
O Príncipe Feliz
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Uma estátua dourada chamada Príncipe Feliz vive no alto de uma coluna vendo a miséria da cidade e pede a uma andorinha que leve suas joias e depois seu próprio ouro aos pobres, até ficar sem nada, enquanto a ave, por amor, fica ao seu lado e morre de frio no inverno. No fim, Deus reconhece o coração de chumbo partido e o passarinho morto como as duas coisas mais preciosas da cidade e lhes dá um lugar eterno em seu reino.
Bem no alto da cidade, sobre uma coluna esbelta, erguia-se a estátua do Príncipe Feliz. Ele era coberto da cabeça aos pés por finas folhas de ouro puro, tinha duas safiras brilhantes no lugar dos olhos e um rubi vermelho cintilando no cabo da espada. Todo mundo na cidade o admirava. Quando um menino chorava por algo que não podia ter, a mãe dizia:
— Por que você não pode ser como o Príncipe Feliz? Ele nunca chora por nada.
Uma noite, uma andorinha voava sobre os telhados a caminho do Egito, para onde todas as suas amigas já tinham partido. Ela tinha ficado para trás porque se apaixonara por um belo Junco que crescia à beira do rio. O namoro dos dois durou o verão inteiro, mas quando o outono chegou, ela percebeu que já estava cansada dele, pois o Junco não sabia conversar e não queria deixar sua casa para viajar ao seu lado. Então ela se despediu e partiu sozinha rumo ao sul quente. A noite a alcançou sobre a cidade, e, procurando abrigo, ela avistou a estátua dourada e pousou entre seus pés, pensando que ali dormiria bem, num poleiro alto e arejado.
Mal tinha escondido a cabeça sob a asa quando uma gota de água caiu sobre ela, e depois outra. Ela olhou para cima, surpresa, pois o céu estava limpo, e viu que os olhos do Príncipe estavam cheios de lágrimas escorrendo por suas faces douradas.
— Quem é você? — perguntou a andorinha.
— Sou o Príncipe Feliz.
— Então por que você está chorando? Já me deixou toda encharcada.
O Príncipe contou que, quando estava vivo, em seu palácio onde a tristeza nunca podia entrar, ele brincava e dançava o dia inteiro atrás de muros altos, e nunca se perguntava o que havia além deles. Chamavam-no de feliz, e feliz ele tinha sido, se prazer for a mesma coisa que felicidade.
— Assim vivi, e assim morri — disse ele. — E agora que estou morto, colocaram-me tão alto que posso ver toda a feiura e toda a miséria da minha cidade, e, embora meu coração seja de chumbo, não consigo deixar de chorar.
Depois o Príncipe falou de uma casa pobre que podia ver numa ruazinha estreita, onde uma costureira estava sentada bordando flores num vestido, o rosto magro e os dedos feridos pela agulha. Seu filhinho estava doente, ardendo em febre, num canto do quarto, chorando por laranjas, e ela não tinha nada para lhe dar além de água do rio.
— Andorinha, andorinha, andorinhinha — disse o Príncipe —, você levaria a ela o rubi do cabo da minha espada? Meus pés estão presos a este pedestal, e eu não posso ir sozinho.
— Estão me esperando no Egito — disse a andorinha. Mas o Príncipe parecia tão triste que ela concordou em ficar só mais uma noite e ser sua mensageira.
Ela soltou o rubi com o bico e voou com ele pela cidade, passando sobre o palácio, onde uma moça se afligia por causa do vestido que usaria no baile, até chegar à casa pobre, onde pousou a joia sobre a mesa da mulher e abanou a testa do menino com as asas até a febre baixar, e o menino caiu num sono tranquilo. Voando de volta, a andorinha contou ao Príncipe:
— É estranho, agora sinto um calor gostoso, mesmo com a noite tão fria.
— Isso é porque você fez uma boa ação — disse o Príncipe.
Na noite seguinte, a andorinha veio se despedir de verdade, mas o Príncipe pediu que ela ficasse mais uma noite. Do outro lado da cidade, num sótão gelado, um jovem escritor de teatro se debruçava sobre seus papéis, faminto e enregelado demais para terminar a peça que estava escrevendo.
— Andorinha, andorinha, andorinhinha, leve a ele uma das minhas safiras.
A andorinha chorou só de pensar nisso, mas obedeceu, e deixou a joia brilhando entre as violetas murchas sobre a escrivaninha do escritor.
— Estou começando a ser reconhecido! — exclamou o rapaz, cheio de alegria, sem nunca imaginar de onde tinha vindo o presente.
Na terceira noite, o Príncipe pediu mais uma vez. Na praça lá embaixo estava uma menininha vendedora de fósforos, que tinha deixado cair sua caixa na sarjeta e estragado todos os palitos; se voltasse para casa sem dinheiro, o pai bateria nela.
— Andorinha, andorinha, andorinhinha — disse o Príncipe —, arranque meu outro olho e dê a ela.
— Assim você vai ficar cego — disse a andorinha. Mas fez o que ele pedira e colocou a joia na mão da menina. Ela riu, achando bonita aquela pedrinha de vidro, e saiu correndo, feliz. Quando a andorinha voltou, disse:
— Você não pode mais enxergar, então agora vou ficar com você para sempre.
E por mais que o Príncipe implorasse que ela voasse até o Egito quente, ela não quis partir.
Ela pousou no ombro do Príncipe e contou histórias das terras distantes que já tinha visto, de templos dourados e pássaros coloridos, mas o Príncipe disse que nada era mais admirável do que o sofrimento das pessoas comuns, e pediu que ela sobrevoasse a cidade mais uma vez e lhe contasse o que encontrasse. Então a andorinha voou sobre as ruas e viu os ricos banqueteando enquanto os mendigos sentavam-se a seus portões, e crianças pálidas e famintas espiando sem ânimo pelas portas escuras, e dois meninos abraçados debaixo de uma ponte para se aquecer. Ela voltou e contou tudo ao Príncipe.
— Estou coberto de ouro fino — disse o Príncipe. — Arranque-o, folha por folha, e leve aos meus pobres.
Então a andorinha foi arrancando o ouro, uma folha de cada vez, até que o Príncipe ficou todo cinzento e opaco, e levou o ouro aos pobres da cidade, e os rostos magros deles voltaram a ficar rosados, e as crianças riam e brincavam nas ruas.
— Agora temos pão — diziam.
Depois veio a neve, e depois da neve veio a geada, e as ruas ficaram brancas e reluzentes. A andorinha sentia mais frio a cada dia, mas amava demais o Príncipe para deixá-lo. Comia as migalhas que encontrava e batia as asas para se aquecer, mas por fim percebeu que não tinha mais forças para voar. Reuniu o que lhe restava e subiu uma última vez até o ombro do Príncipe.
— Adeus, querido Príncipe — sussurrou. — Você me deixa beijar sua mão?
— Fico feliz que você vá enfim para o Egito, andorinhinha — disse o Príncipe. — Você ficou tempo demais aqui. Mas precisa me beijar nos lábios, porque eu amo você.
— Não é para o Egito que estou indo — disse a andorinha, baixinho. — Estou indo para a Casa da Morte.
E ela beijou o Príncipe Feliz nos lábios, e caiu morta a seus pés. No mesmo instante, algo se partiu dentro da estátua, como se algo de grande valor tivesse se quebrado. Era o coração de chumbo, rachado em dois, bem ao meio.
Na manhã seguinte, o prefeito passou embaixo da coluna com seus vereadores.
— Nossa, como o Príncipe Feliz ficou maltrapilho — disse ele. — O rubi caiu da espada, os olhos sumiram, e ele nem dourado é mais. Está quase como um mendigo agora, e olhem, há um passarinho morto a seus pés.
Então a estátua foi derrubada e derretida numa fornalha. Mas o coração de chumbo partido não queria derreter, por mais forte que fosse o fogo, e os operários o jogaram num monte de lixo, onde a andorinha morta já estava deitada.
— Traga-me as duas coisas mais preciosas da cidade — disse Deus a um de seus anjos, e o anjo lhe trouxe o coração de chumbo e o passarinho morto.
— Você escolheu bem — disse Deus —, pois no meu jardim do Paraíso esta pequena ave cantará para sempre, e na minha cidade de ouro o Príncipe Feliz há de me louvar.
Recontado pela Talerie
Fonte: The Happy Prince and Other Tales, by Oscar Wilde (Project Gutenberg #30120)
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