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Numa casa de palha, a filha do cacique, de joelhos, ergue as mãos para uma planta que brota da terra molhada; aves coloridas pousam nas folhas e o povo olha.

A Lenda da Mandioca

José Vieira Couto de Magalhães

2 min de leitura a partir dos 6 anos

Perto de onde hoje fica Santarém, a filha de um cacique espera um bebê e jura que nunca conheceu homem nenhum. O pai não acredita nela e, com o orgulho ferido, quer descobrir a qualquer custo quem é o pai da criança.


Há muito tempo, perto do lugar onde hoje fica a cidade de Santarém, no Pará, vivia um cacique que tinha uma filha. Um dia, todos perceberam que a moça estava grávida.

O cacique ficou com o orgulho ferido e quis se vingar do homem que tinha feito aquilo. Para descobrir quem era, primeiro pediu, depois ameaçou e, por fim, castigou a filha duramente.

— Diga quem é, minha filha. Fale!

Mas a moça, diante dos pedidos e dos castigos, respondia sempre a mesma coisa:

— Não tem ninguém, pai. Eu nunca conheci homem nenhum.

O cacique não acreditou e decidiu matar a filha. Então, certa noite, um homem branco lhe apareceu em sonho e disse:

— Não mate a moça. Ela é mesmo inocente e nunca conheceu homem nenhum.

À noite, numa casa de palha, o cacique de cocar colorido dorme inquieto numa rede, e um homem branco de túnica clara, envolto em luz, ergue a mão.

E o cacique poupou a filha.

Quando se completaram os nove meses, a filha do cacique deu à luz uma menina lindíssima, de pele branca. A tribo inteira ficou espantada, e até os povos vizinhos vieram de longe para ver de perto aquela criança, tão diferente de todas as que conheciam.

Na beira do rio, a filha do cacique sorri com a menina de pele branca no colo; o cacique observa espantado, e vizinhos chegam de canoa com potes e cestos.

A menina recebeu o nome de Mani. Andou e falou muito mais cedo que as outras crianças. Mas, quando completou um ano, Mani morreu, sem ter ficado doente e sem mostrar dor nenhuma.

Enterraram a menina dentro da própria casa. Como era costume daquele povo, deixaram a cova descoberta e a regavam todos os dias.

Algum tempo depois, brotou da cova uma planta. Ninguém sabia que planta era aquela, e por isso a deixaram ficar. A planta cresceu, floresceu e deu frutos.

Os pássaros que comeram aqueles frutos ficaram embriagados. Ninguém nunca tinha visto coisa igual, e o povo passou a ter pela planta ainda mais respeito e temor.

Por fim, a terra se rachou. O povo cavou e encontrou uma raiz, e todos acreditaram ver nela o corpo de Mani. Comeram a raiz, e foi assim que aprenderam a usar a mandioca.

Dentro da casa, a filha do cacique e o cacique tiram da terra rachada uma raiz grossa de casca marrom e miolo branco, cercados de homens com tigelas.

A raiz recebeu o nome de Mani-oca, que quer dizer “casa de Mani” ou “transformação de Mani”. Desse nome veio a palavra mandioca, que se usa até hoje.

Que nota você dá para esta lenda?

Recontado pela Talerie, fonte: O Selvagem (abre em uma nova janela) Domínio público