
João e Maria
7 min de leitura6–12 anos
João e Maria são duas crianças abandonadas na floresta pelos pais desesperados pela fome, mas conseguem escapar usando sua coragem e engenho para contornar os perigos da mata, incluindo uma bruxa malvada que as aprisionava. Com a ajuda de animais mágicos e sua própria determinação, os irmãos encontram um tesouro e retornam para casa, restaurando a felicidade e a prosperidade de sua família.
Perto de uma grande floresta vivia um lenhador pobre com sua mulher e seus dois filhos. O menino se chamava João, a menina, Maria. Naqueles dias havia uma grande fome na terra, e o pai já quase não conseguia trazer pão para a família.
Certa noite, quando as crianças já deviam estar dormindo, o pai ficou acordado, cheio de aflição. — O que será de nós? — suspirou para a esposa. — Como vamos alimentar os filhos, se mal temos o bastante para nós mesmos?
A mulher respondeu: — Escute. Amanhã cedo levamos as crianças bem fundo na floresta. Acendemos uma fogueira para elas, damos um pedaço de pão, e as deixamos lá. Elas não vão saber voltar, e teremos uma preocupação a menos.
— Não — disse o pai. — Isso eu não posso fazer. Como haveria de abandonar meus filhos sozinhos na mata? — Mas a mulher não lhe deu sossego, até que ele, com o coração pesado, acabou concordando.
João e Maria, porém, não conseguiam dormir de tanta fome, e ouviram cada palavra. Maria chorou baixinho. — Fique quieta, Maria — sussurrou João. — Não se aflija. Eu vou dar um jeito para nós dois. — Quando os pais adormeceram, ele saiu de mansinho. A lua brilhava forte, e as pedrinhas brancas em frente à casa reluziam como prata. João encheu os bolsos com elas e voltou a deitar-se em silêncio. — Durma tranquila, minha irmãzinha querida — disse ele. — Deus não vai nos abandonar.
Na manhã seguinte, ainda antes do sol nascer, a mãe acordou as crianças, deu a cada uma um pedaço de pão e as levou bem para dentro da floresta. Várias vezes João ficava para trás, olhando para a casa. — O que você está olhando? — perguntou o pai. — Estou vendo minha gatinha branca lá no telhado — disse João. Mas, escondido, ele ia deixando cair uma pedrinha atrás da outra pelo caminho.
No meio da mata, o pai acendeu uma fogueira e disse: — Descansem aqui, vamos cortar lenha e depois viremos buscá-los. — As crianças esperaram, comeram seu pão, e quando a noite chegou e ninguém veio, Maria começou a chorar. — Espere só a lua nascer — consolou João. E, ao luar, as pedrinhas brilharam como pequenas luzes e mostraram o caminho de volta para casa.
Mas a fome não passou, e não muito tempo depois as crianças ouviram a mãe falar de novo: — As crianças precisam ir embora, ainda mais fundo do que da última vez, para que não encontrem o caminho de volta. — João quis juntar pedrinhas outra vez, mas a porta estava trancada. Então levou seu pedaço de pão e foi esfarelando-o pelo caminho, migalha por migalha, para marcar a trilha de volta.
De novo deixaram as crianças junto à fogueira, de novo ninguém veio, e quando a lua nasceu e João procurou suas migalhas, elas haviam desaparecido — os pássaros da floresta já as tinham comido todas. Agora João e Maria não conseguiam mais achar o caminho. Andaram a noite toda e mais um dia inteiro, famintos e cansados, até que por fim se deitaram para dormir debaixo de uma árvore.
Na terceira manhã, viram um lindo passarinho branco cantando tão docemente que resolveram segui-lo. Ele os levou até uma casinha — feita de pão, coberta de bolo, com janelas de açúcar claro. — Vamos experimentar — disse João, quebrando um pedaço do telhado, enquanto Maria mordiscava uma vidraça.
Então uma vozinha fina chamou lá de dentro:
“Quem está roendo, roendo assim, a casinha feita só para mim?”
— É o vento, é o vento, o filho do céu que passou por aqui — responderam as crianças, e continuaram comendo. De repente a porta se abriu, e saiu uma velhinha apoiada numa muleta. — Ora, minhas queridas crianças — disse ela, com voz meiga —, entrem, nada de mal vai lhes acontecer. — Ela os levou para dentro, deu-lhes boa comida e camas macias, e as crianças pensaram que tinham chegado ao céu.
Mas a velha era uma bruxa má. Tinha construído a casinha de pão só para atrair crianças, que ela pretendia comer. Bem cedo na manhã seguinte, agarrou João e o trancou num pequeno curral. Maria teve que cozinhar para o irmão, para que ele engordasse — ela mesma quase não recebia nada.
Todas as manhãs a bruxa vinha e dizia: — João, estique o dedo para fora, para eu sentir se você já está gordo o bastante. — João, porém, sempre estendia um ossinho fino, e como a bruxa enxergava mal, ficava intrigada por ele não engordar. Depois de quatro semanas, ela perdeu a paciência. — Amanhã — disse a Maria —, vou cozinhá-lo, gordo ou não.
Na manhã seguinte, a bruxa acendeu o forno e quis mandar Maria entrar, com o pretexto de ver se já estava quente o bastante — na verdade, queria empurrar a menina lá dentro. Mas Maria percebeu a armadilha. — Não sei como entrar aí — disse, fingindo inocência. — Sua boba — resmungou a bruxa —, a abertura é bem grande, olhe só! — E se enfiou ela mesma um pouco para mostrar. Foi então que Maria lhe deu um empurrão firme, fechou a porta de ferro e correu o ferrolho. A bruxa má estava vencida, e seu feitiço sobre as crianças, quebrado.
Maria correu até João, abriu a porta do curral e gritou: — João, estamos livres! A velha bruxa se foi! — João saltou para fora, e os dois se abraçaram, cheios de alegria. Na casa encontraram baús cheios de pérolas e pedras preciosas. — Isso é ainda melhor que pedrinhas — disse João, enchendo os bolsos, enquanto Maria enchia o avental.
Depois partiram pelo caminho. Andando um pouco, chegaram a um rio largo. — Não há ponte nem passagem — disse João. Então viram um pato branco nadando, e Maria cantou:
“Patinho, patinho, aqui estamos nós, João e Maria, sem ponte, sem trato — leve-nos nas suas costas de pato.”
O pato se aproximou e carregou os dois, um de cada vez, em segurança até a outra margem. E, quanto mais andavam, mais familiar ficava a floresta, até que enfim avistaram a casa do pai. Correram, entraram apressados e se lançaram nos braços dele. Desde aquele dia, o pai não tivera uma hora de alegria — e a mãe, enquanto isso, tinha morrido.
Maria sacudiu o avental, e pérolas e pedras preciosas se espalharam pelo chão, e João jogou mais uma mão cheia atrás da outra. Dali em diante, todas as preocupações tiveram fim, e pai, João e Maria viveram juntos, felizes e em paz.