
O Pescador e Sua Mulher
9 min de leitura8–12 anos
Um pescador encontra um linguado encantado que se revela um príncipe e lhe concede desejos, mas sua mulher, sempre insatisfeita, o força a pedir cada vez mais — uma casa, um castelo, reino, império, papado — até que sua ganância a leva a desejar poderes divinos. Quando ela pede para ser como Deus, o linguado silenciosamente a devolve à cabana pobre onde tudo começou, e lá ela e o marido permanecem para sempre.
Era uma vez um pescador e sua mulher, que viviam juntos numa cabana pequena e pobre, bem à beira do mar. Todos os dias o pescador saía para pescar, e assim pescava e pescava, dia após dia.
Um dia, estava sentado com sua vara, olhando a água clara, quando, de repente, a linha foi puxada para o fundo, bem para o fundo. Ao recolhê-la, viu que havia pescado um linguado enorme. E o linguado falou:
— Escute, pescador, deixe-me viver. Eu não sou um linguado de verdade, sou um príncipe encantado. De que lhe serviria me comer? Eu nem teria bom gosto. Ponha-me de volta na água e deixe-me nadar.
— Bem — disse o homem —, não precisa fazer tanto discurso. Um linguado que sabe falar, eu já ia soltar mesmo.
E colocou-o de volta na água clara. O linguado desceu até o fundo, deixando atrás de si um fino risco vermelho na água. O pescador se levantou e voltou para casa, para junto de sua mulher.
— Marido — disse a mulher —, você não pescou nada hoje? — Não — disse o homem. — Peguei um linguado que disse ser um príncipe encantado, então eu o deixei ir. — E você não pediu nada a ele? — perguntou a mulher. — Não — disse o homem. — O que eu iria pedir? — Ah — disse a mulher —, é uma desgraça viver sempre nesta cabana miserável, que cheira mal e é tão apertada. Você podia ao menos ter pedido uma casinha para nós. Vá lá de novo e chame-o. Diga que queremos uma casa. Ele certamente vai fazer isso.
O homem não queria ir, mas também não queria contrariar sua mulher, e assim desceu até o mar. Quando chegou, a água estava toda verde e amarela, não mais tão clara como antes. Ele se aproximou da margem e disse:
— Homenzinho, homenzinho, venha me ajudar, linguado, ó linguado, lá no fundo do mar, minha mulher, a Ilsabel, não se contenta, sempre quer um novo papel.
O linguado veio nadando e perguntou: — Então, o que ela quer? — Ah — disse o homem —, eu o peguei, sabe, e agora minha mulher diz que eu deveria ter pedido algo. Ela quer uma casinha, em vez da cabana. — Vá para casa — disse o linguado. — Ela já a tem.
E quando o homem voltou, sua mulher não estava mais na cabana, mas sentada num banco diante de uma bela casinha, e o puxou pela mão. — Venha ver como está melhor agora!
Lá dentro havia uma salinha, um quarto com cama, cozinha e despensa, tudo bem arrumado com panelas de estanho e latão, e nos fundos um pequeno quintal com galinhas e patos, e uma horta com verduras e frutas.
— Não está bonito? — perguntou a mulher. — Sim — disse o homem. — Que fique assim, agora vamos ficar contentes. — Isso a gente pensa depois — disse a mulher.
E comeram e foram dormir.
Passaram-se oito, talvez quatorze dias, e a mulher disse: — Escute, marido, esta casinha é muito apertada, e a horta é pequena demais. O linguado bem que podia nos dar um grande castelo. Vá lá e diga que queremos um castelo de pedra. — Ah, mulher — disse o homem —, a casinha já é boa o bastante. — Vá você mesmo lá — disse a mulher. — O linguado certamente pode fazer isso.
O coração do homem ficou pesado, mas ele foi. O mar agora estava roxo e azul-escuro e cinza, mas ainda calmo. Ele disse:
— Homenzinho, homenzinho, venha me ajudar, linguado, ó linguado, lá no fundo do mar, minha mulher, a Ilsabel, não se contenta, sempre quer um novo papel.
— O que ela quer agora? — perguntou o linguado. — Ela quer morar num grande castelo de pedra — disse o homem, aflito. — Vá para lá, ela já está na porta.
E assim era: um grande palácio de pedra se erguia ali, com criados, móveis dourados, lustres de cristal, tapetes macios. Atrás, um jardim com as flores mais belas, e um bosque cheio de corços e lebres.
— Agora sim vamos ficar assim — disse o homem. — Isso a gente pensa depois — disse a mulher, e foram dormir.
Na manhã seguinte, a mulher despertou primeiro e viu as belas terras se estendendo diante da janela. Cutucou o marido: — Não poderíamos ser reis de toda essa terra? Vá até o linguado, eu quero ser rainha. — Ah, mulher, por que rainha? — Bem — disse ela —, se você não quer ir, eu mesma vou. Vá lá.
Contrariado, o homem foi. O mar agora estava cinza-escuro, fervia por dentro e cheirava a coisa podre. Ele disse o verso, e o linguado perguntou o que ela queria agora. — Ela quer ser rainha — disse o homem, triste. — Vá para lá, ela já é.
Quando chegou ao castelo, este era ainda maior, com torres, guardas, trombetas. Sua mulher estava sentada num trono dourado, uma coroa na cabeça, o cetro na mão. — Ah, mulher, como isso combina com você! — disse ele. — Não — disse ela, inquieta. — Isso já não me basta. Vá até o linguado, eu quero ser imperatriz. — Mas, mulher, imperador só existe um. Isso o linguado não pode fazer. — Eu sou rainha, você é só meu marido. Vá agora mesmo!
Cheio de medo, ele foi. O mar estava negro e espumava, e um redemoinho selvagem passava por cima das águas. Ele disse o verso e contou o desejo, e o linguado apenas respondeu: — Vá para lá, ela já é.
Desta vez o castelo era de mármore com ornamentos de ouro, príncipes e duques serviam como criados, e sua mulher estava sentada num trono ainda mais alto, com uma coroa enorme, rodeada de guardas, grandes e pequenos.
— Você já é imperatriz? — perguntou ele. — Sim — disse ela. — Mas agora quero ser papa. Vá até o linguado. — Ah, mulher, papa só existe um em toda a cristandade. Isso não é possível. — Vá agora, imediatamente! — disse ela, e as pernas dele tremiam quando saiu de novo pelo caminho.
Agora uma tempestade se erguia lá fora, nuvens voavam, folhas se arrancavam das árvores, o mar fervia e batia contra a costa, navios distantes lançavam sinais de socorro. O céu estava meio azul, meio vermelho, como antes de uma tormenta. Assustado, o homem disse seu verso, e o linguado respondeu: — Vá para lá, ela já é.
Encontrou então uma grande igreja, rodeada de palácios, mil luzes ardendo lá dentro, e sua mulher, vestida toda de ouro, com três coroas na cabeça, enquanto imperadores e reis se ajoelhavam diante dela.
— Você já é papa? — perguntou ele, baixinho. — Sim — disse ela.
Ele a olhou longamente e disse: — Agora sim, fique contente, mais do que isso você não pode ser. — Isso eu penso depois — foi tudo o que ela disse.
Mas naquela noite a mulher não conseguiu dormir. Pensava e pensava no que mais poderia se tornar, e não encontrava sossego. Quando o sol nasceu, ela se ergueu e viu sua luz subindo pelo céu. E pensou: "Não poderia eu mesma fazer o sol e a lua nascerem?" E cutucou o marido, acordando-o: — Vá até o linguado. Eu quero ser como o bom Deus.
O homem se assustou tanto que quase caiu da cama. — Ah, mulher, isso o linguado não pode fazer. Por favor, fique sendo papa, já é tanta coisa.
Mas a mulher ficou furiosa, os olhos selvagens, e gritou: — Eu não aguento mais! Vá imediatamente!
Lá fora agora uma tempestade rugia como nunca antes se vira. Casas quase voavam pelos ares, árvores se quebravam, pedras rolavam para o mar, o céu estava negro como pez, relâmpagos e trovões cortavam o ar, e o mar levantava ondas altas como torres, com espuma branca no alto. O homem quase não conseguia se manter em pé. Gritou, quase contra o vento, seu verso:
— Homenzinho, homenzinho, venha me ajudar, linguado, ó linguado, lá no fundo do mar, minha mulher, a Ilsabel, não se contenta, sempre quer um novo papel.
— O que ela quer agora? — perguntou o linguado. — Ah — disse o homem —, ela quer ser como o bom Deus.
O linguado ficou calado por um instante. Depois disse, bem tranquilo: — Vá para lá. Ela já está sentada de novo na cabana pobre.
E ali, na pequena e humilde cabana à beira do mar, vivem eles até hoje, o pescador e sua mulher.