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A Rainha da Neve

A Rainha da Neve

Hans Christian Andersen

12 min de leitura8–14 anos

Gerda viaja por um mundo mágico enfrentando obstáculos e encontrando aliados para resgatar seu amigo Kay, que foi levado pela misteriosa Rainha da Neve após um fragmento de espelho mágico penetrar em seu coração. Com coragem, amor inabalável e a ajuda de criaturas encantadas, Gerda chega ao castelo gelado no Polo Norte para libertar Kay do feitiço que o prende.


Era uma vez um duende malvado — na verdade, o próprio demônio — que fabricou um espelho estranho. Tudo o que havia de bom e belo, ao se refletir nele, ficava pequeno e feio; mas tudo o que era ruim aparecia enorme e nítido. O demônio ficou encantado com sua obra. Seus aprendizes levaram o espelho por todo o mundo, até que não houve mais terra nem pessoa que se visse ali sem estar deformada. Por fim, quiseram voar até o céu, para rir dos anjos. Mas, quanto mais alto subiam, mais o espelho tremia em suas mãos, até escapar e cair, espatifando-se em milhões de pedacinhos que voaram pelos ares. Alguns caíram nos olhos das pessoas, e desde então elas só conseguiam ver o que havia de errado nas coisas. Outros caíram bem no meio do coração — e isso era o peor de tudo, pois o coração se transformava então num pedaço de gelo.

Numa grande cidade viviam dois amiguinhos, tão unidos quanto irmãos, embora não fossem parentes. Suas famílias moravam em dois sótãos, um de frente para o outro, e entre as janelas havia caixas de flores com roseiras que se entrelaçavam como um pequeno arco verde. O menino se chamava Kay; a menina, Gerda. No verão, eles se visitavam pulando de uma janela a outra; no inverno, faziam pequenos buraquinhos nas vidraças congeladas para espiar um ao outro.

— São as abelhas brancas, enxameando — dizia a avó, quando nevava.

— Elas também têm uma rainha? — perguntou Kay.

— Têm, sim — respondeu a avó. — Ela voa onde o enxame é mais espesso. Às vezes, no meio da noite, atravessa a cidade e olha pelas janelas — e então elas congelam como se ali tivessem nascido flores.

— Pois venha, então — disse Kay. — Eu a sento no fogão bem quentinho, e ela derrete!

Naquela mesma noite, Kay espiou pelo buraquinho na vidraça e viu um floco de neve crescer, crescer, até se tornar uma mulher alta e esguia, feita de gelo reluzente. Ela lhe fez um sinal com a cabeça e acenou com a mão — e o menino se assustou tanto que caiu da cadeira.

A primavera voltou, as rosas floresceram outra vez, e as crianças, sentadas em seu pequeno jardim, cantavam uma canção que a avó lhes ensinara:

*As rosas murcham, caem ao vento, mas o Menino Jesus vem, num momento.*

Foi então que, em meio à brincadeira, Kay gritou de repente: — Ai! Uma coisa me picou o coração, e outra me entrou no olho!

Não havia nada para se ver — mas havia, sim: um grãozinho do espelho mágico, um no olho, outro bem no coração. A partir daquele dia, Kay ficou diferente. Achou as rosas feias, riu da avó, imitou os vizinhos e passou a atormentar a pequena Gerda, que o amava de todo o coração.

Num dia de inverno, ele amarrou seu pequeno trenó a um trenó grande e branco, para ser arrastado como faziam os outros meninos. O estranho, envolto num pesado casaco de pele, sorriu para ele com simpatia — e o trenó partiu, cada vez mais rápido, para fora da cidade, dentro de uma nevasca cerrada, e Kay não conseguiu mais se soltar. Por fim, o trenó parou. Quem o guiava se levantou: alta, esguia, toda feita de branco reluzente — era a Rainha da Neve.

— Você está com frio — disse ela, e o abrigou em seu casaco de pele. Beijou-lhe a testa, e o frio penetrou até o meio de seu coração — mas depois ele deixou de sentir o frio por completo. — Agora não recebe mais beijos meus — disse ela —, senão eu acabaria beijando você até a morte.

E Kay esqueceu a pequena Gerda, a avó, tudo o que deixara em casa, e voou com ela para bem alto, sobre florestas e mares, dentro da longa, longa noite de inverno.

Gerda esperou e esperou, mas Kay não voltava. As outras crianças só sabiam contar que o tinham visto amarrado a um trenó estranho, saindo pela porta da cidade. Quando a primavera chegou, Gerda calçou seus sapatinhos vermelhos e foi até o rio perguntar: — Foi você que me levou o Kay? Eu lhe dou meus sapatos vermelhos, se você me devolver ele!

Jogou os sapatos na água, mas as ondas os trouxeram de volta à margem. Então ela subiu num barquinho para alcançar mais longe — e o barco se soltou da margem e a levou consigo, rio abaixo.

Levada pela correnteza por muito tempo, chegou a um jardim onde vivia uma velha de chapéu de sol pintado com flores. A velha tirou Gerda do barco, deu-lhe cerejas para comer e penteou seu cabelo com um pente de ouro — e, enquanto isso, Gerda foi, sem notar, esquecendo o pequeno Kay, pois a mulher sabia um pouco de magia. Ela queria a menina querida só para si, e por isso fez todas as roseiras do jardim afundarem na terra, para que Gerda não se lembrasse das suas próprias, lá em casa.

Gerda brincou dias e dias entre as flores coloridas, mas sentia que faltava algo. Um dia, ao ver a rosa pintada no chapéu da velha, entendeu: ali não havia uma única rosa de verdade. Chorou, e suas lágrimas caíram justamente sobre o lugar onde uma roseira havia sido enterrada — e ela brotou de novo, florida. Gerda beijou as rosas e perguntou: — Vocês sabem onde está o Kay? Será que ele morreu?

— Morto ele não está — responderam as rosas. — Nós estivemos lá embaixo, na terra, onde estão todos os mortos — mas ele não estava lá.

Foi então que Gerda se lembrou de tudo. Correu até o portão do jardim, empurrou a maçaneta enferrujada e saiu para o mundo — e viu que já era outono, pois no jardim encantado o tempo tinha ficado parado.

Descalça e cansada, sentou-se numa pedra. Ali surgiu, saltitando, uma corvinha. — Cra, cra, bom dia! — disse ela, e escutou toda a história de Gerda. — Pode ser! — disse por fim. — Acho que sei onde está o seu Kay: com uma princesa tão sábia que buscava um homem capaz de responder a todas as suas perguntas. Os jovens ficavam mudos diante do trono — só um rapazinho alegre entrou sem medo, cabelo longo, botas rangendo, e falou com tanta inteligência que a princesa gostou dele.

— É o Kay! — gritou Gerda.

A corvinha a levou escondida ao castelo, por uma porta dos fundos que sua amada, uma corvinha domesticada, deixara aberta, até o quarto onde duas camas pendiam como lírios de caules dourados. Gerda afastou com cuidado uma pétala vermelha — mas o dorminhoco, embora parecido com Kay na nuca, era um príncipe estranho.

Ela contou toda a sua história, e o príncipe e a princesa se emocionaram. Deram a Gerda uma carruagem dourada com quatro cavalos, roupas quentes e botas, para que continuasse a procurar Kay. A corvinha a acompanhou por um trecho do caminho e chorou na despedida.

Mas, no meio da floresta escura, ladrões atacaram a carruagem reluzente. Agarraram Gerda, e a velha e feroz mãe dos ladrões já se lançava ameaçadora sobre ela — quando sua própria filha, teimosa e impulsiva, mordeu-lhe a orelha e gritou: — Ela vai brincar comigo!

E assim Gerda foi levada ao castelo dos ladrões, e a menina, tão obstinada quanto de coração bom, passou a dormir bem junto dela e a vigiá-la.

À noite, os pombos silvestres, presos numa jaula, arrulharam: — Cru, cru! Vimos o pequeno Kay. Uma galinha branca tirava o seu trenó — ele estava sentado no carro da Rainha da Neve, voando bem acima do bosque.

— Para onde ela ia? — perguntou Gerda.

— Pergunte à rena — disseram os pombos.

— Para a Lapônia! — disse a rena, presa por uma corda. — Lá a Rainha da Neve tem sua tenda de verão, mas o seu castelo fica bem mais longe, no Polo Norte!

Na manhã seguinte, enquanto a velha ladra dormia, a menina soltou a rena, montou Gerda em suas costas e disse: — Corra o mais rápido que puder e leve esta menina ao castelo da Rainha da Neve!

Com luvas quentes e pão para o caminho, a rena correu dia e noite, por pântanos e florestas, até chegarem à Lapônia.

Uma lapônia pobre aqueceu Gerda junto ao fogo; depois escreveu algumas palavras num peixe seco e a enviou a uma finlandesa, cem milhas mais adiante, na Finlândia. A finlandesa, pequena e sábia, leu a mensagem e sussurrou à rena: — Kay tem um grão de gelo no coração e outro no olho. É preciso retirá-los, ou ele nunca deixará a Rainha da Neve. Mas Gerda não precisa de nenhum poder maior do que já tem — ela é uma criança boa e inocente, e isso já basta.

Duas milhas antes do castelo, a rena deixou Gerda no chão, beijou-a e voltou correndo, com os olhos molhados. Descalça e sem luvas, Gerda seguiu adiante, atravessando um exército de flocos de neve vivos e hostis, que pareciam cobras e ursos. Foi então que ela rezou o Pai-Nosso, e seu próprio hálito se transformou em pequenos anjos brilhantes, que espantaram os flocos de neve com suas lanças e a conduziram em segurança.

O castelo da Rainha da Neve era feito de neve amontoada pelo vento; seus salões eram vazios, frios e imensos, iluminados apenas pela aurora boreal cintilante. No meio de um salão de gelo sem fim estava o pequeno Kay, azul de frio, montando pedaços chatos de gelo em figuras — um jogo de inteligência, pois a Rainha da Neve lhe dissera: "Se você encontrar a palavra Eternidade, será seu próprio senhor e ganhará o mundo todo." Mas a palavra nunca lhe saía certa. A própria Rainha da Neve estava longe, viajando para terras quentes.

Foi então que Gerda entrou, reconheceu-o e se atirou ao seu colo. — Kay! Enfim te encontrei!

Mas ele ficou quieto e frio, como se estivesse gelado por dentro. Gerda chorou lágrimas ardentes, que caíram sobre o peito dele, penetraram em seu coração e derreteram o bloco de gelo, levando consigo o grão maligno. Então ela cantou baixinho a velha canção:

*As rosas murcham, caem ao vento, mas o Menino Jesus vem, num momento.*

Kay começou a chorar, e o grão saiu também do seu olho. — Gerda! — exclamou. — Onde é que eu estive?

Olhou em volta, para aquele lugar frio e imenso, e se agarrou a ela. De tanta alegria, até os pedaços de gelo pareciam dançar, e, quando enfim caíram cansados no chão, formaram por acaso exatamente a palavra que a Rainha da Neve exigira — mas agora Kay já era seu próprio senhor de qualquer forma, pois encontrara algo maior que aquilo.

De mãos dadas, deixaram o castelo. Por onde passavam, os ventos se aquietavam e o sol aparecia. Junto à rena e a seu filhote, aqueceram-se com leite morno; na casa da finlandesa e da lapônia, receberam roupas novas e votos de boa viagem.

No caminho, encontraram de novo a menina dos ladrões, que agora percorria o mundo montada num belo cavalo. — Você é um belo vagabundo — disse ela a Kay, mas ficou muito feliz ao vê-los bem, e logo seguiu cavalgando para seu próprio futuro.

Assim, Kay e Gerda seguiram de mãos dadas, atravessando a primavera que despertava, até reconhecerem sua própria cidade e a escada familiar até o sótão. Ao abrirem a porta, notaram que tinham crescido — eram agora adultos — mas as rosas ainda floresciam na janela, e as pequenas cadeiras de criança continuavam no mesmo lugar. A avó estava sentada ao sol, lendo a Bíblia: — "Se não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos céus."

Kay e Gerda se olharam nos olhos e entenderam, enfim, a velha canção que tantas vezes tinham cantado:

*As rosas murcham, caem ao vento, mas o Menino Jesus vem, num momento.*

E assim ficaram ali sentados, adultos e, no entanto, ainda crianças de coração, enquanto lá fora o verão quente e generoso se espalhava por toda a cidade.