
O Rouxinol
12 min de leituraa partir dos 6 anostalerie.com/pt/contos/o-rouxinol
O imperador da China manda buscar na floresta um passarinho cujo canto lhe arranca lágrimas, e depois ganha um rouxinol de ouro coberto de pedras preciosas. Anos depois, quando a Morte se senta no peito do imperador doente, o pássaro vivo volta à janela e canta até a Morte ir embora, e o imperador acorda curado.
Na China, como você sabe, o imperador é chinês, e todos à sua volta também são. Isso aconteceu há muitos anos, e por isso mesmo vale a pena contar antes que a história seja esquecida.
O palácio do imperador era o mais bonito do mundo, todo de porcelana fina, tão delicada que era preciso cuidado para encostar nela. No jardim, as flores mais bonitas tinham sininhos de prata que tocavam para ninguém passar sem reparar nelas. Mais adiante começava uma floresta que descia até o mar azul, e ali morava um rouxinol que cantava tão bem que até o pescador pobre largava a rede para escutar.
— Ai, meu Deus, como isso é bonito! — dizia ele.
Depois voltava ao trabalho e esquecia o pássaro. Mas na noite seguinte, quando o rouxinol cantava outra vez, ele dizia a mesma coisa:
— Ai, meu Deus, como isso é bonito!
Viajantes do mundo inteiro vinham admirar a cidade e o palácio, mas quando ouviam o rouxinol todos diziam a mesma frase:
— Isto é que é o melhor de tudo!
Em casa eles contavam tudo, e os sábios escreveram livros em que o rouxinol ficava sempre em primeiro lugar. Um desses livros chegou às mãos do imperador, que leu na sua cadeira de ouro: “O rouxinol é o melhor de tudo.”
— Como assim? — disse ele. — Eu nem conheço esse rouxinol! Existe um pássaro desses no meu jardim e eu vou saber disso por um livro?
Mandou chamar o seu fidalgo, um homem tão importante que, quando alguém de posição mais baixa lhe falava, respondia apenas “P!”, o que não quer dizer nada.
— Dizem que existe no meu império um pássaro chamado rouxinol, a melhor coisa de todas — disse o imperador. — Por que nunca me contaram?
— Nunca ouvi esse nome — disse o fidalgo. — Ele nunca foi apresentado na corte.
— Pois quero que ele cante para mim hoje à noite — disse o imperador. — O mundo inteiro sabe o que eu tenho, e eu não sei!
— Nunca ouvi esse nome — repetiu o fidalgo. — Mas vou procurar, e vou encontrar!
O fidalgo subiu e desceu todas as escadas sem achar ninguém que tivesse ouvido falar do rouxinol, e voltou dizendo que aquilo devia ser invenção de quem escreve livros.
— O livro me foi mandado pelo imperador do Japão — respondeu o imperador —, e não pode ser mentira. Quero ouvir o rouxinol hoje à noite! Se ele não vier, a corte inteira vai ser pisoteada depois da ceia!
— Tsing-pé! — disse o fidalgo, e lá foi ele subir e descer escadas outra vez, com metade da corte atrás, porque ninguém queria ser pisoteado. Perguntaram por aquele rouxinol que o mundo inteiro conhecia e ninguém no palácio, até que na cozinha encontraram uma menina pobre.
— Ah, o rouxinol eu conheço bem! — disse ela. — E como ele canta! Toda noite me deixam levar as sobras da mesa para a minha mãe, que está doente. Na volta, quando paro para descansar na floresta, escuto o rouxinol, e os meus olhos se enchem de lágrimas: é como se a minha mãe me desse um beijo.
— Minha cozinheirinha — disse o fidalgo —, você ganha um lugar fixo na cozinha se nos levar até ele hoje à noite.
E foram todos para a floresta, com metade da corte junto. No meio do caminho, uma vaca começou a mugir.
— Oh! — disseram os cortesãos. — Achamos! Que força espantosa num bichinho tão pequeno!
— Não, são as vacas mugindo — disse a menina. — Ainda estamos longe.
Depois as rãs começaram a coaxar no brejo.
— Que maravilha! — disse o capelão da corte. — Parece um sininho de igreja!
— Não, são as rãs — disse a menina. — Mas acho que logo vamos ouvi-lo.
E então o rouxinol começou a cantar.
— É ele! — disse a menina, apontando para um passarinho cinzento no alto dos galhos. — Escutem! Está ali!

— Rouxinolzinho! — chamou a menina bem alto. — O nosso gracioso imperador quer que você cante para ele!
— Com o maior prazer — disse o rouxinol, e cantou de dar gosto.
— Venha cantar na festa desta noite no palácio — disse o fidalgo.
— O meu canto fica melhor no meio do verde — disse o rouxinol.
Mas veio de bom grado assim que soube que era desejo do imperador.
No palácio, tudo brilhava à luz de milhares de lâmpadas de ouro, e os sininhos das flores tocavam sem parar. No meio do grande salão puseram um poleiro de ouro para o rouxinol, e a menina da cozinha ganhou licença para ficar atrás da porta, porque agora tinha o título de cozinheira imperial de verdade.
O rouxinol cantou tão lindamente que os olhos do imperador se encheram de lágrimas. Então cantou ainda mais bonito, e aquilo foi direto ao coração. Feliz da vida, o imperador quis lhe dar o seu chinelo de ouro para usar no pescoço, mas o rouxinol recusou.

— Eu vi lágrimas nos olhos do imperador, e para mim esse é o tesouro mais rico. As lágrimas de um imperador têm uma força especial. Estou bem recompensado.
A corte inteira ficou encantada. Agora o rouxinol ia morar no palácio, com gaiola só sua e doze criados que o seguravam por fitas de seda quando saía para passear. Passeio assim não tinha a menor graça.
Um dia chegou um pacote com uma palavra escrita em cima: “Rouxinol”. Não era livro. Era um rouxinol artificial, coberto de diamantes, rubis e safiras, que cantava uma das músicas do pássaro de verdade quando lhe davam corda. No pescoço trazia uma fitinha: “O rouxinol do imperador do Japão é pobre perto do rouxinol do imperador da China.”

— Que maravilha! — disseram todos. — Agora os dois têm que cantar juntos!
Mas o dueto não deu certo: o rouxinol de verdade cantava do seu jeito e o outro funcionava com cilindros.
— A culpa não é dele — disse o mestre de música. — Esse aí é firme no compasso.
Então o pássaro artificial cantou sozinho, e fez tanto sucesso quanto o verdadeiro. Trinta e três vezes cantou a mesma música, sem se cansar. Quando o imperador quis ouvir o rouxinol vivo, ele não estava mais lá: tinha voado pela janela, de volta para as suas florestas verdes.

— Que bicho ingrato! — reclamou a corte. — O melhor pássaro nós temos aqui!
E o pássaro artificial cantou pela trigésima quarta vez a mesma música. O mestre de música garantiu que ele era melhor do que o rouxinol vivo.
— Com um rouxinol de verdade nunca se sabe o que vem em seguida — explicou ele. — Com este, está tudo decidido de antemão.
Quando o pássaro artificial cantou para o povo, todos ficaram contentes. Só os pescadores pobres, que conheciam o rouxinol de verdade, diziam:
— Soa bonito, e a melodia até é parecida. Mas falta alguma coisa, não sei o quê.
O rouxinol de verdade foi banido do país, e o pássaro artificial ganhou uma almofada de seda ao lado da cama do imperador.
Assim se passou um ano. O imperador e a corte sabiam de cor cada trinado daquele canto, e era por isso mesmo que gostavam ainda mais dele: podiam cantar junto. Até os meninos de rua cantavam “zizizi! glu-glu-glu!”.
Mas uma noite, quando o pássaro cantava e o imperador escutava deitado, ouviu-se dentro do pássaro um “tec”. Alguma coisa saltou, as rodinhas giraram de uma vez, e a música parou.

Chamaram o médico, e depois o relojoeiro, que deixou o pássaro mais ou menos em ordem e avisou que era preciso poupá-lo. Dali em diante ele só podia cantar uma vez por ano. Mas o mestre de música fez um discurso cheio de palavras importantes, dizendo que estava tudo tão bom quanto antes; e então ficou tudo tão bom quanto antes.
Passaram-se cinco anos, e o país inteiro ficou triste: o imperador estava doente e não ia viver muito mais. Já tinham escolhido um imperador novo, e o povo esperava na rua e perguntava ao fidalgo como ia o velho.
— P! — dizia ele, balançando a cabeça.
Frio e pálido, o imperador estava deitado na sua cama magnífica, e a corte inteira o julgava morto. Nos salões tinham estendido panos no chão para não se ouvir passo nenhum. Mas ele ainda não estava morto: entre as cortinas de veludo, mal conseguia respirar, e a lua entrava pela janela aberta lá no alto.
Era como se alguma coisa estivesse sentada no peito dele. Ele abriu os olhos e viu que era a Morte, com a coroa de ouro do imperador na cabeça, o sabre dele numa das mãos e o estandarte dele na outra. Das dobras das cortinas espiavam rostos estranhos, uns feios, outros doces: eram as ações boas e más do imperador.

— Você se lembra disto? — sussurrava um.
— E disto, você se lembra? — sussurrava outro.
E contaram tanta coisa que o suor escorreu pela testa dele.
— Eu não sabia! — disse o imperador. — Música! Música! Tragam o grande tambor chinês, para eu não precisar ouvir o que estão dizendo!
Mas as vozes continuavam, e a Morte fazia que sim com a cabeça a tudo o que diziam.
— Música, música! — gritou o imperador. — Meu passarinho de ouro, cante! Eu lhe dei ouro e joias, eu mesmo pendurei no seu pescoço o meu chinelo de ouro. Cante!
Mas o pássaro continuou parado: não havia ninguém para lhe dar corda. A Morte olhava o imperador com os seus olhos grandes e vazios, e o silêncio era terrível.
Nisso veio da janela o canto mais lindo do mundo: era o pequeno rouxinol vivo, pousado num galho lá fora. Tinha ficado sabendo da aflição do seu imperador e vinha cantar consolo e esperança. Enquanto cantava, os rostos foram ficando mais pálidos, o sangue correu mais depressa nos membros fracos do imperador, e até a Morte escutou e disse:
— Continue, rouxinolzinho! Continue!
— Você me dá o belo sabre de ouro? — perguntou o rouxinol. — Você me dá o rico estandarte? Você me dá a coroa do imperador?
E a Morte deu cada uma dessas joias por uma canção. O rouxinol cantou o cemitério silencioso, onde crescem as rosas brancas e onde a grama é molhada pelas lágrimas de quem ficou. Então a Morte sentiu saudade do seu jardim e saiu pela janela como uma névoa branca e fria.
— Obrigado! — disse o imperador. — Eu bem sei quem você é! Eu expulsei você do meu império, e mesmo assim você tirou a Morte do meu coração. Como posso recompensar você?
— Você já me recompensou — disse o rouxinol. — Arranquei lágrimas dos seus olhos na primeira vez em que cantei, e isso eu nunca esqueço. Mas agora durma, e acorde forte e são. Eu vou cantar para você.
E cantou, e o imperador caiu num sono doce. Ah, como foi bom e suave aquele sono!
O sol entrava pelas janelas quando ele acordou, curado e cheio de força. Nenhum criado tinha voltado, porque todos o julgavam morto; só o rouxinol continuava ali, cantando.

— Você tem que ficar comigo para sempre! — disse o imperador. — Vai cantar só quando quiser, e o pássaro artificial eu quebro em mil pedaços.
— Não faça isso — disse o rouxinol. — Ele fez o bem enquanto pôde. Guarde-o. Eu não posso morar no palácio, mas deixe que eu venha quando tiver vontade. À noite eu pouso naquele galho junto da janela e canto para você, para que fique alegre e pensativo. Vou cantar sobre os que são felizes e os que sofrem, sobre o bem e o mal escondidos ao seu redor. Um passarinho voa longe, até o pescador pobre e até o telhado do lavrador. Eu amo o seu coração mais do que a sua coroa. Mas precisa me prometer uma coisa.
— Tudo! — disse o imperador, de pé, com o manto imperial que ele mesmo tinha vestido.
— Só isto eu peço: não conte a ninguém que você tem um passarinho que lhe conta tudo. Assim vai ser melhor ainda.
E o rouxinol voou dali.
Os criados entraram para ver o seu imperador morto. Lá ficaram parados, e o imperador disse:
— Bom dia!
Recontado pela Talerie, Fonte: Sämmtliche Märchen (abre em uma nova janela)
Licença: Domínio públicoCopie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório.CC0 1.0 (abre em uma nova janela)

