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Um gigante peludo de rosto triste atravessa a mata ao luar montado num queixada, com toda a vara de porcos-do-mato ao redor.

A Lenda do Caipora

João Simões Lopes Neto

7 min de leituraa partir dos 7 anos

Chico é o melhor caçador do lugar até a noite em que espera a vara de porcos do mato e cruza o olhar com o Caipora, o dono dos bichos, montado no maior deles. A sorte vira contra Chico, e ele passa os anos seguintes escutando à porta nas noites em que a vara desce e o estalo dos dentes atravessa o campo.


Chico morava na última casa do campo, onde a terra limpa acaba e o mato começa.

Era o melhor caçador e o melhor pescador daquelas bandas. Saía com a espingarda e voltava com carne; botava a linha no arroio e a linha vinha pesada. Ninguém no lugar estranhava mais isso.

Naquele verão, os porcos do mato começaram a descer para as lavouras. Vinham de noite, em vara, e de manhã o milho amanhecia pisado.

Homem de chapéu, agachado na borda do milharal, segura uma folha quebrada sobre a terra pisada e as pegadas de casco; ao fundo, araucárias e campo aberto.

Os vizinhos falaram com ele num domingo. Se tinha alguém ali capaz de esperar aquela vara, era o Chico.

Antes de escurecer, ele passou na casa do velho Honório para avisar por onde ia.

— Tu vai hoje? — perguntou Honório.

— Vou. Eles descem sempre pela mesma sanga.

O velho ficou um tempo olhando o fogo.

— Então escuta primeiro uma coisa. A vara do mato tem quem mande nela. Não é bicho e não é gente: é um espírito com forma de homem, e o nome dele é Caipora.

Chico esperou, por respeito ao velho.

— Ele é grande, muito maior que tu e que eu, e é peludo do pé à cabeça — disse Honório. — Quem vê uma vez sabe na hora que não está vendo gente.

— E anda com os porcos?

— Anda dentro deles. Nunca a pé. Vai montado no maior da vara, do jeito que um homem vai a cavalo. Onde a vara passa, ele passa junto.

— E se eu topar com ele?

— Aí não tem mais volta — disse o velho. — Ele não avança em ninguém. Não te toma nada, não te encosta a mão. Basta o olhar dele cruzar com o teu, e tu traz aquilo contigo.

— Trago o quê?

— A má sorte, guri. Pelo resto da vida.

— E não tem reza que tire?

— Não tem. Nunca teve.

Chico não riu. Não era homem de rir de velho. Mas o milho estava sendo pisado toda noite, e a vara ia continuar descendo enquanto ninguém a esperasse.

Saiu com a lua alta e foi sentar atrás de um tronco caído, na sombra da sanga, onde os porcos costumavam atravessar.

Esperou muito tempo. Primeiro veio o cheiro. Depois veio o barulho: um estalo seco, muitos ao mesmo tempo, que era o dente batendo no dente.

A vara entrou na clareira sem pressa. Eram trinta, quarenta, escuros e baixos, passando juntos como uma água que corre.

Chico encostou o rosto na coronha da espingarda.

Foi então que viu, no meio deles, uma coisa alta demais para ser porco.

Era um homem, ou tinha a forma de um. De pé, não passaria pela porta de uma casa sem abaixar a cabeça. Vinha montado no maior da vara, com as pernas caídas dos dois lados, e do pé à cabeça era coberto de pelo escuro.

A espingarda estava carregada e engatilhada. Chico soube, sem que ninguém precisasse dizer, que ali não era caso de tiro.

Baixou a arma devagar.

A vara toda andava no passo daquele que ia montado. Quando ele parou, pararam todos.

E então ele virou a cara e olhou para o Chico.

Caçador agachado atrás de um tronco caído, a espingarda encostada nele; o vulto peludo, montado num porco do mato, vira a cara triste para ele, no meio da vara.

Chico esperou o medo, e o medo não veio. Veio outra coisa. Aquela era a cara mais triste que ele tinha visto na vida, e a tristeza não era daquela noite: era velha, e estava ali para ficar.

O Caipora não gritou, não avançou, não levantou a mão. Olhou por um tempo comprido e tocou a vara para a frente.

Os porcos entraram no mato. O estalo dos dentes foi ficando longe, e depois não se ouviu mais nada.

Chico voltou para casa com a espingarda cheia e sem um arranhão. Não faltava nada nos bolsos dele. Não doía nada em lugar nenhum. Deitou pensando que não tinha acontecido coisa alguma.

Tinha acontecido.

Na semana seguinte ele saiu três vezes e voltou três vezes sem nada. Não era falta de bicho. Era o bicho sair sempre pelo outro lado, como se alguém avisasse antes.

No arroio onde ele pescava desde guri, a linha ficava parada tardes inteiras. E quando um peixe enfim pegava, o nó escolhia justo aquela hora para soltar.

A pontaria, que era a coisa mais certa que ele tinha, começou a errar.

E não parou na caça. Chico passou a tropeçar no caminho que fazia desde criança, na mesma raiz, todas as vezes.

As roçadas que ele atravessava sem pensar começaram a rasgar a manga da camisa e a deixar os braços marcados de espinho.

Perdia coisas. A faca, o chapéu, o dinheiro do mês, dentro da própria casa, em lugares onde ninguém perde nada.

Chegava atrasado em tudo. Vivia apoquentado, com a impressão de acordar já devendo o dia.

Depois aquilo passou para os bichos de casa.

A égua foi ficando magra sem doença que se visse, e ele passou a ir a pé, com ela no cabresto, para não pesar nas costas dela.

As galinhas pegaram gogo, uma atrás da outra, e foram parando de comer.

O cachorro apareceu com bicheira na orelha. Chico tratou dele todo dia até sarar, e o cachorro sarou, mas nunca mais quis entrar no mato.

No lugar, as pessoas foram reparando. Primeiro no Chico, depois no que era dele.

Quem tinha animal para trocar procurava outro. Quem ia caçar combinava com outro. Ninguém dizia nada na cara dele, mas o banco ao lado dele ficava vazio.

Na frente da venda, um homem sentado sozinho na ponta do banco comprido; vizinhos conversam ao longe, o cachorro tem a orelha enfaixada e a égua está magra.

Num fim de tarde, ele foi até a casa do velho e sentou sem pedir licença.

— Eu não fiz nada com ele, Honório. Não atirei, não gritei, não tirei nada do mato naquela noite.

— Eu sei.

— Então por quê?

— Não é castigo — disse o velho. — Ele não cobra e não julga ninguém. Ele toma conta. Os bichos do mato são dele, e de noite ele anda junto com eles. Por isso é indo atrás da caça que a gente acaba dando com ele. Tu não fez nada. Tu só cruzou com o dono.

— E isso dura quanto?

O velho mexeu no fogo antes de responder.

— Isso tem nome aqui no campo — disse. — Caiporismo. Não tem dia marcado para acabar.

E não teve.

Chico viveu muitos anos ainda. Aprendeu a sair de casa mais cedo do que precisava, a levar duas facas quando a viagem era longa e a rir junto quando tropeçava na frente dos outros, que é o que se faz quando não tem jeito.

Voltou a ir ao arroio de vez em quando, mais pela sombra do que pelo peixe.

Nas noites em que a vara descia para as lavouras e o estalo dos dentes atravessava o campo, ele levantava e ia até a porta.

Ficava ali, escutando, até o barulho passar para o lado do mato.

Homem já velho, de chapéu, parado descalço na porta iluminada de casa, a mão na madeira, olhando o campo escuro e as araucárias recortadas na noite.

— Alguém tem que tomar conta daquilo — dizia ele. — Se não fosse o Caipora, já não tinha mais bicho nenhum lá dentro.

Depois fechava a porta devagar, para não assustar o que estava passando.

Recontado pela Talerie, Fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público