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Uma jovem de longos cabelos negros senta-se numa pedra à beira do rio ao anoitecer, entre vitórias-régias, com um palácio dourado brilhando no fundo da água.

A Lenda da Mãe d’Água

Sílvio Romero

5 min de leituraa partir dos 7 anos

Filha de uma fada e do rei da Lua, a princesa manda em todos os mares e rios e se casa com o filho do Sol. Quando volta, depois de anos à procura da mãe, a Mãe d’Água encontra o filho servindo na cozinha, leva o menino pela mão para o fundo das águas e manda o mar subir sobre o rei e a nova rainha.


Era uma vez uma princesa, filha de uma fada e do rei da Lua. No dia em que ela nasceu, a fada declarou diante de toda a corte: aquela menina seria a rainha de todas as águas da terra e mandaria em todos os mares e em todos os rios.

Foi dali que veio o nome pelo qual ela ficou conhecida, Mãe d’Água. Em muitos rios do Brasil ela ganhou ainda outro nome, e é por esse que muita gente a chama até hoje: Iara.

A princesa era bonita como poucas, e não faltou príncipe que se apaixonasse por ela. Quem a conquistou, porém, foi o filho do Sol, e não foi com palavras: enfrentou um por um todos os rivais em combate e venceu todos.

O casamento teve festas, danças e banquetes que duraram sete dias e sete noites, na casa do rei da Lua. Acabada a última dança, os noivos partiram para a casa do Sol.

A moça dança com um rapaz de túnica dourada e halo de luz atrás da cabeça, num terraço de pedra à beira do rio, entre convidados, músicos e lanternas.

Foi ali que a Mãe d’Água fez ao marido o seu primeiro pedido.

— Quero passar o ano inteiro com você, menos três meses de cada ano — disse ela. — Esses três eu passo com a minha mãe, no fundo do mar.

— Que sejam três meses, então — respondeu o filho do Sol.

Ele consentiu sem pensar duas vezes, porque fazia todas as vontades da mulher.

E assim foi, ano após ano. Quando chegava o tempo, a Mãe d’Água descia ao palácio da fada, lá embaixo do mar, um palácio todo de ouro e de diamantes, e cumpria ali os três meses combinados. Depois voltava, e o marido a esperava na porta.

Passou muito tempo até que a rainha deu à luz um menino. Não houve na casa do Sol alegria maior do que aquela.

Quando chegou de novo a época da viagem, a mãe quis levar o filho consigo.

— Deixe que ele vá comigo — pediu. — São só três meses, e volto com ele pela mão.

O rei não consentiu. Ela rogou, pediu, insistiu, e não houve jeito. No fim partiu sozinha, e da soleira ainda recomendou ao marido que cuidasse bem do menino.

No palácio do fundo do mar, porém, não encontrou a mãe. A fada tinha sido transformada em flor, e não havia ali quem soubesse dizer onde ela estava.

Então a Mãe d’Água saiu a correr mundo. Perguntou aos peixes dos rios, perguntou às areias do mar, perguntou às conchas das praias.

— Vocês viram a minha mãe?

Nenhum deles respondeu. A rainha de todas as águas percorreu o seu próprio reino de ponta a ponta e voltou de mãos abanando.

Na água rasa de uma praia deserta ao luar, a moça se curva de mãos estendidas para um cardume de peixes prateados, o rosto aflito e o cabelo na água.

Chorou tanto, e por tanto tempo, que o rei das fadas acabou se compadecendo dela. Perdoou a fada e desfez o encanto. Mãe e filha se abraçaram e, sem perder um minuto, tomaram o caminho da casa do filho do Sol.

Só que já tinha passado tempo demais. Não meses: anos.

Na casa do Sol, o rei havia perdido a esperança de ver a mulher voltar. E, como sempre acontece quando falta notícia, apareceu quem inventasse uma. Correu pela corte a história de que a rainha tinha se apaixonado por um príncipe estrangeiro e que era por isso que ficava longe.

O rei acreditou e casou-se com outra princesa. A nova rainha não quis o menino por perto. Mandou-o viver na cozinha, entre a fumaça e a louça, e fez dele o último dos criados da casa. Ninguém ali teve coragem de tomar as dores dele.

Foi assim que a mãe o encontrou. Vinha chegando, ainda longe do portão, e a primeira pessoa que viu foi o próprio filho, sujo e maltratado, carregando um balde grande demais para ele.

Reconheceu-o no mesmo instante. E ele lhe contou tudo.

A Mãe d’Água não disse uma palavra ao rei. Pegou o menino pela mão e desceu com ele para o fundo das águas.

Lá de baixo, deu a sua ordem. E as águas, que sempre lhe obedeceram, começaram a subir.

Subiram devagar, pelo jardim, pela escadaria, pelas salas de festa, até cobrirem o palácio inteiro, o rei, a nova rainha e todos os que tinham espalhado a mentira. Quando pararam, o mar estava liso e calado, como se nunca tivesse havido nada ali.

Salão submerso e sem ninguém: escadaria e portas abaixo da água, taças e pratos de ouro e guirlandas de rosas boiando, uma vela acesa perto do teto.

Ninguém nunca mais viu a Mãe d’Água. E dizem que é melhor assim, porque quem põe os olhos nela fica encantado na mesma hora, cai na água e se afoga.

Recontado pela Talerie, fonte: Contos Populares do Brazil (abre em uma nova janela)Licença: Domínio público