# Rip Van Winkle

_Retold by Talerie (talerie.com) from The Sketch-Book of Geoffrey Crayon, after Washington Irving_ · 34 min read · ages 10+

Fugindo da mulher brava, Rip Van Winkle bebe do jarro de uns homens calados que jogam boliche nas montanhas Catskill e só acorda vinte anos depois. De volta à aldeia, ele mora com a filha e conta a sua história no hotel de Doolittle, e os velhos holandeses dizem que a trovoada é Hendrick Hudson jogando boliche.

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Quem já subiu o rio Hudson de barco com certeza se lembra das montanhas Catskill. São um ramo desgarrado da grande família dos Apalaches e se erguem a oeste do rio, bem altas, reinando sobre toda a região em volta.

Cada estação, cada mudança de tempo e até cada hora do dia alteram as cores mágicas e as formas dessas montanhas, e as boas donas de casa, de perto e de longe, olham para elas como para um barômetro perfeito.

Quando o tempo está bom e firme, as montanhas se vestem de azul e roxo e desenham seus contornos fortes no céu limpo do entardecer. Às vezes, porém, mesmo quando não há uma nuvem no resto do céu, elas juntam em volta dos picos um capuz de névoa cinzenta, e esse capuz, nos últimos raios do sol poente, brilha e se acende como uma coroa de glória.

Ao pé dessas montanhas encantadas, o viajante deve ter avistado a fumaça leve que sobe em espirais de uma aldeia cujos telhados de tabuinhas brilham entre as árvores, bem onde os tons azuis das terras altas se desfazem no verde fresco da paisagem mais próxima.

É uma aldeia pequena e muito antiga, fundada por colonos holandeses nos primeiros tempos da província, mais ou menos quando começou o governo do bom Peter Stuyvesant (que descanse em paz!). Até poucos anos atrás, ainda havia de pé algumas casas dos primeiros moradores, feitas de tijolinhos amarelos trazidos da Holanda, com janelas de treliça e fachadas pontudas encimadas por cata-ventos.

Naquela mesma aldeia, e numa daquelas casas (que, para dizer a verdade, estava bem gasta pelo tempo e pelas chuvas), vivia, muitos anos atrás, quando o país ainda era uma província da Grã-Bretanha, um sujeito simples e bonachão chamado Rip Van Winkle. Ele descendia dos Van Winkle que tanto se destacaram nos tempos heroicos de Peter Stuyvesant e o acompanharam no cerco do Forte Cristina. Do espírito guerreiro dos antepassados, porém, herdou muito pouco.

Já disse que ele era um homem simples e bonachão. Era também um bom vizinho e um marido obediente, que a mulher mantinha em rédea curta. Talvez viesse justamente daí a mansidão que o tornava tão querido por todos, porque os homens que em casa vivem sob a disciplina de uma megera costumam ser gentis e conciliadores na rua.

O gênio deles, sem dúvida, fica dócil e maleável na fornalha das atribulações domésticas, e um sermão na cama, antes de dormir, ensina paciência e resignação mais do que todos os sermões da igreja. Por isso, uma esposa brava pode até ser vista como uma espécie de bênção; e, nesse caso, Rip Van Winkle era três vezes abençoado.

O certo é que ele era o queridinho de todas as boas senhoras da aldeia, que, com a bondade de sempre, tomavam o partido dele em todas as brigas de família e, sempre que comentavam esses assuntos nas conversas do fim da tarde, punham a culpa toda na senhora Van Winkle.

As crianças da aldeia também gritavam de alegria sempre que ele chegava. Rip participava das brincadeiras, fazia brinquedos para elas, ensinava a empinar pipa e a jogar bolinha de gude e contava longas histórias de fantasmas, de bruxas e de indígenas. Quando andava pela aldeia, tinha sempre atrás de si um bando delas, agarradas à roupa, subindo nas costas dele e aprontando mil travessuras sem levar bronca nenhuma; e não havia na vizinhança um único cachorro que latisse para ele.

O grande defeito de Rip era uma aversão invencível a qualquer tipo de trabalho que desse lucro. Não era falta de empenho nem de perseverança, porque ele era capaz de passar o dia inteiro sentado numa pedra molhada, com uma vara tão comprida e pesada quanto a lança de um tártaro, pescando sem reclamar, mesmo que nenhum peixe beliscasse a isca.

Rip carregava a espingarda no ombro por horas a fio, atravessando matas e brejos, subindo e descendo morros, só para caçar uns esquilos ou umas pombas selvagens. Nunca se recusava a ajudar um vizinho, nem no serviço mais pesado, e era o primeiro em todos os mutirões da roça, fosse para descascar milho, fosse para levantar muros de pedra.

As mulheres da aldeia também o chamavam para levar recados e fazer aqueles pequenos serviços que os maridos delas, menos prestativos, não faziam. Em resumo, Rip estava sempre pronto a cuidar da vida de todo mundo, menos da própria. Cumprir as obrigações de pai de família e manter o sítio em ordem, isso ele achava impossível.

Aliás, ele dizia que não adiantava trabalhar no sítio: era o pedaço de terra mais ingrato de toda a região, e tudo nele dava errado, por mais que ele fizesse. As cercas viviam caindo aos pedaços; a vaca ou se perdia ou ia parar no meio dos repolhos; o mato crescia nas plantações dele mais depressa do que em qualquer outro lugar; e a chuva sempre fazia questão de começar bem na hora em que ele tinha algum serviço ao ar livre.

Assim, as terras herdadas do pai foram encolhendo nas mãos dele, pedaço por pedaço, até sobrar pouco mais do que uma rocinha de milho e batatas, e mesmo essa era a mais malcuidada da vizinhança.

Os filhos dele também andavam esfarrapados e soltos, como se não fossem de ninguém. O filho, o pequeno Rip, um moleque feito à imagem e semelhança do pai, prometia herdar os costumes dele junto com as roupas velhas. O menino vivia trotando como um potrinho atrás da mãe, vestido com um par de calções largos que o pai já não usava e que ele mal conseguia segurar com uma das mãos, como uma dama segura a cauda do vestido em dia de chuva.

Rip Van Winkle, no entanto, era um daqueles felizardos de gênio tolo e macio, que levam a vida na flauta, comem pão branco ou pão preto, o que der menos trabalho e menos preocupação, e preferem passar fome com um tostão a trabalhar por uma fortuna. Se o deixassem em paz, teria passado a vida assobiando, perfeitamente contente.

Mas a mulher não parava de reclamar da preguiça dele, do descuido dele e da ruína que ele estava trazendo para a família. De manhã, de tarde e de noite, a língua dela não descansava, e tudo o que ele dizia ou fazia provocava uma enxurrada de eloquência doméstica.

Rip tinha um único jeito de responder a esses sermões, e de tanto usá-lo o jeito virou hábito: encolhia os ombros, balançava a cabeça, erguia os olhos para o céu e não dizia nada. Isso, porém, sempre provocava uma nova rajada da mulher, e então ele era obrigado a retirar suas tropas e ir para o lado de fora da casa, que é, na verdade, o único lado que pertence a um marido mandado pela mulher.

O único aliado de Rip dentro de casa era o cachorro, Wolf, tão mandado pela dona quanto o dono. A senhora Van Winkle via os dois como companheiros de vadiagem e olhava torto para Wolf, como se fosse ele o culpado de o dono sair tanto por aí.

É verdade que, em tudo o que se espera de um cão de respeito, Wolf era o animal mais corajoso que já correu pelos bosques. Mas que coragem resiste aos terrores da língua de uma mulher, que estão em toda parte e não poupam ninguém?

Assim que Wolf entrava em casa, murchava todo: o rabo caía até o chão ou se enfiava entre as pernas, e ele andava pelos cantos com cara de condenado, lançando olhares de lado para a senhora Van Winkle. Ao menor movimento de uma vassoura ou de uma concha, disparava para a porta, ganindo.

As coisas foram ficando cada vez piores para Rip Van Winkle com o passar dos anos de casamento. Um gênio azedo nunca amolece com a idade, e uma língua afiada é a única lâmina que ganha corte com o uso.

Durante muito tempo, quando era expulso de casa, ele se consolava frequentando uma espécie de clube permanente dos sábios, filósofos e outros desocupados da aldeia. O clube se reunia num banco em frente a uma pequena estalagem, que tinha como tabuleta um retrato corado de Sua Majestade, o rei Jorge III.

Ali ficavam sentados à sombra durante os longos e preguiçosos dias de verão, conversando sem pressa sobre os mexericos da aldeia ou contando histórias sonolentas e sem fim sobre coisa nenhuma. Mas qualquer estadista pagaria para ouvir as discussões profundas que às vezes se travavam ali, quando por acaso lhes caía nas mãos um jornal velho deixado por algum viajante de passagem.

Com que solenidade escutavam as notícias, lidas em voz arrastada por Derrick Van Bummel, o mestre-escola, um homenzinho elegante e estudado que não se intimidava nem com a palavra mais gigantesca do dicionário! E com que sabedoria debatiam os fatos do mundo, meses depois de terem acontecido!

As opiniões dessa junta eram inteiramente controladas por Nicholas Vedder, um patriarca da aldeia e dono da estalagem. Ele ficava sentado à porta da manhã à noite e só se mexia o bastante para fugir do sol e ficar à sombra de uma árvore grande, de modo que os vizinhos sabiam a hora pelos movimentos dele com tanta precisão quanto por um relógio de sol. É verdade que quase nunca se ouvia a voz dele; mas ele fumava o cachimbo sem parar.

Os seguidores dele, porém (porque todo grande homem tem seus seguidores), o entendiam perfeitamente e sabiam adivinhar o que ele pensava. Quando alguma coisa que se lia ou se contava o desagradava, ele fumava com força e soltava baforadas curtas e zangadas. Quando gostava, puxava a fumaça devagar, com calma, e a soltava em nuvenzinhas leves e tranquilas; às vezes tirava o cachimbo da boca, deixava a fumaça perfumada se enrolar em volta do nariz e balançava a cabeça, muito sério, em sinal de total aprovação.

Até desse refúgio Rip acabou sendo expulso pela mulher, que aparecia de repente, quebrava a tranquilidade da reunião e passava uma descompostura em todos os membros. Nem mesmo o augusto Nicholas Vedder escapava da língua atrevida daquela mulher terrível, que o acusou na cara de incentivar o marido dela na preguiça.

O pobre Rip ficou quase desesperado. A única saída que lhe restava, para fugir do trabalho do sítio e da gritaria da mulher, era pegar a espingarda e ir vagar pelos bosques. Lá, às vezes, ele se sentava ao pé de uma árvore e dividia o que levava no embornal com Wolf, de quem tinha pena como de um companheiro de sofrimento.

— Pobre Wolf — dizia ele —, sua dona faz você levar uma vida de cachorro. Mas não ligue, meu amigo: enquanto eu viver, nunca vai te faltar um amigo!

Wolf abanava o rabo, olhava o dono bem nos olhos e, se é que os cachorros sentem pena, acredito sinceramente que retribuía o sentimento de todo o coração.

Numa dessas longas andanças, num belo dia de outono, Rip tinha subido sem perceber até uma das partes mais altas das montanhas Catskill. Estava entregue ao seu esporte favorito, a caça de esquilos, e os tiros tinham ecoado várias vezes no silêncio daqueles ermos. Ofegante e cansado, ele se jogou, já no fim da tarde, sobre um morrinho verde, coberto de capim da montanha, que coroava a beira de um precipício.

Por uma abertura entre as árvores, Rip podia ver toda a região lá embaixo, léguas e léguas de matas fartas. Ao longe, muito, muito abaixo dele, via o majestoso Hudson seguindo seu curso silencioso e imponente, com o reflexo de uma nuvem roxa ou a vela de um barco preguiçoso aqui e ali, como que dormindo na superfície lisa como vidro, até o rio se perder nas serras azuis.

Do outro lado, avistava-se lá embaixo um vale fundo entre as montanhas, selvagem, solitário e cheio de mato, com o fundo coberto de pedaços de rocha caídos dos penhascos e quase sem luz, a não ser os reflexos do sol poente.

Rip ficou um tempo deitado, contemplando aquela paisagem. A tarde ia caindo aos poucos; as montanhas começavam a estender suas longas sombras azuis sobre os vales. Ele viu que a noite chegaria muito antes de ele alcançar a aldeia e deu um suspiro fundo ao pensar nos terrores que a senhora Van Winkle lhe reservava.

Quando ia começar a descer, ouviu uma voz que chamava de longe:

— Rip Van Winkle! Rip Van Winkle!

Olhou em volta, mas não viu nada além de um corvo que atravessava a montanha em seu voo solitário. Achou que a imaginação o tinha enganado e já se virava para descer quando ouviu o mesmo grito ecoar no ar parado da tarde:

— Rip Van Winkle! Rip Van Winkle!

Ao mesmo tempo, Wolf eriçou o pelo das costas, soltou um rosnado baixo e se encolheu junto do dono, olhando assustado para o vale lá embaixo. Um medo vago foi tomando conta de Rip. Ele olhou ansioso na mesma direção e percebeu uma figura estranha que subia devagar pelas pedras, curvada sob o peso de alguma coisa que carregava nas costas.

Rip ficou surpreso de ver um ser humano naquele lugar tão solitário e deserto; mas, imaginando que fosse algum vizinho precisando de ajuda, desceu depressa para oferecê-la.

De perto, ficou ainda mais surpreso com a aparência esquisita do desconhecido. Era um velho baixo e atarracado, de cabelo grosso e cheio e barba grisalha. Usava roupas à moda holandesa antiga: um gibão de pano preso com uma correia na cintura e vários calções, um por cima do outro, o de fora bem largo, enfeitado com fileiras de botões dos lados e franzido nos joelhos.

Nos ombros, o velho trazia um barril pequeno e robusto, que parecia cheio de bebida. Com um gesto, pediu que Rip se aproximasse e o ajudasse com a carga.

Embora um tanto tímido e desconfiado diante do novo conhecido, Rip atendeu com a prontidão de sempre. Revezando a carga, os dois subiram por uma grota estreita, que parecia o leito seco de um riacho de montanha.

Enquanto subiam, Rip de vez em quando ouvia longos estrondos, como trovões distantes, que pareciam sair de um desfiladeiro fundo, ou melhor, de uma fenda entre rochas altas, para onde levava aquele caminho áspero. Parou um instante, mas, imaginando que fosse o ronco de uma dessas trovoadas passageiras que tantas vezes caem nos picos, seguiu em frente.

Passando pela fenda, chegaram a uma espécie de bacia funda, como um pequeno anfiteatro, cercada de paredões a pique, de cujas beiradas as árvores debruçavam os galhos, de modo que só se via, de relance, um pedaço de céu azul e a nuvem clara do entardecer.

Durante todo esse tempo, Rip e o companheiro tinham subido em silêncio. Rip estava muito intrigado: para que carregar um barril de bebida montanha acima, num lugar tão selvagem? Mas havia alguma coisa estranha e incompreensível no desconhecido, que inspirava respeito e afastava qualquer intimidade.

Ao entrar no anfiteatro, Rip deparou com novas maravilhas. Num trecho plano, bem no meio, um grupo de figuras esquisitas jogava boliche, um jogo de nove pinos. Usavam roupas antiquadas e estranhas: uns tinham gibões curtos, outros jaquetas de couro com facas compridas no cinto, e a maioria vestia calções enormes, do mesmo estilo dos do guia.

As caras também eram peculiares. Um tinha a cabeça grande, o rosto largo e olhinhos miúdos de porco; outro parecia ser todo nariz e usava um chapéu branco, alto e pontudo como um pão de açúcar, enfeitado com uma peninha vermelha de galo. Todos tinham barba, de vários formatos e cores.

Havia um que parecia ser o comandante. Era um senhor velho e robusto, de rosto curtido pelo tempo; vestia um gibão com galões, um cinturão largo com um sabre curto, chapéu de copa alta com pluma, meias vermelhas e sapatos de salto alto enfeitados com rosetas. O grupo inteiro lembrava a Rip as figuras de um velho quadro flamengo que ficava na sala do reverendo Van Schaick, o pastor da aldeia, e que tinha vindo da Holanda na época da colonização.

O que Rip achou mais esquisito foi que, embora aquela gente estivesse claramente se divertindo, mantinha as caras mais sérias e o silêncio mais misterioso: era o grupo de folia mais tristonho que ele já tinha visto. Nada perturbava a quietude do lugar, a não ser o barulho das bolas, que retumbava pelas montanhas como trovão toda vez que elas rolavam.

Quando Rip e o companheiro se aproximaram, os jogadores pararam de repente e o encararam com um olhar tão fixo, de estátua, com caras tão estranhas, grosseiras e apagadas, que o coração dele deu um salto e os joelhos começaram a bater um no outro.

O companheiro despejou então o conteúdo do barril em grandes jarros e fez sinal para que Rip servisse o grupo. Rip obedeceu, tremendo de medo. Os homens beberam em profundo silêncio e depois voltaram ao jogo.

Pouco a pouco, o medo e a apreensão de Rip foram passando. Ele até se arriscou, quando nenhum olho estava voltado para ele, a provar a bebida, e achou que tinha muito o gosto de um excelente gim holandês. Rip nunca foi de recusar um gole, e logo se sentiu tentado a repetir. Um trago puxou outro, e ele voltou ao jarro tantas vezes que acabou perdendo os sentidos: a vista se turvou, a cabeça foi pendendo aos poucos, e ele caiu num sono profundo.

Ao acordar, viu que estava no morrinho verde de onde tinha avistado pela primeira vez o velho do vale. Esfregou os olhos. Era uma manhã clara e cheia de sol. Os passarinhos pulavam e cantavam entre os arbustos, e uma águia dava voltas lá no alto, de peito aberto à brisa pura da montanha.

“Com certeza não dormi aqui a noite inteira”, pensou Rip.

Ele se lembrou do que tinha acontecido antes de pegar no sono: o homem estranho com o barril de bebida, o desfiladeiro, o esconderijo selvagem entre as rochas, a turma tristonha jogando boliche, o jarro…

“Ah, aquele jarro! Aquele jarro maldito!”, pensou Rip. “Que desculpa eu vou dar para a minha mulher?”

Procurou a espingarda, mas, em vez da arma limpa e bem lubrificada, encontrou ao lado uma espingarda velha de pederneira, com o cano coberto de ferrugem, o fecho caindo e a coronha roída de cupim. Começou a desconfiar que os sérios farristas da montanha tinham lhe pregado uma peça: primeiro o tinham embebedado, depois tinham roubado a arma dele.

Wolf também tinha sumido, mas talvez tivesse saído atrás de um esquilo ou de uma perdiz. Rip assobiou e gritou o nome dele, mas foi tudo em vão: o eco repetiu o assobio e o grito, e cachorro nenhum apareceu.

Rip resolveu voltar ao lugar da farra da véspera e, se encontrasse alguém do grupo, pedir de volta o cachorro e a espingarda. Ao se levantar para andar, sentiu as juntas duras e percebeu que não tinha a agilidade de sempre.

“Essas camas de montanha não me fazem bem”, pensou Rip. “E se essa farra me deixar de cama com um ataque de reumatismo, vou estar bem arranjado com a minha mulher.”

Com alguma dificuldade, desceu até o vale e encontrou a grota pela qual ele e o companheiro tinham subido na tarde anterior. Para seu espanto, porém, agora descia por ela um riacho da montanha, espumando, pulando de pedra em pedra e enchendo o vale de murmúrios.

Mesmo assim, Rip deu um jeito de subir pelas margens, abrindo caminho a duras penas por moitas de bétula, sassafrás e hamamélis, às vezes tropeçando ou se enroscando nas videiras selvagens, que se enrolavam e estendiam suas gavinhas de árvore em árvore e formavam uma espécie de rede no caminho dele.

Por fim, chegou ao ponto onde o desfiladeiro se abria entre os penhascos para o anfiteatro, mas não havia mais sinal de abertura nenhuma. As rochas formavam um paredão alto e impenetrável, por cima do qual a água despencava num lençol de espuma leve como pluma e caía num poço largo e fundo, negro por causa da sombra da mata em volta. Ali, o pobre Rip teve de parar.

Chamou e assobiou outra vez pelo cachorro, e só lhe respondeu o grasnar de um bando de corvos à toa, que brincavam no alto, em volta de uma árvore seca debruçada sobre um precipício ensolarado. Lá de cima, seguros na sua altura, os corvos pareciam olhar para baixo e caçoar das aflições do pobre homem.

Que fazer? A manhã ia passando, e Rip estava morto de fome, sem o café da manhã. Dava pena desistir do cachorro e da espingarda; ele tinha pavor de encontrar a mulher; mas também não podia morrer de fome no meio das montanhas. Balançou a cabeça, pôs a espingarda enferrujada no ombro e, com o coração cheio de preocupação e aflição, tomou o caminho de casa.

Ao se aproximar da aldeia, encontrou várias pessoas, mas nenhuma conhecida, o que o surpreendeu um pouco, porque achava que conhecia todo mundo naquelas redondezas. As roupas delas também eram de um feitio diferente daquele a que estava acostumado.

Todo mundo olhava para ele com o mesmo espanto e, sempre que punha os olhos nele, passava a mão no queixo. De tanto ver esse gesto, Rip, sem querer, fez o mesmo e, para sua surpresa, descobriu que a barba tinha crescido mais de um palmo!

Rip já tinha entrado nos arredores da aldeia. Um bando de crianças desconhecidas corria atrás dele, vaiando e apontando para a barba grisalha. Os cachorros, nenhum deles conhecido, também latiam quando ele passava.

A própria aldeia tinha mudado: estava maior e mais cheia de gente. Havia fileiras de casas que ele nunca tinha visto, e aquelas que ele costumava frequentar tinham desaparecido. Nomes estranhos sobre as portas, caras estranhas nas janelas: tudo era estranho.

Começou a desconfiar de tudo e a se perguntar se ele e o mundo em volta não estariam enfeitiçados. Com certeza aquela era a aldeia onde tinha nascido e que tinha deixado apenas na véspera. Lá estavam as montanhas Catskill; lá corria, ao longe, o Hudson prateado; lá estavam todos os morros e vales, exatamente como sempre tinham sido. Rip estava completamente confuso.

“Aquele jarro de ontem à noite”, pensou ele, “deixou a minha pobre cabeça toda atrapalhada!”

Foi com certa dificuldade que achou o caminho de casa. Chegou perto em silêncio, com um temor respeitoso, esperando a todo momento ouvir a voz esganiçada da senhora Van Winkle. A casa estava em ruínas: o telhado tinha desabado, as janelas estavam quebradas, as portas fora das dobradiças.

Um cachorro meio morto de fome, parecido com Wolf, rondava por ali. Rip o chamou pelo nome, mas o vira-lata rosnou, mostrou os dentes e seguiu em frente. Aquilo doeu de verdade.

— Até o meu cachorro — suspirou o pobre Rip — se esqueceu de mim!

Entrou na casa, que, para dizer a verdade, a senhora Van Winkle sempre tinha mantido limpa e arrumada. Estava vazia, triste e, pelo jeito, abandonada. Rip esqueceu então todos os seus medos de marido e chamou bem alto pela mulher e pelos filhos. Os cômodos vazios ecoaram a voz dele por um instante, e depois tudo voltou ao silêncio.

Rip saiu às pressas para o seu velho refúgio, a estalagem da aldeia; mas ela também tinha sumido. No lugar dela havia um casarão de madeira, grande e caindo aos pedaços, com janelões escancarados, alguns quebrados e remendados com chapéus velhos e anáguas. Sobre a porta estava pintado: “Hotel União, de Jonathan Doolittle”.

Em vez da grande árvore que antes fazia sombra para a sossegada estalagem holandesa, agora se erguia um mastro alto e pelado, com uma coisa na ponta que parecia uma touca de dormir vermelha. Dele tremulava uma bandeira com um estranho ajuntamento de estrelas e listras. Tudo aquilo era esquisito e incompreensível.

Na tabuleta, porém, Rip reconheceu a cara vermelha do rei Jorge, debaixo da qual tinha fumado tantos cachimbos em paz. Mas até ela tinha passado por uma transformação curiosa. O casaco vermelho tinha virado um casaco azul com detalhes cor de camurça; a mão segurava uma espada em vez de um cetro; a cabeça estava coberta por um chapéu de três bicos; e embaixo estava pintado, em letras grandes: “GENERAL WASHINGTON”.

Como de costume, havia um monte de gente em volta da porta, mas ninguém de quem Rip se lembrasse. Até o jeito das pessoas parecia outro. Havia no ar um tom agitado, apressado, briguento, em vez da calma e da sonolência de sempre.

Rip procurou em vão o sábio Nicholas Vedder, com a cara larga, a papada e o belo cachimbo comprido, soltando nuvens de fumaça em vez de discursos vazios; ou Van Bummel, o mestre-escola, lendo em voz alta as notícias de um jornal velho. No lugar deles, um sujeito magro e azedo, com os bolsos cheios de panfletos, discursava com veemência sobre direitos dos cidadãos, eleições, membros do Congresso, liberdade, Bunker Hill, heróis de setenta e seis e outras palavras que, para o atordoado Van Winkle, eram puro grego.

A aparência de Rip, com aquela barba comprida e grisalha, a espingarda enferrujada, as roupas esquisitas e um exército de mulheres e crianças atrás dele, logo chamou a atenção dos políticos da taverna. Eles o cercaram e o olharam de cima a baixo com muita curiosidade. O orador veio apressado até ele e, puxando-o um pouco de lado, perguntou:

— De que lado o senhor vota?

Rip ficou olhando para ele, sem entender nada. Outro sujeitinho, baixo e agitado, o puxou pelo braço, ficou na ponta dos pés e perguntou no ouvido dele:

— O senhor é federalista ou democrata?

Rip continuava sem entender quando um velho senhor com ar de entendido e muito cheio de si, de chapéu de três bicos bem pontudo, abriu caminho pela multidão, afastando as pessoas para a direita e para a esquerda com os cotovelos. Parou bem na frente de Van Winkle, com uma das mãos na cintura e a outra apoiada na bengala. Os olhos penetrantes e o chapéu pontudo pareciam furar a alma de Rip. Então o velho perguntou, em tom severo:

— O que traz o senhor à eleição com uma espingarda no ombro e uma multidão atrás? Por acaso pretende armar um tumulto na aldeia?

— Ai, senhores! — exclamou Rip, um tanto assustado. — Eu sou um homem pobre e sossegado, nascido aqui mesmo, e súdito leal do rei, Deus o abençoe!

Nisso, os presentes explodiram numa gritaria:

— Um tory! Um espião! Um tory fugido! Empurrem esse homem! Fora com ele!

Foi com muita dificuldade que o homem do chapéu de três bicos restabeleceu a ordem. Franzindo a testa com uma severidade dez vezes maior, perguntou de novo ao desconhecido o que tinha ido fazer ali e quem estava procurando. O pobre homem garantiu, com humildade, que não queria fazer mal a ninguém: tinha vindo só à procura de alguns vizinhos que costumavam ficar pela taverna.

— Muito bem. E quem são eles? Diga os nomes.

Rip pensou um instante e perguntou:

— Onde está Nicholas Vedder?

Houve um breve silêncio, até que um velho respondeu, com voz fininha e esganiçada:

— Nicholas Vedder? Ora, ele morreu faz dezoito anos! Havia no cemitério uma lápide de madeira que contava tudo sobre ele, mas ela também apodreceu e sumiu.

— E Brom Dutcher?

— Ah, esse foi para o exército no começo da guerra. Uns dizem que morreu no ataque a Stony Point; outros, que se afogou numa tempestade ao pé do morro Antony’s Nose. Não sei. Só sei que nunca mais voltou.

— E Van Bummel, o mestre-escola?

— Também foi para a guerra. Virou um grande general da milícia e agora está no Congresso.

Rip ficou de coração apertado ao ouvir falar dessas tristes mudanças na sua terra e entre os seus amigos, e ao se ver assim sozinho no mundo. Cada resposta também o deixava mais confuso, porque falava de anos e anos passados e de coisas que ele não entendia: guerra, Congresso, Stony Point. Ele não teve coragem de perguntar por mais nenhum amigo e gritou, desesperado:

— Aqui ninguém conhece Rip Van Winkle?

— Ah, Rip Van Winkle! — exclamaram dois ou três. — Claro! Rip Van Winkle é aquele ali, encostado na árvore.

Rip olhou e viu uma cópia exata de si mesmo, tal como era quando tinha subido a montanha: pelo jeito tão preguiçoso quanto ele e, com certeza, tão esfarrapado quanto. O pobre homem ficou completamente atordoado. Duvidou de quem era, sem saber se era ele mesmo ou outra pessoa. No meio dessa confusão, o homem do chapéu de três bicos quis saber quem ele era e qual era o nome dele.

— Só Deus sabe! — exclamou Rip, já sem saber o que pensar. — Eu não sou eu… sou outro… aquele ali sou eu… não, aquele é outro, que entrou no meu lugar… Ontem à noite eu era eu, mas peguei no sono na montanha, e trocaram a minha espingarda, e tudo mudou, e eu mudei, e não sei dizer qual é o meu nome nem quem eu sou!

Os presentes começaram a se entreolhar, a balançar a cabeça, a piscar uns para os outros com ar de quem entende e a bater com o dedo na testa. Também se cochichou que era melhor tirar a espingarda dele, antes que o velho fizesse alguma besteira; e só de ouvir essa ideia o homem do chapéu de três bicos recuou, com certa pressa.

Nesse momento crítico, uma mulher jovem e bonita, de rosto viçoso, abriu caminho pela multidão para dar uma espiada no velho de barba grisalha. Trazia nos braços uma criança gorducha que, assustada com a aparência dele, começou a chorar.

— Quieto, Rip — disse ela. — Quieto, seu bobinho. O velho não vai fazer mal a você.

O nome da criança, o jeito da mãe, o tom da voz dela, tudo despertou em Rip uma porção de lembranças.

— Qual é o seu nome, minha senhora? — perguntou ele.

— Judith Gardenier.

— E o nome do seu pai?

— Ah, coitado! Rip Van Winkle era o nome dele, mas faz vinte anos que ele saiu de casa com a espingarda e nunca mais se teve notícia dele. O cachorro voltou para casa sozinho. Se o meu pai se matou com um tiro ou se foi levado pelos indígenas, ninguém sabe dizer. Eu era só uma menininha.

Rip tinha só mais uma pergunta a fazer, e a fez com a voz trêmula:

— E a sua mãe?

— Ah, ela também morreu, faz pouco tempo. Estourou uma veia num acesso de raiva contra um mascate da Nova Inglaterra.

Havia, ao menos, uma gota de consolo nessa notícia. O bom homem não conseguiu mais se conter e apertou nos braços a filha e a criança.

— Eu sou o seu pai! — exclamou. — O jovem Rip Van Winkle de antes, o velho Rip Van Winkle de agora! Ninguém conhece o pobre Rip Van Winkle?

Todos ficaram pasmos, até que uma velhinha saiu cambaleando do meio da multidão, pôs a mão sobre os olhos, como a aba de um chapéu, espiou o rosto dele por um instante e exclamou:

— É ele mesmo! É Rip Van Winkle, é ele em pessoa! Seja bem-vindo de volta, meu velho vizinho. Mas me diga, onde é que você andou esses vinte longos anos?

A história de Rip foi contada depressa, porque os vinte anos inteiros tinham sido para ele como uma única noite. Os vizinhos arregalaram os olhos ao ouvi-la; alguns trocaram piscadelas e fizeram cara de deboche. O homem do chapéu de três bicos, que tinha voltado ao campo de batalha assim que o susto passou, torceu os cantos da boca e balançou a cabeça; e, com isso, a assembleia inteira balançou a cabeça também.

Resolveram, no entanto, ouvir a opinião do velho Peter Vanderdonk, que vinha subindo devagar pela estrada. Ele descendia do historiador do mesmo nome, que tinha escrito um dos primeiros relatos sobre a província. Peter era o morador mais antigo da aldeia e conhecia a fundo todos os acontecimentos maravilhosos e as tradições da região. Reconheceu Rip na mesma hora e confirmou a história dele da maneira mais convincente.

Garantiu aos presentes que era um fato, transmitido desde o antepassado historiador, que as montanhas Catskill sempre tinham sido assombradas por seres estranhos. Contavam que o grande Hendrick Hudson, o primeiro a descobrir o rio e a região, fazia ali uma espécie de vigília a cada vinte anos, com a tripulação da Meia-Lua. Desse modo, Hudson tinha permissão para voltar aos lugares da sua aventura e vigiar o rio e a grande cidade que levava o nome dele.

O pai de Peter tinha visto aqueles homens uma vez, com suas roupas holandesas antigas, jogando boliche na bacia escondida da montanha; e o próprio Peter tinha ouvido, numa tarde de verão, o barulho das bolas, como trovões distantes.

Para encurtar a história, o grupo se dispersou e voltou aos assuntos mais importantes da eleição. A filha de Rip o levou para morar com ela. Judith tinha uma casa aconchegante e bem mobiliada e, como marido, um fazendeiro alegre e robusto, em quem Rip reconheceu um dos moleques que viviam subindo nas costas dele.

Quanto ao filho e herdeiro de Rip, aquele que era a cópia dele e estava encostado na árvore, foi posto para trabalhar no sítio; mas mostrou uma tendência hereditária para cuidar de qualquer coisa, menos do próprio serviço.

Rip retomou os velhos passeios e os velhos costumes. Logo encontrou muitos dos antigos companheiros, embora todos meio gastos pelo tempo, e preferiu fazer amizade com a nova geração, que logo passou a gostar muito dele.

Como não tinha nada para fazer em casa e tinha chegado àquela idade feliz em que um homem pode ficar à toa sem levar bronca, voltou a ocupar seu lugar no banco, à porta da estalagem. Lá passou a ser venerado como um dos patriarcas da aldeia e uma crônica viva dos velhos tempos “de antes da guerra”.

Levou algum tempo até ele entrar de novo no ritmo dos mexericos e conseguir entender os acontecimentos estranhos que tinham se passado enquanto dormia: que tinha havido uma guerra de revolução, que o país tinha sacudido o jugo da velha Inglaterra e que, em vez de súdito de Sua Majestade, o rei Jorge III, ele agora era um cidadão livre dos Estados Unidos.

Rip, na verdade, não era nenhum político; as mudanças de Estados e impérios pouco o impressionavam. Mas havia uma espécie de opressão sob a qual ele tinha gemido por muito tempo: o mando da mulher dentro de casa. Felizmente, essa tinha acabado. Ele tinha tirado o pescoço da canga do casamento e podia entrar e sair quando bem entendesse, sem medo da tirania da senhora Van Winkle.

Mesmo assim, sempre que alguém mencionava o nome dela, ele balançava a cabeça, encolhia os ombros e erguia os olhos para o céu, o que podia ser tanto sinal de resignação com o destino como de alegria pela liberdade.

Rip costumava contar a sua história a todo forasteiro que chegava ao hotel do senhor Doolittle. No começo, notaram que ele mudava alguns detalhes cada vez que a contava, sem dúvida porque tinha acordado havia tão pouco tempo. Por fim, a história se firmou exatamente como eu a contei aqui, e não havia homem, mulher ou criança na vizinhança que não a soubesse de cor.

Alguns sempre fingiram duvidar que fosse verdade e insistiam que Rip tinha perdido o juízo e que, nesse ponto, continuava meio aéreo. Os velhos moradores holandeses, porém, quase todos, acreditavam nela por inteiro.

Até hoje, nunca ouvem uma trovoada numa tarde de verão lá pelos lados das Catskill sem dizer que Hendrick Hudson e a tripulação estão jogando a sua partida de boliche. E todos os maridos mandados pela mulher, naquela vizinhança, quando a vida fica pesada demais, têm o mesmo desejo: tomar um gole bem sossegado do jarro de Rip Van Winkle.

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## About this tale

“Rip Van Winkle” foi escrito por Washington Irving e saiu em 1819, em Nova York, no primeiro número de “The Sketch Book of Geoffrey Crayon, Gent.”, publicado em fascículos sob o pseudônimo Geoffrey Crayon. Irving apresenta o conto como um texto achado entre os papéis do falecido Diedrich Knickerbocker, outro narrador inventado.

A redação de Irving quase não mudou depois de 1819. Em edições posteriores, a nota do fim passou a citar o imperador Frederico Barba-Ruiva em vez de Carlos V, e o conto ganhou um pós-escrito com lendas das montanhas Catskill. Nossas duas versões partem do texto do Project Gutenberg e deixam de fora a nota e o pós-escrito.

> Será que ninguém aqui conhece Rip Van Winkle?
>
> Washington Irving, The Sketch-Book (Project Gutenberg): Does nobody here know Rip Van Winkle?

### O conto de Irving e uma lenda alemã mais antiga

|  | Irving (1819) | Otmar, “Der Ziegenhirt” (1800) |
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| Quem dorme | Rip, aldeão preguiçoso, dominado pela mulher | Peter Klaus, pastor de cabras de Sittendorf |
| Onde | montanhas Catskill, perto do rio Hudson | o Kyffhäuser |
| Como chega lá | ajuda um velho a carregar um barril | segue uma cabra por uma fenda em muros velhos |
| Quem joga | homens calados em roupas holandesas antigas | doze cavaleiros sérios que não dizem nada |
| O jogo | boliche; Rip serve a bebida | boliche; Peter levanta os pinos |
| A bebida | gim holandês | vinho de uma jarra que nunca seca |
| Quanto tempo | vinte anos | vinte anos |
| O sinal | todos alisam o queixo; a barba cresceu | todos levam a mão ao queixo; a barba cresceu |

### O que fazem as nossas duas versões

Recontamos o texto de Irving em duas versões, e você pode escolher qual ler: a “Mais suave”, com 80 parágrafos, e a “Original”, mais longa, com 136. Nenhuma delas traz a moldura de Knickerbocker; as duas começam no rio Hudson e nas montanhas Catskill. A “Mais suave” corta algumas falas, como a pergunta se Rip é federalista ou democrata e as duas hipóteses de Judith sobre o sumiço do pai: na “Original”, ela diz que ninguém sabe se ele se matou com um tiro ou se foi levado pelos indígenas. Nas duas, quem explica quem eram os homens do boliche é o velho Peter Vanderdonk: segundo ele, Hendrick Hudson volta às montanhas a cada vinte anos com a tripulação do Meia-Lua.

Rip adormece depois de beber do gim dos desconhecidos. Quando volta, fica sabendo que a mulher morreu: uma veia se rompeu num acesso de raiva contra um mascate. O conto trata a notícia como um alívio para ele, e nenhuma cena mostra alguém se machucando.

### Histórias parecidas e uma confusão

Em 1800, com o pseudônimo Otmar, Johann Karl Christoph Nachtigal publicou em Bremen o livro “Volcks-Sagen”, com a lenda “Der Ziegenhirt”. Nela, o pastor Peter Klaus encontra no Kyffhäuser doze cavaleiros calados que jogam boliche, bebe do vinho deles, dorme e volta vinte anos depois; conta à filha Marie quem é, e então as pessoas o reconhecem. No mesmo livro, “Der verzauberte Kaiser” mostra o imperador Frederico num trono de ouro dentro dessa montanha, com a barba ruiva atravessando a mesa de pedra. A nota no fim do conto de Irving admite que se poderia suspeitar que a história de Rip nasceu de uma pequena superstição alemã sobre o Kyffhäuser, mas garante, de brincadeira, que tudo é verdade. Nenhuma fonte que lemos diz que Irving conhecia o livro de Otmar.

Outro sono longo do nosso site é o de “A Bela Adormecida”, que dura cem anos por causa de um feitiço. Rip dorme vinte, o texto não fala em feitiço, e ele acorda sozinho no morro.

Sources (claims checked against them on 2026-10-30):
- 1819: Rip Van Winkle, The Sketch Book of Geoffrey Crayon, Gent., nº I, New-York, C. S. Van Winkle, 1819, pp. 55–94 (https://archive.org/details/irvingsketchbook)
- Rip Van Winkle, The Sketch-Book of Geoffrey Crayon, com o prefácio de 1848, Project Gutenberg nº 2048 [our source] (https://www.gutenberg.org/ebooks/2048)
- 1800: Der Ziegenhirt, Otmar [J. K. C. Nachtigal], Volcks-Sagen, 1ª ed., Bremen, Wilmans, 1800, pp. 153–158 (https://de.wikisource.org/wiki/Der_Ziegenhirt)
- 1800: Der verzauberte Kaiser, Otmar [J. K. C. Nachtigal], Volcks-Sagen, 1ª ed., Bremen, Wilmans, 1800, pp. 161–166 (https://de.wikisource.org/wiki/Der_verzauberte_Kaiser)
- Wikidata Q1129589 (https://www.wikidata.org/wiki/Q1129589)

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- Read online: https://talerie.com/pt/contos/rip-van-winkle-original
- Version: longer, more faithful retelling; the gentler retelling: https://talerie.com/pt/contos/rip-van-winkle.md
- Also in: [English](https://talerie.com/en/tales/rip-van-winkle-original.md), [French](https://talerie.com/fr/contes/rip-van-winkle-original.md), [Spanish](https://talerie.com/es/cuentos/rip-van-winkle-original.md), [Polish](https://talerie.com/pl/bajki/rip-van-winkle-original.md)
- Author's country: United States (https://talerie.com/pt/contos/pais/estados-unidos)
- Wikidata: https://www.wikidata.org/wiki/Q1129589
- Source: Rip Van Winkle, from The Sketch-Book of Geoffrey Crayon by Washington Irving (Project Gutenberg #2048) (https://www.gutenberg.org/ebooks/2048)
- Public-domain basis: Talerie contemporary retelling (CC0 2026), based on: Rip Van Winkle, from The Sketch-Book of Geoffrey Crayon by Washington Irving (Project Gutenberg #2048) — original: author died 1859 (+70 passed)
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