
Sopa de Pedra
5 min de leitura4–10 anos
Um andarilho faminto convence uma velha avarenta a lhe emprestar uma panela para fazer sopa de uma simples pedra, e aos poucos a leva a completar o caldo com farinha, carne, batatas, cevada e leite até virar um banquete farto. Encantada com o truque e com a companhia, ela lhe oferece a melhor cama da casa e, na despedida, agradece por ter aprendido a fazer fartura do quase nada.
Numa tarde de outono, quando a luz já ia fraca entre os galhos, um andarilho atravessava uma floresta funda. Não tinha teto à vista, nem nada no bolso além de fome. Foi quando avistou, longe entre as árvores, uma luz tremendo baixinho: uma casinha solitária, com fumaça subindo da chaminé e o brilho de um fogo aceso na janela.
Ele bateu à porta, e uma velha saiu para ver quem era.
— Boa noite, e bem encontrada a senhora — disse o andarilho.
Ela perguntou de onde ele vinha, desconfiada como quem já tinha sido enganada antes.
— Venho do sul do sol e do leste da lua — respondeu ele —. Já vi terra e mar, cidade e vale, mas esta paragem eu ainda não conhecia.
Ele pediu, então, um cantinho para passar a noite. A velha recusou na hora: o marido tinha viajado, não havia pousada por perto, e em casa não sobrava nem uma migalha.
— Só quero um canto de chão para dormir — insistiu ele —, nem uma migalha vou pedir.
Pediu com tanta paciência e tanto bom humor que, por fim, ela cedeu e o deixou entrar.
Lá dentro, o andarilho logo percebeu que a casa não era pobre como a velha dizia. Era só de mão fechada. Perguntou se havia algo para comer, e ela respondeu que nem ela mesma tinha provado bocado desde a manhã.
— Coitada da senhora, deve estar faminta — disse ele —. Pois então serei eu a alimentar a senhora esta noite. Empreste-me uma panela.
Curiosa, ela foi buscar a maior panela que tinha. Ele a encheu de água, atiçou o fogo até ficar bem alto e tirou do bolso uma pedra pequena, lisa e redonda. Girou-a três vezes na mão e deixou-a cair dentro da água fervendo.
— E o que vai sair disso? — perguntou a velha, intrigada.
— Sopa de pedra — respondeu ele, mexendo devagar.
A velha nunca tinha ouvido falar de sopa feita de pedra e quis aprender o segredo.
— Costuma dar um caldo e tanto — explicou o andarilho —, mas esta vai sair meio rala, porque uso a mesma pedra a semana inteira. Um punhado de farinha deixaria tudo mais encorpado, mas o que falta na receita, ninguém lamenta: sopa de pedra também se inventa.
A velha, sem querer ficar devendo nem para a própria sopa, foi correndo buscar a farinha mais fina que tinha guardada. Ele despejou tudo na panela e mexeu bem.
— Já está boa para receber visita — disse, provando com a colher —. Com um pedaço de carne e umas batatas, ficaria digna até da gente mais fina.
A velha, já curiosa demais para recusar, trouxe carne e um punhado de batatas do porão.
— Agora sim — disse o andarilho, satisfeito —. Digna da mesa mais farta da região.
— E tudo isso de uma pedra só! — admirou-se ela.
— Um punhado de cevada e um pouco de leite, e serviríamos até o rei — continuou ele —. Era o que se levava para ele todas as noites, quando eu trabalhava nas cozinhas do palácio.
A velha, orgulhosa, correu até o curral, onde a vaca tinha parido havia pouco, e voltou com cevada e um jarro de leite fresco. Ele foi acrescentando tudo aos poucos, mexendo sem pressa, enquanto ela observava, os olhos brilhando de curiosidade. Por fim, ele tirou a pedra da panela com a colher e a guardou de volta no bolso.
— Agora é uma sopa de festa — anunciou —. O rei e a rainha, com uma sopa dessas, sempre tomavam também um golinho de licor, com pão fresco e a mesa bem posta, com toalha e tudo.
A velha, já se sentindo quase da realeza, tirou do armário a garrafa de licor guardada havia meses, copos, manteiga, queijo, um pedaço de carne defumada, até a mesa ficar tão farta quanto a de um casamento. Nunca, em toda a sua vida, tinha visto tamanha fartura, e tudo nascido de uma simples pedra. Encantada com a esperteza do andarilho, não sabia mais o que fazer por ele.
Comeram e beberam até ficarem sonolentos e satisfeitos. Ele disse que dormiria bem no chão, junto ao fogo, mas ela não quis nem ouvir falar nisso e o levou até a melhor cama da casa.
Pela manhã, a velha serviu café bem quente, um gole de licor para esquentar o corpo antes da estrada, e colocou na mão dele uma moeda reluzente.
— Obrigada pelo que o senhor me ensinou — disse ela, ainda emocionada —. Agora vou viver bem, sabendo fazer sopa até de uma pedra.
— Não é difícil — respondeu o andarilho, sorrindo, já com a trouxa nas costas —, desde que se tenha sempre algo bom para acrescentar.
E partiu estrada afora. A velha ficou na porta, observando-o até ele sumir na curva do caminho, e disse baixinho, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa:
— Gente assim não nasce em qualquer moita, não se encontra em toda esquina.
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