
A Lenda do Curupira
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Dois lenhadores forasteiros se perdem numa mata fechada quando o Curupira embaralha o caminho diante deles, e um dos dois reconhece os sinais do espírito no risinho silencioso, nos dentes verdes e nas pegadas ao contrário. Seguindo a velha regra de deixar cruzes e rodilhas de cipó pelo trilho, os dois entretêm o Curupira e conseguem escapar da mata.
Dois lenhadores entraram na mata numa manhã clara, decididos a cortar madeira de lei antes que o sol chegasse ao meio do céu. Eram forasteiros por ali: vinham de outra banda, contratados para abrir picada naquele trecho, e não conheciam nada daquele mato fechado, cheio de troncos grossos, cipós pendurados dos galhos e sombra funda mesmo debaixo do sol forte.
O mais velho, chamado Tibúrcio, tinha ouvido contar histórias daquela mata desde menino, histórias que os antigos repetiam à boca da noite, ao pé do fogo, quando a conversa esfriava e alguém lembrava de mais uma dessas histórias. O companheiro, um rapaz chamado Duca, ria dessas histórias e dizia que mato era só mato, sem mistério nenhum além de espinho, mosquito e trabalho pesado.
Caminharam boa parte da manhã seguindo uma trilha estreita que cortava entre os troncos, ouvindo só o barulho dos próprios passos e o canto distante de algum pássaro escondido na copa das árvores. Cortaram um pouco de lenha, marcaram outras árvores para voltar depois e, quando acharam que já era hora de sair, seguiram pelo mesmo caminho de volta. Só que o caminho não parecia mais o mesmo. As marcas que Tibúrcio jurava ter deixado numa árvore apareciam agora do outro lado da trilha, e o riacho que tinham cruzado de manhã voltou a surgir na frente deles, como se andassem em roda, sem nunca se afastar do mesmo ponto.
Duca começou a se irritar, achando que Tibúrcio tinha errado o rumo. Mas Tibúrcio parou, olhou em volta e disse baixinho:
— Isso não é erro de rumo. Isso é coisa do Curupira.
— Do quê? — perguntou Duca, rindo sem muita vontade.
— Do Curupira — repetiu Tibúrcio —. É o espírito ruim do mato. Ele embaralha os caminhos pra confundir quem anda por aqui, e não quer o bem de ninguém. Quem ele pega não volta.
Duca balançou a cabeça, dizendo que aquilo era conversa de gente velha, que o sol estava alto e eles iam achar o caminho sem precisar de reza nem crendice. Mas antes que terminasse de falar, ouviram um risinho baixo, quase sem som, vindo de dentro de um tronco oco de madeira de lei, bem perto dali. Os dois pararam. Duca olhou para o buraco escuro no tronco e viu, por um instante, um vulto pequeno, do tamanho de uma criança, com os dentes verdes num sorriso rápido, escapar de dentro dele e sumir atrás de outra árvore, tão depressa que quase não deu para jurar que tinha visto alguma coisa de verdade.
— Você viu aquilo? — perguntou Duca, com a voz mudada.
— Vi — respondeu Tibúrcio —. E não foi só um. Eles andam sempre aos pares, morando no oco dos troncos mais grossos. Aparecem de repente, pregam a peça e se escondem de novo, à espreita, rindo sem fazer barulho nenhum.
Seguiram andando mais depressa, mas o caminho continuava a se enrolar sobre si mesmo, virando sempre para o mesmo lado, como se a própria mata estivesse mudando de lugar ao redor deles. Foi então que viram, bem no meio da trilha, um rastro de pés pequenos marcado na terra macia. Duca se abaixou para olhar e sentiu um arrepio: as marcas dos dedos apontavam para trás, para o lado de onde eles tinham vindo, como se quem passara por ali andasse com os pés virados ao contrário.
— Os pés dele são ao avesso — disse Tibúrcio, sem se abaixar —. Por isso o rastro engana. Quem segue essas pegadas pensando em sair da mata acaba é entrando mais fundo nela.
Duca ficou pálido e perguntou o que fazer, a voz já sem nenhuma vontade de rir. Foi aí que Tibúrcio contou a regra que guardava desde menino, a mesma que os velhos repetiam à boca da noite: quando o Curupira persegue alguém, correr não adianta, porque só cansa e faz perder o fôlego bem na hora em que mais se precisa dele. O certo é ir deixando pelo caminho cruzes feitas de gravetos e rodilhas de cipó bem entrançadas, uma atrás da outra. O Curupira para para examinar o que encontra e se entretém tentando desmanchar o trançado, e enquanto ele se ocupa com isso, quem foge ganha tempo de deixar a mata para trás.
Duca, que minutos antes não acreditava em nada daquilo, não discutiu mais uma só palavra. Os dois cortaram cipó fino que pendia dos galhos e o entrançaram em rodilhas apertadas, do jeito que Tibúrcio lembrava ter visto os antigos fazerem à beira do fogão de chão. A cada poucos passos, cruzavam dois gravetos no chão e deixavam uma rodilha de cipó ao lado, e seguiam andando sem olhar para trás, com as mãos ainda ocupadas trançando a próxima.
Atrás deles, ouviam de vez em quando aquele riso baixo, quase engasgado, e o barulho leve de alguém parando junto de cada cruz para mexer no cipó entrançado. Cada vez que isso acontecia, o riso demorava mais para se aproximar de novo, como se quem o soltava estivesse mesmo entretido, tentando desatar o que os dois tinham trançado com tanto cuidado.
Foi assim, deixando cruz e rodilha pelo caminho, uma depois da outra, que os dois lenhadores foram avançando, até que a mata começou a clarear na frente deles e o riacho apareceu outra vez, mas agora do lado certo, o lado por onde tinham entrado de manhã. Saíram para o campo aberto, ofegantes, sem olhar para trás nem uma vez, e só pararam de andar quando a mata ficou bem longe atrás deles, uma linha escura no fim do campo.
Duca sentou-se na beira do campo, ainda ofegante, e ficou um bom tempo calado antes de conseguir falar de novo. Tibúrcio olhou para aquela linha escura lá longe e não disse nada, porque não precisava. Os dois pegaram os feixes de lenha que tinham conseguido cortar, ajeitaram-nos nas costas e seguiram estrada afora, cada um com os seus próprios pensamentos, sem voltar àquele trecho de mato nunca mais.
Recontado pela Talerie, Fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)
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