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A Bela e a Fera

A Bela e a Fera

Jeanne-Marie Leprince de Beaumont

10 min de leitura8–15 anos

A Bela, uma moça bondosa e sábia, vai viver no castelo de uma criatura assustadora para salvar a vida de seu pai, e aos poucos descobre que por trás daquela aparência terrível existe um coração genuinamente gentil. Quando a Bela finalmente reconhece o amor que sente pela Fera e escolhe a bondade acima de tudo, um encanto é desfeito e ela encontra a verdadeira felicidade ao lado do príncipe que havia se escondido sob aquela forma monstruosa.


Era uma vez um comerciante muito rico, que tinha seis filhos: três rapazes e três moças. Como era um homem sábio, deu a todos a melhor educação que pôde. Suas filhas eram todas bonitas, mas a mais nova, sobretudo, encantava a todos que a conheciam. Desde pequena só a chamavam de "a Bela", e o nome ficou para sempre com ela.

As duas irmãs mais velhas tinham orgulho da riqueza da família. Passavam os dias em bailes e passeios, e caçoavam da irmã caçula, que preferia ler bons livros. A Bela recusava todos os pretendentes que apareciam: queria ficar mais alguns anos ao lado do pai.

Um dia, a desgraça bateu à porta: o comerciante perdeu toda a sua fortuna. Restou-lhe apenas uma casinha no campo, e a família teve de se mudar para lá, vivendo do trabalho da terra. As duas irmãs mais velhas, a princípio, não quiseram deixar a cidade, pois acreditavam que seus namorados as desposariam de qualquer jeito. Mas assim que estes souberam da ruína, nunca mais quiseram vê-las. Por toda parte se comentava: "Essas duas orgulhosas não merecem pena nenhuma. Mas a Bela, que pena — era tão doce, tão boa com os pobres."

A Bela não chorou por muito tempo. Disse a si mesma: "Minhas lágrimas não vão me devolver a fortuna. Preciso aprender a ser feliz sem ela." No campo, levantava-se ao amanhecer para cuidar da casa, e à noite tocava cravo ou cantava enquanto fiava a lã. As irmãs, essas, se entediavam de morrer, e passavam os dias lamentando os vestidos bonitos que tinham perdido.

Passou-se assim um ano. Certo dia, o comerciante soube que um de seus navios, que julgava perdido, acabara de chegar ao porto. As duas irmãs mais velhas, loucas de alegria, pediram que ele trouxesse vestidos e joias. A Bela não pediu nada — mas, como o pai insistiu, acabou pedindo apenas uma rosa, pois não havia rosas na terra onde moravam.

A viagem, porém, deu errado: as mercadorias foram tomadas, e o bom homem voltou tão pobre quanto antes. No caminho de volta, perdeu-se numa floresta, em meio a uma tempestade de neve. Lobos uivavam ao seu redor; ele pensou que sua última hora havia chegado. Foi então que avistou, no fim de uma longa alameda, a luz de um castelo todo iluminado.

Ali se abrigou. Ninguém apareceu, mas um bom fogo ardia na lareira, uma mesa estava posta, uma cama o esperava. No dia seguinte, encontrou até uma roupa nova, do seu tamanho. Ao sair para buscar o cavalo, passou sob um caramanchão de rosas e lembrou-se da promessa feita à Bela. Colheu um ramo.

Foi então que surgiu, num barulho terrível, uma Fera tão assustadora que o comerciante quase desmaiou.

— Que ingratidão a sua — disse ela, com voz grave. — Eu o acolhi em minha casa, e para me agradecer, você rouba minhas rosas, a coisa que mais amo no mundo. Vai ter de morrer por isso.

O comerciante caiu de joelhos e implorou perdão, explicando que queria dar a rosa à sua filha.

— Estou disposta a perdoá-lo — disse a Fera — mas sob uma condição: que uma de suas filhas venha morrer em seu lugar, de livre e espontânea vontade. Se não, jure que voltará você mesmo daqui a três meses.

O comerciante jurou, esperando ao menos poder abraçar os filhos mais uma vez. A Fera, antes de deixá-lo partir, mandou encher um grande baú de moedas de ouro, para que seus filhos não passassem necessidade.

De volta para casa, em prantos, ele contou tudo. As irmãs acusaram a Bela de ter causado a desgraça com seu pedido de rosa. Mas a Bela respondeu com calma:

— Serei eu quem irá encontrar a Fera. Terei prazer em salvar meu pai.

Os irmãos quiseram partir para lutar contra o monstro, mas o pai os convenceu a não fazê-lo: o poder da Fera era grande demais. Nada fez a Bela mudar de ideia. Partiu com o pai, sem derramar uma lágrima, para não aumentar a sua tristeza.

Ao anoitecer, chegaram ao castelo iluminado. Um jantar os esperava, posto para duas pessoas. Depois, ouviu-se um grande estrondo: era a Fera. A Bela tremeu, mas se manteve firme.

— Foi de bom grado que veio? — perguntou a Fera.

— Sim — respondeu ela, com a voz um pouco trêmula.

— Você é boa. Parta amanhã de manhã, bom homem, e nunca mais volte. Adeus, Bela.

— Adeus, Fera — respondeu ela, gentilmente.

Naquela noite, em sonho, uma dama apareceu à Bela e disse: "Estou contente com o seu bom coração. Sua bela ação não ficará sem recompensa."

No dia seguinte, o pai teve de partir sozinho, com o coração partido. A Bela, sozinha no castelo, descobriu um quarto com o seu nome, cheio de livros, de música, de todas as coisas de que gostava. Na biblioteca, um livro dizia, em letras de ouro: "Deseje, ordene: aqui você é rainha e senhora." Ela suspirou: "Só desejo uma coisa: rever meu pai." E, num grande espelho, viu então a casa paterna, e seu pai voltando para casa, com o rosto triste.

Toda noite, às nove horas em ponto, a Fera vinha fazer-lhe companhia durante o jantar. Falava com ela com bom senso, nunca com brilho, mas sempre com bondade. Aos poucos, a Bela se acostumou com o rosto assustador, e chegou até a esperar, ansiosa, a hora de sua chegada.

Só uma coisa a entristecia: toda noite, antes de partir, a Fera perguntava:

— Bela, você quer ser minha esposa?

E toda vez ela respondia, gentil mas firme:

— Não, Fera.

Então o monstro suspirava tão fundo que todo o castelo tremia, e se afastava, triste, virando-se várias vezes para olhá-la mais uma vez.

"Que pena que ela seja tão feia", pensava a Bela, "sendo um coração tão bom."

Três meses se passaram assim. Um dia, a Bela viu no espelho que seu pai estava doente de tristeza por havê-la perdido. Pediu à Fera que a deixasse voltar para vê-lo.

— Prefiro morrer a fazer você sofrer — disse a Fera. — Deixo você partir. Mas prometa voltar em oito dias. Ponha seu anel sobre a mesa, na noite em que quiser voltar, e estará aqui pela manhã.

No dia seguinte, a Bela acordou na casa do pai, que chorou de alegria ao reencontrá-la. As irmãs, casadas nesse meio-tempo mas muito infelizes em seus casamentos, a viram chegar vestida como uma princesa, e a inveja as corroeu mais do que nunca. Tramaram um plano: retê-la mais de oito dias, na esperança de que a Fera, furiosa com a traição, acabasse por devorá-la. Cercaram-na de carinhos fingidos, e a Bela, comovida, prometeu ficar mais uma semana.

Mas na décima noite, sonhou que via a Fera deitada na grama do jardim, morrendo, censurando-a por sua ausência. Acordou em lágrimas.

"Não sou muito má", pensou, "de fazer sofrer quem é tão bom para mim? Não é a beleza nem o brilho que trazem felicidade, é a bondade do coração — e a Fera tem tanta. Achava que não a amava... mas acho que não conseguiria mais viver sem ela."

Colocou o anel sobre a mesa e adormeceu. De manhã, encontrou-se de volta no castelo. Mas à noite, as nove horas soaram sem que a Fera aparecesse. Preocupada, ela correu por todo o palácio, até que se lembrou do sonho e correu para o canal do jardim. Ali encontrou a Fera deitada, sem forças, como morta.

Jogou-se ao seu lado, sem o menor horror, e, sentindo que seu coração ainda batia, molhou-lhe a testa com água. A Fera abriu os olhos.

— Você esqueceu sua promessa — disse, com voz fraca. — A tristeza de tê-la perdido me fez parar de comer. Mas morro contente, já que a vejo mais uma vez.

— Não, minha querida Fera, você não vai morrer — disse a Bela, chorando. — Você vai viver, para se tornar meu esposo. Eu lhe dou minha mão, serei sua para sempre. Achava que sentia por você apenas amizade; mas a dor que sinto agora me prova que eu a amo.

Mal ela pronunciou essas palavras, o castelo se iluminou com mil luzes, e uma música alegre se ergueu no ar. A Bela se virou para a Fera — e, em seu lugar, a seus pés, estava um príncipe, mais belo que o próprio dia.

— Onde está a Fera? — perguntou ela, espantada.

— Você a vê diante de si — respondeu o príncipe. — Uma fada má me condenara a manter essa forma até que uma jovem aceitasse se casar comigo, e me proibira de deixar transparecer minha verdadeira natureza. Só você, com sua bondade, soube olhar além da aparência.

Foram juntos até o grande salão, onde a Bela reencontrou, para sua imensa alegria, o pai e toda a família, que a fada do sonho havia levado até ali. Essa mesma fada, uma grande dama resplandecente, dirigiu-se à Bela:

— Você preferiu a bondade à beleza e ao brilho; merece encontrar as três reunidas num só coração. Você se tornará rainha.

Depois, voltando-se para as duas irmãs invejosas, acrescentou, com voz grave:

— Conheço a maldade dos seus corações. Tornem-se estátuas de pedra, à porta do palácio de sua irmã, para testemunhar, sem poder desfrutar, a felicidade dela. Só voltarão a ser vocês mesmas no dia em que reconhecerem suas faltas — mas temo que esse dia nunca chegue.

Com um toque de varinha, a fada levou todos ao reino do príncipe. O povo recebeu seu soberano com gritos de alegria, e o príncipe desposou a Bela. Viveram juntos por muito tempo, numa felicidade simples e duradoura, pois ela se apoiava na bondade de seus corações.