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Uma jovem de longos cabelos negros senta-se numa pedra à beira do rio ao anoitecer, entre vitórias-régias, com um palácio dourado brilhando no fundo da água.

A Lenda da Mãe d’Água

Sílvio Romero

7 min de leitura7–11 anos

Filha de uma fada e do rei da Lua, a Mãe d’Água se torna rainha de todas as águas e se casa com o filho do Sol, mas, ao procurar a mãe desaparecida e perguntar em vão aos peixes, às areias e às conchas, acaba longe tempo demais e encontra o marido casado com outra mulher que maltrata seu filho. Ao reconhecer o menino, ela o leva com ela para o fundo das águas, que sobem e cobrem para sempre o palácio, e desde então quem a avista é encantado e desaparece nas ondas.


Era uma vez, há muito tempo, uma princesa filha de uma fada e do rei da Lua, que desde pequena tinha nos olhos aquele brilho prateado que só existe nas noites de céu limpo. Quando cresceu, sua mãe decidiu que ela governaria todas as águas da terra: cada rio que corre entre as pedras, cada lago escondido nas montanhas, cada mar que se estende até onde a vista alcança seriam seus. Foi assim que ela se tornou rainha das águas do mundo inteiro, e o povo, com carinho, passou a chamá-la de Mãe d’Água. Em muitos lugares do Brasil ela é conhecida também por outro nome: Iara.

A fama de sua beleza correu por todos os reinos, e não foram poucos os príncipes que atravessaram florestas e desertos só para pedi-la em casamento. Vieram príncipes de terras de gelo, príncipes de terras de fogo, príncipes que chegavam montados em cavalos brancos e outros que chegavam em barcos de vela dourada. Mas foi o filho do Sol quem conquistou seu coração, depois de enfrentar e vencer, um por um, todos os que ousaram desafiá-lo.

O casamento foi celebrado no palácio do rei da Lua, com festas, danças e banquetes que duraram sete dias e sete noites seguidas. Contam que, durante aquela semana inteira, nenhuma vela se apagou e nenhuma música parou de tocar. Quando as celebrações finalmente chegaram ao fim, os recém-casados se despediram do rei da Lua e partiram para o reino do Sol, onde iriam viver juntos.

Já instalada em seu novo lar, a Mãe d’Água fez um pedido ao marido: que a deixasse passar três meses de cada ano junto de sua mãe, no fundo do mar, onde a fada tinha um palácio todo feito de ouro e diamantes. O restante do ano, prometeu ela, seria inteiramente do marido. O príncipe a amava tanto que não soube negar-lhe coisa alguma, e aceitou de bom grado. E assim, todos os anos, quando chegava a época combinada, a Mãe d’Água mergulhava nas ondas e descia até as profundezas, onde as paredes do palácio de sua mãe brilhavam à luz que atravessava a água, entre corredores de coral e jardins de algas prateadas, e ali cumpria, fiel e feliz, os três meses do acordo.

Os anos foram passando dessa maneira tranquila, até que a jovem rainha deu à luz um filho, um menino de riso fácil que encantava todo o palácio do Sol. Quando voltou a se aproximar a época de visitar sua mãe, ela quis levar o pequeno príncipe com ela, mas o marido não permitiu de jeito nenhum: temia demais por aquela criança tão querida e implorou tanto que ela acabasse cedendo. A rainha partiu então sozinha, com o coração já sentindo saudade, deixando com o marido um pedido guardado no peito: que cuidasse do filho de ambos com todo o zelo, até o dia em que ela voltasse.

Mas, ao chegar ao palácio de sua mãe, ela não a encontrou em lugar nenhum: a fada, sua mãe, fora transformada em flor, e assim ficara, muda entre as pedras do fundo do oceano. Desesperada, a Mãe d’Água saiu correndo pelo mundo à procura dela, sem parar para descansar, sem parar para comer, atravessando mares, rios e florestas, subindo montanhas e descendo vales, em busca de qualquer sinal que a levasse até sua mãe.

Perguntou aos peixes dos rios por sua mãe, e os peixes nadaram em silêncio ao seu redor, sem saber o que dizer. Perguntou às areias do mar por sua mãe, e as areias ficaram quietas sob o vento que passava, sem saber o que dizer. Perguntou às conchas das praias por sua mãe, e as conchas se calaram na beira da água, sem saber o que dizer. De costa em costa, de rio em rio, ela chorou e sofreu tanto que sua tristeza atravessou o mundo inteiro e chegou até o reino das fadas.

Comovido com tamanha dor, e depois de ouvi-la chorar dia e noite sem descanso, o rei das fadas teve pena da jovem rainha e desfez o encantamento que prendia sua mãe havia tanto tempo. Num instante, a flor voltou a ser a fada de sempre, e mãe e filha se abraçaram, aliviadas. Sem perder um só momento, as duas partiram apressadas de volta ao reino do Sol, onde o príncipe e o pequeno filho dela esperavam.

Mas tanto tempo havia se passado durante aquela longa busca que o jovem rei, vendo que a esposa não voltava, caiu num desespero profundo. Ele já não sabia mais o que pensar, e foi nesse silêncio de tristeza que se espalhou pela corte um boato cruel: diziam que a rainha se apaixonara por um príncipe estrangeiro e que, por isso, deixara de retornar para casa. O rei, ferido e sem saber a verdade, acabou acreditando na mentira, e casou-se com outra princesa.

A nova rainha não tardou a mostrar quem era de fato. Não gostava do menino, filho de outra mulher, e pouco a pouco foi tirando dele tudo o que lhe cabia por direito de nascença: seus aposentos, suas roupas finas, seu lugar à mesa ao lado do pai. Por fim, mandou que ele fosse trabalhar na cozinha do palácio, no meio da fumaça e do trabalho pesado, como se fosse um simples criado, e ninguém na corte, por medo da nova rainha, ousou defendê-lo.

Foi assim que a Mãe d’Água o encontrou, no dia em que finalmente chegou de volta ao seu antigo lar, cansada da longa viagem mas com o coração cheio de esperança. A primeira pessoa que viu, ao entrar pelos portões do palácio, foi o próprio filho: sujo, maltratado, curvado sobre o trabalho pesado da cozinha. Reconheceu-o na mesma hora, e bastou olhar para ele para compreender tudo o que havia acontecido durante sua longa ausência.

Sem dizer palavra a ninguém da corte, a Mãe d’Água pegou o filho pela mão e fugiu com ele para as profundezas das águas, de onde tinha vindo. E ali, por sua ordem, as águas começaram a subir, devagar a princípio, depois com força, subindo e subindo até cobrirem o palácio inteiro, o rei que acreditara na mentira, a nova rainha que maltratara seu filho, e todos os cortesãos que haviam espalhado aquele boato cruel.

Desde aquele dia, ninguém mais voltou a ver a Mãe d’Água: quem tem a sorte, ou o azar, de avistá-la à beira da água fica encantado na mesma hora e desce com ela para o fundo das águas, sem nunca mais voltar à superfície.

Recontado pela Talerie, Fonte: Contos Populares do Brazil (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público