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Uma moça de sapatos vermelhos dança sem conseguir parar na orla de uma floresta escura iluminada pela lua.Original

Os Sapatos Vermelhos

Hans Christian Andersen

13 min de leituraa partir dos 9 anos

Karen é uma menina pobre que ganha sapatos vermelhos e não tira os olhos deles, até que eles passam a dançar sozinhos e a levam pela floresta. Depois que um carrasco corta fora os pés dela, Karen, de muletas, serve na casa do pastor, e um anjo abre as paredes do quartinho para a igreja: o coração dela se enche de sol.


Era uma vez uma menininha delicada e bonita. No verão ela andava sempre descalça, porque era pobre, e no inverno calçava uns tamancos grandes de madeira, que deixavam o peito do pé vermelho, vermelho por inteiro.

No meio da aldeia morava uma velha sapateira. Ela se sentava e costurava, com todo o capricho que conseguia, um par de sapatinhos feitos de tiras de pano vermelho já usado. Ficaram toscos, mas foram feitos com carinho, e eram para a menininha. Ela se chamava Karen.

No dia em que enterraram a mãe dela, Karen ganhou os sapatos vermelhos e os calçou pela primeira vez. Não era calçado para um enterro, é claro, mas ela não tinha outro, e por isso enfiou os pés descalços dentro deles e foi andando atrás do caixão pobre.

Nisso chegou uma carruagem grande e antiga, e dentro dela vinha uma senhora idosa. Ela olhou a menininha, teve pena e disse ao pastor:

— Escute, entregue essa menina a mim, que eu cuido dela.

Karen achou que aquilo tudo tinha acontecido só por causa dos sapatos vermelhos. Mas a velha senhora achou os sapatos horrorosos, e eles foram queimados. Karen, por sua vez, passou a andar limpa e bem vestida, teve que aprender a ler e a costurar, e as pessoas diziam que ela era bonitinha. O espelho, porém, dizia:

— Você é mais do que bonitinha. Você é linda!

Naqueles dias a rainha viajou pelo país, levando consigo a filha pequena, que era princesa. O povo acorreu ao castelo, e Karen estava lá também. A princesinha apareceu na janela, com um vestido branco e fino, e se deixou admirar. Não usava cauda nem coroa de ouro, mas usava uns sapatos maravilhosos de couro vermelho e brilhante. Eram bem mais bonitos, é verdade, do que os que a sapateira tinha costurado para a pequena Karen. Nada neste mundo se compara a um par de sapatos vermelhos!

Karen já estava com idade de ser crismada. Ganhou roupas novas, e sapatos novos ela também haveria de ter. O sapateiro rico da cidade tirou a medida do pé pequeno dela, e isso aconteceu na casa dele, na sala dele mesmo, onde havia armários grandes de vidro cheios de sapatos delicados e botas lustrosas. Era um encanto de se ver, mas a velha senhora não enxergava bem e não teve prazer nenhum naquilo. No meio de todos aqueles sapatos havia um par vermelho, igual ao que a princesa tinha usado. Como eram bonitos! O sapateiro contou que tinham sido feitos para a filha de um conde, mas que não tinham servido nela.

— Isso é couro envernizado? — perguntou a velha senhora. — Brilha tanto!

— Brilha mesmo! — disse Karen.

Os sapatos serviram e foram comprados. Mas a velha senhora não sabia que eram vermelhos, porque, se soubesse, nunca teria deixado Karen ir de sapatos vermelhos à crisma. E foi assim mesmo que ela foi.

Todo mundo olhou para os pés dela. Quando ela passou pela soleira da igreja e seguiu em direção ao coro, teve a impressão de que até as figuras antigas nas lápides, os retratos de pastores e de suas esposas, de golas duras e vestes pretas e compridas, cravavam os olhos nos sapatos vermelhos. E só neles ela pensou quando o pastor pôs a mão sobre a cabeça dela e falou do santo batismo, da aliança com Deus e de que agora ela seria uma cristã adulta. O órgão soou solene, as vozes bonitas das crianças cantaram, o velho cantor da igreja cantou; mas Karen só pensava nos sapatos vermelhos.

À tarde, a velha senhora ficou sabendo por todo mundo que os sapatos eram vermelhos. Disse que aquilo era feio, que não ficava bem, e que dali em diante, quando fosse à igreja, Karen deveria ir sempre de sapatos pretos, mesmo que fossem velhos.

No domingo seguinte havia comunhão. Karen olhou os sapatos pretos, olhou os vermelhos, olhou os vermelhos outra vez, e calçou os vermelhos.

Fazia um sol esplêndido. Karen e a velha senhora foram pela trilha que atravessava o trigal, e a poeira subia um pouco.

Na porta da igreja estava um velho soldado inválido, apoiado numa muleta, com uma barba comprida e impressionante, mais vermelha do que branca. Ele se curvou até o chão e perguntou à velha senhora se podia limpar os sapatos dela. E Karen esticou o pezinho também.

Na porta de pedra da igreja, um velho de barba ruiva com muleta se curva e estende a mão para o sapato vermelho da moça; uma senhora de casaco de pele olha.

— Olha só que belos sapatos de dança! — disse o soldado. — Fiquem bem firmes quando ela dançar!

E deu um tapa com a mão nas solas.

A velha senhora deu uma esmola ao soldado e entrou com Karen na igreja.

Lá dentro, todos olharam para os sapatos vermelhos de Karen, e todos os quadros olharam também. E quando Karen se ajoelhou diante do altar e levou o cálice de ouro aos lábios, só pensava nos sapatos vermelhos; parecia até que eles boiavam dentro do cálice. Ela esqueceu de cantar o salmo, esqueceu de rezar o pai-nosso.

Quando o culto terminou, as pessoas saíram da igreja e a velha senhora subiu na carruagem. Karen levantou o pé para subir também, e nisso o velho soldado disse:

— Olha só que belos sapatos de dança!

Karen não conseguiu se conter e deu alguns passos de dança. Assim que começou, as pernas não pararam mais. Era como se os sapatos tivessem ganhado poder sobre ela. Dançou até dobrar a esquina da igreja, e não conseguia parar. O cocheiro teve que correr atrás dela e agarrá-la; ergueu a menina para dentro da carruagem, mas os pés continuaram dançando, e ela pisoteou de um jeito terrível a boa senhora idosa. Só quando tiraram os sapatos dos pés dela é que as pernas sossegaram.

Em casa, os sapatos foram guardados no armário, mas Karen não conseguia deixar de ficar olhando para eles.

A velha senhora adoeceu e teve que ficar de cama. Diziam que ela não se levantaria mais. Precisava de cuidado e de companhia dia e noite, e ninguém tinha mais obrigação de cuidar dela do que Karen. Mas havia um grande baile na cidade, e Karen tinha sido convidada. Ela olhou os sapatos vermelhos e achou que não havia pecado nenhum naquilo; calçou os sapatos vermelhos, afinal bem que podia; e então foi ao baile e começou a dançar.

Só que, quando ela queria ir para a direita, os sapatos dançavam para a esquerda; quando queria avançar pelo salão, os sapatos recuavam, escada abaixo, rua afora, para fora dos portões da cidade. Ela dançava e tinha que dançar, para dentro da floresta escura.

No salão iluminado por velas, a moça roda de braços abertos rumo à porta escura com os sapatos vermelhos acesos, e os pares recuam assustados.

Alguma coisa brilhou lá em cima, entre as árvores. Ela pensou que fosse a lua, mas era um rosto. Era o velho soldado de barba vermelha. Ele estava sentado, balançou a cabeça e disse:

— Olha só que belos sapatos de dança!

Ela se assustou e quis jogar longe os sapatos vermelhos, mas eles estavam presos. Arrancou as meias, e os sapatos tinham criado raiz nos pés dela. Ela dançava e tinha que dançar por campos e prados, na chuva e no sol, de noite e de dia; e de noite era o mais medonho de tudo.

Dançou para dentro do cemitério aberto, mas os mortos ali não dançavam: tinham coisa melhor a fazer do que dançar. Ela quis sentar no túmulo dos pobres, onde cresce a samambaia amarga, mas para ela não havia descanso nem sossego. E quando dançou na direção da porta aberta da igreja, viu ali um anjo de vestes brancas e compridas, com asas que iam dos ombros até o chão. O rosto dele era severo e grave, e na mão ele segurava uma espada larga e reluzente.

Um anjo de asas até o chão segura uma espada larga na porta da igreja à noite, e a moça passa dançando para o cemitério com os sapatos vermelhos acesos.

— Você vai dançar! — disse o anjo. — Vai dançar com os seus sapatos vermelhos até ficar pálida e fria, até a sua pele encolher sobre os ossos! Vai dançar de porta em porta, e você vai bater onde morarem crianças orgulhosas e cheias de vaidade, para que elas ouçam você e tenham medo! Você vai dançar, dançar...

— Misericórdia! — gritou Karen.

Mas ela não ouviu o que o anjo respondeu, porque os sapatos a levaram pela porta afora, para o campo, por estradas e atalhos, e ela tinha que dançar sempre.

Numa manhã, ela dançou diante de uma porta que conhecia bem. Lá dentro cantavam salmos, e um caixão coberto de flores foi carregado para fora. Então ela soube que a velha senhora tinha morrido, e sentiu que estava abandonada por todos e condenada pelo anjo de Deus.

Ela dançava e tinha que dançar, dançar pela noite escura. Os sapatos a levavam por cima de espinhos e de tocos, e ela se feria até sangrar. Dançou pela charneca até uma casinha solitária. Ali, ela sabia, morava o carrasco. Bateu com os dedos na vidraça e chamou:

— Venha para fora! Venha para fora! Eu não posso entrar, porque tenho que dançar!

E o carrasco respondeu:

— Você não deve saber quem eu sou. Eu corto a cabeça dos maus, e estou sentindo o meu machado retinir.

— Não corte a minha cabeça! — disse Karen. — Se cortar, não vou poder me arrepender do meu pecado. Mas corte fora os meus pés com os sapatos vermelhos!

Então ela confessou todo o seu pecado, e o carrasco cortou fora os pés dela com os sapatos vermelhos. Mas os sapatos foram dançando com os pezinhos dentro, campo afora, até o fundo da floresta.

E ele entalhou para ela uns pés de madeira e fez umas muletas, ensinou a ela um salmo, o salmo que os pecadores sempre cantam, e ela beijou a mão que tinha empunhado o machado e foi embora pela charneca.

— Já sofri o bastante por causa dos sapatos vermelhos — disse ela. — Agora quero ir à igreja, para que todos possam me ver.

E foi depressa até a porta da igreja. Mas quando chegou lá, os sapatos vermelhos vieram dançando na frente dela, e ela se assustou e voltou.

A semana inteira ela ficou triste e chorou muitas lágrimas amargas. Mas, quando chegou o domingo, disse:

— Pronto, já sofri e já lutei o bastante. Acho que sou tão boa quanto muita gente que fica sentada na igreja toda cheia de si.

E foi corajosa até lá. Mas não passou do portão do cemitério, porque viu os sapatos vermelhos dançando na frente dela. Ficou horrorizada, deu meia-volta e se arrependeu do seu pecado do fundo do coração.

Foi então até a casa paroquial e pediu que a aceitassem como criada. Seria trabalhadeira e faria tudo o que pudesse; não faria questão de pagamento, contanto que tivesse um teto e a companhia de gente boa. A mulher do pastor teve pena dela e a aceitou. E Karen foi dedicada e pensativa. Ficava sentada em silêncio, escutando, quando o pastor lia a Bíblia em voz alta à noite. Todos os pequenos gostavam muito dela, mas, quando eles falavam de enfeites, de luxo e de beleza, ela balançava a cabeça.

No domingo seguinte, todos foram à igreja. Perguntaram a ela se queria ir junto, e ela olhou para as suas muletas com tristeza, com lágrimas nos olhos. Os outros foram ouvir a palavra de Deus, e ela foi sozinha para o seu quartinho, que era tão pequeno que só cabiam ali a cama e uma cadeira. Sentou-se com o seu livro de cânticos e, enquanto lia com o coração devoto, o vento trouxe da igreja o som do órgão até ela. Ela ergueu o rosto molhado de lágrimas e disse:

— Ó Deus, me ajude!

Nisso o sol brilhou claríssimo, e bem diante dela estava o anjo de Deus, de vestes brancas, o mesmo que ela tinha visto naquela noite na porta da igreja. Só que ele não segurava mais a espada afiada, e sim um ramo verde e magnífico, coberto de rosas. Ele tocou o teto com o ramo, e o teto subiu muito alto, e onde ele tinha tocado brilhou uma estrela de ouro. Tocou as paredes, e elas se alargaram, e ela viu o órgão tocando; viu os quadros antigos com os pastores e as esposas dos pastores; os fiéis estavam sentados nos bancos enfeitados e cantavam com os seus livros de cânticos nas mãos. A própria igreja tinha vindo até a pobre menina, para dentro do quartinho apertado, ou então tinha sido ela que fora até lá. Ela estava sentada no banco, junto com o pessoal da casa do pastor; e quando terminaram o salmo e ergueram os olhos, todos acenaram para ela e disseram:

— Você fez bem em vir, Karen.

— Isso foi a graça de Deus — disse ela.

Um anjo louro com um ramo de rosas toca a parede de madeira, que se abre numa igreja ensolarada; sentada num banco, a moça olha para cima e sorri.

O órgão soou, e as vozes das crianças no coro soaram doces e suaves. O sol claro entrou quente pela janela, no banco onde Karen estava sentada, e o coração dela se encheu de tanto sol, de tanta paz e de tanta alegria que se partiu. A alma dela voou nos raios de sol até Deus, e lá não havia ninguém que perguntasse pelos sapatos vermelhos.

Recontado pela Talerie, Fonte: Sämmtliche Märchen (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público