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Uma moça sacode um grande edredom entre as nuvens e as penas brancas caem como neve sobre a aldeia lá embaixo.

A Senhora Holle

Irmãos Grimm

7 min de leituraa partir dos 5 anos

Uma menina pula no poço atrás do fuso, vai parar num campo florido e entra para o serviço da Senhora Holle, sacudindo a cama dela até as penas voarem como neve. Volta para casa coberta de ouro, e a irmã preguiçosa, que tenta a mesma sorte, passa pelo portão e sai coberta de piche.


Uma viúva tinha duas filhas. Uma era bonita e trabalhadeira; a outra, feia e preguiçosa. Mas era a feia e preguiçosa que ela amava mais, porque essa era a sua filha de verdade. À outra cabia todo o serviço da casa, e ela vivia entre as cinzas do fogão como se fosse uma criada.

Todos os dias a pobre menina tinha que se sentar à beira da estrada, junto a um poço, e fiar tanto, mas tanto, que os dedos ficavam feridos e o sangue brotava deles. Aconteceu que um dia o fuso ficou todo manchado. A menina se debruçou sobre o poço para lavá-lo, mas o fuso escorregou da mão dela e caiu lá dentro.

De vestido azul e descalça, a menina está de pé na borda de pedra de um poço à beira da estrada, inclinada atrás do fuso que cai na abertura escura.

A menina chorou, correu até a madrasta e contou a desgraça. A madrasta a repreendeu com dureza, sem nenhuma piedade:

— Se você deixou o fuso cair, então vá buscar o fuso.

A menina voltou ao poço e não sabia o que fazer. Com o coração apertado de aflição, pulou lá dentro para buscar o fuso.

Perdeu os sentidos. Quando acordou e voltou a si, estava num campo lindo, onde o sol brilhava e milhares de flores se abriam.

Seguiu por aquele campo e chegou a um forno cheio de pães. Os pães gritaram:

— Ah, me tire daqui, me tire daqui, senão eu queimo! Já estou assado faz tempo.

Então ela se aproximou e, com a pá do forno, foi tirando todos, um por um.

Depois seguiu adiante e chegou a uma macieira carregada de frutas, que chamou por ela:

— Ah, me sacuda, me sacuda! Nós, maçãs, já estamos todas maduras.

Então a menina sacudiu a árvore, e as maçãs caíram como se chovessem; sacudiu até não sobrar nenhuma lá em cima. Juntou todas num monte e continuou o caminho.

De braços erguidos, a menina segura um galho e sacode a macieira, e maçãs vermelhas caem por toda parte sobre um prado cheio de flores, na luz dourada.

Por fim chegou a uma casinha, e de dentro dela uma velha ficou espiando. Mas a velha tinha dentes tão grandes que a menina se assustou e quis sair correndo. A velha, porém, chamou por ela:

— Do que você tem medo, minha filha? Fique comigo. Se fizer direitinho todo o trabalho da casa, vai ficar tudo bem para você. Só precisa ter cuidado ao arrumar a minha cama e sacudi-la bem sacudida, até as penas voarem: é assim que neva no mundo. Eu sou a Senhora Holle.

Como a velha falou com tanta bondade, a menina criou coragem, aceitou e entrou para o serviço dela. Cuidava de tudo do jeito que a Senhora Holle queria e sacudia a cama com tanta força que as penas voavam como flocos de neve. Em troca teve uma vida boa ali: nenhuma palavra ríspida e, todos os dias, comida quente na mesa.

Já fazia um tempo que estava na casa da Senhora Holle quando começou a ficar triste. No começo nem ela mesma sabia o que lhe faltava; depois entendeu que era saudade de casa. Ali embaixo vivia mil vezes melhor do que antes, e mesmo assim queria voltar. Até que disse:

— Estou com saudade dos meus. Por melhor que eu esteja aqui embaixo, não posso ficar mais tempo. Preciso subir de volta.

— Gosto de ouvir que você quer voltar para casa — disse a Senhora Holle. — E, como me serviu com tanta lealdade, eu mesma levo você lá para cima.

Pegou a menina pela mão e a conduziu até um portão enorme. O portão se abriu e, no instante em que a menina passou por baixo dele, caiu uma chuva de ouro. Todo o ouro ficou grudado nela, e ela ficou coberta da cabeça aos pés.

— Isto é seu, porque você foi muito trabalhadeira — disse a Senhora Holle, e devolveu também o fuso que tinha caído no poço.

Sob um portão de pedra, a menina reluz, coberta de ouro da cabeça aos pés, e olha sorrindo para a velha, que lhe estende o fuso.

Então o portão se fechou, e a menina se viu de novo lá em cima, no mundo, não muito longe da casa da madrasta. Quando entrou no quintal, o galo estava empoleirado na beira do poço e cantou:

Cocoricó, cocoricó!A nossa moça de ouro já voltou!

Ela entrou e, como chegou coberta de ouro, foi bem recebida pela madrasta e pela irmã.

A menina contou tudo o que tinha acontecido com ela. Quando a madrasta ouviu como ela havia conseguido tanta riqueza, quis a mesma sorte para a outra filha, a feia e preguiçosa. Mandou que ela se sentasse junto ao poço e fiasse. E, para que o fuso ficasse manchado de sangue, a preguiçosa espetou os dedos e enfiou a mão no espinheiro. Depois jogou o fuso no poço e pulou atrás dele.

Assim como a irmã, foi parar no campo bonito e seguiu pelo mesmo caminho. Quando chegou ao forno, os pães gritaram de novo:

— Ah, me tire daqui, me tire daqui, senão eu queimo! Já estou assado faz tempo.

— Essa é boa, era só o que me faltava, me sujar toda — respondeu a preguiçosa, e foi embora.

Logo chegou à macieira, que chamou por ela:

— Ah, me sacuda, me sacuda! Nós, maçãs, já estamos todas maduras.

— Sei, sei — respondeu ela —, para uma cair bem na minha cabeça.

E seguiu em frente.

Quando chegou diante da casa da Senhora Holle, não teve nenhum medo, porque já tinha ouvido falar dos dentes grandes, e logo se ofereceu para o serviço. No primeiro dia se esforçou, foi trabalhadeira e obedeceu à Senhora Holle em tudo o que ela pediu, porque pensava no tanto de ouro que ia ganhar. No segundo dia já começou a fazer corpo mole; no terceiro, mais ainda, e de manhã não quis nem levantar. Também não arrumava a cama da Senhora Holle como devia, e não a sacudia para as penas voarem. A Senhora Holle logo se cansou daquilo e a dispensou do serviço.

A preguiçosa ficou muito satisfeita, achando que agora viria a chuva de ouro. A Senhora Holle a levou até o portão, mas, quando ela passou por baixo, em vez do ouro despejaram sobre ela um caldeirão cheio de piche.

— Esta é a recompensa pelos seus serviços — disse a Senhora Holle, e fechou o portão.

A irmã preguiçosa sai de um portão coberta de piche preto e brilhante, dos cabelos aos sapatos, com cara de indignação, enquanto a velha fecha o portão.

Foi assim que a preguiçosa chegou em casa, coberta de piche da cabeça aos pés. E o galo, empoleirado na beira do poço, ao vê-la cantou:

Cocoricó, cocoricó!A nossa moça suja já voltou!

O piche ficou grudado nela com força e, enquanto ela viveu, nunca mais saiu.

E é por isso que, na terra de Hesse, quando começa a nevar, as pessoas dizem que a Senhora Holle está sacudindo a sua cama.

Recontado pela Talerie, Fonte: Kinder- und Hausmärchen (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público