
Os Três Cabelos de Ouro do Diabo
11 min de leitura8–14 anos
Um rapaz marcado pela sorte é atirado ao rio pelo rei desconfiado, mas é salvo e criado por moleiros, enfrentando depois uma série de provações perigosas para merecer a filha do rei. Na sua jornada para trazer três cabelos de ouro do próprio diabo, o rapaz descobre segredos que ajudam cidades inteiras e recolhe recompensas, mostrando que a sua bondade e coragem vencem qualquer desafio.
Era uma vez uma mulher pobre que teve um filho. O menino nascera envolto numa membrana, o que os antigos diziam ser sinal de sorte, e logo começaram a dizer que aos catorze anos ele havia de casar com a filha do rei.
Ora, aconteceu que, pouco depois, o próprio rei passou por aquela aldeia, sem que ninguém o reconhecesse. Perguntou que novidades havia, e contaram-lhe:
— Nasceu há dias um menino de sorte. Tudo o que fizer há de correr-lhe bem, e dizem até que aos catorze anos casará com a filha do rei.
O rei tinha o coração duro, e aquela profecia não lhe agradou nada. Foi ter com os pais do menino e, fingindo-se muito amável, disse:
— Sois pobres. Dai-me o vosso filho, que eu cuidarei bem dele.
Os pais recusaram a princípio, mas o homem ofereceu-lhes tanto ouro que eles pensaram: "É uma criança de sorte, há de correr-lhe tudo bem" — e acabaram por entregar o menino.
O rei meteu-o dentro de uma caixa e cavalgou até um rio fundo, onde a atirou à água, pensando: "Assim livro a minha filha deste noivo indesejado." Mas a caixa não afundou. Flutuou como um pequeno barco, sem deixar entrar uma só gota de água, e foi navegando rio abaixo até chegar perto de um moinho, a duas léguas da cidade do rei. Ali encalhou. Um moço de moleiro que passava viu-a, puxou-a com um gancho, na esperança de encontrar um tesouro — e, ao abri-la, encontrou um menino, fresco e risonho. Levou-o aos moleiros, que não tinham filhos e se alegraram muito.
— Foi Deus que no-lo mandou — disseram.
E cuidaram bem dele, e o menino cresceu forte e bom.
Um dia, fugindo de uma trovoada, o rei entrou naquele mesmo moinho para se abrigar, e viu o rapaz já crescido.
— É vosso filho? — perguntou.
— Não — responderam os moleiros. — É um enjeitado. Há catorze anos veio a boiar numa caixa até à represa, e o nosso moço tirou-o da água.
O rei compreendeu então que aquele rapaz só podia ser o menino da sorte que ele mesmo atirara ao rio. E disse:
— Boa gente, não poderia o vosso rapaz levar uma carta à rainha, minha mulher? Dou-lhe duas moedas de ouro por isso.
— Como Vossa Majestade mandar — responderam os moleiros.
O rei escreveu então uma carta que dizia: assim que o rapaz chegasse com ela, a rainha devia mandá-lo prender e encerrá-lo para sempre, e tudo estar feito antes de ele voltar.
O rapaz partiu com a carta, mas perdeu-se pelo caminho e, ao cair da noite, foi dar a um bosque escuro. Ao longe viu uma pequena luz e caminhou até ela, chegando a uma casinha onde uma velha estava sentada sozinha junto ao lume. Ela assustou-se ao vê-lo.
— Donde vens, e para onde vais? — perguntou.
— Venho do moinho — respondeu ele — e vou levar esta carta à rainha. Perdi-me no bosque e gostaria muito de passar aqui a noite.
— Pobre rapaz — disse a velha —, caíste numa casa de salteadores. Se eles voltarem e te encontrarem aqui, corres perigo.
— Venha quem vier — disse o rapaz —, não tenho medo. Mas estou tão cansado que já não posso dar mais um passo.
E, deitando-se num banco, adormeceu.
Pouco depois voltaram os salteadores, e ficaram furiosos ao ver ali um forasteiro a dormir.
— É só um menino que se perdeu no bosque — explicou a velha. — Recolhi-o por caridade. Vai levar uma carta à rainha.
Os salteadores abriram a carta e leram o que nela vinha escrito — que o rapaz devia ser preso e encerrado para sempre assim que chegasse. E, apesar de serem homens de vida dura, tiveram pena dele. O chefe rasgou a carta e escreveu outra em seu lugar, dizendo que, mal o rapaz chegasse, fosse casado com a filha do rei. Deixaram-no dormir tranquilo até de manhã, e depois entregaram-lhe a nova carta e mostraram-lhe o caminho certo.
A rainha, ao ler a carta, fez tudo o que nela vinha escrito: preparou uma bela festa, e a filha do rei casou com o menino da sorte. E, como ele era gentil e bom, ela viveu feliz ao seu lado.
Passado algum tempo, o rei voltou ao castelo e viu que a profecia se cumprira afinal.
— Como aconteceu isto? — perguntou, espantado. — Eu tinha dado ordem bem diferente.
A rainha mostrou-lhe a carta, e o rei percebeu que ela fora trocada pelo caminho. Perguntou ao rapaz o que fizera da carta verdadeira.
— Não sei de nada — respondeu ele. — Devem tê-la trocado enquanto eu dormia no bosque.
O rei, furioso, disse então:
— Não hás de escapar assim tão facilmente. Se queres mesmo ficar com a minha filha, terás de me trazer do inferno três cabelos de ouro da cabeça do próprio diabo. Só então te dou o meu consentimento.
Pensava o rei, no fundo, livrar-se dele para sempre. Mas o rapaz respondeu, sem hesitar:
— Esses cabelos eu trago. Do diabo não tenho medo.
E partiu.
Chegou a uma cidade, onde o guarda do portão lhe perguntou que ofício sabia.
— Sei de tudo um pouco — respondeu o rapaz.
— Então dize-nos por que a fonte da nossa praça, de onde antes corria vinho, secou de repente e já nem água dá.
— Hão de sabê-lo — disse ele. — Esperem até eu voltar.
Seguiu adiante e chegou a outra cidade, onde lhe perguntaram por que uma árvore que antes dava maçãs de ouro já não deitava sequer uma folha.
— Hão de sabê-lo — respondeu, do mesmo modo. — Esperem até eu voltar.
Mais adiante encontrou um grande rio, e o barqueiro que ali trabalhava perguntou-lhe por que tinha de remar sem descanso, de uma margem para a outra, sem que ninguém alguma vez o viesse render.
— Hás de sabê-lo — disse o rapaz. — Espera até eu voltar.
Do outro lado do rio encontrava-se a entrada do inferno, toda negra e cheia de fuligem. O diabo não estava em casa; só lá se encontrava a sua avó, sentada numa grande poltrona. Ela não parecia má.
— Que queres? — perguntou.
— Preciso de três cabelos de ouro da cabeça do diabo — respondeu ele —, senão não posso ficar com a minha mulher.
— Pedes muito — disse ela. — Se o diabo te encontra aqui, mal te vai. Mas tenho pena de ti, e vou tentar ajudar-te.
Transformou-o então numa formiga.
— Esconde-te nas dobras da minha saia, que aí ficas seguro.
— Está bem — disse o rapaz —, mas há ainda três coisas que gostaria de saber: por que uma fonte que dava vinho secou; por que uma árvore que dava maçãs de ouro perdeu até as folhas; e por que um barqueiro é obrigado a remar sempre sem ninguém que o venha render.
— São perguntas difíceis — respondeu ela. — Mas fica quieto e escuta bem o que o diabo disser, quando eu lhe arrancar os cabelos.
Ao anoitecer, o diabo voltou para casa e, mal entrou, farejou o ar.
— Cheira-me a carne humana — disse. — Há aqui algo estranho.
Procurou por todos os cantos, mas nada encontrou, e a avó ralhou com ele por desarrumar a casa. Depois de cear, o diabo sentiu-se cansado e deitou a cabeça no colo da avó, pedindo que o catasse um pouco. Não tardou a adormecer, ressonando alto. Então ela arrancou-lhe um cabelo de ouro.
— Ai! Que fazes? — gritou ele, acordando.
— Tive um sonho ruim — respondeu a avó — e agarrei-te sem querer.
— E que sonhaste?
— Sonhei com uma fonte que antes dava vinho e agora não dá nem água. Por que será?
— Ah, se soubessem! — disse o diabo. — Há um sapo escondido debaixo de uma pedra, dentro da fonte. Matem-no, e o vinho volta a correr.
Voltou a adormecer, e ela arrancou-lhe o segundo cabelo.
— Que fazes outra vez? — gritou ele, zangado.
— Perdoa — respondeu ela —, foi em sonhos.
— E que sonhaste desta vez?
— Sonhei com uma árvore que dava maçãs de ouro, e agora nem folhas tem. Qual será a razão?
— Há um rato a roer-lhe a raiz — disse o diabo. — Matem-no, e a árvore torna a florescer. Mas agora deixa-me dormir em paz, ou levas um castigo.
A velha falou-lhe com brandura, e ele voltou a adormecer profundamente. Então arrancou-lhe o terceiro cabelo. O diabo deu um salto e quis zangar-se, mas ela acalmou-o de novo.
— E que sonhaste agora? — perguntou ele, ainda curioso.
— Sonhei com um barqueiro que se queixava de remar sempre, sem que ninguém o viesse render. Por que será?
— Que tolo! — disse o diabo. — É só entregar a vara a quem quiser atravessar. Esse fica a remar, e ele fica livre.
Como já tinha os três cabelos e as três respostas, a avó deixou-o dormir em paz até de madrugada.
Quando o diabo saiu de casa, a velha devolveu ao rapaz a sua forma humana e entregou-lhe os três cabelos de ouro.
— Ouviste tudo o que o diabo disse — disse ela. — Agora podes seguir o teu caminho.
Ele agradeceu-lhe de coração e partiu, contente por tudo lhe ter corrido tão bem. No rio, o barqueiro pediu-lhe a resposta prometida.
— Leva-me primeiro à outra margem — disse o rapaz —, e depois digo-te.
Ao chegar, revelou-lhe o segredo:
— Quando alguém quiser atravessar, põe-lhe a vara na mão, e ficarás livre.
Seguiu até à cidade da árvore seca e disse ao guarda:
— Matai o rato que lhe rói a raiz, e ela voltará a dar maçãs de ouro.
O guarda agradeceu-lhe com dois burros carregados de ouro.
Depois chegou à cidade da fonte seca e disse:
— Há um sapo debaixo de uma pedra, dentro da fonte. Matai-o, e o vinho voltará a correr.
Também aqui lhe deram, em recompensa, dois burros carregados de ouro.
Por fim, o rapaz voltou para casa, junto da sua mulher, que se alegrou muito ao revê-lo e ao saber que tudo lhe correra tão bem. Levou ao rei os três cabelos de ouro do diabo, e, quando este viu os quatro burros carregados de ouro, ficou muito satisfeito.
— Agora está tudo cumprido — disse. — Podes ficar com a minha filha. Mas diz-me, genro, donde vem tanto ouro?
— Atravessei um rio — respondeu o rapaz — e ali o apanhei, na margem, como se fosse areia.
— E poderei eu também ir buscar? — perguntou o rei, cheio de cobiça.
— Quanto quiserdes — respondeu ele. — Há um barqueiro nesse rio; deixai que vos leve à outra margem, e aí podereis encher os sacos que desejardes.
O rei, ganancioso, partiu depressa. Chegado ao rio, fez sinal ao barqueiro, que o levou para o outro lado — e, mal chegaram, pôs-lhe a vara na mão e saltou para terra.
E assim ficou o rei a remar, de margem em margem, sem ninguém que o viesse render — pois ninguém, até hoje, lhe tirou a vara das mãos.