
Os Sapatos Vermelhos
10 min de leitura10–16 anos
Uma menina pobre recebe um par de sapatinhos vermelhos que a leva a uma vida de vaidade, culminando em uma maldição que a força a dançar incessantemente pela floresta como castigo por seu orgulho. Após sofrer imensa angústia e arrependimento sincero, Karen encontra redenção ao abrir mão da vaidade e dedicar-se a uma vida simples e piedosa junto a uma família de padres.
Era uma vez uma menina, delicada e bonita de se ver. No verão andava descalça, pois era pobre, e no inverno usava tamancos grandes de madeira, que deixavam seus pezinhos vermelhos de frio.
No meio da vila vivia uma sapateira já idosa. Com tiras de pano vermelho que sobravam, ela costurou, o melhor que pôde, um par de sapatinhos. Eram um pouco tosquinhos, mas feitos com carinho, e seriam para aquela menina, que se chamava Karen.
No dia em que levaram sua mãe para ser enterrada, Karen recebeu os sapatinhos vermelhos e os usou pela primeira vez. Não eram os sapatos certos para um dia tão triste, mas ela não tinha outros. Então calçou os pezinhos descalços e seguiu atrás do caixão simples.
Nesse momento passou uma carruagem grande e antiga, e dentro dela ia uma senhora rica. Ela viu a menina, sentiu pena e disse ao padre:
— Deem-me essa criança. Eu vou cuidar dela.
Karen pensou que aquilo tinha acontecido por causa dos sapatinhos vermelhos. Mas a senhora achou os sapatos feios, e eles foram queimados. Karen passou a vestir-se limpa e bonita. Aprendeu a ler e a costurar, e todos diziam que ela era uma graça. O espelho, porém, dizia: "Você não é só uma graça — você é linda!"
Certa vez a rainha viajou por aquelas terras, com sua filhinha, a princesa, ao lado. O povo correu até o castelo, e Karen foi também. A princesa estava à janela, vestida de branco, sem coroa na cabeça, mas com os sapatinhos vermelhos mais bonitos que se podia imaginar. Nada no mundo, pensou Karen, é tão bonito quanto sapatos vermelhos.
Quando Karen ficou grande o bastante para fazer a crisma, recebeu roupas novas, e sapatos novos também. O sapateiro da cidade mediu seu pezinho. Na loja havia armários de vidro cheios de sapatos lindos, e no meio deles um par vermelho, igualzinho ao da princesa. O sapateiro contou que tinham sido feitos para a filha de um conde, mas não haviam servido.
— O couro brilha tanto assim? — perguntou a senhora, que já não via bem.
— Sim, brilha — respondeu Karen.
Os sapatos couberam perfeitamente e foram comprados. A senhora não sabia que eram vermelhos — se soubesse, nunca teria permitido. Mas foi justamente com aqueles sapatos que Karen foi à igreja no dia da sua crisma.
Todos os olhares pousavam em seus pés. Até os retratos antigos na igreja, de padres e senhoras de tempos passados, pareciam fixar os sapatinhos vermelhos. Enquanto o padre pousava a mão sobre sua cabeça e falava de Deus e da fé, enquanto o órgão tocava solene e as crianças cantavam, Karen só conseguia pensar em seus sapatos.
À tarde, a senhora soube que os sapatos eram vermelhos. Disse que isso não convinha, e que de agora em diante Karen deveria ir à igreja sempre de sapatos pretos, mesmo que já estivessem velhos.
No domingo seguinte havia a Santa Ceia. Karen olhou para os sapatos pretos, olhou para os vermelhos — e, no fim, calçou os vermelhos.
Era um dia de sol. Karen e a senhora atravessaram os campos a caminho da igreja. À porta da igreja havia um soldado velho e aleijado, de barba longa e avermelhada. Ele se ofereceu para limpar os sapatos das damas, e quando Karen esticou o pezinho, ele disse:
— Olha só que belos sapatos de dança! Ficam firmes quando se dança!
E deu uns tapinhas leves nas solas.
Dentro da igreja, Karen só pensava em seus sapatos. Esqueceu a oração, esqueceu o salmo.
Quando todos saíram e Karen ia subir na carruagem, o soldado disse outra vez:
— Olha só que belos sapatos de dança!
E Karen não conseguiu se conter — seus pés começaram a dançar, e ela rodou em volta da igreja sem conseguir parar. O cocheiro teve de agarrá-la e erguê-la para dentro do carro, mas mesmo ali seus pés continuavam dançando, até que lhe tiraram os sapatos. Só então suas pernas ficaram quietas.
Em casa, guardaram os sapatos no armário. Mas Karen não conseguia deixar de ir olhá-los, uma vez e outra.
Pouco depois, a senhora ficou muito doente, e disseram que não sararia mais. Precisava de cuidados, e ninguém deveria ficar ao seu lado senão Karen. Mas havia um grande baile na cidade, e Karen tinha sido convidada. Ela pensou que não haveria pecado nisso, calçou os sapatos vermelhos e foi dançar.
Mas quando quis virar para a direita, os sapatos dançaram para a esquerda, e quando quis subir, os sapatos a levaram para baixo — escada abaixo, pela rua, para fora do portão da cidade, direto para dentro da floresta escura. Ela dançava e não conseguia parar.
Entre as árvores brilhava algo que ela, a princípio, pensou ser a lua. Era o velho soldado de barba avermelhada, que lhe fazia sinais:
— Olha só que belos sapatos de dança!
Assustada, ela quis arrancar os sapatos, mas eles estavam firmes, como se tivessem crescido nos seus pés. Dia e noite, sob chuva e sol, por campos e prados, ela continuou dançando. O pior era de noite. Uma vez dançou por sobre um cemitério, mas os mortos ali não dançaram com ela; tinham encontrado o descanso que a ela era negado. Quando chegou à porta aberta de uma igreja, viu ali um anjo, vestido de branco, com o rosto sério e grave, e uma espada larga na mão.
— Você vai dançar — disse ele — com seus sapatos vermelhos, até ficar pálida e cansada. Vai dançar de porta em porta, para que crianças orgulhosas e vaidosas a vejam e sintam medo.
— Piedade! — gritou Karen.
Mas os sapatos a levaram adiante, por campos e caminhos, sem fim.
Numa manhã, ela dançou passando por uma casa que conhecia bem. Dentro, cantavam, e um caixão coberto de flores era levado para fora: a velha senhora tinha morrido. Karen sentiu, então, que estava completamente sozinha, e julgada pelo anjo de Deus.
Continuou dançando, por sobre espinhos e pedras, até que seus pés ficaram feridos e cansados. Assim chegou a uma casinha solitária, à beira de um campo aberto. Ali as forças a abandonaram, e ela caiu diante da porta, exausta e triste demais para dar mais um passo de dança.
— Deus, tenha misericórdia de mim! — gritou na escuridão. — Sinto tanto, tanto, do meu orgulho e da minha vaidade. Tire de mim estes sapatos vermelhos. Prefiro nunca mais dançar na vida a ser levada assim, para longe de todos que amo.
E confessou tudo o que havia acontecido, pedacinho por pedacinho, chorou amargamente e não escondeu nada, arrependendo-se de coração.
Foi então como se um grande peso caísse de seus ombros. Os sapatos vermelhos se soltaram de seus pés — e dançaram por conta própria, campo afora, sumindo floresta adentro, e nunca mais ninguém os viu. Karen estava livre.
Ficou ali sentada, quieta, por muito tempo, com os pés doloridos e cansados, mas com uma paz no coração que há muito não conhecia.
Naquele silêncio, veio um canto suave e humilde — daqueles que cantam os que se arrependem de verdade — e ela o cantou entre lágrimas. Quando a manhã chegou, ela se levantou e seguiu pelo campo, agradecida de coração só por poder ir aonde quisesse.
— Já sofri o bastante por causa dos sapatos vermelhos — disse ela. — Agora vou à igreja, para que me vejam.
Mas ao se aproximar da porta da igreja, teve a impressão de ver os sapatos vermelhos dançando na sua frente, e, assustada, deu meia-volta.
Durante toda a semana ficou triste e chorou muitas lágrimas. No domingo, porém, pensou: "Já sofri o bastante. Certamente sou tão boa quanto muitos que estão sentados ali dentro." Seguiu com coragem em frente. Mas assim que chegou ao portão do adro, viu de novo os sapatos vermelhos diante de si, e de novo voltou — mas agora com um coração verdadeiramente arrependido de sua falta.
Foi até a casa do padre e pediu para servir ali. Disse que trabalharia com dedicação e não precisava de pagamento, contanto que tivesse um lar e boas pessoas ao seu redor. A esposa do padre teve pena dela e a acolheu. Karen era dedicada e quieta, escutava com atenção quando liam a Bíblia à noite, e as crianças da casa a queriam bem. Mas quando alguém falava de roupas bonitas ou de joias, ela apenas baixava a cabeça e ficava calada.
No domingo seguinte, perguntaram se ela queria ir à igreja com eles. Triste, baixou a cabeça e ficou sozinha, em seu quartinho, que não era maior que uma cama e uma cadeira. Sentou-se com seu livro de hinos, e enquanto lia, o vento trazia até ela o som do órgão da igreja. Com lágrimas no rosto, ela ergueu os olhos e disse:
— Deus, me ajude!
Então o sol brilhou forte, e diante dela apareceu o anjo — o mesmo que ela vira uma vez com a espada. Mas agora ele não trazia arma nenhuma, e sim um ramo verde cheio de rosas. Tocou o teto, e o teto se ergueu bem alto; tocou as paredes, e elas se afastaram, e de repente Karen viu a igreja inteira diante de si, com o órgão tocando e o povo cantando. Ela estava sentada no meio de todos, e quando o canto terminou, todos assentiram para ela:
— Que bom que você veio, Karen.
— Isso é graça — disse ela, baixinho.
O órgão tocava, as vozes das crianças cantavam suavemente, e o calor do sol entrava pela janela caindo exatamente sobre o lugar de Karen. Seu coração ficou tão cheio de luz, de paz e de alegria, que se partiu — bem de leve, bem quietinho. E sua alma subiu num raio de sol até Deus, para um lugar onde ninguém mais perguntava por sapatos vermelhos.