
A Lenda do Urutau
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Nheambiú, filha única de um cacique guarani, ama Cuimbaé, um jovem prisioneiro tupi. Os pais dela não querem nem ouvir falar em casamento, e um dia a moça some de casa. Quando os homens do cacique a encontram nas matas do Iguaçu, ela não diz uma só palavra e dá as costas a todos.
Há muito tempo, à beira do rio Uruguai, onde o vento chega morno das terras quentes, nasceu Nheambiú, a filha única de um cacique guarani muito poderoso. Depois de vencer os tupis na guerra, o cacique atravessou matas imensas com seu povo e foi viver não muito longe do Iguaçu.
Entre os prisioneiros do cacique havia um jovem tupi chamado Cuimbaé, bonito, forte e generoso. Ele amava Nheambiú, e Nheambiú o amava também, tanto que os dois pareciam ter uma alma só. Mas Cuimbaé era um prisioneiro, e chorava escondido à beira do Iguaçu, porque sabia que aquele amor não tinha futuro.
O cacique e a mulher dele não queriam nem ouvir falar em casamento. Adoravam a filha e não suportavam a ideia de que um dia ela se separasse deles, a não ser pela morte. Perder Nheambiú seria como arrancar o próprio coração.
A moça chorava sozinha, para não magoar os pais. Calava e obedecia. Uma vez, porém, não se conteve e perguntou:
— Então vocês não me deixam casar com Cuimbaé?
— Minha filha querida — responderam o pai e a mãe —, você ainda é muito nova para casar, ainda mais com um tupi. Ainda ontem os tupis eram nossos inimigos cruéis, e amanhã, sem dúvida, vão voltar a ser.
— Cruéis? Cruéis são vocês, com esta que chamam de filha querida! Ah, eu sou a filha da desgraça!
Nheambiú era linda, e mais linda ainda por dentro. Tinha um coração tão sensível que tudo o que sentia aparecia no rosto e nos olhos. Talvez por isso mesmo tenha sofrido tanto: quem não sente muito também não sofre muito.
Um dia, quando ninguém esperava, ela sumiu de casa. Os pais, assustados, correram até a cabana de Cuimbaé, desconfiados de que os dois tivessem combinado a fuga. Mas a notícia pegou o rapaz de surpresa. Ele achava impossível que uma moça tão ajuizada e carinhosa tivesse fugido da casa dos pais. Mesmo assim, contou:
— Eu sonhei que uma mulher muito feroz, que era a própria desgraça, tinha levado Nheambiú para as matas do Iguaçu. Lá ela vive no meio dos bichos e dos pássaros, e nenhum deles faz mal a ela nem foge dela.
— Ao Iguaçu! Ao Iguaçu! — gritou o cacique, fora de si. — Ao Iguaçu, buscar minha filha! Foi a Caipora que a levou!
— A Caipora! A Caipora levou Nheambiú! — repetiu o povo inteiro, numa só voz. — Vamos buscar Nheambiú, que a Caipora levou! Vamos buscar Nheambiú!

Na mata do Iguaçu, os pica-paus começaram a fazer um barulhão, como sempre fazem quando veem gente. Curiosa com tanto alvoroço, Nheambiú saiu do meio de um matagal fechado e logo se viu cercada pelos homens do pai. Em nome do cacique, eles mandaram que ela voltasse para a família e insistiram de todo jeito.
Mas uma dor tão grande, sem esperança e sem consolo, tinha apagado no peito de Nheambiú todo o fogo dos sentimentos. Ela não sentia mais nada e, junto com o sentimento, tinha perdido a fala: já não respondia ao carinho de ninguém nem dizia uma só palavra. Calada e indiferente, deu as costas a todos e entrou de novo na mata.
As companheiras de Nheambiú sabiam que ela era a mais bonita de todas, e nem por isso tinham inveja dela. Pelo contrário: gostavam muito da amiga, porque ela era boa e paciente com todas. Como filha do cacique, Nheambiú era também a chefe das moças; mas era pela bondade que mandava no coração delas, e com mais força do que o pai mandava no povo inteiro.
Quando os homens voltaram tristes, sem ela, as amigas decidiram ir juntas atrás da fugitiva. O carinho das amigas talvez conseguisse o que as ordens não tinham conseguido. Mas e se dessem de cara com a Caipora, o terrível demônio da mata, que deixa infeliz para o resto da vida quem a vê por acaso?
— Não faz mal — disseram umas às outras. — Pior seria o castigo de Anhangá, o diabo que sabe de tudo e se mete em tudo, se a gente abandonasse uma amiga na desgraça por medo da Caipora. Anhangá só está esperando uma desculpa para fazer mal. Vamos procurar Nheambiú!
Elas também voltaram desconsoladas. Os pedidos das amigas não tinham adiantado mais do que os dos homens. Diante delas, Nheambiú ficou parada como uma estátua de mármore: não respondeu nada, não mostrou nenhum sentimento. A desgraça dela parecia não ter mais remédio.

Então, como sempre se fazia nesses casos, foram consultar o adivinho da tribo, Aguará-Pajé. Era feio de dar medo e tão esperto quanto feio. O próprio nome dizia isso: aguará quer dizer raposa, e ele era o pajé raposa. Por ser tão esperto e tão feio, tinham feito dele o adivinho.
Estava anoitecendo, a melhor hora para consultar os espíritos. Aguará-Pajé pegou duas cuias enormes: uma cheia de erva-mate, como um chimarrão, e outra cheia de chicha, a bebida fermentada de mandioca. Primeiro bebeu o mate. Depois, resmungando alguma coisa entre os dentes, bebeu a chicha também, o que não lhe custou nenhum sacrifício. Mal acabou, começou a cambalear, fez umas caretas horríveis e caiu como morto.
Quando voltou a si, o pajé disse:
— Nheambiú perdeu para sempre o sentimento e a fala. Abandonem a busca.
— Não! Não! — responderam o pai e a mãe de Nheambiú. — Desistir, nunca! Antes morrer do que desistir! Ao Iguaçu!
— Antes morrer do que desistir! — repetiu o povo. — Ao Iguaçu! Ao Iguaçu!
E foram ao Iguaçu.
Todos entenderam que só um grande abalo poderia acender de novo o fogo do sentimento na alma de Nheambiú, que parecia apagado para sempre. Fingiram então que algumas pessoas queridas tinham morrido e foram dizendo os nomes, um por um. Anunciaram a morte das melhores amigas dela, e ela nem se mexeu. Anunciaram a morte do próprio pai e da própria mãe, e ela continuou do mesmo jeito: fria, imóvel, calada.
Calado também estava Aguará-Pajé, que olhava aquela cena triste.
— Faça com que ela sinta! — pediram ao pajé.
Aguará-Pajé obedeceu. Deu alguns passos à frente, bem devagar, e disse a Nheambiú:
— Cuimbaé morreu…

Não era verdade. Mas uma faísca não incendeia palha seca mais depressa do que aquelas palavras incendiaram a alma de Nheambiú. Soltando um ai atrás do outro, ais de cortar o coração, ela sumiu de repente diante dos olhos espantados de todos. E os que estavam em volta dela, tomados de dor, viraram salgueiros.

No mesmo instante, Nheambiú virou um pássaro: o urutau, que alguns também chamam de mãe-da-lua. Dos galhos daqueles salgueiros, escolheu o mais velho e mais desfolhado, para chorar ali, para sempre, sua desgraça.
Recontado pela Talerie, fonte: Supersticiones del Río de la Plata (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
