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Uma mula corre pelo campo à noite sem cabeça nenhuma, com uma labareda dourada erguendo-se dos ombros e outra presa à cauda.

A Lenda da Mula sem Cabeça

João Simões Lopes Neto

6 min de leitura7–11 anos

Numa fazenda do Rio Grande do Sul, a avó de Bento conta a ele a triste história de uma mulher amaldiçoada por amar um padre, condenada a virar, toda noite, uma mula sem cabeça com um facho de fogo aceso na cauda que nem o vento nem a chuva conseguem apagar. Numa noite em que precisa buscar remédio para o pai doente, Bento cruza o caminho da criatura, vê a mula sem cabeça passar bem de perto e volta em segurança para casa ao raiar do dia.


Lá pelas bandas do Rio Grande do Sul, numa fazenda cercada de campo aberto e mato baixo, vivia o menino Bento com a avó, dona Rosa. As noites por ali chegavam cedo e traziam um vento frio que fazia gemer as portas e balançar os galhos secos lá fora. Depois da janta, quando o cachorro já estava enrodilhado perto da lareira e a louça já tinha sido guardada, era ao pé do fogo que Bento gostava de sentar com a avó, esperando pela hora das histórias.

Numa dessas noites, um som distante fez Bento levantar a cabeça: um bater de cascos que vinha de longe, cada vez mais perto, e logo depois um clarão alaranjado que corria pela escuridão do campo, como se alguém tivesse acendido uma tocha e saído correndo com ela. O clarão ia e vinha entre as sombras, riscando a noite, e o vento parecia carregar até a casa um cheiro fraco de fumaça.

— Vovó, que fogo é aquele lá fora? — perguntou Bento, chegando mais perto da avó.

— Aquilo, meu filho — respondeu dona Rosa, baixinho, os olhos fixos nas brasas —, é a mula sem cabeça.

E contou. Havia, muitos anos atrás, uma mulher que se apaixonou por um padre. Era um amor proibido, um amor que não podia existir, e por esse amor ela foi amaldiçoada. Desde então, toda noite, quando a escuridão cobria o campo, a mulher deixava de ser mulher: virava uma mula sem cabeça, correndo solta pela noite e carregando na cauda um facho de fogo que nem vento nem chuva conseguiam apagar.

— Ela corre a noite inteira — continuou a avó, com a voz baixa, quase um sussurro —, e quem ouve o barulho dos cascos sabe que é melhor ficar quieto dentro de casa. Não é maldade dela, coitada. Ela não escolheu isso, e não tem como escolher parar. Ao raiar do dia o fogo se apaga, e ela volta a ser mulher, sem lembrar de nada do que aconteceu durante a noite.

Bento ficou calado, olhando o clarão que já ia sumindo longe, atrás das últimas árvores, até não sobrar nada além do escuro de sempre. Passou o resto da noite pensando naquela mulher que corria sem cabeça pelo campo, sem descanso, sem saber por quê, e teve pena dela antes de finalmente pegar no sono, encolhido debaixo das cobertas.

Algumas semanas depois, o pai de Bento adoeceu, com muita febre, tremendo debaixo dos cobertores mesmo perto do fogo. Não havia ninguém que pudesse buscar o remédio na casa do curandeiro, do outro lado do campo, a não ser Bento: os outros peões estavam longe, cuidando do gado, e a avó não podia deixar o doente sozinho. Ela não gostou nem um pouco da ideia de mandar o menino àquela hora, mas não tinha jeito. Era preciso ir, e era preciso ir logo, antes que a febre piorasse.

— Vá pelo caminho perto do riacho — disse ela, embrulhando o menino num poncho grosso e apertando bem o nó —, e reze para não cruzar com a mula sem cabeça. Se ouvir cascos, se esconda e fique bem quieto até ela passar. Não corra, não grite, só se esconda.

Bento montou no seu cavalo velho e partiu assim que o sol se escondeu atrás das colinas, deixando no céu apenas uma faixa vermelha que foi apagando devagar. O caminho era longo, e o campo, àquela hora, parecia maior e mais silencioso do que de dia, cheio só do som dos grilos e do vento baixo passando pelo capim. O menino ia repetindo baixinho o caminho que a avó tinha explicado, tentando não pensar em mais nada além do remédio que precisava buscar.

Já estava perto da casa do curandeiro quando ouviu: um bater de cascos, forte e apressado, vindo lá de trás, cada vez mais alto. O cavalo dele empinou, assustado, e Bento precisou de toda a força dos braços para não cair. Olhou para trás e viu o clarão se aproximando depressa, um facho de fogo que dançava no ar, preso a alguma coisa que corria sem parar pelo escuro do campo.

Lembrando do que a avó tinha dito, Bento puxou o cavalo para dentro do mato, desceu correndo e se agachou atrás de um arbusto, tapando a boca do animal com a mão para ele não relinchar. O coração batia tão forte que ele quase não conseguia ouvir mais nada além dele mesmo. De lá, de cócoras, viu passar uma sombra escura, do tamanho e do jeito de uma mula, sem cabeça nenhuma sobre os ombros, e o fogo preso à cauda iluminando o campo por onde ela corria, deixando no ar um cheiro forte de fumaça. O barulho dos cascos foi diminuindo, diminuindo, até sumir de vez na noite.

Bento ficou ali, agachado e sem se mexer, até ter certeza de que ela não voltaria. Só então voltou para o cavalo, ainda com as mãos tremendo um pouco, terminou o caminho até a casa do curandeiro e pegou o remédio para o pai.

Quando finalmente chegou de volta em casa, o céu já começava a clarear no horizonte, num azul cada vez mais claro atrás das colinas. A avó estava à porta, esperando, e o abraçou forte assim que ele desceu do cavalo, sem soltar por um bom tempo.

— Eu vi ela, vovó — disse Bento, ainda com a voz meio trêmula. — Vi a mula sem cabeça passar bem perto de mim.

— Mas você está bem, e é o que importa — respondeu a avó, beijando sua testa e ajeitando o poncho sobre os ombros dele. — E olha, o sol já está nascendo. Em algum lugar do campo, ela já virou mulher outra vez, e não vai lembrar de nada disso.

Bento entrou em casa, entregou o remédio, e ficou olhando pela janela o sol subir devagar sobre o campo, iluminando tudo do jeito que só a luz do dia sabe fazer, sem pressa e sem fogo nenhum.

Recontado pela Talerie, Fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público