
Os Cisnes Selvagens
12 min de leitura8–14 anos
A princesa Elisa busca desesperadamente seus onze irmãos, que foram transformados em cisnes selvagens por uma rainha má, navegando por florestas escuras, mares tempestuosos e terras distantes até finalmente reencontrá-los. Para libertá-los do feitiço, ela aceita um desafio silencioso e penoso: tecer onze camisas de urtiga sem pronunciar uma única palavra, mesmo quando se torna rainha e seu novo marido passa a suspeitar de suas ações noturnas misteriosas.
Bem longe daqui, para os lados onde voam as andorinhas quando aqui é inverno, vivia um rei que tinha onze filhos e uma filha chamada Elisa. Os onze irmãos eram príncipes e iam à escola com uma estrela no peito e uma espada na cintura. Escreviam com estiletes de diamante em tábuas de ouro, e aprendiam tudo com a mesma facilidade com que liam. A pequena Elisa tinha um banquinho de vidro espelhado e um livro de figuras que custara tanto quanto meio reino. As crianças viviam maravilhosamente bem — mas isso não haveria de durar.
O pai delas se casou com uma nova rainha, e essa rainha não amava os filhos do rei. Já no primeiro dia elas sentiram isso: em vez de bolo, só ganharam areia numa xícara de chá, como se fosse algo delicioso. Pouco depois, a rainha mandou Elisa para o campo, para viver com um casal de camponeses, e contou tantas mentiras sobre os príncipes que o rei deixou de se importar com eles.
— Voem para o mundo e cuidem de si mesmos — disse a rainha má. — Voem como grandes pássaros, sem voz!
Mas não foi tão cruel quanto ela desejava: os príncipes se transformaram em onze cisnes selvagens, lindos e brancos. Com um grito estranho, voaram pelas janelas, sobre o parque, e foram para bem longe, dentro de uma floresta escura que se estendia até o mar. Na manhã seguinte, passaram voando sobre a casa onde Elisa dormia, torcendo os pescoços e batendo as alas — mas ninguém os ouviu, ninguém os viu.
Elisa não sabia nada disso. Brincava com uma folha verde, seu único brinquedo, fazendo um furinho nela e olhando o sol através do buraco, como se pudesse ver ali os olhos claros dos irmãos. O vento sussurrava para as rosas do jardim: — Quem é mais linda que vocês? E as rosas respondiam: — Elisa é. E isso era a mais pura verdade.
Quando Elisa fez quinze anos, chamaram-na de volta ao castelo. E quando a rainha viu como ela havia ficado bonita, sentiu ainda mais ódio no coração. Teria transformado Elisa em cisne também, mas não se atreveu, porque o rei queria ver a filha. Então pegou três sapos, beijou-os e sussurrou-lhes desejos maldosos, e os colocou na água do banho onde Elisa iria se lavar. Mas Elisa era tão inocente que a magia não conseguiu tocá-la: onde os sapos a tocaram, transformaram-se em flores vermelhas boiando na água. A rainha, então, esfregou a pele de Elisa com suco de noz até deixá-la escura, untou seu rosto com um unguento de cheiro ruim e embaraçou seus cabelos, até que ninguém mais reconhecesse a linda Elisa — nem mesmo o pai, que se assustou e disse que aquela não era sua filha. Só o cão do castelo e as andorinhas ainda a conheciam, mas eles não podiam dizer nada.
Elisa chorou e pensou nos onze irmãos, todos desaparecidos. Fugiu do castelo escondida e caminhou o dia inteiro por campos e pântanos, entrando cada vez mais na floresta, sem saber para onde ir — só sabia que precisava seguir em frente, atrás dos irmãos. Quando a noite chegou, deitou-se num musgo macio, disse sua oração da noite, e ao redor dela centenas de vaga-lumes brilhavam como pequenas estrelas verdes. Ela sonhou com os irmãos, com os tempos em que brincavam juntos.
De manhã encontrou um lago claro na floresta, lavou o escuro do rosto e das mãos, e voltou a ser a bela Elisa. Continuou caminhando, comeu das maçãzinhas silvestres que Deus lhe mostrava pelo caminho, e chegou por fim à parte mais escura e silenciosa da floresta, onde nenhum pássaro cantava. Naquela noite, teve a sensação de que o céu se abria sobre ela e olhos amorosos a observavam de longe.
No dia seguinte encontrou uma velha com um cesto de frutinhas. Elisa perguntou se ela tinha visto onze príncipes. — Não — disse a velha —, mas ontem vi onze cisnes com coroas de ouro nadando por este rio. E a levou até o rio, e Elisa seguiu a correnteza até chegar ao mar aberto.
Lá, na praia, recolheu onze penas brancas de cisne que a água trouxera e as amarrou num buquê. Pensou: assim como a água consegue alisar até as pedras mais duras, também eu não vou me cansar de procurar. Quando o sol começou a se pôr, viu onze cisnes selvagens com coroas de ouro voando em direção à terra. Eles se pousaram, e assim que o sol desapareceu, as penas caíram de seus corpos — e onze belos príncipes apareceram diante dela, seus irmãos! Elisa correu para os braços deles, e todos choraram e riram ao mesmo tempo.
— Somos cisnes enquanto o sol brilha — explicou o irmão mais velho — e só voltamos a ser homens depois que ele se põe. Por isso, ao pôr do sol, precisamos sempre ter terra firme sob os pés. Bem longe daqui, do outro lado do mar, fica nossa nova terra. O caminho passa por um único rochedo pequeno no meio da água, onde apenas cabemos para passar a noite. Uma vez por ano voamos até aqui, por onze dias, para revermos nossa pátria — e agora te encontramos, querida irmã. Mas em breve teremos de partir de novo, e não temos navio para te levar.
— Como posso libertá-los? — perguntou Elisa.
Conversaram metade da noite, e por fim os irmãos disseram: — Vamos trançar uma rede de casca de salgueiro e junco. Você vai se deitar sobre ela, e nós a levaremos por sobre o mar.
Elisa aceitou.
E assim foi feito. Durante a noite os irmãos trançaram uma rede resistente, e pela manhã, de volta à forma de cisnes, ergueram Elisa e a levaram alto sobre o mar, enquanto ela ainda dormia. O irmão mais jovem voava bem acima de sua cabeça, para protegê-la do sol com as próprias asas. Bem embaixo deles passavam figuras de nuvens — montanhas, castelos, torres de igreja — ilusões do mar, que apareciam e logo desapareciam.
Perto do fim da tarde, uma tempestade forte se formou, e o sol começou a descer rápido demais. Elisa temeu não chegar a tempo ao rochedo. Mas, na última luz do dia, seu pé tocou a pedra firme bem no instante em que o sol se apagava. A noite inteira, irmão e irmã ficaram apertados uns contra os outros naquele minúsculo rochedo, enquanto o mar batia sobre eles e os trovões rolavam pelo céu; mas eles se seguravam pelas mãos e cantavam baixinho, até que a manhã chegou.
No dia seguinte voaram mais um pouco e finalmente alcançaram a terra distante e bela, de montanhas azuis e florestas de cedro. Ali, diante de uma caverna coberta de verde, os irmãos deixaram Elisa para dormir.
— Que o céu me mostre como posso libertá-los — orou ela, e no sono sonhou com a boa fada que encontrara na floresta.
— Seus irmãos podem ser libertados — disse a fada no sonho —, mas você tem coragem? Vê esta urtiga? Ela cresce perto da sua caverna e também no cemitério. Você precisa colhê-la, mesmo que suas mãos ardam, pisá-la com os pés até virar fio, e tecer com ela onze camisas. Jogue-as sobre os cisnes, e o feitiço se desfará. Mas, desde o instante em que começar esse trabalho até terminá-lo, você não poderá dizer uma só palavra — mesmo que passem anos. A primeira palavra atingiria o coração dos seus irmãos como um punhal.
Elisa despertou, e ao seu lado havia de fato uma urtiga. Ela agradeceu a Deus e começou o trabalho sem demora. As urtigas queimavam suas mãos até formar bolhas, mas ela suportava de bom grado. Quando os irmãos chegaram à noite e viram as feridas ardidas, o mais jovem chorou, e onde suas lágrimas caíam, a dor desaparecia.
Assim trabalhou, dia e noite, em silêncio, e uma camisa após a outra ia ficando pronta. Um dia, ouviu o som de uma trompa de caça: o rei daquelas terras se aproximava com seus caçadores. Ele encontrou Elisa na caverna e, mesmo sem ela dizer uma palavra, apaixonou-se por ela na hora. — Venha comigo — disse ele. — Farei de você minha rainha.
Ergueu-a sobre o cavalo, e Elisa, mesmo chorando e apertando as mãos de aflição, não conseguia dizer nada para explicar seu trabalho de libertação.
No castelo, o rei mandou vesti-la com roupas magníficas, e embora o arcebispo, desconfiado, sussurrasse que aquela moça silenciosa da floresta certamente era uma bruxa, o rei não se deixou convencer. Quando Elisa, em seu novo quarto, encontrou de novo a urtiga e a camisa já pronta — que o rei mandara buscar especialmente para ela — sorriu pela primeira vez, pois soube que poderia continuar sua tarefa. Beijou a mão dele, e no mesmo dia se celebrou o casamento. A moça silenciosa da floresta se tornou rainha.
Mas de noite, quando todos dormiam, Elisa se escondia num quarto secreto e continuava tecendo as camisas. Logo o fio de urtiga acabou, e ela precisou voltar ao cemitério, onde cresciam as urtigas certas. Naquela noite viu vultos assustadores rondando entre os túmulos; teve muito medo, mas rezou baixinho, colheu depressa o que precisava e correu de volta ao castelo.
O arcebispo, porém, que estava desperto, a viu. Contou ao rei o que observara, dizendo que aquilo era prova de feitiçaria. Dali em diante, o rei passou a segui-la em segredo, e viu, noite após noite, ela desaparecer. Seu coração se enchia de dúvida, mas ele não disse nada.
Elisa sentia o olhar dele mudar, mas não tinha como explicar. Seu trabalho já estava quase terminado — faltava apenas uma camisa, e o fio havia acabado. Precisava ir ao cemitério uma última vez. Nessa noite, o rei e o arcebispo a seguiram e a viram entre os túmulos. O rei se afastou, o coração cheio de tristeza e desconfiança, e disse: — Que o povo julgue por mim.
E o povo a condenou à morte, na fogueira.
Prenderam Elisa numa masmorra escura e úmida e tiraram suas roupas finas; mas deixaram com ela o feixe de urtigas e as camisas, e nada a alegrava mais, pois assim podia continuar trabalhando. Do lado de fora, crianças cruéis cantavam cantigas de escárnio, e ninguém a consolava — até que, numa noite, ouviu um som de asas na grade da janela: era o irmão mais jovem, que a encontrara! Elisa chorou de alegria, mesmo sabendo que aquela noite talvez fosse sua última. Pequenos ratos até lhe trouxeram urtigas até os pés, e um tordo cantou a noite inteira para lhe dar coragem.
Antes do amanhecer, os onze irmãos se apresentaram no portão do castelo e pediram para falar com o rei, mas foram recusados. Quando o sol nasceu, voltaram a ser cisnes e voaram sobre o castelo, para longe.
De manhã, uma carroça atravessou as ruas, e nela ia Elisa, vestida com um tecido grosseiro, os cabelos soltos — mas seus dedos, sem parar, ainda trabalhavam na última camisa. O povo a insultava e se aproximava, tentando arrancar o trabalho de suas mãos. Foi então que onze cisnes selvagens desceram voando e se pousaram em volta da carroça, batendo as grandes asas, e a multidão recuou assustada.
Quando o executor tomou sua mão, Elisa, apressada, lançou as onze camisas sobre os cisnes — e no mesmo instante ali estavam onze belos príncipes. Só o irmão mais jovem tinha, no lugar de um braço, ainda uma ala de cisne, pois faltava uma manga em sua camisa, que Elisa não tivera tempo de terminar.
— Agora posso falar! — gritou Elisa. — Eu sou inocente!
E o povo se curvou diante dela, enquanto o irmão mais velho contava tudo o que havia acontecido. Enquanto ele falava, as lenhas da fogueira criaram raízes e brotaram ramos, até se transformarem numa cerca perfumada, coberta de rosas vermelhas, e no alto brilhava uma flor branca, como uma estrela. O rei a colheu e a prendeu no peito de Elisa. Ela então abriu os olhos, cheia de paz e felicidade.
Todos os sinos das igrejas tocaram por si mesmos, os pássaros chegaram em grandes bandos, e um cortejo de casamento, mais belo do que qualquer outro já visto, seguiu de volta ao castelo — Elisa ao lado do seu rei, rodeada pelos onze irmãos, finalmente todos reunidos.