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Um menino indígena de dentes verdes e pés virados para trás sorri junto às raízes de uma árvore oca, com pegadas ao contrário na trilha.

A Lenda do Curupira

João Simões Lopes Neto

6 min de leituraa partir dos 8 anos

Tibúrcio trança uma rodilha de cipó e avisa Duca que a mata tem dono, mas o guri ri e se perde, e dá com dois meninos iguais, de dentes verdes e pés virados para trás. Enquanto os curupiras desmancham os nós, Tibúrcio e Duca alcançam o capim alto; no outro dia o guri senta na beira do campo e fica trançando cipó.


Tibúrcio e Duca saíram de casa antes do sol, com os machados no ombro, para tirar lenha na mata grande.

Duca tinha dezessete anos e ria de quase tudo. Tibúrcio já era velho, andava devagar e olhava onde punha o pé.

Na beira da mata, onde o campo acaba e a sombra começa, o velho parou, tirou o chapéu e botou de volta na cabeça.

— Daqui para dentro o mato tem dono — disse ele. — Não é bicho e não é gente. É o espírito ruim da mata, e o nome dele é Curupira.

Duca riu.

— Isso é história para fazer criança dormir, tchê.

— Ele embaralha as trilhas — continuou Tibúrcio, sem levantar a voz. — Quem entra confiado sai da picada e nem percebe. Anda a manhã inteira e volta sempre no mesmo pé de figueira.

— E depois?

— E depois nada. Ele não faz isso por brincadeira, guri. Quem ele tira do caminho é para matar a sede. E a sede dele é de sangue.

O guri deu de ombros e foi passando o dedo no fio do machado.

O velho não se apressou. Cortou um cipó comprido ali na beira do mato, trançou uma rodilha do tamanho da mão e guardou no bornal. Depois amarrou dois galhos em cruz com uma tira de cipó e guardou junto.

Velho de chapéu e bornal, ajoelhado na beira da mata, enrola um cipó comprido ao lado de uma cruz de dois galhos; um rapaz descalço olha de braços cruzados.

— E isso serve para quê? — perguntou Duca.

— Se um dia ele vier no teu encalço, não é a perna que te salva, guri. É o que tu vai deixando para trás.

— Um cipó?

— Tudo o que ele acha no chão, ele tem que revirar. E o que está trançado, ele precisa destrançar fio por fio. Enquanto ele destrança, tu caminha.

Duca riu de novo, e os dois entraram.

O sol subiu. Cortaram lenha a manhã inteira, cada um no seu tronco, e o barulho dos machados foi enchendo a mata.

Depois do meio-dia, Duca avistou uma árvore melhor mais adiante e foi atrás dela sem avisar. Eram uns cem passos, e ele foi abrindo a picada com o facão, sempre em frente.

Quando ele olhou para trás, havia três picadas onde ele tinha aberto uma.

Escolheu a do meio. Andou um pouco e os talhos do seu facão começaram a aparecer do lado errado, em troncos onde ele não tinha encostado a lâmina.

Chamou por Tibúrcio. A mata engoliu a voz e não devolveu nem o eco.

Foi então que Duca viu, na beira de uma clareira, o que parecia uma criança.

Era pequeno, do tamanho de um guri de oito anos, parado muito quieto, de costas para a luz.

Duca sentiu o peito afrouxar.

— Tu te perdeu? — perguntou, e deu um passo. — Vem comigo, que eu te levo para o campo.

O pequeno virou o rosto e sorriu.

Os dentes dele eram verdes como o limo das pedras da sanga.

Duca não conseguiu se mexer. Foi baixando os olhos devagar, até chegar aos pés dele.

Os calcanhares estavam na frente e os dedos apontavam para trás. As pegadas na terra molhada iam todas para o lado de onde o pequeno tinha vindo.

Atrás do pequeno havia um pau de lei grosso, dos bem antigos, com um oco na base do tronco.

Do oco saiu o outro, igualzinho, e os dois ficaram lado a lado na clareira.

Na boca do tronco oco, dois meninos iguais de costas sorriem por cima do ombro com dentes verdes, os pés virados para quem olha; à esquerda, um rapaz parado.

Abriram a boca ao mesmo tempo. Estavam rindo, com os ombros sacudindo, e não saiu som nenhum.

Uma mão se fechou no braço de Duca. Era Tibúrcio.

— Anda comigo — disse o velho, bem baixinho. — Devagar.

Deram três passos. Quando olharam de novo, a clareira estava vazia, e isso era pior.

Alguma coisa vinha atrás deles, sem pisar em galho nenhum.

Tibúrcio tirou o chapéu e jogou para trás, na direção de onde não vinha barulho nenhum.

Duca ouviu um estalo de folha seca. Um dos dois tinha parado para revirar o chapéu na mão.

Mais adiante o velho largou a cruz de galhos bem no meio da picada.

O segundo estancou em cima da cruz, mexendo no nó do cipó.

— Corre, Tibúrcio! — pediu o guri, puxando o braço do velho.

— Não é a perna que te salva, guri — disse Tibúrcio, sem apressar o passo. — É o que tu vai deixando para trás.

Ele tirou a rodilha do bornal e deixou estendida no chão, no meio do caminho.

Atrás deles, os dois pequenos sentaram na terra e começaram a desmanchar os nós, um fio de cada vez. E cada nó desmanchado era mais um pedaço de picada que Tibúrcio e Duca ganhavam.

Dois meninos iguais, sentados na picada, desfiam uma rodilha de cipó ao lado de uma cruz amarrada; ao longe, um velho sem chapéu e um rapaz se afastam.

A mata ainda tentou. O caminho dava voltas que não eram dele, e duas vezes os dois passaram pela mesma touceira de taquara.

O velho foi trançando cipó enquanto andava. Deixou uma cruz em cada curva e uma rodilha onde a picada se abria em duas, e não correu nenhuma vez.

Quando o cipó acabou, desamarrou a correia do bornal, fez um nó atrás do outro e largou no chão.

Então a luz do campo apareceu entre os troncos.

Os dois saíram no capim alto e pararam, calados, com o sol batendo em cheio nas costas.

Na beira da mata, atrás deles, não saiu ninguém. O mato ia até ali, e o dono do mato também.

— Eles nunca andam sozinhos — disse Tibúrcio, quando conseguiu falar. — É sempre aos pares. Tu viu os dois?

— Vi — respondeu Duca.

O guri ficou olhando a sombra entre os troncos por um tempo comprido, e de lá não veio grito nem passo, nem barulho nenhum.

No outro dia, antes de pegar no machado, ele sentou na beira do campo e ficou trançando cipó.

Tibúrcio não disse nada. Deixou o guri trançar.

Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)Licença: Domínio público