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Sete irmãos caminham em fila por uma trilha na floresta ao luar, e o menor vai deixando cair pedrinhas brancas que brilham no chão atrás deles.

O Pequeno Polegar

Charles Perrault

15 min de leitura7–12 anos

Um lenhador pobre e a mulher, sem conseguir alimentar os sete filhos, abandonam duas vezes o caçula, o Pequeno Polegar, e seus irmãos na floresta, e é a esperteza do menino, primeiro com pedrinhas e depois enfrentando um Ogro que devora crianças, que salva a todos. Ao trocar as coroas das sete filhas do Ogro pelos gorros dos irmãos, o Pequeno Polegar escapa da morte, rouba as botas mágicas de sete léguas e, com elas, garante fortuna e conforto para toda a família.


Era uma vez um lenhador e sua mulher que tinham sete filhos, todos meninos. Eram muito pobres, e os sete filhos pesavam sobre a casa, pois nenhum deles ainda conseguia ganhar o próprio sustento. O caçula era frágil e quase não falava, e todos tomavam por bobice o que era sinal de sua inteligência. Ele era tão pequeno que, ao nascer, mal era maior que um polegar, e por isso o chamaram de Pequeno Polegar.

O coitado do menino era o bode expiatório da família, mas era o mais esperto e o mais atento de todos os irmãos: falava pouco e ouvia muito.

Veio então um ano terrível, e a fome foi tão grande que aqueles pobres pais decidiram se livrar dos filhos. Numa noite em que as crianças já dormiam, o lenhador, sentado junto ao fogo com a mulher, disse com o coração apertado:

— Você bem vê que não podemos mais alimentar nossos filhos. Não suporto vê-los morrer de fome diante de mim. Amanhã vou levá-los ao bosque e vamos deixá-los perdidos lá. Vai ser fácil: enquanto eles brincam de juntar gravetos, a gente foge sem que percebam.

— Ah! — exclamou a mulher. — Como você seria capaz de levar seus próprios filhos para perdê-los?

O marido lembrou-a da grande pobreza deles, mas ela não conseguia concordar. Era pobre, mas era mãe. Só depois de pensar na dor de vê-los morrer de fome é que ela cedeu, e foi se deitar chorando.

O Pequeno Polegar ouviu tudo. Da cama, tinha percebido que os pais falavam de algo sério e se levantara devagar, escondendo-se debaixo do banco do pai para escutar sem ser visto. Voltou para a cama e não dormiu o resto da noite, pensando no que faria. De madrugada, foi até um riacho, encheu os bolsos de pedrinhas brancas e voltou para casa sem contar nada aos irmãos.

Partiram todos para uma floresta tão fechada que, a dez passos de distância, não se enxergavam. O lenhador começou a cortar lenha, e os meninos a juntar gravetos. Os pais, vendo-os ocupados, foram se afastando devagarinho e, de repente, fugiram por uma trilha escondida.

Quando os meninos se viram sozinhos, começaram a gritar e a chorar com toda a força. O Pequeno Polegar deixou que chorassem, pois sabia bem o caminho de volta: tinha deixado cair, pelo trajeto, as pedrinhas brancas que trazia nos bolsos. Disse então:

— Não tenham medo, meus irmãos. Nosso pai e nossa mãe nos deixaram aqui, mas eu vou levar vocês de volta para casa. Só sigam atrás de mim.

Ele os guiou pelo mesmo caminho que tinham feito para chegar à floresta, e todos voltaram para casa. No começo não ousaram entrar, e ficaram encostados na porta escutando o que os pais diziam.

Naquele momento, o senhor da região mandou ao lenhador moedas de ouro que lhe devia havia muito e que ninguém mais esperava receber. Aquilo trouxe alívio à casa faminta. O lenhador mandou a mulher comprar carne, e ela, que fazia tempo não comia, trouxe muito mais do que precisavam para o jantar de duas pessoas. Depois de comerem até se fartar, a lenhadora disse:

— Ai, onde estarão agora nossos pobres filhos? Como comeriam bem do que sobrou aqui! Mas a culpa foi sua, foi você quem quis perdê-los, eu bem disse que a gente ia se arrepender. O que estarão fazendo agora naquela floresta? Meu Deus, os lobos devem já tê-los devorado! Você foi cruel em abandonar seus próprios filhos assim.

O lenhador, cansado de ouvir a mesma lamúria repetida vinte vezes, ameaçou bater nela se não se calasse. Não que ele estivesse menos arrependido do que a mulher, mas ela o deixava exasperado, e ele era como tantos homens que gostam quando a mulher tem razão, mas não suportam quem sempre a tem.

A lenhadora, em prantos, repetiu mais uma vez, tão alto que os meninos, encostados na porta, ouviram:

— Ai, onde estão meus filhos, meus pobres filhos!

E os meninos gritaram juntos:

— Estamos aqui! Estamos aqui!

Ela correu para abrir a porta e, abraçando-os, disse:

— Que alegria rever vocês, meus queridos! Devem estar cansados e com fome. E você, Pedrinho, olha só como está sujo, vem que eu limpo você.

Sentaram-se à mesa e comeram com um apetite que dava gosto ver, contando aos pais, todos ao mesmo tempo, o medo que tinham passado na floresta. Aquela boa gente ficou radiante de ter os filhos de volta, e a alegria durou enquanto durou o dinheiro.

Quando o dinheiro acabou, o casal voltou à antiga tristeza e decidiu perdê-los outra vez, desta vez bem mais longe, para não falhar.

Por mais que tentassem falar baixinho, o Pequeno Polegar ouviu de novo, e pensou em se safar como da primeira vez. Levantou-se cedo para juntar pedrinhas, mas a porta de casa estava trancada com dupla fechadura, e não conseguiu sair. Não sabia o que fazer, até que a mãe deu a cada um deles um pedaço de pão para o café da manhã. Ocorreu-lhe então usar o pão em vez das pedras, deixando cair migalhas pelo caminho. Guardou o pão no bolso.

Os pais os levaram à parte mais fechada e escura da floresta e, assim que chegaram, tomaram um desvio e os deixaram ali. O Pequeno Polegar não se afligiu muito, porque contava em achar o caminho pelas migalhas espalhadas. Mas, para seu espanto, não sobrara uma sequer: os pássaros tinham comido tudo.

Estavam perdidos de verdade, e quanto mais andavam, mais se embrenhavam na mata. Caiu a noite, levantou-se um vento forte que os apavorava, e por toda parte pareciam ouvir uivos de lobos vindo devorá-los. Quase não ousavam falar nem virar a cabeça. Começou a chover forte, encharcando-os até os ossos; escorregavam a cada passo, caíam na lama e se levantavam sujos, sem saber o que fazer com as próprias mãos.

O Pequeno Polegar subiu ao topo de uma árvore para ver se enxergava alguma coisa. Olhando ao redor, avistou uma luzinha, como a de uma vela, longe, além da floresta. Desceu, mas ao pisar no chão não a via mais, o que o desanimou. Ainda assim, caminhando com os irmãos na direção em que a tinha visto, tornou a avistá-la ao sair do mato.

Chegaram enfim, com muito susto, à casa de onde vinha aquela luz, pois a perdiam de vista sempre que desciam a algum vale. Bateram à porta, e uma mulher veio abrir. Ela perguntou o que queriam, e o Pequeno Polegar respondeu que eram pobres crianças perdidas na floresta e pediam abrigo por caridade. A mulher, vendo aquelas crianças tão bonitinhas, começou a chorar e disse:

— Ai, meus pobres filhos, onde vocês vieram parar? Sabem que esta é a casa de um Ogro que come criancinhas?

— Ai, senhora — respondeu o Pequeno Polegar, tremendo tanto quanto os irmãos —, o que vamos fazer? Se a senhora não nos acolher, os lobos da floresta com certeza vão nos devorar esta noite. Sendo assim, preferimos que seja o senhor a nos comer. Talvez ele tenha pena de nós, se a senhora pedir por nós.

A mulher do Ogro, pensando que poderia escondê-los do marido até de manhã, deixou-os entrar e levou-os para se aquecerem junto ao fogo, onde um carneiro inteiro assava no espeto para o jantar do Ogro.

Mal começavam a se aquecer, ouviram três ou quatro batidas fortes na porta: era o Ogro voltando para casa. Na hora, a mulher os escondeu debaixo da cama e foi abrir. O Ogro perguntou logo se o jantar estava pronto e se já tinham tirado o vinho, e sentou-se à mesa. O carneiro ainda sangrava um pouco, mas isso só o agradava mais. Ele farejava para os lados, dizendo que sentia cheiro de carne fresca.

— Deve ser o vitelo que acabei de preparar, o que o senhor está sentindo — disse a mulher.

— Estou sentindo cheiro de carne fresca, já disse — repetiu o Ogro, olhando-a de esguelha. — Tem alguma coisa aqui que eu não entendo.

Ao dizer isso, levantou-se da mesa e foi direto até a cama.

— Ah! — exclamou. — Então é assim que você quer me enganar, mulher maldita! Não sei o que me impede de comer você também, ainda bem que é uma velha tola. Chegou bem a tempo essa caça, vou receber três amigos ogros nestes dias.

Tirou os meninos de debaixo da cama, um por um. Eles se ajoelharam, implorando perdão, mas tinham diante de si o mais cruel de todos os ogros, que já os devorava com os olhos e dizia à mulher que fariam belos petiscos, temperados com um bom molho.

Foi buscar uma faca grande e, aproximando-se dos meninos, começou a afiá-la numa pedra comprida que segurava na outra mão. Já tinha agarrado um deles quando a mulher disse:

— Para que fazer isso agora? Amanhã não dá tempo de sobra?

— Cale-se — respondeu o Ogro. — Assim eles ficam mais murchinhos.

— Mas o senhor ainda tem tanta carne — insistiu ela. — Olha, tem um vitelo, dois carneiros e meio porco!

— Você tem razão — disse o Ogro. — Dê a eles um bom jantar, para que não emagreçam, e depois leve-os para dormir.

A boa mulher, feliz da vida, serviu-lhes um jantar farto, mas eles, tomados de medo, quase não conseguiram comer nada. Quanto ao Ogro, voltou a beber, satisfeito por ter com que receber bem os amigos, e bebeu bem mais que o costume, o que o deixou zonzo e o mandou para a cama.

O Ogro tinha sete filhas, ainda pequenas. Aquelas ogrinhas tinham a pele bonita, porque comiam carne fresca como o pai, mas os olhos eram cinzentos e redondos, o nariz curvo e a boca enorme, com dentes compridos e separados. Ainda não eram muito más, mas prometiam ser: já mordiam as crianças pequenas para chupar seu sangue. Foram postas na cama cedo, todas as sete numa cama grande, cada uma com uma coroa de ouro na cabeça.

Havia no mesmo quarto outra cama, do mesmo tamanho, e foi ali que a mulher do Ogro deitou os sete meninos, antes de se recolher ao próprio quarto.

O Pequeno Polegar tinha notado as coroas de ouro na cabeça das filhas do Ogro, e temia que ele se arrependesse de não ter matado os meninos naquela mesma noite. Levantou-se pela madrugada e, pegando as touquinhas dos irmãos e a sua, colocou-as devagar na cabeça das sete filhas, depois de tirar delas as coroas de ouro, que pôs na cabeça dos irmãos e na própria, para que o Ogro tomasse os meninos por suas filhas, e as filhas pelos meninos que queria matar.

Deu tudo certo como ele tinha imaginado. O Ogro, acordando ainda de madrugada, lamentou ter deixado para o dia seguinte o que podia ter feito na véspera. Saltou da cama, pegou a faca e disse:

— Vamos ver como estão nossos pequenos malandros. Não vou perder tempo desta vez.

Subiu no escuro até o quarto das filhas e chegou perto da cama onde estavam os meninos, todos dormindo, exceto o Pequeno Polegar, que sentiu muito medo quando a mão do Ogro apalpou sua cabeça, como havia apalpado a de todos os irmãos. O Ogro, sentindo as coroas de ouro, disse:

— Ora, ia fazer uma bela besteira. Vejo que bebi demais ontem à noite.

Foi então até a cama das filhas e, sentindo as touquinhas dos meninos, disse:

— Ah, aqui estão nossos malandrinhos. Vamos ao trabalho, sem hesitar.

Ali, no escuro, sem mais uma palavra, o Ogro tirou a vida das sete filhas, confundindo-as com os meninos que queria matar. Satisfeito com o serviço, voltou a se deitar em seu quarto.

Assim que o Pequeno Polegar ouviu o Ogro roncando, acordou os irmãos e mandou que se vestissem depressa e o seguissem. Desceram devagar até o jardim e pularam o muro. Correram quase a noite inteira, sempre tremendo e sem saber para onde iam.

O Ogro, ao acordar, disse à mulher:

— Vá lá em cima vestir aqueles pequenos malandros de ontem à noite.

A ogra, surpresa com a bondade do marido e sem desconfiar do que ele realmente queria dizer, subiu, e foi ali que descobriu, apavorada, o que tinha acontecido às suas sete filhas. Desmaiou de dor.

O Ogro, temendo que a mulher demorasse demais na tarefa que lhe tinha dado, subiu para ajudar, e ficou tão espantado quanto ela diante daquela cena terrível.

— Ah, o que foi que eu fiz! — gritou. — Vão me pagar por isso, os desgraçados, agora mesmo!

Jogou um pote de água no rosto da mulher e, assim que ela voltou a si, disse:

— Traga logo minhas botas de sete léguas, para que eu vá pegá-los.

Partiu então pelo mundo afora e, depois de correr para todo lado, acabou entrando no caminho por onde iam os pobres meninos, já a cem passos da casa do pai. Eles viram o Ogro passando de montanha em montanha, atravessando rios como se fossem riachos. Avistando uma pedra oca perto dali, o Pequeno Polegar escondeu ali os seis irmãos e se enfiou também, sem tirar os olhos do Ogro. Exausto de tanto correr à toa, o Ogro quis descansar, e por acaso sentou-se justo na pedra onde os meninos se escondiam.

Vencido pelo cansaço, adormeceu, e roncava tão assustadoramente que os meninos sentiram tanto medo quanto quando ele tinha a faca na mão para matá-los. O Pequeno Polegar, porém, teve menos medo, e disse aos irmãos que corressem para casa enquanto o Ogro dormia pesado, sem se preocupar com ele. Eles seguiram o conselho e logo chegaram em casa.

O Pequeno Polegar se aproximou do Ogro, tirou-lhe devagar as botas e as calçou na hora. As botas eram enormes, mas, como eram encantadas, tinham o dom de crescer ou encolher conforme a perna de quem as calçasse, de modo que ficaram tão justas em seus pés e pernas como se tivessem sido feitas sob medida.

Foi direto até a casa do Ogro, onde encontrou a mulher chorando junto às filhas mortas.

— Seu marido — disse o Pequeno Polegar — está em grande perigo: foi capturado por um bando de ladrões que juraram matá-lo se não entregar todo o seu ouro e toda a sua prata. No momento em que lhe apontavam o punhal à garganta, ele me viu e me pediu que viesse avisar a senhora, e que a senhora me desse tudo o que ele tem de valioso, sem guardar nada, pois do contrário vão matá-lo sem piedade. Como o caso é urgente, ele quis que eu calçasse estas botas de sete léguas, para que eu chegasse depressa e a senhora não pensasse que estou mentindo.

A boa mulher, apavorada, entregou-lhe imediatamente tudo o que tinha, pois aquele Ogro, apesar de comer criancinhas, era um marido muito bom. Carregado com toda a riqueza do Ogro, o Pequeno Polegar voltou para a casa do pai, onde foi recebido com grande alegria.

Há quem conte essa última parte de outro jeito e diga que o Pequeno Polegar nunca roubou o Ogro, embora não tivesse escrúpulos em levar as botas de sete léguas, já que só serviam para correr atrás de crianças pequenas. Segundo essa versão, assim que calçou as botas, o Pequeno Polegar foi direto à corte, onde se esperava com aflição notícias de um exército que travava batalha longe dali. Foi falar com o rei e disse que lhe traria notícias antes do fim do dia. O rei prometeu-lhe boa soma se conseguisse, e o Pequeno Polegar cumpriu a promessa naquela mesma noite. Essa primeira corrida bastou para torná-lo conhecido, e o rei passou a pagá-lo muito bem para levar suas ordens ao exército. Depois de servir algum tempo como mensageiro real e juntar uma bela fortuna, voltou para a casa do pai, onde a alegria ao revê-lo foi imensa. Deu conforto a toda a família e comprou cargos novos para o pai e para os irmãos, estabelecendo a todos.

Recontado pela Talerie, Fonte: Le Petit Poucet (abre em uma nova janela)

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