
A Lenda da Mula sem Cabeça
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Mandado ao povoado buscar remédio para a filha do patrão, o peão Bastião volta tarde pela estrada da sanga e vê passar na chuva uma mula sem cabeça, com uma labareda no pescoço e fogo na cauda. Bastião espera o dia num rancho velho e, de manhã, tira o chapéu para dona Aurélia, que sobe descalça o caminho do pátio.
Nos campos do sul, onde as coxilhas vão uma atrás da outra e as casas ficam muito afastadas, morava um rapaz chamado Bastião.
Ele cuidava dos cavalos de uma estância e, quando faltava serviço, levava recado de porteira em porteira. Por isso conhecia aquelas estradas todas, de dia e de noite.
Numa tarde de fevereiro, o patrão mandou que ele fosse ao povoado buscar remédio para a filha pequena, que estava de cama com febre.
Bastião arreou o cavalo ainda com sol alto. O velho Onofre tomava chimarrão sentado na porta do galpão e ficou olhando.
— Volta antes de a noite fechar — disse o velho.
— Volto — respondeu Bastião. — São duas léguas, e hoje tem lua.
— Não é da lua que eu estou falando, guri.
Bastião parou com o pé no estribo.
— Então é do quê?
Onofre chupou a bomba devagar antes de responder.
— Da estrada da sanga. Depois que escurece, ninguém daqui passa por ali.

Bastião conhecia o lugar. Passando a sanga havia uma casinha caiada de branco, com um pé de figueira no pátio e um arame de estender roupa.
— Por causa da dona Aurélia? — perguntou.
— Por causa do que acontece com ela.
O velho baixou a voz, embora não houvesse mais ninguém no galpão.
— A dona Aurélia teve um amor que não podia existir. O homem era o padre da capela velha. Ninguém mais fala nisso por aqui, mas todo mundo sabe, e ela paga por isso todas as noites.
— Paga como?
— Tarde da noite, quando o campo fica sem um barulho, ela deixa de ser gente. Vira mula e sai a galope, e não tem cerca nem porteira que a segure.
Bastião quase riu.
— Mula é bicho manso, seu Onofre.
— Essa não é bicho, guri. Essa não tem cabeça nenhuma. Onde devia estar a cabeça sobe uma labareda, e na cauda ela leva um facho de fogo aceso.
— E ninguém apaga?
— Nem vento nem chuva apagam aquele fogo. Só as barras do dia. Quando o céu clareia, acaba.
— E de manhã?
— De manhã ela é a dona Aurélia, gente como tu e eu, lavando roupa na sanga. De dia nunca lhe acontece nada. Por isso eu tiro o chapéu quando passo na frente da casa dela, e tu vai tirar também.
Bastião prometeu que tirava, montou e saiu a trote.
No povoado, a venda estava fechada. Ele teve de esperar o dono, que tinha ido a um velório do outro lado do arroio. Quando enfim guardou o remédio embrulhado no bolso, o sol já tinha se posto e uma trovoada escura subia atrás do mato.
Bastião pensou na menina com febre e tocou o cavalo pela estrada da sanga.
A chuva chegou antes da meia-noite. Veio de lado, com vento, e apagou a lua inteira. Ele abaixou a aba do chapéu e seguiu. O cavalo ia bem, pisando firme no barro.
Foi então que ouviu o tropel. Vinha de trás, pela estrada, e não era o passo de um cavalo com gente em cima. Era mais ligeiro, e não parava nunca.
O cavalo de Bastião estancou, virou as orelhas para trás e não quis mais andar.
Ele desceu, puxou o animal para fora da estrada e se encolheu com ele atrás de uma moita de maricá, junto da cerca.
A luz apareceu primeiro. Vinha baixa, correndo rente ao chão molhado, e crescia depressa.
Depois a coisa passou.
Era uma mula, do tamanho de uma mula, e as patas batiam na estrada como as patas de qualquer mula do mundo.
Só que não tinha cabeça.
O pescoço terminava curto, um pouco acima das paletas, e dali subia uma chama comprida e reta, como a de uma lamparina grande. Não havia ferida nenhuma. Havia fogo.
E atrás, presa na cauda, ia uma língua de fogo que se esticava no vento e riscava a noite de ponta a ponta.
A chuva batia naquele fogo com toda a força e o fogo não diminuía nem um dedo.

Bastião ficou parado, com a mão na cara do cavalo, sem dizer nada e sem rezar, porque não lhe veio nenhuma reza à cabeça.
A mula passou por ele, cruzou o campo, subiu a coxilha e sumiu do outro lado.
Depois voltou. E a noite inteira foi assim.
Ele achou um rancho velho sem porta, meteu o cavalo dentro e sentou no chão de terra, encostado na parede.
De vez em quando a luz aparecia longe, no alto da coxilha, como uma lanterna que alguém levasse correndo. Sumia atrás de um morro e voltava a aparecer mais perto.

O vento virou. A chuva engrossou, parou e começou de novo. Aquele fogo continuou o mesmo.
Bastião não dormiu. Ficou escutando, e cada vez que o tropel se afastava ele contava quanto tempo levava para voltar. Perto do fim, o intervalo ficou comprido. Depois ficou mais comprido ainda.
Quando ele olhou para fora, o céu estava cinza atrás do mato e a chuva tinha virado uma garoa fina.
A luz apareceu uma última vez lá em cima, pequena, e se apagou ali mesmo, como se alguém tivesse soprado.
As barras do dia tinham rompido. Não se ouviu mais nada.
Bastião esperou clarear direito, montou e voltou pela estrada, com o remédio inteiro no bolso. Na casa depois da sanga, a porteira estava aberta.
Uma mulher subia o caminho do pátio, descalça, com a saia pesada de água e um xale nos ombros. Andava devagar, como quem andou a noite toda.
Era a dona Aurélia.
Ela parou quando viu o cavalo e ficou esperando, com os olhos no chão.
Bastião tirou o chapéu.
— Bom dia, dona Aurélia.
Ela levantou o rosto. Era um rosto cansado, de gente igual às outras, e não tinha nada de assustador nele.
— Bom dia, meu filho — respondeu, bem baixinho.

Depois entrou, fechou a porta, e o pátio ficou quieto, com a figueira pingando.
Na estância, o remédio chegou a tempo, e a febre da menina baixou naquele mesmo dia. O velho Onofre esperou Bastião no galpão, com o chimarrão pronto, e não perguntou onde ele tinha passado a noite.
— Tu viu? — foi só o que ele disse.
— Vi.
— E tirou o chapéu?
— Tirei.
Onofre fez que sim com a cabeça e lhe passou a cuia.
Dizem que nos campos do sul é assim até hoje. Quem está na estrada tarde da noite escuta o tropel e sai do caminho; quem está em casa fecha a porta e espera. Ninguém tenta apagar aquele fogo, porque não há vento nem chuva que apague.
Só o dia apaga. E quando o sol nasce na coxilha, o campo volta a ser campo, e a dona Aurélia estende a roupa no arame, como qualquer pessoa numa manhã qualquer.
Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)Licença: Domínio públicoCopie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório.CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
