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A Pequena Sereia

A Pequena Sereia

Hans Christian Andersen

11 min de leitura8–14 anos

No fundo do oceano, a jovem sereia da cauda de peixe fascina-se por um príncipe humano resgatado de um navio naufragado e deseja desesperadamente ganhar uma alma imortal através do seu amor. Disposta a abandonar sua vida no reino subaquático, sua voz mágica e até seus trezentos anos de vida, ela se torna humana para tentar conquistar o coração dele, enfrentando dores insuportáveis a cada passo dado em suas novas pernas.


Bem longe, no meio do mar, a água é tão azul quanto a mais linda flor de centáurea, e tão clara quanto o vidro mais puro. Mas ali é muito fundo — tão fundo que nenhuma âncora jamais tocou o chão. É lá embaixo que mora o povo do mar.

Não se deve pensar que ali existe apenas areia nua. Não: ali crescem as árvores e plantas mais estranhas, tão flexíveis que se mexem à menor onda, como se estivessem vivas. E bem no fundo, no ponto mais profundo de todos, fica o castelo do Rei do Mar, com paredes de coral e janelas de âmbar transparente.

O Rei do Mar era viúvo. Sua mãe, uma senhora idosa e sábia, cuidava da casa e tinha grande orgulho de suas seis netas, as pequenas princesas do mar. A mais nova era a mais bela de todas, com a pele macia como pétala de rosa e os olhos azuis como o mar mais fundo. Como as irmãs, ela não tinha pés — seu corpo terminava numa cauda de peixe.

As princesinhas brincavam pelos salões do castelo, onde flores vivas cresciam das paredes, e no jardim diante dele, onde cada uma tinha seu próprio canteiro. A caçula fez o dela redondo como o sol e plantou flores vermelhas. Era uma criança quieta e pensativa. Diferente das irmãs, que gostavam de exibir tesouros de navios naufragados, ela só queria uma bela estátua de mármore — um menino que afundara num naufrágio havia muito tempo. Ao lado da estátua, plantou um salgueiro-chorão cor-de-rosa, cujos galhos se curvavam sobre a pedra.

Nada as irmãs amavam mais do que ouvir histórias do mundo dos homens. A avó contava sobre flores perfumadas, florestas verdes e pássaros que cantavam — que ela chamava de "peixes", para que as crianças entendessem. "Quando vocês fizerem quinze anos," dizia ela, "poderão subir à superfície e ver o mundo dos homens." A caçula era quem tinha de esperar mais, por ser a mais nova de todas. Mas ninguém desejava aquele dia como ela.

Assim, cada irmã, ao completar quinze anos, subia à superfície e depois contava o que tinha visto: uma, as luzes de uma grande cidade e o sino das igrejas; outra, um pôr do sol dourado e um bando de cisnes selvagens; a terceira, um rio com colinas verdes e crianças brincando na água, até que um cachorrinho as assustou; a quarta, o mar largo e bravo, com golfinhos e baleias; a quinta, que fazia aniversário no inverno, falou de icebergs brilhantes e de uma tempestade que ela enfrentou, corajosa, sobre um bloco de gelo flutuante. Mas, depois de algum tempo, todas voltavam a sentir saudade de casa: lá embaixo, diziam, é que era mesmo o lugar mais bonito.

Às vezes, as cinco irmãs subiam juntas, de mãos dadas, e cantavam com suas vozes lindíssimas para os marinheiros em meio à tempestade, dizendo que não precisavam ter medo de descer ao fundo do mar. Mas os homens não entendiam as palavras.

Quando as irmãs subiam assim, a caçula ficava sozinha, olhando-as partir com saudade. Uma sereia não pode chorar, e por isso ela sofria ainda mais.

Por fim, chegou também a sua vez de completar quinze anos. A avó colocou-lhe uma coroa de lírios de pérola no cabelo e prendeu oito grandes ostras em sua cauda, como sinal de sua posição.

— Isso dói tanto! — disse a pequena sereia.

— Pois é, quem quer ser bonita precisa sofrer um pouco — respondeu a avó.

Mas a pequena sereia logo se livrou de todos aqueles adornos e subiu, leve como uma bolha, através da água.

O sol tinha acabado de se pôr quando ela ergueu a cabeça acima das ondas. Um grande navio, de três mastros, estava ali, todo iluminado, com música e dança a bordo — celebravam o aniversário de um jovem príncipe, de quase dezesseis anos, de olhos escuros e um sorriso que a pequena sereia jamais esqueceria. Fogos subiam ao céu, e ela observava tudo, encantada, lá da água.

Mas, durante a noite, veio uma tempestade. O navio foi despedaçado pelas ondas, o mastro quebrou, e a pequena sereia viu o príncipe afundar no mar. Por um instante, ela quase se alegrou — agora ele desceria até ela. Mas logo se lembrou, assustada: os homens não podem viver na água. Nadou entre os destroços à deriva, encontrou-o exausto entre as ondas e manteve sua cabeça acima da água até que a tempestade passasse.

Pela manhã, ela o levou até uma praia perto de um edifício branco, onde o deitou com cuidado, a cabeça banhada pelo sol quente. Depois se escondeu atrás das pedras, entre a espuma do mar, e viu chegar uma jovem, que foi buscar ajuda e trouxe o príncipe de volta à vida. Mas para ela ele não sorriu — não sabia que ela existia. Triste, a pequena sereia mergulhou de volta e retornou ao castelo do pai.

A partir daquele dia, ela ficou mais quieta e pensativa do que nunca. Descobriu onde o príncipe morava, e em muitas noites nadava até perto do seu belo castelo, só para observá-lo escondida. Aos poucos, foi passando a amar os homens, e perguntou à avó se eles viviam para sempre.

— Eles morrem até mais cedo do que nós — disse a avó —, pois nós vivemos trezentos anos. Mas, quando morremos, viramos apenas espuma sobre a água — não temos alma imortal. Os homens, porém, têm uma alma que vive para sempre e sobe até as estrelas.

— Por que não temos uma alma imortal? — perguntou a pequena sereia, triste. — Eu daria meus trezentos anos por um único dia como humana, se com isso pudesse ter parte no mundo celeste.

— Só se um homem te amasse tanto que você fosse mais para ele do que tudo mais, e te levasse perante o padre para se casar contigo, é que o amor dele te daria uma alma — disse a avó. — Mas isso dificilmente vai acontecer. O que aqui é belo, tua cauda de peixe, lá em cima acham feio.

A pequena sereia suspirou e olhou triste para a própria cauda.

Certa noite, enquanto no castelo do pai se celebrava uma festa, ela fugiu escondida até a bruxa do mar, de quem sempre tivera medo. O caminho passava por redemoinhos rugidores e uma floresta sinistra cheia de polvos com longos braços que agarravam tudo. De coração aos pulos, ela nadou por entre eles sem se deixar prender, até chegar à casa da bruxa, construída com ossos de gente afogada.

— Eu já sei o que você quer — disse a bruxa. — É uma tolice sua, mas você vai ter o que deseja. Vou preparar uma poção; você tem de bebê-la antes do nascer do sol, sentada na terra firme. Aí sua cauda vai desaparecer, e você terá pernas como os humanos. Mas vai doer, como se uma espada te atravessasse. E cada passo que der será como pisar em facas afiadas.

— Ainda assim, eu quero — disse a pequena sereia, pensando no príncipe.

— Mas pense bem — avisou a bruxa —, depois que tiver forma humana, nunca mais poderá voltar a ser sereia. E se não conquistar o amor do príncipe a ponto de ele te levar perante o padre para se casar contigo, você não ganhará alma nenhuma. Se ele casar com outra, seu coração vai se partir, e você vai virar espuma do mar.

— Ainda assim, eu quero — disse a pequena sereia, branca como a morte.

— Mas você também tem de me pagar — disse a bruxa. — Quero sua voz, a mais linda de todo o mar. Estique a língua para fora, para que eu a corte.

E assim se fez. A pequena sereia ficou muda, não podia mais cantar nem falar, e recebeu a poção, clara como água. No caminho de volta, os polvos recuaram diante do brilho da poção, e ela chegou sã e salva ao castelo do príncipe.

Ali, bebeu a poção ardente e caiu desmaiada ao chão, como se uma espada de dois gumes a atravessasse. Quando acordou, o príncipe estava diante dela, e ela tinha as pernas mais lindas e brancas que uma moça pode ter. Não conseguia falar, mas seus olhos falavam por ela, e o príncipe a levou para dentro do castelo.

Ela dançou para ele mais lindamente do que ninguém jamais dançara, embora cada passo doesse como facas afiadas. Ele a chamava de sua pequena achada muda e a mantinha sempre a seu lado, mas não pensava em fazê-la rainha. Chegou até a contar-lhe sobre uma moça de um templo que uma vez o havia salvado — sem saber que era ela mesma.

Então o príncipe deveria se casar com a filha do rei vizinho. Quando a noiva chegou, ele reconheceu nela a moça do templo e ficou radiante de felicidade. A pequena sereia soube: a manhã do casamento traria a sua morte.

Na noite anterior ao casamento, enquanto o navio voltava pelo mar, suas irmãs surgiram das ondas, com os lindos cabelos cortados.

— Nós demos nossos cabelos à bruxa para que ela nos desse esta faca! — gritaram elas. — Mate o príncipe antes que o sol nasça, e deixe o sangue dele escorrer sobre os teus pés — assim você voltará a ser sereia e poderá retornar conosco. Apresse-se, senão você terá de morrer!

A pequena sereia pegou a faca e foi até a tenda onde o príncipe dormia com sua jovem noiva. Debruçou-se sobre ele, viu seu rosto à primeira luz da manhã, ergueu a faca... mas depois a jogou longe, para dentro das ondas. Olhou mais uma vez para o príncipe, a quem tanto havia amado, e se atirou ela mesma ao mar.

Mas não sentiu a morte. Seu corpo se desfez, mas ela sentiu que subia, leve e clara, cercada por seres transparentes e belos.

— Para onde eu vou? — perguntou ela, e sua voz soou como música.

— Para as filhas do ar — responderam. — Uma sereia não tem alma imortal, a menos que conquiste o amor de um humano. Mas nós, filhas do ar, podemos conquistar uma alma por meio de boas ações. Você sofreu tanto e amou com tanta fidelidade, que subiu até nós. Depois de trezentas boas ações, você também terá uma alma imortal.

E a pequena sereia ergueu os olhos para o sol e sentiu, pela primeira vez, algo como lágrimas de alegria. Lá embaixo, no navio, o príncipe e sua noiva a procuravam com tristeza na espuma das ondas, sem saber para onde ela tinha ido. Invisível, ela beijou mais uma vez a testa da noiva, abanou um pouco de frescor sobre o príncipe, e subiu com as outras filhas do ar, numa nuvem cor-de-rosa, até o céu — para onde, com boas ações, dia após dia, ela se aproximaria, um pouco mais, de sua própria felicidade eterna.