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À noite, uma moça de longos cabelos ruivos, com penas vermelhas e amarelas, se ajoelha numa pedra à beira do lago e estende a mão para o reflexo branco da Lua.

A Lenda da Vitória-Régia

Alfredo Ladislau

3 min de leitura a partir dos 6 anos

Naiá, a filha do velho cacique, ouve dos anciãos que a Lua transforma em estrelas as moças que escolhe. Desde então, sobe sozinha os morros, tarde da noite, mas a Lua está sempre sobre o morro seguinte.


No começo do mundo, quando a tribo ainda era nova, os velhos adivinhos, que conheciam os segredos da natureza, contavam uma história ao povo da taba. Diziam que a Lua, quando se escondia no horizonte e parecia descer pelo outro lado das serras, vinha buscar as moças de que mais gostava.

Os velhos explicavam que nenhuma língua humana era capaz de descrever o encanto desses encontros: cada um tinha de imaginá-lo sozinho.

Contavam também que um beijo da Lua transformava em luz o corpo da moça escolhida. O sangue e a carne iam se apagando, ela ficava leve como o luar, e a Lua a levava nos braços até as nuvens mais altas. Era assim que nasciam as estrelas do céu.

Naiá, a filha do velho cacique, era a princesa da tribo. Tinha a pele clara e os cabelos mais ruivos que os fios do milho verde. Ouvia essas histórias com os olhos brilhando, e passou a desejar uma coisa só: que a Lua a levasse e fizesse dela uma estrela.

Dois velhos de cabelos brancos, sentados junto ao fogo diante das ocas de palha, falam com as mãos erguidas; entre eles, Naiá olha encantada para a Lua cheia.

Por isso, tarde da noite, quando a taba inteira dormia e a Lua parecia tocar o alto dos morros distantes, Naiá saía sozinha e subia as montanhas. Queria chegar a tempo de ser abraçada por aquela luz de que os anciãos tanto falavam.

Mas nunca conseguia. Cada vez que chegava ao topo de um morro, a Lua já se debruçava sobre outro, mais adiante, sempre fora do alcance dela.

Vista de costas, Naiá sobe descalça por pedras cobertas de musgo; lá embaixo, a mata escura cobre o vale até o morro distante onde está a Lua cheia.

Aquela vontade foi consumindo a moça. Ela emagreceu, perdeu a cor, vivia suspirando. Os pajés, homens sábios, prepararam remédios e fizeram feitiços, mas nada a curou. E a tribo deixava que ela continuasse subindo os morros, porque no fundo esperava que a Lua acabasse atendendo àquela paixão.

Com o tempo, Naiá perdeu o juízo. Nas noites de luar, vagava pelas encostas, ora rindo alto, ora soluçando, ora cantando coisas sem sentido.

Certa noite, quando estava mais perdida do que nunca, ela viu no espelho de um lago calmo a imagem branca da Lua, seu bem-amado, brilhando ali, bem perto.

Naiá se jogou na água iluminada para alcançá-lo e morreu afogada.

Durante semanas, o povo da taba procurou por ela nas matas escuras ao redor da aldeia. Nunca a encontrou.

Os deuses da floresta, porém, também eram bons e sabiam agradecer. A Lua, que tinha criado as águas, os peixes e as plantas que vivem nelas, quis recompensar o amor da moça. Mas não quis pôr Naiá no céu. Em vez disso, fez dela a “estrela das águas”.

Do corpo branco de Naiá, a Lua fez nascer uma planta misteriosa. A alma pura da moça desabrochou numa grande flor perfumada, e toda a tristeza que a tinha atormentado virou espinhos. Depois, a Lua esticou as folhas o mais que pôde, para que virassem a maior taça possível e recebessem o luar.

Folhas redondas e enormes, de bordas viradas para cima, roxas e cheias de espinhos, flutuam no lago; entre elas se abre uma grande flor branca, sob a Lua cheia.

Assim nasceu a vitória-régia. Toda noite, Naiá abre as pétalas sobre a água mansa para receber os beijos do luar.

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Recontado pela Talerie, fonte: Terra Immatura (abre em uma nova janela) Domínio público