
A Lenda do Boitatá
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Numa noite antiga que não terminava, uma enchente acorda uma cobra enorme que passa a comer apenas os olhos dos bichos mortos e, cheia da luz guardada neles, se transforma na Boitatá, a serpente de fogo que os homens não reconhecem mais. Depois de morrer de puro esgotamento e libertar sua luz, trazendo de volta o sol, a Boitatá continua a rolar pelos campos nas noites de verão, um fogo frio que ninguém consegue extinguir de verdade.
Diz a história que, num tempo muito antigo, houve uma noite tão comprida que parecia não ter fim. O céu ficou escuro como breu, sem uma estrela sequer, sem vento, sem canto, sem sussurro, sem cheiro de campo maduro nem de flor de mato.
Os homens viviam tristes naquela escuridão. Sem poder acender uma boa fogueira, comiam pouco e com cuidado, guardando as últimas brasas como um tesouro. Os olhos de todos ficavam cansados de tanto fitar o escuro, parados por horas diante das brasas vermelhas, sem ver nem uma fagulha alegre saltar, porque já não havia sopro alegre de boca contente para acender o fogo.
Naquela noite fechada, ninguém se arriscava a atravessar o campo. Nem o cavalo mais experiente encontraria sozinho o caminho de casa, nem a raposa mais esperta encontraria as próprias pegadas.
E a noite ia passando, e passando, sem fim.
No meio daquele silêncio, porém, havia uma única voz que não se calava. Era o téu-téu, um passarinho que não dormia desde que o último sol se pusera. Ele vigiava sem descanso, esperando o dia que custava tanto a chegar, e de vez em quando soltava seu grito no escuro: quero-quero! Quero-quero! Era esse canto claro que mantinha viva a esperança dos homens, reunidos ao redor do clarão vermelho das brasas.
Pois foi assim que tudo começou. Na última tarde em que ainda houve sol, quando ele descia atrás dos morros, caiu uma chuva enorme, tão forte que parecia que não ia parar nunca. Choveu, e choveu, e choveu.
Os campos ficaram cobertos de água. Os riachos incharam até virar rios bravos, roncando enquanto desciam morro abaixo, e as lagoas transbordaram, formando um só mar de água turva sobre o campo. Toda aquela enchente correu buscando os lugares mais baixos, alagando tudo pelo caminho. Os bichos do campo fugiram para os poucos morros que ainda ficavam de fora d’água, e ali, de puro medo, se juntaram todos: bezerros e onças, touros e potrinhos, perdizes e raposas, cada um esquecido de que era caçador ou caça, todos amigos só de tanto medo.
A enchente também encheu a toca onde dormia, havia luas e luas, uma cobra enorme. Ela acordou com a água entrando pelo esconderijo e saiu de lá, sacudindo o rabo, confusa e faminta.
Foi então que muitos dos bichos, castigados pela cheia, começaram a morrer. E a cobra grande, com fome, foi comer. Mas comia só os olhos dos animais que a enchente tinha levado. Só os olhos, e nada mais.
Dizem os mais velhos que cada bicho guarda no corpo um pouco do que come. Contam que a vaca que só come trevo dá um leite com cheirinho doce de espiga verde, e que o passarinho que só come peixe fica com cheiro de peixe até no sangue. Diz-se até que nos olhos das pessoas fica marcada a cor do que elas viveram. Pois bem: aqueles olhos que a cobra comia ainda guardavam, presa dentro deles, a última luz do último sol antes de a noite comprida cair. E foram tantos os olhos que ela comeu, um punhado, depois um bocado, depois um braçado inteiro, que toda aquela luz foi se juntando dentro dela.
Como a cobra não tinha pelo grosso, nem casco, nem couro espesso para esconder o que carregava por dentro, seu corpo foi ficando cada vez mais claro, mais transparente, iluminado por dentro por milhares de luzinhas. Até que, por fim, o corpo inteiro da cobra virou uma luz só: um clarão sem chama, um fogo azulado e amarelo, triste e frio, feito da luz que tinha ficado guardada nos olhos enquanto eles ainda estavam vivos.
Foi assim que, quando os homens a viram daquele jeito, tão mudada, não a reconheceram mais. E, pensando que fosse outro bicho, bem diferente, deram-lhe um nome novo: Boitatá, a cobra de fogo. Boitatá!
Muitas vezes a Boitatá rondava perto das casas, faminta como sempre. E era nessas horas que o téu-téu cantava mais forte, avisando, como um vigia que não dorme: quero-quero! Quero-quero!
Os homens, curiosos, olhavam de longe aquele corpo comprido e transparente, brilhando fraco por cima do mato, e depois choravam, com medo, porque sabiam de uma coisa: as lágrimas também guardam luz, tanto ou mais que os olhos, e a Boitatá ainda desejava os olhos vivos dos homens, já que os olhos dos bichos mortos não lhe bastavam mais.
Passado um tempo, a Boitatá acabou morrendo, de pura fraqueza. É que os olhos que ela tinha comido encheram seu corpo de luz, mas luz não alimenta ninguém, e o corpo dela foi se desmanchando, como tudo que é da terra acaba se desmanchando.
E foi aí que a luz que estava presa dentro dela se soltou, espalhando-se pelo mundo. E foi quase como se alguém tivesse mandado: o sol voltou a aparecer.
Voltou, sim, mas devagar. Primeiro o negrume do céu foi clareando um pouco, as estrelas foram aparecendo, depois foram sumindo de novo no meio de outras cores. O céu foi ficando mais e mais claro, até que, lá longe, surgiu uma risca de luz, depois metade de um arco de fogo, e por fim o sol inteiro, subindo, subindo, até chegar ao alto e descer de novo, do outro lado, como faz desde então, dividindo o dia e a noite em partes iguais, para sempre.
Tudo o que morre no mundo volta para a semente de onde nasceu, para nascer de novo. Só a luz da Boitatá ficou sozinha, e nunca mais se juntou a nenhuma outra luz.
Por isso ela ainda anda por aí, sozinha, principalmente nos lugares onde, naquele tempo, morreram tantos bichos. No inverno, com o frio, ela não aparece: dorme escondida em algum lugar. Mas no verão, depois dos dias mais quentes, recomeça a sua caminhada.
A Boitatá se enrola toda, como uma bola de fogo, e sai correndo pelo campo, morro abaixo, morro acima, noite adentro, deixando um rastro de luz fraca por onde passa. É um fogo amarelo e azulado que não queima o capim seco nem esquenta a água dos riachos: ela rola, gira, corre, dá pulos, e de repente se espalha e se apaga. E quando menos se espera, aparece de novo, do mesmo jeito, correndo mais um pedaço de noite.
Coisa amaldiçoada! Que ela se afaste!
Quem encontra a Boitatá pode até ficar cego. Só há dois jeitos de escapar dela: ficar bem parado, de olhos bem fechados, sem respirar, até ela ir embora; ou, se estiver a cavalo, desenrolar o laço, fazer uma volta bem grande, jogar por cima dela e sair a galope, arrastando o laço solto atrás, até chegar bem longe, perto da água.
A Boitatá até acompanha um pouco o barulho do ferro do laço, mas de repente, ao bater num tufo de capim seco, se desmancha toda, espalhando sua luz pelo ar, para se juntar de novo, devagarinho, ajudada pelo vento.
Por isso, você que cuida do gado, fique atento: onde a Boitatá passa, o pasto não presta mais.
Eu mesmo já vi.
Recontado pela Talerie, Fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)
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