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Um tropeiro de chapéu de palha cavalga pela mata; na garupa, agarrado a ele, um menino de gorro vermelho de flores ri no meio de uma nuvem de insetos.

A Lenda do Saci-Pererê

João Simões Lopes Neto

6 min de leituraa partir dos 6 anos

Ao escurecer, um caboclinho de barrete vermelho e uma perna só pousa na garupa do cavalo de Firmino, ri no cangote dele e não desce mais. Na água da sanga ele sai da garupa e leva as mutucas embora; até hoje os tropeiros discutem se ele tem uma perna só ou se é manco de um pé, e na encruzilhada ninguém para.


A estrada que ia da estância para a vila era uma picada aberta a facão no meio do mato.

Em dois lugares ela cruzava com outra estrada igual. Nesses dois lugares os galhos se fechavam por cima, e o sol não chegava ao chão nem ao meio-dia.

Os tropeiros que passavam por ali repetiam sempre a mesma coisa.

Na encruzilhada, ninguém para.

Firmino era tropeiro desde guri e conhecia aquela picada de cor. Naquele dia saiu tarde da estância, com sete mulas cargueiras e um tordilho novo, e já sabia que ia pegar o escuro no meio do mato.

Desde o meio-dia as mutucas não davam sossego.

As mulas sacudiam a cabeça, batiam o rabo, paravam no meio do caminho por nada. Firmino nunca tinha visto tanta mutuca junta naquela época do ano.

Na última casa antes do mato, uma velha que vendia queijo olhou a nuvem de bicho em cima da tropa e fez que sim com a cabeça.

Velha de xale escuro segura um queijo redondo e fala com o tropeiro parado a pé com as rédeas na mão; atrás, as mulas cargueiras sob uma nuvem de insetos.

— Isso tem dono, meu filho — disse ela. — Mosquito, mutuca e mosca, alguém manda neles.

— Então manda todos embora, que eu agradeço — respondeu Firmino, rindo.

A velha não riu.

— Passa a encruzilhada com o sol ainda em cima. E não para.

O sol baixou mais depressa do que ele queria.

Quando a picada estreitou e a sombra fechou por cima, ainda faltava meia légua para o cruzamento.

Foi aí que ele ouviu o assobio.

Eram três notas finas, sempre as mesmas, e vinham de longe. Um instante depois vinham de perto, do lado do estribo, sem que nada tivesse andado aquele tanto.

O tordilho ficou de orelha em pé e apertou o trote sem ser mandado. As mulas se apertaram umas contra as outras, como bicho que sente onça.

Na encruzilhada, ninguém para.

Firmino passou pelo meio do cruzamento sem olhar para os lados, com a mão firme na rédea e o coração na boca.

E foi ali, com o cavalo trotando, que alguma coisa pousou na garupa, logo atrás da sela.

Não houve tranco, nem galho quebrado, nem um passo na terra. Foi leve como um passarinho que senta no arame.

Leve, mas era peso, e Firmino sentiu.

Duas mãozinhas se fecharam na cintura dele. Alguém riu bem no cangote dele, uma risada de criança.

Firmino olhou por cima do ombro.

Era um caboclinho, do tamanho de um guri de sete anos, sentado na garupa com a maior calma do mundo.

Na cabeça trazia um barrete vermelho, um gorrinho feito de marrequinhas, aquelas flores da corticeira que têm mesmo jeito de patinho.

E tinha uma perna só.

O pé batia de leve na barriga do tordilho, no ritmo do trote. Do outro lado não havia nada para bater.

No escuro, o tropeiro vira a cabeça assustado e vê na garupa o menino de gorro vermelho rindo, agarrado à cintura dele, com a única perna pendurada de lado.

— O que é que tu quer? — perguntou Firmino, com a voz mais firme que conseguiu.

— Uma carona — disse o caboclinho. — Tu vai para a vila. Eu vou junto.

E riu de novo. O riso era mesmo de criança, e era isso o pior de tudo.

Dali para a frente a viagem virou outra coisa.

O nó do bornal se desamarrou sozinho, e o fumo de Firmino foi parar na terra.

A mula da frente saiu da picada e entrou por um atalho que não existia na véspera.

Cada vez que Firmino botava a tropa de novo no rumo, o caboclinho batia palma atrás dele, contente da vida.

Quando o tropeiro perdeu a paciência e mandou que ele descesse, o caboclinho só levantou a mão no escuro.

A nuvem de mutuca veio de uma vez, como se estivesse esperando o sinal, e caiu em cima da tropa.

As mulas escoicearam, o tordilho bufou, e a risada continuou na garupa, sossegada.

As mulas cargueiras disparam para fora da picada sob um enxame escuro; atrás delas, na garupa do cavalo, o menino de gorro vermelho ri de braço erguido.

Foi então que Firmino se lembrou da avó, na cozinha, quando ele era do tamanho daquele passageiro.

Água corrente ele não passa.

A sanga ficava logo depois do capão, à direita, e tinha um passo de água rasa.

Firmino não avisou nada, não olhou para trás, não mudou a cara. Virou a tropa para o capão como quem estava indo por ali desde sempre.

O caboclinho percebeu na mesma hora.

Assobiou, e as três notas saíram do outro lado da estrada, chamando para lá. Puxou o chapéu de Firmino. Fez o tordilho rodar no meio da picada e mandou mais mutuca ainda.

Firmino foi em frente contando os passos do cavalo, sem responder nada ao que vinha na garupa.

Quando o tordilho entrou na água, o peso saiu da garupa.

Saiu sem pulo e sem barulho, do mesmo jeito que tinha chegado.

No meio da sanga, com a água batendo no joelho do cavalo, Firmino olhou para a margem.

O barrete vermelho estava lá, baixinho no escuro, parado na beira.

Parado na água rasa da sanga sob a lua, o tropeiro olha para trás com a garupa vazia; na margem, o gorro vermelho e o vulto escuro do menino no capim.

Depois não estava mais, e as mutucas tinham ido embora junto com ele.

Do outro lado, a noite era outra. Nenhum mosquito, e as sete mulas andando em fila, mansas, até clarear.

De manhã, no pátio da vila, Firmino achou as crinas todas trançadas em nozinhos miúdos, tão apertados que levou a manhã inteira desmanchando.

Desmanchou um por um, rindo sozinho, porque já tinha visto coisa bem pior naquela noite.

À noite, no galpão, contou tudo o que tinha passado.

— De um pé só — garantiu Firmino. — Eu vi de perto. A outra perna não existe.

O velho Anacleto balançou a cabeça devagar, sem largar a cuia.

— Não falta pé nenhum, guri — disse ele. — Ele é manco de um pé, e é por isso que anda daquele jeito. E carrega uma ferida em cada joelho, que não fecha nunca.

Os tropeiros se dividiram ali mesmo, metade para cada lado, e ninguém convenceu ninguém. Até hoje a história corre das duas maneiras, e não tem quem consiga resolver a questão.

Em duas coisas, isso sim, todos concordavam: o barrete de marrequinhas era dele, e as moscas que não dão sossego, as mutucas e os mosquitos também eram todos dele, e faziam o que ele mandasse.

Por isso, quando a mutuca aparece de repente no meio da tarde e os cavalos começam a bater o rabo, sempre tem alguém que olha para a sombra da estrada e diz o nome do Saci-Pererê.

E quem passa por lá com a noite chegando não esquece o que os antigos ensinaram.

Na encruzilhada, ninguém para.

Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)Licença: Domínio público