no chão, mas dali em diante não se lembrava de mais nada e não sabia como tinha ido parar naquele lugar.

A andorinha passou o inverno inteiro ali embaixo, e Polegarzinha cuidou dela com todo o carinho do coração. Nem o senhor Toupeira nem a ratinha do campo ficaram sabendo de nada, porque os dois não gostavam nem um pouco da pobre andorinha.

Assim que chegou a primavera e o sol esquentou a terra, a andorinha se despediu de Polegarzinha, que abriu o buraco que o senhor Toupeira tinha feito lá em cima. O sol entrou lindo por ali, e a andorinha perguntou se ela não queria ir junto: podia sentar nas costas dela, e as duas voariam para bem longe, para dentro da floresta verde. Mas Polegarzinha sabia que a velha ratinha do campo ia ficar triste se ela fosse embora daquele jeito.

— Não, eu não posso — disse Polegarzinha.

— Adeus, adeus, minha menina boa e querida! — disse a andorinha, e voou para fora, para o sol.

Polegarzinha ficou olhando, e os olhos se encheram de lágrimas, porque ela gostava demais da pobre andorinha.

— Quivite, quivite! — cantou o pássaro, e voou para a floresta verde.

Polegarzinha ficou muito triste. Não tinha permissão de sair para o sol quente. O trigo semeado no campo, por cima da casa da ratinha, cresceu bem alto no ar, e para a pobre menininha, que tinha só uma polegada, aquilo era uma floresta fechada.

— Agora você está noiva, Polegarzinha! — disse a ratinha do campo. — O vizinho pediu você em casamento. Que sorte enorme para uma criança pobre! Agora você tem que costurar o enxoval, de lã e de linho, porque não pode faltar nada quando você virar a esposa do senhor Toupeira.

Polegarzinha teve que girar o fuso, e a ratinha do campo contratou quatro aranhas para fiar e tecer dia e noite. Toda noite o senhor Toupeira aparecia e ficava sempre falando que, quando o verão acabasse, o sol não ia mais brilhar tão quente; agora, sim, queimava a terra e deixava tudo duro como pedra. Pois é, quando o verão passasse, ele ia se casar com Polegarzinha. Mas ela não estava nem um pouco contente, porque não gostava nada daquele senhor Toupeira tão sem graça. Toda manhã, quando o sol nascia, e toda tarde, quando ele se punha, ela saía escondida pela porta; e quando o vento abria as espigas de trigo e deixava aparecer um pedaço de céu azul, ela pensava em como tudo era claro e bonito lá fora, e desejava com todas as forças tornar a ver a querida andorinha. Mas a andorinha nunca mais voltou; devia ter voado para bem longe, para a bonita floresta verde.

Quando chegou o outono, Polegarzinha já tinha o enxoval pronto.

— Daqui a quatro semanas você se casa! — disse a ratinha do campo.

Mas Polegarzinha chorou e disse que não queria se casar com o senhor Toupeira, que era tão sem graça.

— Que bobagem! — disse a ratinha do campo. — Não seja teimosa, senão eu mordo você com os meus dentes brancos! Você vai ficar com um marido lindo! Nem a rainha tem um casaco de veludo preto igual ao dele! Ele tem a cozinha e o porão cheios. Agradeça a Deus por isso!

Chegou o dia do casamento. O senhor Toupeira já tinha vindo buscar Polegarzinha; ela ia morar com ele bem no fundo da terra e nunca mais sair para o sol quente, porque ele não suportava o sol. A pobrezinha estava muito triste: agora tinha que dizer adeus ao lindo sol, que ao menos, na casa da ratinha do campo, ela tinha permissão de ver da porta.

— Adeus, sol brilhante! — disse ela, esticando os bracinhos para o alto.

E caminhou um pouquinho para longe da casa da ratinha, porque o trigo já estava colhido e ali só restavam os restolhos secos.

— Adeus, adeus! — disse ela, abraçando uma florzinha vermelha que ainda estava florida. — Dê lembranças minhas à andorinha, se você a encontrar!

— Quivite, quivite! — soou de repente por cima da cabeça dela.

Polegarzinha olhou para cima: era a andorinha, que passava bem naquela hora. Assim que viu Polegarzinha, ficou muito feliz. E Polegarzinha contou para ela como não queria de jeito nenhum aquele senhor Toupeira como marido, e que ia morar bem no fundo da terra, onde o sol nunca chega. Enquanto contava, não conseguiu segurar as lágrimas.

— O inverno frio está chegando — disse a andorinha. — Eu vou voar para bem longe, para as terras quentes. Você quer vir comigo? Pode sentar nas minhas costas. A gente foge desse senhor Toupeira feio e da toca escura dele, para bem longe, por cima das montanhas, para as terras quentes, onde o sol brilha mais bonito do que aqui, onde é verão o ano inteiro e há flores maravilhosas. Venha voar comigo, minha querida Polegarzinha, você que salvou a minha vida quando eu estava congelada naquele porão escuro de terra!

— Sim, eu vou com você — disse Polegarzinha.

E sentou nas costas do pássaro, com os pés na asa aberta, e amarrou o cinto numa das penas mais fortes. A andorinha subiu bem alto no ar, por cima de florestas e de lagos, bem alto por cima das montanhas grandes onde a neve nunca derrete. Polegarzinha sentiu frio naquele ar gelado, mas então se enfiou debaixo das penas quentes do pássaro e deixou só a cabecinha de fora, para admirar todas as belezas lá embaixo.

Por fim chegaram às terras quentes. Ali o sol brilhava muito mais forte do que aqui, o céu era duas vezes mais alto, e nas valas e nas cercas vivas cresciam as mais lindas uvas verdes e azuis. Nos bosques havia limões e laranjas pendurados; o ar cheirava a murta e a hortelã, e pelas estradas corriam crianças lindas, brincando com borboletas grandes e coloridas. Mas a andorinha voou ainda mais longe, e tudo ia ficando mais bonito e mais bonito. Debaixo de árvores verdes maravilhosas, à beira de um lago azul, havia um castelo de mármore branco e brilhante, dos tempos antigos. Videiras subiam pelas colunas altas, e lá em cima havia muitos ninhos de andorinha. Num deles morava a andorinha que levava Polegarzinha.

— Esta é a minha casa! — disse a andorinha. — Mas não fica bem você morar aqui comigo; não tenho as coisas arrumadas do jeito que você merece. Escolha você mesma uma das flores mais lindas que crescem lá embaixo. Eu ponho você dentro dela, e você vai viver tão bem quanto quiser.

— Que maravilha! — disse Polegarzinha, batendo as mãozinhas.

Ali estava caída uma coluna grande de mármore branco, que tinha desabado e se partido em três pedaços; e entre os pedaços cresciam as mais lindas flores brancas e grandes. A andorinha desceu voando com Polegarzinha e a pousou numa das pétalas largas. Que espanto ela levou! No meio da flor estava sentado um homenzinho, branco e transparente como se fosse de vidro. Tinha na cabeça a mais linda coroa de ouro e nos ombros as mais lindas asas, e não era maior do que a própria Polegarzinha. Era o anjo da flor. Em cada flor morava um homenzinho ou uma mulherzinha assim, e aquele era o rei de todos eles.

— Meu Deus, como ele é bonito! — sussurrou Polegarzinha para a andorinha.

O principezinho levou um susto enorme com a andorinha, porque para ele, tão pequeno e delicado, ela era um pássaro gigante. Mas, quando viu Polegarzinha, ficou muito feliz: era a menina mais linda que ele já tinha visto. Por isso tirou a coroa de ouro da cabeça e pôs na cabeça dela, perguntou como ela se chamava e se queria ser sua esposa; então ela seria rainha de todas as flores. Ah, esse sim era um marido bem diferente do filho da sapa e do senhor Toupeira de casaco de veludo preto! Por isso ela disse sim ao lindo príncipe. E de cada flor saiu uma dama e um cavalheiro, um mais encantador que o outro. Cada um trouxe um presente para Polegarzinha, mas o melhor de todos foi um par de asas lindas de uma mosca branca e grande. Prenderam as asas nas costas de Polegarzinha, e agora ela também podia voar de flor em flor. Foi uma alegria só. E a andorinha, lá em cima no ninho, tinha que cantar a canção do casamento; e cantou, tão bem quanto conseguiu. Mas no fundo estava triste, porque gostava muito de Polegarzinha e nunca teria querido se separar dela.

— Você não vai mais se chamar Polegarzinha — disse o anjo da flor. — Esse nome é feio, e você é bonita demais para ele. Vamos chamar você de Maia.

— Adeus, adeus! — disse a andorinha com o coração apertado, e voou de novo para longe das terras quentes, de volta para a Dinamarca.

Lá ela tinha um ninho pequeno em cima da janela do homem que sabe contar histórias. Foi para ele que ela cantou o seu quivite, quivite. E é por isso que a gente conhece essa história inteirinha.

---

- Read online: https://talerie.com/pt/contos/polegarzinha-original
- Source: Sämmtliche Märchen — einzige vollständige vom Verfasser besorgte Ausgabe (Hartknoch, Leipzig) (https://www.projekt-gutenberg.org/andersen/saemmaer/saemmaer.html)
- Public-domain basis: Talerie contemporary retelling (CC0 2026), based on: Sämmtliche Märchen — einzige vollständige vom Verfasser besorgte Ausgabe (Hartknoch, Leipzig) — EU anonymous-work rule, translation published ≤1885 (+70 passed)
- License: CC0-1.0 (https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/)
