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Ao entardecer, um jovem pescador de pé numa canoa de vela escura olha para a água, de onde surge a Iara coroada de flores lilases; garças cruzam o céu.

A Lenda da Iara

João Barbosa Rodrigues

4 min de leitura a partir dos 7 anos

A Iara canta de dia e de noite na fonte de um igarapé, com uma coroa de flores de aguapé na testa. Um jovem pescador tapuio foge daquele canto, porque sabe que ela é bela e é a morte. Mas um cardume o leva para longe de casa, e a voz dela o encontra no meio da floresta.


Na fonte de um igarapé, deitada sobre a areia branca, uma linda moça tapuia cantava à sombra das palmeiras. A correnteza que descia para o igapó, a mata alagada, escondia metade do corpo dela, e bandos de peixinhos passavam brincando por cima. A moça tinha os cabelos longos e negros, tão negros quanto os olhos grandes, e trazia na testa uma coroa de flores lilases de aguapé. Era a Iara, que muita gente também chama de mãe-d’água.

A Iara canta com os lábios entreabertos, coberta até os ombros pela água escura do igarapé, com os cabelos negros boiando e peixinhos prateados em volta.

A Iara cantava sem parar. Cantava de dia, e a floresta repetia o canto em eco. Cantava quando a noite chegava e o céu se enchia de rosa e dourado, e então a voz dela ressoava nas águas do maior dos rios. Cantava, e cantava sempre.

Um jovem tapuio que passava por ali ouvia aquele canto e sentia o coração apertar. Mas não tinha coragem de procurar a fonte do igarapé. Fugia, repetindo baixinho:

— É bela, mas é a morte… é a Iara.

Um dia, um cardume que subia o igarapé para desovar levou o pescador para muito longe, e a noite caiu antes que ele pudesse voltar. Ele foi dar num lago grande, onde os igarapés se cruzavam por todos os lados. Sem saber o caminho, ele foi seguindo por esses canais, ora remando com mão firme, ora se apoiando nos troncos das árvores para empurrar a canoa, e assim atravessou a floresta, o igapó e o buritizal.

De repente, um canto o surpreendeu. Uma cabeça surgiu da água, e o sorriso e a beleza da Iara o deixaram deslumbrado. Ele ficou olhando para ela, deixou o remo cair e se esqueceu da palhoça onde morava. Não ouvia mais nada além do próprio coração. Perdido em pensamentos, deixou a canoa ir à deriva, levada pela correnteza, e só despertou quando sentiu no rosto a brisa fresca do Amazonas.

Mas despertou tarde demais. A alegria virou tristeza. A palhoça passou a ser um tormento, e a família, um peso. Só as águas o chamavam, só a solidão dos igarapés o encantava. Era o que os tapuios chamam de “Yara hupycycana”, quer dizer, pego pela Iara.

Todas as manhãs, quando começava a clarear e os japins cantavam nas sumaúmas, lá ia uma canoa de vela escura rumo ao igarapé. Levava o pescador, que só esperava o aracuã, o pássaro que canta ao anoitecer. Para disfarçar, ele fingia caçar tartarugas no lugar onde elas vêm boiar, mas a flecha lhe caía da mão, e o arco ficava encostado. As horas passavam, e ele ali, mergulhado em pensamentos, enquanto a canoa seguia à deriva. As garças voavam em bando para o pouso e cobriam tudo de branco, mas o aracuã ainda não tinha cantado.

Ao amanhecer, o pescador está sentado na canoa de vela escura, com o arco encostado e a flecha na mão; dois japins pretos e amarelos pousam nos galhos.

A tristeza só ia embora quando o sol se escondia atrás das embaúbas, lá na margem distante do Amazonas, porque essa era a hora da Iara. Então o moço remava devagar. A capivara que saía do capinzal o assustava, a jaçanã que levantava voo do meio dos juncos lhe dava esperança, e o pirarucu que subia à tona o enganava.

De repente, um canto o perturbou. Era a Iara, que se queixava, cantando, da frieza do moço.

O remo caiu outra vez da mão dele. A Iara apareceu, mais encantadora do que nunca, e o coração do pescador deu um salto no peito. Mas, nessa hora, ele se lembrou do que a mãe tinha dito:

— Meu filho, não se deixe seduzir pela Iara, fuja dos braços dela, ela é a morte.

O aracuã parou de cantar, e do fundo da floresta veio a risada aguda do urutau, o pássaro da noite que anuncia desgraça.

A noite cobriu tudo. O moço voltou para casa mais triste do que nunca, dividido entre o coração e o conselho da mãe. E assim os dias foram passando: ele fugia dos amigos e já não pescava.

Um dia, viram uma canoa descendo o Amazonas à deriva, sozinha, sem ninguém dentro. O pescador tinha se deixado seduzir pelos cantos da Iara e se afogado.

Uma canoa vazia, com o remo atravessado e a vela escura frouxa, boia sozinha num rio largo e calmo, sob a luz dourada, com a mata verde na margem distante.

Mais tarde, o corpo dele apareceu sobre um matupá, uma dessas ilhotas de capim e galhos que se soltam da margem e descem o rio boiando. Nos lábios havia as marcas recentes dos beijos da Iara, e também as mordidas das piranhas.

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Recontado pela Talerie, fonte: Revista Brazileira (abre em uma nova janela) Domínio público