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Uma jovem de vestido esvoaçante está ao lado de um príncipe encantado num roseiral ao luar, sob um castelo iluminado.Original

A Bela e a Fera

Jeanne-Marie Leprince de Beaumont

28 min de leitura6–12 anos

Para salvar o pai, Bela vai morar no palácio de uma Fera enorme e assustadora e aos poucos descobre nela um coração generoso. Quando ela diz que não consegue viver sem o monstro, o encantamento se desfaz, o monstro volta a ser o príncipe que era, e os dois se casam no reino dele e reinam juntos em plena felicidade.


Era uma vez um mercador riquíssimo. Tinha seis filhos, três rapazes e três moças, e, como era homem de bom senso, não poupou nada na educação deles: deu-lhes mestres de todas as matérias. As três filhas eram muito bonitas, mas a caçula era a que fazia todo mundo parar para admirar, e, quando pequena, ninguém a chamava de outra coisa senão bela menina. O apelido acabou virando o nome dela, o que deixou as irmãs cheias de ciúme. E essa caçula, que era mais bonita do que as outras duas, também era melhor do que elas.

As duas mais velhas viviam cheias de orgulho por serem ricas. Bancavam as damas e não queriam receber a visita de outras filhas de mercadores: só gente de posição lhes servia de companhia. Iam todos os dias ao baile e ao teatro, passeavam a tarde inteira e riam da irmã mais nova, que passava a maior parte do tempo lendo bons livros. Como se sabia que aquelas moças eram muito ricas, vários mercadores importantes as pediram em casamento; mas as duas mais velhas responderam que só se casariam se aparecesse um duque ou, no mínimo, um conde. Bela, que era como chamavam a mais nova, agradeceu com muita delicadeza aos que quiseram desposá-la, mas disse que ainda era jovem demais e que desejava fazer companhia ao pai por alguns anos.

De uma hora para a outra, o mercador perdeu tudo o que tinha. Não lhe restou senão uma casinha de campo, bem longe da cidade.

Chorando, ele contou aos filhos que teriam de ir morar naquela casa e que só conseguiriam viver lá trabalhando como camponeses. As duas filhas mais velhas responderam que não queriam deixar a cidade, que tinham vários pretendentes e que qualquer um deles ficaria felicíssimo em se casar com elas, mesmo sem fortuna nenhuma. As boas moças se enganavam: assim que ficaram pobres, os pretendentes não quiseram mais nem olhar para elas. E, como ninguém gostava das duas por causa da soberba, diziam pela cidade:

— Elas não merecem que ninguém tenha pena. Até ficamos satisfeitos de ver aquele orgulho por terra. Que vão bancar as damas cuidando de ovelhas.

Ao mesmo tempo, porém, todo mundo dizia da caçula:

— Da Bela, sim, temos muita pena. É uma moça tão boa! Falava com os pobres com tanta bondade, era tão doce, tão honesta.

Houve até vários fidalgos que quiseram se casar com ela, mesmo sem ela ter um tostão; mas Bela respondeu que não conseguia se decidir a abandonar o pobre pai na desgraça, e que iria com ele para o campo, para consolá-lo e ajudá-lo no trabalho. No começo, a pobre Bela também tinha ficado muito aflita com a perda da fortuna, mas dizia consigo mesma: “De que adianta chorar muito? As lágrimas não vão me devolver o que perdi. Preciso é tentar ser feliz sem dinheiro.”

Quando chegaram à casa de campo, o mercador e os três rapazes passaram a lavrar a terra. Bela levantava às quatro da manhã e corria a limpar a casa e a preparar a comida da família. No começo penou bastante, porque não estava acostumada a trabalhar como uma criada; mas, ao fim de dois meses, ficou mais forte, e o cansaço acabou lhe dando uma saúde de ferro. Quando terminava o serviço, lia, tocava cravo ou cantava enquanto fiava. As duas irmãs, ao contrário, morriam de tédio: levantavam às dez da manhã, passeavam o dia inteiro e se distraíam lamentando os vestidos bonitos e as companhias que tinham perdido.

Bela costura junto à lareira em uma cabana simples, enquanto as duas irmãs mais velhas ficam sentadas e emburradas ao lado de um baú vazio.

— Olhem só a nossa caçula — diziam uma para a outra. — Não tem brio nenhum e é tão boba que está contente com essa vida miserável.

O bom mercador não pensava como as filhas mais velhas. Sabia que Bela era mais capaz de brilhar em qualquer companhia do que as irmãs. Admirava a virtude daquela moça e, acima de tudo, a paciência dela, porque as irmãs, não contentes em lhe deixar todo o serviço da casa, ainda a ofendiam a toda hora.

Fazia um ano que a família vivia naquela solidão quando o mercador recebeu uma carta avisando que um navio com mercadorias dele tinha acabado de chegar em segurança. A notícia quase virou a cabeça das duas mais velhas, que já se viam livres daquele campo onde se entediavam tanto; e, quando viram o pai pronto para partir, pediram que ele lhes trouxesse vestidos, estolas de pele, toucados e toda sorte de bugigangas. Bela não pediu nada, porque pensou consigo mesma que todo o dinheiro das mercadorias não bastaria para comprar o que as irmãs desejavam.

— Você não me pede nada? — disse o pai.

— Já que o senhor tem a bondade de pensar em mim — respondeu ela —, traga-me uma rosa, que aqui não nasce nenhuma.

Não é que Bela se importasse muito com uma rosa. Ela apenas não queria condenar, com o próprio exemplo, o pedido das irmãs, que diriam que a caçula não tinha pedido nada só para se mostrar.

O bom homem partiu. Mas, quando chegou, moveram-lhe um processo por causa das mercadorias e, depois de muito trabalho e muito aborrecimento, ele voltou tão pobre quanto tinha ido. Faltavam apenas trinta milhas para chegar em casa, e ele já se alegrava com o prazer de rever os filhos; só que era preciso atravessar um bosque enorme antes de alcançar a casa, e ali ele se perdeu. Nevava sem parar. O vento era tão forte que o derrubou duas vezes do cavalo e, quando a noite caiu, ele achou que ia morrer de fome ou de frio, ou que seria comido pelos lobos que uivavam ao redor dele. De repente, olhando para o fim de uma longa alameda de árvores, viu uma luz muito grande, mas que parecia bem distante. Caminhou naquela direção e viu que a luz saía de um palácio inteiramente iluminado.

O mercador agradeceu a Deus pelo socorro que lhe mandava e se apressou a chegar ao castelo; mas ficou surpreso de não encontrar viva alma nos pátios. O cavalo, que vinha atrás dele, viu uma cavalariça grande e aberta e entrou nela; achando feno e aveia, o pobre animal, que morria de fome, se atirou sobre a comida com muita gana. O mercador o amarrou na cavalariça e foi até a casa, onde não encontrou ninguém; mas, entrando numa grande sala, encontrou um bom fogo aceso e uma mesa carregada de carnes, com um único lugar posto. Como a chuva e a neve o tinham molhado até os ossos, chegou perto do fogo para se secar, e dizia consigo: “O dono da casa ou os criados dele vão me perdoar a liberdade que tomei. Com certeza aparecem logo.”

Esperou um tempo considerável; mas, quando bateram onze horas sem que aparecesse ninguém, não resistiu à fome, pegou um frango e o comeu em duas garfadas, tremendo. Bebeu também alguns goles de vinho e, mais corajoso, saiu da sala e atravessou vários aposentos enormes, mobiliados com magnificência. No fim, achou um quarto com uma boa cama e, como já passava da meia-noite e ele estava exausto, resolveu fechar a porta e se deitar.

Eram dez da manhã quando ele se levantou, no dia seguinte, e ficou muito surpreso de encontrar uma roupa nova e limpa no lugar da sua, que estava toda estragada. “Com certeza”, disse consigo, “este palácio pertence a alguma fada boa, que teve pena da minha situação.” Olhou pela janela e não viu mais neve, e sim caramanchões de flores que encantavam a vista. Voltou à grande sala onde tinha ceado na véspera e viu uma mesinha com chocolate em cima.

— Muito obrigado, senhora fada — disse em voz alta —, pela bondade de pensar no meu café da manhã.

Depois de tomar o chocolate, o bom homem saiu para buscar o cavalo e, ao passar debaixo de um caramanchão de rosas, lembrou-se de que Bela tinha pedido uma e colheu um ramo com várias. No mesmo instante ouviu um estrondo e viu vir na sua direção uma Fera tão horrenda que ele quase desmaiou.

O mercador idoso estende uma rosa vermelha à Fera junto à porta do castelo, cercados por roseiras cobertas de neve ao entardecer.

— Você é bem ingrato — disse a Fera, com voz terrível. — Salvei a sua vida ao recebê-lo no meu castelo e, como paga, você me rouba as minhas rosas, que eu amo mais do que tudo neste mundo. Vai ter de morrer para reparar essa falta. Dou-lhe só um quarto de hora para pedir perdão a Deus.

O mercador se jogou de joelhos e disse à Fera, de mãos postas:

— Meu senhor, perdoe-me. Eu não imaginava ofendê-lo colhendo uma rosa para uma das minhas filhas, que tinha me pedido uma.

— Eu não me chamo meu senhor — respondeu o monstro. — Chamo-me Fera. Não gosto de elogios: quero que digam o que pensam. Portanto, não pense que vai me comover com bajulação. Mas você me disse que tem filhas. Estou disposto a perdoá-lo com uma condição: que uma das suas filhas venha por vontade própria morrer no seu lugar. Não discuta comigo. Vá; e, se as suas filhas se recusarem a morrer por você, jure que voltará dentro de três meses.

O bom homem não tinha a menor intenção de sacrificar uma filha àquele monstro horrível, mas pensou consigo: “Ao menos vou ter o prazer de abraçá-las mais uma vez.” Jurou, então, que voltaria, e a Fera lhe disse que ele podia partir quando quisesse.

— Só não quero que você vá embora de mãos vazias — acrescentou ela. — Volte ao quarto onde dormiu e vai encontrar lá um baú grande e vazio. Pode pôr nele tudo o que quiser, que eu mando entregá-lo na sua casa.

A Fera se retirou, e o bom homem disse consigo mesmo: “Se é preciso que eu morra, terei ao menos o consolo de deixar pão para os meus pobres filhos.”

Voltou ao quarto onde tinha dormido e, encontrando ali uma grande quantidade de moedas de ouro, encheu o baú de que a Fera tinha falado, fechou-o e, tendo recuperado o cavalo na cavalariça, saiu daquele palácio com uma tristeza igual à alegria com que tinha entrado. O cavalo tomou sozinho um dos caminhos da floresta e, em poucas horas, o bom homem chegou à sua casinha. Os filhos se juntaram em volta dele; mas o mercador, em vez de se enternecer com o carinho deles, começou a chorar olhando para os rostos dos seis. Tinha na mão o ramo de rosas que trazia para Bela. Deu-o a ela e disse:

— Tome estas rosas, Bela. Elas vão custar muito caro ao seu pobre pai.

E logo contou à família a desventura que tinha vivido. Ao ouvir aquilo, as duas mais velhas soltaram grandes gritos e cobriram de insultos a caçula, que não chorava.

— Vejam o que dá o orgulho desta criaturinha — diziam elas. — Por que ela não pediu enfeites como nós? Mas não: a senhorita queria se distinguir. Vai causar a morte do nosso pai e não derrama uma lágrima.

— Chorar não serviria de nada — respondeu Bela. — Por que eu choraria a morte do meu pai? Ele não vai morrer. Já que o monstro aceita receber uma das filhas, quero me entregar a toda a fúria dele, e me considero muito feliz, porque, morrendo, terei a alegria de salvar meu pai e de provar a ele o meu carinho.

— Não, minha irmã — disseram os três irmãos —, você não vai morrer. Nós vamos procurar esse monstro e morreremos lutando com ele, se não conseguirmos matá-lo.

— Não tenham essa esperança, meus filhos — disse o mercador. — O poder dessa Fera é tão grande que não me resta nenhuma esperança de acabar com ela. Fico encantado com o bom coração da Bela, mas não quero expô-la à morte. Sou velho, me resta pouco tempo de vida, e vou perder apenas alguns anos, que só lamento perder por causa de vocês, meus queridos filhos.

— Eu garanto ao senhor, meu pai — disse Bela —, que o senhor não vai a esse palácio sem mim. Não pode me impedir de segui-lo. Sou jovem, mas não sou muito apegada à vida, e prefiro ser devorada por esse monstro a morrer da tristeza que a sua perda me daria.

Não adiantou dizer nada: Bela quis partir de todo jeito para o belo palácio, e as irmãs ficaram encantadas com isso, porque as virtudes da caçula lhes davam muita inveja. O mercador andava tão tomado pela dor de perder a filha que nem pensou no baú que tinha enchido de ouro; mas, assim que se fechou no quarto para dormir, ficou espantado de encontrá-lo ali, ao lado da cama. Resolveu não contar aos filhos que tinha ficado rico, porque as filhas iam querer voltar para a cidade e ele estava decidido a morrer naquele campo; mas confiou o segredo a Bela, que lhe contou que alguns fidalgos tinham aparecido durante a ausência dele e que dois deles estavam apaixonados pelas irmãs. Ela pediu ao pai que as casasse, porque era tão boa que gostava delas e lhes perdoava de todo o coração o mal que lhe tinham feito.

Na hora em que Bela partiu com o pai, aquelas duas moças malvadas esfregaram os olhos com cebola para conseguir chorar; mas os irmãos choravam de verdade, e o mercador também. Só Bela não chorava, para não aumentar a dor de todos.

O cavalo tomou o caminho do palácio e, ao cair da tarde, os dois o avistaram iluminado, como da primeira vez. O cavalo foi sozinho para a cavalariça, e o bom homem entrou com a filha na grande sala, onde encontraram uma mesa servida com magnificência, com dois lugares postos. O mercador não tinha coragem de comer; mas Bela, esforçando-se para parecer tranquila, sentou-se à mesa e o serviu. E pensava: “A Fera quer me engordar antes de me comer, já que me trata tão bem.”

Bela desce do cavalo ao lado do pai diante do castelo com todas as janelas acesas, sob um caminho de árvores ao anoitecer.

Quando terminaram a ceia, ouviram um grande estrondo, e o mercador se despediu da pobre filha chorando, porque sabia que era a Fera que vinha. Bela não pôde deixar de estremecer diante daquela figura horrenda, mas se acalmou como pôde; e, quando o monstro lhe perguntou se ela tinha vindo de bom grado, respondeu, tremendo, que sim.

— Você é muito boa — disse a Fera —, e eu lhe sou muito grato. Bom homem, parta amanhã de manhã e nunca mais se atreva a voltar aqui. Adeus, Bela.

— Adeus, Fera — respondeu ela.

E o monstro se retirou na mesma hora.

— Ah, minha filha — disse o mercador, abraçando Bela —, estou meio morto de medo. Acredite em mim: deixe que eu fique no seu lugar.

— Não, meu pai — disse Bela com firmeza. — O senhor parte amanhã de manhã e vai me deixar entregue ao amparo do céu. Talvez o céu tenha pena de mim.

Foram se deitar achando que não pregariam o olho a noite inteira; mas mal se deitaram e os olhos se fecharam. Enquanto dormia, Bela viu uma dama que lhe disse:

— Estou contente com o seu bom coração, Bela. A boa ação que você faz, dando a sua vida para salvar a do seu pai, não vai ficar sem recompensa.

Bela dorme em uma cama de dossel enquanto uma dama de véu e roupas nobres se inclina sobre ela e lhe fala baixinho.

Ao acordar, Bela contou o sonho ao pai e, embora aquilo o consolasse um pouco, não impediu que ele soltasse grandes gritos na hora de se separar da filha querida.

Quando ele partiu, Bela sentou-se na grande sala e também começou a chorar; mas, como tinha muita coragem, encomendou-se a Deus e resolveu não se afligir pelo pouco tempo que julgava ter de vida, porque acreditava firmemente que a Fera a comeria naquela noite. Resolveu passear enquanto esperava e conhecer aquele belo castelo. Não conseguia deixar de admirar a beleza do lugar. Mas ficou muito surpresa ao encontrar uma porta com uma inscrição: Aposento de Bela.

Abriu a porta depressa e ficou deslumbrada com a magnificência que reinava lá dentro; e o que mais lhe chamou a atenção foi uma grande biblioteca, um cravo e vários livros de música.

“Não querem que eu me entedie”, disse ela baixinho. E pensou em seguida: “Se eu tivesse só um dia para ficar aqui, não teriam preparado tudo isto para mim.”

Esse pensamento reanimou a coragem dela. Abriu a biblioteca e viu um livro em que estava escrito, em letras de ouro: Deseje, ordene; aqui você é a rainha e a senhora.

“Ai de mim”, suspirou, “eu não desejo nada, a não ser ver o meu pobre pai e saber o que ele está fazendo agora.”

Tinha dito aquilo apenas para si mesma. Qual não foi a sua surpresa quando, ao olhar para um grande espelho, viu ali a sua casa e o pai chegando com o rosto tristíssimo! As irmãs vinham recebê-lo e, apesar das caretas que faziam para parecer aflitas, a alegria que sentiam com a perda da caçula estava estampada no rosto das duas. Um instante depois tudo aquilo sumiu, e Bela não pôde deixar de pensar que a Fera era muito gentil e que ela não tinha nada a temer daquele monstro.

Ao meio-dia encontrou a mesa posta e, durante o almoço, ouviu um concerto excelente, embora não visse ninguém. À noite, quando ia se sentar à mesa, ouviu o barulho que a Fera fazia e não conseguiu conter um arrepio.

— Bela — disse o monstro —, você me permite ver você cear?

— Você é o dono da casa — respondeu Bela, tremendo.

— Não — respondeu a Fera. — Aqui a única dona é você. Basta me mandar embora, se eu estiver incomodando, que eu saio na mesma hora. Diga uma coisa: não é verdade que você me acha muito feio?

— É verdade — disse Bela —, porque eu não sei mentir. Mas acredito que você é muito bom.

— Você tem razão — disse o monstro. — Só que, além de feio, não tenho inteligência nenhuma. Sei muito bem que não passo de uma fera.

— Quem acredita não ter inteligência não é fera nenhuma — respondeu Bela. — Um tolo nunca soube disso.

— Coma, então, Bela — disse o monstro —, e trate de não se entediar na sua casa, porque tudo isto é seu. Eu ficaria muito triste se você não estivesse contente.

— Você é bondoso demais — disse Bela. — Confesso que fico muito contente com o seu coração. Quando penso nele, você já não me parece tão feio.

— Ah, isso sim — respondeu a Fera. — Tenho bom coração, mas sou um monstro.

— Há muitos homens mais monstruosos do que você — disse Bela. — E eu gosto mais de você com essa figura do que daqueles que, com cara de gente, escondem um coração falso, corrompido e ingrato.

— Se eu tivesse inteligência — respondeu a Fera —, faria um belo elogio para lhe agradecer; mas eu sou burro, e tudo o que posso dizer é que lhe sou muito grato.

Bela e a Fera conversam sentados às pontas de uma longa mesa posta para o jantar, à luz de velas, diante de janelas altas.

Bela ceou com bom apetite. Já quase não tinha medo do monstro; mas quase morreu de susto quando ele disse:

— Bela, você quer ser minha mulher?

Ela ficou algum tempo sem responder, com medo de despertar a raiva do monstro ao recusar. Por fim disse, tremendo:

— Não, Fera.

Naquele momento o pobre monstro quis suspirar, e saiu dele um assobio tão medonho que ecoou pelo palácio inteiro; mas Bela logo se tranquilizou, porque a Fera apenas disse, com tristeza:

— Adeus, então, Bela.

E saiu da sala, virando-se de vez em quando para olhá-la mais uma vez. Vendo-se sozinha, Bela sentiu uma grande compaixão por aquela pobre Fera.

“Ai, que pena que ela seja tão feia”, dizia consigo, “sendo tão boa!”

Bela passou três meses naquele palácio com bastante tranquilidade. Todas as noites a Fera vinha visitá-la e conversava com ela durante a ceia com bastante bom senso, mas nunca com aquilo que o mundo chama de inteligência. A cada dia Bela descobria novas bondades no monstro. O hábito de vê-lo a tinha acostumado à feiura dele e, longe de temer a hora da visita, ela olhava várias vezes para o relógio para ver se já eram nove horas, porque a Fera nunca deixava de chegar nesse horário. Só uma coisa doía em Bela: antes de se recolher, o monstro sempre lhe perguntava se ela queria ser sua mulher, e ficava arrasado de tristeza quando ela dizia que não. Um dia ela lhe disse:

— Você me entristece, Fera. Eu queria poder me casar com você, mas sou sincera demais para deixar que você acredite que isso vai acontecer algum dia. Serei sempre sua amiga. Tente se contentar com isso.

— Não tenho escolha — respondeu a Fera. — Sei muito bem o que eu sou. Sei que sou horrível, mas gosto muito de você. De todo modo, já sou feliz demais por você querer ficar aqui. Prometa que nunca vai me deixar.

Bela corou com essas palavras. Ela tinha visto no espelho que o pai estava doente de tristeza por tê-la perdido, e desejava revê-lo.

Bela olha para um espelho grande e vê o pai, cansado e maltrapilho, caminhando sozinho de volta à casinha de campo.

— Eu bem poderia lhe prometer nunca deixar você de vez — disse ela à Fera. — Mas tenho tanta vontade de rever o meu pai que vou morrer de desgosto se você me negar esse prazer.

— Prefiro morrer eu mesmo a lhe causar tristeza — disse o monstro. — Vou mandar você para a casa do seu pai. Você fica lá, e a sua pobre Fera morre de dor.

— Não — disse Bela, chorando. — Gosto demais de você para querer causar a sua morte. Prometo voltar dentro de oito dias. Você me mostrou que as minhas irmãs se casaram e que os meus irmãos partiram para o exército. Meu pai está sozinho. Deixe que eu fique uma semana com ele.

— Amanhã de manhã você estará lá — disse a Fera. — Mas lembre-se da sua promessa. Quando quiser voltar, basta pôr o seu anel sobre uma mesa antes de se deitar. Adeus, Bela.

A Fera suspirou, como de costume, ao dizer aquelas palavras, e Bela foi dormir muito triste de vê-la tão aflita.

Quando acordou de manhã, viu que estava na casa do pai. Tocou uma sineta que havia ao lado da cama e viu chegar a criada, que soltou um grito enorme ao vê-la. O bom homem correu ao ouvir o grito e quase morreu de alegria ao rever a filha querida; e os dois ficaram abraçados por mais de um quarto de hora.

Passada a primeira emoção, Bela lembrou que não tinha roupa para se levantar; mas a criada lhe contou que acabava de encontrar, no quarto ao lado, um baú enorme cheio de vestidos todos de ouro, guarnecidos de diamantes. Bela agradeceu à boa Fera por tanta atenção, escolheu o menos rico daqueles vestidos e mandou a criada guardar os outros, que ela queria dar de presente às irmãs; mas mal disse essas palavras e o baú desapareceu. O pai lhe explicou que a Fera queria que ela guardasse tudo aquilo para si, e no mesmo instante os vestidos e o baú voltaram ao mesmo lugar.

Bela se vestiu e, nesse meio-tempo, mandaram avisar as irmãs, que chegaram correndo com os maridos. As duas eram muito infelizes. A mais velha tinha se casado com um fidalgo bonito como o sol; mas ele era tão apaixonado pela própria figura que não cuidava de outra coisa de manhã até a noite e desprezava a beleza da mulher. A segunda tinha se casado com um homem de muita inteligência, mas que só a usava para irritar todo mundo, e a esposa em primeiro lugar. As irmãs de Bela quase morreram de desgosto quando a viram vestida como uma princesa e mais bonita que nunca. Não adiantou Bela ser carinhosa com as duas: nada conseguiu sufocar aquele ciúme, que aumentou muito quando ela lhes contou como era feliz. As duas invejosas desceram ao jardim para chorar à vontade e ali conversaram.

— Por que essa criaturinha é mais feliz do que nós? — diziam elas. — Por acaso não somos mais encantadoras do que ela?

— Minha irmã, me veio uma ideia — disse a mais velha. — Vamos tentar segurá-la aqui por mais de oito dias. A Fera boba dela vai ficar furiosa por ela ter faltado com a palavra, e talvez a devore.

— Você tem razão, minha irmã — respondeu a outra. — Para isso, precisamos fazer muita festa em cima dela.

Combinado o plano, subiram de novo e trataram a irmã com tanto carinho que Bela chorou de alegria. Quando os oito dias se passaram, as duas arrancaram os cabelos e fizeram tanto drama por causa da partida dela que Bela prometeu ficar mais oito dias na casa do pai.

Mesmo assim, Bela se culpava pela tristeza que ia causar à pobre Fera, a quem amava de todo o coração, e sentia falta de vê-la. Na décima noite que passou na casa do pai, sonhou que estava no jardim do palácio e que via a Fera caída na grama, à beira do canal, quase morrendo, censurando a sua ingratidão. Bela acordou sobressaltada e desatou a chorar.

“Como sou malvada”, dizia consigo, “por causar tristeza a uma Fera que tem tanta gentileza comigo. É culpa dela ser tão feia e ter tão pouca inteligência? Ela é boa, e isso vale mais do que todo o resto. Por que eu não quis me casar com ela? Eu seria mais feliz ao lado dela do que as minhas irmãs ao lado dos maridos. Não é a beleza nem a inteligência de um marido que deixam uma mulher contente: é a bondade do caráter, a virtude, a gentileza. E a Fera tem todas essas qualidades. Não sinto amor por ela, mas sinto estima, amizade, gratidão. Vamos, não posso torná-la infeliz: eu me culparia a vida inteira pela minha ingratidão.”

Com essas palavras, Bela se levantou, pôs o anel sobre a mesa e voltou para a cama. Mal se deitou, adormeceu; e, quando acordou de manhã, viu com alegria que estava no palácio da Fera. Vestiu-se magnificamente para agradá-la e se entediou o dia inteiro, esperando as nove da noite; mas o relógio bateu à toa: a Fera não apareceu. Bela então teve medo de ter causado a morte dela. Correu o palácio inteiro dando grandes gritos, desesperada. Depois de procurar por toda parte, lembrou-se do sonho e correu ao jardim, na direção do canal, onde a tinha visto enquanto dormia. Encontrou a pobre Fera estirada, sem sentidos, e achou que estava morta. Atirou-se sobre o corpo dela sem sentir horror nenhum daquela figura e, sentindo que o coração ainda batia, pegou água do canal e jogou na cabeça dela. A Fera abriu os olhos e disse:

— Você esqueceu a sua promessa. A tristeza de ter perdido você me fez resolver morrer de fome; mas morro contente, porque tenho o prazer de ver você mais uma vez.

Ajoelhada entre as roseiras, Bela oferece água das mãos à Fera, estirada e fraca, que abre os olhos junto a uma fonte.

— Não, minha querida Fera, você não vai morrer — disse Bela. — Você vai viver para se tornar meu marido. A partir deste momento eu lhe dou a minha mão e juro que serei só sua. Ai de mim, eu achava que sentia apenas amizade por você; mas a dor que sinto agora me mostra que eu não conseguiria viver sem ver você.

Mal Bela pronunciou essas palavras e o castelo se encheu de luz. Os fogos de artifício, a música, tudo anunciava uma festa; mas nenhuma daquelas belezas prendeu o olhar dela: virou-se para a sua querida Fera, cujo perigo a fazia estremecer. Qual não foi a sua surpresa! A Fera tinha desaparecido, e aos pés dela havia apenas um príncipe mais belo do que o amor, que lhe agradecia por ela ter desfeito o encantamento. Embora aquele príncipe merecesse toda a atenção dela, Bela não pôde deixar de lhe perguntar onde estava a Fera.

— Você a está vendo aos seus pés — disse o príncipe. — Uma fada má me condenou a viver sob aquela figura até que uma bela moça aceitasse se casar comigo, e me proibiu de mostrar qualquer inteligência. Assim, só havia você no mundo inteiro, boa o bastante para se deixar comover pela bondade do meu caráter; e, mesmo oferecendo a você a minha coroa, eu não consigo pagar o que devo.

Surpresa e contente, Bela deu a mão ao belo príncipe para ajudá-lo a se levantar. Foram juntos até o castelo, e ela quase morreu de alegria ao encontrar, na grande sala, o pai e toda a família: a bela dama que lhe tinha aparecido em sonho os havia trazido até ali.

— Bela — disse a dama, que era uma grande fada —, venha receber a recompensa da sua boa escolha. Você preferiu a virtude à beleza e à inteligência, e merece encontrar todas essas qualidades reunidas numa só pessoa. Você vai se tornar uma grande rainha, e espero que o trono não destrua as suas virtudes.

Depois a fada se voltou para as duas irmãs de Bela.

— Quanto a vocês, senhoritas, conheço o coração de vocês e toda a maldade que ele guarda. Tornem-se duas estátuas, mas conservem toda a consciência sob a pedra que vai envolvê-las. Ficarão à porta do palácio da irmã de vocês, e não lhes imponho outra pena senão a de serem testemunhas da felicidade dela. Só poderão voltar ao que eram no momento em que reconhecerem os seus erros; mas tenho muito medo de que fiquem estátuas para sempre. A gente se corrige do orgulho, da raiva, da gula e da preguiça; mas a conversão de um coração malvado e invejoso é uma espécie de milagre.

No mesmo instante, a fada deu um toque de varinha que transportou todos os que estavam naquela sala para o reino do príncipe. Os súditos o receberam com alegria, e ele se casou com Bela, que viveu ao lado dele por muitos e muitos anos, numa felicidade perfeita, porque era uma felicidade fundada na bondade.

Recontado pela Talerie, Fonte: La Belle et la Bête (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público