
A Lenda do Lobisomem
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Anacleto rompe o laço de compadrio com a comadre e, às sextas-feiras, vira ora cachorro, ora porco, e morde quem cruza a estrada. Mordido numa dessas noites, o rapaz Vicente emagrece do mesmo jeito, e mais um cachorro magro corre pelas coxilhas no escuro, com as porteiras fechadas até o campo amanhecer manso.
Nos campos do Rio Grande do Sul, onde as coxilhas descem verdes até o mato baixo e uma casa fica longe da outra, morava um homem chamado Anacleto. Tinha uma casinha de barro caiada de branco, um cavalo tordilho já velho e um pedaço de campo onde criava suas poucas vacas. Era homem de bom trato: sabia domar potro, sabia consertar cerca e sabia contar história no galpão, e nas noites frias a roda do chimarrão só parecia completa quando ele chegava e puxava um banquinho para perto do fogo.

Anacleto era compadre de uma mulher da estância vizinha. Tinha levado o filho dela para batizar, e no campo isso é parentesco que a gente leva a sério: quem segura a criança na pia batismal vira quase da família de quem a pôs no mundo, e assim fica pela vida inteira. Por isso mesmo, um compadre não põe os olhos na comadre. Aquilo era proibido, e todo mundo sabia.
Mas entre Anacleto e a comadre nasceu um amor que não podia existir, e o laço de compadrio que os dois deviam respeitar acabou rompido. Ninguém no campo soube dizer em que noite exatamente aquilo tinha acontecido. As pessoas só souberam do que veio depois.
Anacleto começou a emagrecer. Não foi de um dia para o outro. Comia a mesma comida de sempre, trabalhava as mesmas horas, e mesmo assim a roupa foi ficando larga nos ombros, o rosto foi ficando encovado e o cinturão precisou de um furo novo, e depois de mais um. Quem o encontrava na estrada olhava duas vezes antes de reconhecer.
— Tu andas doente, Anacleto? — perguntou um peão, uma tarde, junto da porteira.
— Não é doença — respondeu ele, sem levantar os olhos do laço que enrolava nas mãos. — É outra coisa.
E não falou mais nada sobre o assunto, nem naquela tarde nem em nenhuma outra.

Foi numa sexta-feira que aconteceu pela primeira vez. Alta noite, com a casa escura e o fogo já reduzido a brasa, Anacleto acordou sem querer acordar. Levantou-se sem decidir levantar, atravessou o quarto e abriu a porta para o frio do campo. E ali, na soleira, deixou de ser homem.
Quem viu de longe naquela noite jurou que era um cachorrão preto, magro, de pelo arrepiado e passo silencioso. Outros, em outras noites, juraram que era um porco escuro, pesado, que cruzava o potreiro fungando no capim. Ninguém nunca chegou a um acordo sobre isso, e no fundo tanto fazia: chamavam aquilo de lobisomem, embora de lobo não tivesse nada, porque no campo o que sai à noite é cachorro ou é porco.
A noite inteira ele corria pelas coxilhas. Os cachorros das estâncias se calavam quando ele passava, e os cavalos ficavam inquietos na mangueira, batendo o casco no chão. E quem estivesse fora de casa àquelas horas corria o risco de encontrá-lo, porque era isso o que ele fazia: mordia as pessoas que cruzavam o seu caminho no meio da madrugada.
Ao clarear do dia, quando o céu começava a ficar cinza atrás das árvores, Anacleto voltava para casa e era homem outra vez, mais magro do que na véspera, com o corpo moído como quem andou léguas a pé, e na cabeça uma lembrança embaralhada, dessas que a gente tenta segurar de manhã e não consegue. Na sexta-feira seguinte, tudo acontecia de novo.
Não demorou para que a notícia corresse de estância em estância. Às sextas-feiras, o povo daquelas bandas passou a recolher a criançada cedo, a fechar a cancela antes de escurecer e a deixar a conversa do galpão para outro dia da semana.
Numa dessas sextas, um rapaz chamado Vicente tinha ido ao povoado buscar sal para o patrão. Foi a pé, porque o cavalo dele estava manco fazia dias. Encontrou conhecidos na venda, a conversa foi boa, e quando ele se deu conta a lua já estava alta e o caminho de volta era longo.
— Volta antes da meia-noite — a mãe tinha pedido, de manhã, na porta da cozinha. — Hoje é sexta.
— Volto, mãe — ele tinha prometido.
E não voltou a tempo. Vicente ia pela estrada de terra, a pé, com o embrulho debaixo do braço e o capim brilhando de orvalho dos dois lados, quando ouviu passos atrás de si. Passos rápidos, leves, de bicho, e nenhum latido. Ele apertou o passo, o bicho apertou também, e antes que ele conseguisse subir na primeira cerca sentiu os dentes se fecharem no seu braço, e uma dor curta e quente subir até o ombro. Foi um instante só. Vicente se soltou, correu como nunca tinha corrido na vida e só parou quando bateu na própria porta.

A mãe lavou a mordida com água morna, amarrou um pano limpo e ficou acordada até o dia nascer. Em poucos dias a marca fechou, virou uma cicatriz fina no braço do rapaz, dessas que a gente esquece que tem. Vicente voltou ao trabalho, tocou o gado, consertou a cerca do patrão, e por um tempo a vida seguiu como antes.
Só que, algumas semanas depois, ele começou a comer sem vontade. Depois começou a emagrecer. A camisa foi ficando larga nos ombros, o rosto foi ficando encovado, e o cinturão precisou de um furo novo. A mãe percebeu e não disse nada, porque já sabia, e porque no campo há coisas que ninguém quer dizer em voz alta.
Do que aconteceu na sexta-feira seguinte, ninguém por ali gosta de contar. Dizem apenas que, de lá para cá, tem mais um cachorro magro correndo pelas coxilhas no escuro.

É por isso que, naqueles campos, quando cai a noite de sexta-feira, as mães chamam as crianças para dentro cedo, abafam o fogo, fecham a porteira e ninguém arreia cavalo para viagem nenhuma. Quem escuta passos lá fora fica quieto no seu canto e espera. Porque a sexta-feira passa, e no sábado de manhã o sol volta a nascer sobre as coxilhas, e o campo amanhece manso outra vez.
Recontado pela Talerie, Fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)
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