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Duas crianças de mãos dadas seguem por uma trilha da floresta ao luar rumo a uma casinha feita de pão, com telhado de bolo e janelas acesas.

João e Maria

Irmãos Grimm

9 min de leituraa partir dos 5 anos

A fome obriga um lenhador e a mulher a deixar os dois filhos na mata, onde uma velha de olhos vermelhos os atrai para a casa de pão e tranca o menino num cercado. Maria acaba com a bruxa, enche o avental de pérolas, atravessa o rio no lombo de uma patinha e volta com o irmão para casa, onde os três vivem em alegria.


Na orla de uma floresta enorme morava um lenhador pobre com a mulher e os dois filhos, João e Maria. Quando a carestia caiu sobre aquelas terras, faltou até o pão de cada dia.

Certa noite, remoendo as preocupações na cama, o lenhador suspirou.

— O que vai ser de nós? Não temos nada nem para nós mesmos, quanto mais para as crianças.

— Amanhã cedo levamos os dois para o meio da floresta — respondeu a mulher. — Acendemos uma fogueira, damos um pedacinho de pão a cada um e vamos trabalhar. Eles não acham o caminho de volta.

— Isso eu não faço — disse o lenhador. — Como é que eu ia deixar meus filhos sozinhos no mato? Os bichos logo achariam os dois.

— Seu bobo. Então nós quatro morremos de fome, e você pode ir aplainando as tábuas dos caixões.

E não lhe deu sossego enquanto ele não cedeu.

De tanta fome, os irmãos não tinham conseguido dormir e escutaram tudo.

— Agora estamos perdidos — chorou Maria.

— Não se aflija — disse João. — Eu dou um jeito.

Quando o pai e a mulher pegaram no sono, ele saiu na ponta dos pés e encheu os bolsos com os seixos brancos que reluziam ao luar diante da casa.

Ajoelhado no terreiro à noite, um menino recolhe seixos brancos que brilham na terra; atrás dele, a cabana de madeira dorme sob o luar.

— Pode dormir sossegada, irmãzinha — disse ao voltar. — Deus não vai nos abandonar.

Antes do nascer do sol, a mulher acordou as crianças e deu um pedaço de pão a cada uma.

— Levantem, seus preguiçosos, vamos buscar lenha. Esse é o almoço de vocês, não comam antes da hora.

Maria levou os dois pedaços no avental, porque os bolsos de João estavam cheios de pedras. No caminho, ele parava e olhava para trás.

— João, o que é que você fica olhando aí, sempre atrasado? — disse o pai.

— Ai, pai, é o meu gatinho branco — respondeu João. — Ele está lá no telhado, querendo me dizer adeus.

— Bobagem — disse a mulher. — Aquilo não é gatinho nenhum, é o sol da manhã batendo na chaminé.

Mas João não olhava para gato nenhum: a cada parada, deixava cair na trilha mais um seixo branco.

No meio da floresta, o pai acendeu um fogo para eles não sentirem frio, e a mulher mandou que descansassem ali: iam cortar lenha e voltariam depois.

Ao meio-dia, cada um comeu o seu pão. Ouviam pancadas ao longe e pensavam que o pai estava por perto, mas era só um galho que ele tinha amarrado numa árvore seca, batendo ao vento. Os olhos foram pesando, e eles adormeceram. Quando acordaram, já era noite escura.

— Como é que a gente vai sair daqui? — chorou Maria.

— Espere a lua subir — disse João. — Aí a gente acha o caminho.

Quando a lua cheia apareceu, ele pegou a irmã pela mão e seguiu os seixos, que cintilavam e mostravam o caminho. Caminharam a noite inteira e chegaram em casa ao raiar do dia. A mulher ralhou, mas o pai ficou feliz: o coração doía nele desde que os deixara sozinhos.

Não demorou e a fome apertou outra vez. De noite, as crianças ouviram a madrasta dizer que só havia meio pão em casa e que os dois teriam de ser levados mais para dentro da floresta. Pesou no coração do lenhador, que preferia repartir o último bocado com os filhos; mas, como tinha cedido da primeira vez, cedeu também da segunda. Dessa vez a mulher tinha trancado a porta, e João não pôde sair para catar seixos.

— Não chore, Maria, e durma sossegada — disse ele à irmã. — Deus há de nos ajudar.

De manhã, o pedaço de pão era ainda menor. No caminho, João foi esmigalhando o dele no bolso e deixando cair uma migalha atrás da outra.

— João, por que você para e fica olhando para trás? — disse o pai.

— Estou olhando o meu pombinho — respondeu João. — Ele está lá no telhado, querendo me dizer adeus.

— Bobagem — disse a mulher. — Aquilo não é pombinho nenhum, é o sol da manhã batendo na chaminé.

Levaram as crianças ainda mais para o fundo da floresta, acenderam outra fogueira e prometeram voltar à noite.

Ao meio-dia, Maria repartiu o pão dela com João, que espalhara o seu pelo caminho. Depois adormeceram, e ninguém veio buscá-los. Só acordaram já de noite.

— Espere a lua subir, Maria — disse João. — Aí a gente vê as migalhas que eu joguei e acha o caminho de casa.

Quando a lua veio, puseram-se a andar, mas não acharam nenhuma migalha: os pássaros da mata tinham bicado todas. Andaram a noite inteira e mais um dia sem sair da floresta, comendo só umas frutinhas do chão, até caírem de cansaço debaixo de uma árvore.

Passarinhos pardos bicam migalhas espalhadas numa trilha da mata; ao fundo, de costas, duas crianças de mãos dadas seguem rumo à luz do poente.

Amanheceu o terceiro dia longe de casa, e eles só se embrenhavam mais fundo. Ao meio-dia, viram num galho um passarinho branco como a neve, que cantava tão bonito que os dois pararam para escutar. Depois o passarinho abriu as asas e voou na frente deles, e as crianças foram atrás até uma casinha. Era feita de pão, coberta de bolo, e as janelas eram de açúcar transparente.

— Vamos nos servir — disse João. — Eu como um pedaço do telhado, e você, Maria, come da janela, que é doce.

João quebrou um pedacinho do telhado para provar, e Maria se encostou nas vidraças e ficou mordiscando. Nisso, uma voz fininha chamou lá de dentro:

Rói, rói, ratinha,quem rói a minha casinha?

E as crianças responderam:

É o vento, é o vento,o filho do firmamento.

E continuaram comendo, sem se abalar. De repente a porta se abriu e saiu uma velha velhíssima, apoiada numa muleta. Os dois se assustaram e deixaram cair o que tinham nas mãos, mas ela balançou a cabeça e falou mansinho:

— Ora, criancinhas queridas, quem trouxe vocês até aqui? Entrem e fiquem comigo, ninguém vai lhes fazer mal.

Levou os dois para dentro, serviu leite e panquecas, maçãs e nozes, e arrumou duas caminhas brancas, onde eles se deitaram achando que estavam no céu.

A velha só tinha fingido ser boa. Era uma bruxa má, que havia construído a casa de pão para atrair crianças e comê-las. As bruxas têm olhos vermelhos e enxergam pouco, e aquela riu com maldade: os dois não lhe escapariam.

De manhã bem cedo, agarrou João com a mão seca, trancou-o num cercadinho gradeado e sacudiu Maria:

— Levanta, preguiçosa! Vai buscar água e cozinhar uma comida boa para o seu irmão. Ele precisa engordar. Quando estiver gordo, eu como ele.

Maria chorou, mas teve de obedecer. Cozinhava as melhores comidas para João, e para ela só sobravam cascas de camarão. Toda manhã a velha ia até o cercado e chamava:

— João, estique o dedo para fora, que eu quero sentir se você já está gordo.

Mas João estendia um ossinho, e a velha, de vista ruim, se admirava de o menino não engordar nunca. Passadas quatro semanas, perdeu a paciência.

Preso atrás de grossas grades de madeira, um menino estende um ossinho fino, e do lado de fora uma velha curvada na muleta o apalpa à luz de uma lanterna.

— Ei, Maria, anda logo, traga água! — gritou. — Gordo ou magro, amanhã eu cozinho o seu irmão.

A pobre irmãzinha carregou a água chorando.

— Meu Deus, ajude a gente — pediu. — Se os bichos do mato tivessem pegado a gente na floresta, pelo menos a gente teria morrido junto.

— Pare com essa choradeira — disse a velha. — Não vai lhe adiantar nada.

De madrugada, Maria teve de pendurar o caldeirão e acender o fogo.

— Primeiro vamos assar o pão — disse a bruxa. — O forno já está quente e a massa, pronta.

Empurrou a menina até o forno, de onde já saíam labaredas.

— Entre aí e veja se está quente o bastante para enfornar o pão.

Mas a menina percebeu o que ela queria e disse:

— Não sei como se faz. Como é que eu entro?

— Sua boba — respondeu a velha. — A boca do forno é bem larga, olhe só, até eu caberia.

Uma velha curvada na muleta enfia a cabeça na boca acesa do forno de pedra enquanto uma menina de trança e avental branco levanta as duas mãos atrás dela.

E se arrastou para perto e enfiou a cabeça no forno. Nessa hora Maria deu um empurrão, fechou a porta de ferro e passou o ferrolho. E foi esse o fim da bruxa má.

Maria correu ao cercado e gritou:

— João, estamos livres! A bruxa velha se foi.

João saltou para fora como um passarinho a quem abrem a gaiola, e os dois se abraçaram e pularam de alegria. Sem nada mais a temer, entraram na casa da bruxa, onde havia arcas de pérolas e pedras preciosas.

— Estas são bem melhores que seixos — disse João, enchendo os bolsos.

— Eu também quero levar alguma coisa para casa — disse Maria, e encheu o aventalzinho.

Depois de umas horas, chegaram a um rio bem largo.

— Não dá para atravessar — disse João. — Não vejo ponte nenhuma.

— E não passa barco nenhum — respondeu Maria. — Mas ali vem nadando uma pata branca. Se eu pedir, ela nos ajuda.

E chamou:

Patinha, patinha,aqui estão João e Maria.Não há ponte nem caminho,leve a gente no seu dorso branquinho.

A patinha veio mesmo. João sentou no lombo dela e chamou a irmã.

Sentado no lombo de uma pata branca, um menino atravessa a água ensolarada, e na margem gramada uma menina de avental branco o acompanha com a mão estendida.

— Não — respondeu Maria. — Nós dois juntos vamos pesar demais. Que ela nos leve um de cada vez.

Foi o que o bichinho fez. Do outro lado, a floresta foi ficando cada vez mais familiar, até que enfim avistaram de longe a casa do pai. Saíram correndo e se penduraram no pescoço dele. O homem não tinha tido uma hora feliz desde que deixara os filhos na floresta; a mulher havia morrido. Maria sacudiu o avental, João esvaziou os bolsos, e as pérolas e as pedras rolaram pelo chão. Ali acabaram todas as aflições, e os três viveram juntos em pura alegria.

Minha história acabou,um ratinho por ali passou.Quem pegar o ratinhofaz dele um gorro grandinho.

Recontado pela Talerie, fonte: Kinder- und Hausmärchen (abre em uma nova janela)Licença: Domínio público

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Sobre este conto

Os irmãos Grimm publicaram “João e Maria” em Berlim, em 1812: na sua coletânea, o conto leva o número 15 do primeiro volume. Não houve um narrador único: os Grimm juntaram várias versões contadas em Hesse. A resposta das crianças à bruxa veio de Dortchen Wild, em Kassel, em 1813.

De uma edição para outra, o conto mudou. Em 1812, a mulher que quer deixar as crianças na floresta é chamada só de “a mãe”; a palavra “madrasta” aparece em 1840. O passarinho branco que guia os irmãos e a pata que os leva na volta também vieram depois. Recontamos o texto de 1857, da 7ª edição, a última revista pelos irmãos.

A primeira e a última edição dos Grimm: 1812 e 1857

Grimm, 1812Grimm, 1857
A mulherchamada só de “a mãe”em geral “a mulher”, uma vez “madrasta”
O galho amarradonão existebate ao vento numa árvore seca
Até a casinhadão com ela no terceiro diaum passarinho branco os guia
A casinhapão, telhado de bolo, janelas de açúcara mesma: pão, bolo e açúcar
Resposta à bruxanenhuma: largam o que têm nas mãosculpam o vento, numa rima
O fornoa velha senta na tábua para mostrara velha enfia a cabeça para mostrar
A voltaacham o caminho, sem rio nem patauma pata branca leva um de cada vez
O finalo pai fica rico, a mãe tinha morrido“a mulher” morreu; fecha com a rima do ratinho
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Rói, rói, ratinha,quem rói a minha casinha?
Irmãos Grimm, 1857: knuper, knuper, kneischen, / wer knupert an meinem Häuschen?

Como o nosso texto conta

Recontamos a edição de 1857 de duas maneiras: a “Original” se estende mais e fica mais perto do texto alemão; a “Mais suave” é mais breve. Nas duas, um passarinho branco leva João e Maria até uma casa de pão coberta de bolo, com janelas de açúcar. Maria só recebe cascas de camarão, João estende um ossinho no lugar do dedo, até que, passadas quatro semanas, a bruxa perde a paciência. É Maria, sozinha, quem a empurra para dentro do forno.

Os pais deixam os filhos na floresta duas vezes, e a bruxa quer engordar João para comê-lo. Na versão curta, o fim dela cabe numa frase, “E foi esse o fim da bruxa má”, sem o fogo descrito; a versão longa diz que ela teve de queimar até morrer. Vale saber disso antes de escolher qual ler em voz alta.

Contos aparentados e uma confusão

Já em 1812, os Grimm ligaram o conto às histórias de Polegarzinho, sobretudo à versão francesa, “O Pequeno Polegar”. Nele, o caçula de sete irmãos ouve os pais decidirem se livrar dos filhos, deixa uma trilha de pedrinhas e, da outra vez, apenas de farelos de pão, que os passarinhos acabam bicando. Os Grimm apontam também “Nennillo e Nennella”, do Pentamerone de Basile, como parente sobretudo no começo.

Bolte e Polívka resumem versões em língua portuguesa sem casa de bolo: as crianças perdidas roubam bolos quentes de uma velha caolha e ficam presas. Mandadas dançar na pá, seguem o conselho de um santo, pedem que a velha mostre como se faz e a empurram para o forno. Já “O Homem-Biscoito”, que também está na Talerie, é outra história, sem bruxa.

Fontes

Textos de época

Conferido com estas fontes em 13 de outubro de 2026.

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