
A Lenda do Curupira
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Tibúrcio trança uma rodilha de cipó e avisa Duca que a mata tem dono, mas o guri ri e se perde, e dá com dois meninos iguais, de dentes verdes e pés virados para trás. Enquanto os curupiras desmancham os nós, Tibúrcio e Duca alcançam o capim alto; no outro dia o guri senta na beira do campo e fica trançando cipó.
Tibúrcio e Duca saíram de casa antes do sol, com os machados no ombro, para tirar lenha na mata grande.
Duca tinha dezessete anos e ria de quase tudo. Tibúrcio já era velho, andava devagar e olhava onde punha o pé.
Na beira da mata, onde o campo acaba e a sombra começa, o velho parou, tirou o chapéu e botou de volta na cabeça.
— Daqui para dentro o mato tem dono — disse ele. — Não é bicho e não é gente. É o espírito ruim da mata, e o nome dele é Curupira.
Duca riu.
— Isso é história para fazer criança dormir, tchê.
— Ele embaralha as trilhas — continuou Tibúrcio, sem levantar a voz. — Quem entra confiado sai da picada e nem percebe. Anda a manhã inteira e volta sempre no mesmo pé de figueira.
— E depois?
— E depois nada. Ele não faz isso por brincadeira, guri. Quem ele tira do caminho é para matar a sede. E a sede dele é de sangue.
O guri deu de ombros e foi passando o dedo no fio do machado.
O velho não se apressou. Cortou um cipó comprido ali na beira do mato, trançou uma rodilha do tamanho da mão e guardou no bornal. Depois amarrou dois galhos em cruz com uma tira de cipó e guardou junto.

— E isso serve para quê? — perguntou Duca.
— Se um dia ele vier no teu encalço, não é a perna que te salva, guri. É o que tu vai deixando para trás.
— Um cipó?
— Tudo o que ele acha no chão, ele tem que revirar. E o que está trançado, ele precisa destrançar fio por fio. Enquanto ele destrança, tu caminha.
Duca riu de novo, e os dois entraram.
O sol subiu. Cortaram lenha a manhã inteira, cada um no seu tronco, e o barulho dos machados foi enchendo a mata.
Depois do meio-dia, Duca avistou uma árvore melhor mais adiante e foi atrás dela sem avisar. Eram uns cem passos, e ele foi abrindo a picada com o facão, sempre em frente.
Quando ele olhou para trás, havia três picadas onde ele tinha aberto uma.
Escolheu a do meio. Andou um pouco e os talhos do seu facão começaram a aparecer do lado errado, em troncos onde ele não tinha encostado a lâmina.
Chamou por Tibúrcio. A mata engoliu a voz e não devolveu nem o eco.
Foi então que Duca viu, na beira de uma clareira, o que parecia uma criança.
Era pequeno, do tamanho de um guri de oito anos, parado muito quieto, de costas para a luz.
Duca sentiu o peito afrouxar.
— Tu te perdeu? — perguntou, e deu um passo. — Vem comigo, que eu te levo para o campo.
O pequeno virou o rosto e sorriu.
Os dentes dele eram verdes como o limo das pedras da sanga.
Duca não conseguiu se mexer. Foi baixando os olhos devagar, até chegar aos pés dele.
Os calcanhares estavam na frente e os dedos apontavam para trás. As pegadas na terra molhada iam todas para o lado de onde o pequeno tinha vindo.
Atrás do pequeno havia um pau de lei grosso, dos bem antigos, com um oco na base do tronco.
Do oco saiu o outro, igualzinho, e os dois ficaram lado a lado na clareira.

Abriram a boca ao mesmo tempo. Estavam rindo, com os ombros sacudindo, e não saiu som nenhum.
Uma mão se fechou no braço de Duca. Era Tibúrcio.
— Anda comigo — disse o velho, bem baixinho. — Devagar.
Deram três passos. Quando olharam de novo, a clareira estava vazia, e isso era pior.
Alguma coisa vinha atrás deles, sem pisar em galho nenhum.
Tibúrcio tirou o chapéu e jogou para trás, na direção de onde não vinha barulho nenhum.
Duca ouviu um estalo de folha seca. Um dos dois tinha parado para revirar o chapéu na mão.
Mais adiante o velho largou a cruz de galhos bem no meio da picada.
O segundo estancou em cima da cruz, mexendo no nó do cipó.
— Corre, Tibúrcio! — pediu o guri, puxando o braço do velho.
— Não é a perna que te salva, guri — disse Tibúrcio, sem apressar o passo. — É o que tu vai deixando para trás.
Ele tirou a rodilha do bornal e deixou estendida no chão, no meio do caminho.
Atrás deles, os dois pequenos sentaram na terra e começaram a desmanchar os nós, um fio de cada vez. E cada nó desmanchado era mais um pedaço de picada que Tibúrcio e Duca ganhavam.

A mata ainda tentou. O caminho dava voltas que não eram dele, e duas vezes os dois passaram pela mesma touceira de taquara.
O velho foi trançando cipó enquanto andava. Deixou uma cruz em cada curva e uma rodilha onde a picada se abria em duas, e não correu nenhuma vez.
Quando o cipó acabou, desamarrou a correia do bornal, fez um nó atrás do outro e largou no chão.
Então a luz do campo apareceu entre os troncos.
Os dois saíram no capim alto e pararam, calados, com o sol batendo em cheio nas costas.
Na beira da mata, atrás deles, não saiu ninguém. O mato ia até ali, e o dono do mato também.
— Eles nunca andam sozinhos — disse Tibúrcio, quando conseguiu falar. — É sempre aos pares. Tu viu os dois?
— Vi — respondeu Duca.
O guri ficou olhando a sombra entre os troncos por um tempo comprido, e de lá não veio grito nem passo, nem barulho nenhum.
No outro dia, antes de pegar no machado, ele sentou na beira do campo e ficou trançando cipó.
Tibúrcio não disse nada. Deixou o guri trançar.
Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)Licença: Domínio públicoCopie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório.CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
