Pular para o conteúdo
Três porquinhos posam diante de uma casinha firme de tijolos, com choupanas de palha e de gravetos ao longe e um lobo espiando atrás de uma árvore.

Os Três Porquinhos

Joseph Jacobs

6 min de leituraa partir dos 4 anos

Uma porca velha manda os três filhos procurar a sorte pelo mundo, e o lobo derruba, soprando e bufando, a casa de palha e a de gravetos. O terceiro porquinho ergue a sua casa de tijolos, escapa de todas as artimanhas do lobo e põe o caldeirão na lareira, e o lobo cai dentro dele quando desce pela chaminé.


No tempo em que o porco falava em rima,o macaco tomava seu chá,a galinha calçava sapatose o pato dizia quá, quá, quá!

Pois foi nesse tempo que viveu uma porca velha com três porquinhos. Como não tinha o bastante para sustentar os três, chamou-os um dia e disse que já era hora de cada um seguir o seu caminho e procurar a sorte pelo mundo.

O primeiro porquinho pegou a estrada e encontrou um homem que carregava um feixe de palha.

— Moço, o senhor me dá essa palha para eu construir uma casa?

O homem deu, e o porquinho levantou ali mesmo a sua casinha de palha. Não demorou nada e apareceu um lobo, que bateu à porta.

— Porquinho, porquinho, me deixa entrar.

— Não, não e não, pelos pelos do meu queixinho!

— Então eu vou soprar, vou bufar, e a sua casa vou derrubar!

E soprou, e bufou, e a casinha de palha voou pelos ares. E o lobo comeu o primeiro porquinho.

Na estrada, um lobo cinzento de bochechas infladas sopra contra uma cabana de palha, cujo telhado se desfaz e espalha palha pelo céu do fim de tarde.

O segundo porquinho encontrou um homem que carregava um feixe de gravetos.

— Moço, o senhor me dá esses gravetos para eu construir uma casa?

O homem deu, e o porquinho fez a sua casa. Daí a pouco chegou o lobo e bateu à porta.

— Porquinho, porquinho, me deixa entrar.

— Não, não e não, pelos pelos do meu queixinho!

— Então eu vou soprar, vou bufar, e a sua casa vou derrubar!

E soprou, e bufou, e soprou de novo, e bufou mais uma vez, até que a casa de gravetos veio abaixo. E o lobo comeu também o segundo porquinho.

O terceiro porquinho encontrou um homem que levava uma carroça de tijolos.

— Moço, o senhor me dá esses tijolos para eu construir uma casa?

O homem deu os tijolos, e o porquinho levantou uma casa firme, de parede grossa, telhado bem assentado e uma chaminé em cima. E o lobo apareceu ali também, como tinha aparecido nas outras duas casas.

— Porquinho, porquinho, me deixa entrar.

— Não, não e não, pelos pelos do meu queixinho!

— Então eu vou soprar, vou bufar, e a sua casa vou derrubar!

Então o lobo soprou, e bufou, e bufou, e soprou, e soprou outra vez, até ficar sem fôlego. A casa de tijolos não se mexeu.

Quando viu que sopro nenhum ia derrubar aquelas paredes, o lobo mudou de tática e resolveu ser esperto.

— Porquinho, eu sei onde tem um campo de nabos dos bons.

— Onde? — perguntou o porquinho.

— Na horta do seu Silva. Se você estiver pronto amanhã cedo, eu passo aqui e a gente vai junto colher uns nabos para o almoço.

— Combinado — disse o porquinho. — A que horas você quer ir?

— Às seis.

Só que o porquinho se levantou às cinco, foi sozinho até a horta e já estava de volta em casa quando o lobo bateu à porta, pontualmente às seis.

— Porquinho, você está pronto?

— Pronto? — disse o porquinho. — Eu já fui, já voltei e já tenho uma panela cheia de nabos para o almoço.

O lobo ficou uma fera, mas engoliu a raiva, porque ainda pretendia pegar aquele porquinho de um jeito ou de outro.

— Porquinho, eu sei onde tem uma macieira carregadinha.

— Onde? — perguntou o porquinho.

— Lá no sítio Bem-me-quer. Se você não me enganar outra vez, passo aqui amanhã às cinco e a gente colhe umas maçãs.

No dia seguinte o porquinho se levantou às quatro e saiu correndo atrás das maçãs, torcendo para estar de volta antes da hora. Mas dessa vez o caminho era mais longo, e ainda foi preciso subir na árvore. Ainda estava lá em cima, com o cesto pela metade, quando viu o lobo chegando pelo caminho, e, como você pode imaginar, levou um susto daqueles.

Um porquinho de colete amarelo, sentado num galho de macieira com um cesto de maçãs, olha assustado para o lobo que vem pelo caminho ao amanhecer.

— Porquinho, essa não! Você chegou antes de mim? As maçãs são boas?

— São ótimas — disse o porquinho. — Vou jogar uma para você.

E jogou tão longe que, enquanto o lobo corria atrás da maçã, o porquinho pulou da árvore e voltou depressa para casa.

No outro dia o lobo apareceu de novo.

— Porquinho, hoje à tarde tem feira na vila. Você quer ir?

— Quero, sim — disse o porquinho. — A que horas você vai estar pronto?

— Às três.

Como sempre, o porquinho saiu antes da hora combinada. Foi à feira, comprou uma batedeira de manteiga, que era um barril de madeira redondo e alto, e já vinha voltando quando viu o lobo subindo a estrada. Não teve tempo nem de pensar. Enfiou-se dentro do barril para se esconder, e com isso o barril tombou e desceu o morro rolando, com o porquinho lá dentro. O lobo levou um susto tão grande que deu meia-volta e correu para casa sem nem chegar à feira.

De tardinha o lobo foi bater na porta do porquinho para contar o que tinha acontecido: uma coisa enorme e redonda tinha descido o morro em cima dele.

— Ah, então o susto foi obra minha — disse o porquinho. — Eu tinha ido à feira e comprado uma batedeira de manteiga. Quando vi você chegando, entrei nela e desci o morro rolando.

Aí sim o lobo perdeu de vez a paciência.

— Vou pegar você de qualquer maneira! — gritou o lobo. — Vou entrar pela chaminé!

À luz da lua, um lobo cinzento sobe pelo telhado de ardósia de uma casa de tijolos rumo à chaminé alta, de onde sai fumaça, com uma janela acesa embaixo.

O porquinho ouviu tudo e não perdeu tempo. Encheu o caldeirão de água, pendurou-o na lareira e acendeu um fogo bem alto. Quando o lobo começou a descer pela chaminé, o porquinho tirou a tampa. O lobo caiu direto dentro do caldeirão, e o porquinho tampou tudo num piscar de olhos. Cozinhou o lobo e o comeu no jantar, e nunca mais lobo nenhum bateu naquela porta.

O porquinho ficou morando na sua casa de tijolos, e viveu feliz para sempre.

Recontado pela Talerie, fonte: English Fairy Tales (abre em uma nova janela)Licença: Domínio público

Histórias parecidas

O Gato de Botas

6 min de leituraa partir dos 4 anos

A Galinha Ruiva

7 min de leituraa partir dos 3 anos

Sobre este conto

A história dos Três Porquinhos não tem autor: é um conto popular inglês. Joseph Jacobs o publicou em English Fairy Tales, em Londres, em 1890, e deu como fonte James Orchard Halliwell, que já trazia a história em The Nursery Rhymes of England. Halliwell não diz de onde a tirou.

O texto de Jacobs repete o de Halliwell quase palavra por palavra; a novidade é uma quadrinha de abertura sobre o tempo em que os porcos falavam em rima. Recontamos a história a partir da edição de Jacobs no Projeto Gutenberg, e a quadrinha que abre o nosso texto foi escrita por nós.

O conto de Jacobs e a versão mais conhecida

Jacobs (1890)Disney (1933)
Os porquinhostrês, sem nome, filhos de uma porca velhatrês irmãos; no Brasil, Cícero, Heitor e Prático
Segunda casade tojode gravetos
Os dois primeiroso lobo come um e depois o outroescapam para a casa de tijolos
Truques do lobonabos, maçãs e a feiranenhum passeio; tenta descer pela chaminé
Na chaminécai na panela de água fervendocai num tonel de água fervendo com terebintina
Fim do lobocozido e comido no jantarfoge berrando de dor
Cançãonenhuma“Who’s Afraid of the Big Bad Wolf?”
Mostrar mais
Porquinho, porquinho, me deixa entrar.Não, não e não, pelos pelos do meu queixinho!Então eu vou soprar, vou bufar, e a sua casa vou derrubar!
Joseph Jacobs, 1890: Little pig, little pig, let me come in. / No, no, by the hair of my chiny chin chin. / Then I’ll huff, and I’ll puff, and I’ll blow your house in.

O que acontece no nosso texto

Uma porca velha já não tem como sustentar os três filhos e manda cada um procurar a sorte. Cada porquinho ganha de um homem o material da sua casa: palha, gravetos (em Jacobs é tojo) e tijolos. Depois o lobo tenta três vezes atrair o dono da casa de tijolos para fora: nabos na horta do seu Silva, maçãs no sítio Bem-me-quer e uma feira na vila, de onde o porquinho volta dentro de uma batedeira de manteiga que desce o morro rolando. No fim o lobo cai direto no caldeirão. Como em Jacobs, o porquinho cozinha o lobo e o come no jantar, o que o nosso texto conta numa frase curta.

O lobo come os dois primeiros porquinhos. Nas duas vezes isso acontece numa única frase, sem nenhum detalhe, mas convém saber disso antes de contar a história às crianças.

Contos parecidos e uma dúvida comum

Nas notas, Jacobs inclui entre os únicos paralelos conhecidos um conto de Veneza com três gansinhos: o lobo derruba as duas primeiras casas, não consegue entrar na terceira e morre escaldado pela água fervendo que a última gansinha despeja nele. Jacobs também desconfiava que, na origem, os porquinhos fossem cabritinhos, porque porco não tem pelo no queixo e cabrito tem; nesse caso a história ficaria próxima de O Lobo e os Sete Cabritinhos, dos irmãos Grimm.

Muita gente procura o nome dos três porquinhos. No conto eles não têm nome. Cícero, Heitor e Prático são os nomes que os três irmãos receberam no Brasil no curta da Disney.

Fontes

Textos de época

Catálogo

Conferido com estas fontes em 14 de outubro de 2026.

Desenhos para colorir e imprimir

Onde mais encontrar este conto