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A estátua dourada de um jovem príncipe se ergue ao anoitecer sobre uma coluna alta, com uma andorinha pousada em seu ombro.

O Príncipe Feliz

Oscar Wilde

14 min de leituraa partir dos 6 anos

A estátua do Príncipe Feliz vê a miséria da cidade e pede a uma andorinha que leve o rubi da espada, as safiras dos olhos e todo o seu ouro a quem passa fome. A andorinha fica com ele até cair sem vida aos pés dele e, depois que a estátua é derrubada e derretida, um anjo leva a Deus o coração de chumbo e o passarinho.


Bem no alto da cidade, sobre uma coluna altíssima, ficava a estátua do Príncipe Feliz. Ele era todo coberto de folhas finas de ouro, tinha duas safiras brilhantes no lugar dos olhos, e um grande rubi vermelho reluzia no punho da sua espada.

A cidade inteira o admirava.

— Ele é tão bonito quanto um cata-vento — disse um dos vereadores, que queria fama de entender de arte. — Só que não é tão útil.

— Por que você não é como o Príncipe Feliz? — perguntou uma mãe sensata ao filho pequeno, que chorava querendo a lua. — O Príncipe Feliz nunca chora por nada.

— Ele parece um anjo — disseram as crianças do orfanato, saindo da catedral com suas capas vermelhas e seus aventais brancos.

Certa noite, uma pequena Andorinha voou por cima da cidade. Suas amigas tinham partido para o Egito seis semanas antes, mas ela tinha ficado para trás, apaixonada pelo mais belo dos Juncos.

Tinha conhecido o Junco no começo da primavera, quando descia o rio atrás de uma mariposa amarela. Achou a cintura dele tão fina e elegante que parou para conversar.

— Quer que eu ame você? — perguntou a Andorinha, que gostava de ir logo ao assunto.

O Junco fez uma reverência bem baixinha. Então ela voou em volta dele muitas e muitas vezes, roçando a água com as asas e deixando ondinhas de prata. Foi assim o namoro dos dois, e durou o verão inteiro.

Uma andorinha de asas abertas roça a água de um rio de verão com a ponta da asa e deixa anéis prateados; um junco alto se curva sobre a margem verde.

Quando chegou o outono, as amigas foram embora, e a Andorinha ficou sozinha e começou a se cansar do seu amor.

— Ele não puxa conversa — dizia ela. — Reconheço que ele gosta de casa, mas eu adoro viajar, e quem se casar comigo tem que gostar de viajar também.

— Você vem comigo? — perguntou ela por fim.

O Junco balançou a cabeça, dizendo que não. Era apegado demais ao lugar onde tinha nascido.

— Então você só estava brincando comigo — disse a Andorinha. — Vou para as Pirâmides. Adeus!

E foi embora.

Voou o dia inteiro e chegou à cidade quando anoiteceu.

— Onde será que eu durmo? — disse ela.

Foi então que viu a estátua sobre a coluna alta.

— Vou ficar ali — decidiu. — É um ótimo lugar, com bastante ar puro.

E pousou bem entre os pés do Príncipe Feliz.

— Que quarto dourado o meu — disse baixinho, olhando em volta.

Já ia esconder a cabeça debaixo da asa quando uma gota grande de água caiu em cima dela.

— Que coisa esquisita! — exclamou. — Não tem uma nuvem sequer no céu, as estrelas estão bem nítidas e brilhantes, e mesmo assim está chovendo.

Então caiu outra gota.

— De que serve uma estátua que não protege ninguém da chuva? — resmungou. — Preciso procurar uma boa chaminé.

E resolveu ir embora. Mas, antes que abrisse as asas, caiu uma terceira gota. A Andorinha olhou para cima. E o que foi que ela viu?

Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheios de lágrimas, e as lágrimas escorriam pelo rosto dourado dele. Seu rosto era tão bonito ao luar que a Andorinha ficou com pena.

Sob as estrelas, a estátua dourada curva a cabeça, com olhos de safira e lágrimas claras no rosto; entre os pés dela, no pedestal, a andorinha olha para cima.

— Quem é você? — perguntou.

— Sou o Príncipe Feliz.

— Então por que você está chorando? — perguntou a Andorinha. — Você me deixou toda encharcada.

— Quando eu era vivo e tinha um coração de gente, eu não sabia o que eram lágrimas — respondeu a estátua. — Morava no Palácio Sans-Souci, onde a tristeza não tinha permissão de entrar. De dia eu brincava com meus companheiros no jardim; de noite, abria o baile no grande salão.

A Andorinha escutava, quietinha, entre os pés dourados.

— Em volta do jardim havia um muro muito alto, mas eu nunca quis saber o que existia do outro lado. Tudo ao meu redor era bonito demais. Meus cortesãos me chamavam de Príncipe Feliz, e feliz eu era mesmo, se a felicidade for só prazer. Assim eu vivi, e assim eu morri.

Ele ficou um instante em silêncio.

— Agora que estou morto, me puseram aqui tão no alto que enxergo toda a feiura e toda a tristeza da minha cidade. E, mesmo com um coração de chumbo, não consigo parar de chorar.

“Ora, então ele não é de ouro maciço?”, pensou a Andorinha. Mas era educada demais para dizer aquilo em voz alta.

— Lá longe — continuou a estátua, com uma voz baixa e musical —, lá longe, numa ruazinha, existe uma casa pobre. Por uma janela aberta eu vejo uma mulher sentada à mesa. O rosto dela é magro e cansado, e as mãos são ásperas e vermelhas, todas picadas de agulha, porque ela é costureira. Está bordando flores de maracujá num vestido de cetim para uma dama da rainha usar no próximo baile do palácio.

O Príncipe esperou um pouco, como se doesse dizer o resto.

— No canto do quarto, deitado numa cama, o filho pequeno dela está doente. Tem febre e pede laranjas. A mãe não tem nada para dar a ele além de água do rio, e por isso ele chora. Andorinha, Andorinha, Andorinha pequenina, você não quer levar para ela o rubi do punho da minha espada? Meus pés estão presos neste pedestal e eu não posso me mexer.

— Estão me esperando no Egito — disse a Andorinha. — Minhas amigas estão voando Nilo acima e Nilo abaixo.

— Andorinha, Andorinha, Andorinha pequenina — disse o Príncipe —, você não quer ficar comigo uma noite e ser minha mensageira? O menino está com tanta sede, e a mãe dele está tão triste.

A Andorinha hesitou, mas o Príncipe Feliz parecia tão triste que ela ficou com dó.

— Está muito frio aqui — disse ela. — Mas eu fico com você esta noite e serei sua mensageira.

— Obrigado, Andorinha pequenina — disse o Príncipe.

Então ela tirou o grande rubi da espada e voou com ele no bico por cima dos telhados da cidade.

Passou pelo palácio e ouviu música de baile. Uma moça bonita saiu para a sacada com o namorado.

— Como as estrelas são maravilhosas — disse ele —, e como é maravilhoso o poder do amor.

— Espero que o meu vestido fique pronto a tempo do próximo baile — respondeu ela. — Mandei bordar flores de maracujá nele, mas as costureiras são tão preguiçosas.

A Andorinha passou por cima do rio e enfim chegou à casa pobre.

O menino se revirava na cama, com febre, e a mãe tinha adormecido de tão cansada. A Andorinha entrou saltitando e deixou o grande rubi sobre a mesa, ao lado do dedal da mulher. Depois voou devagarinho em volta da cama, abanando a testa do menino com as asas.

Na mesa de uma casa pobre, a andorinha pousa um grande rubi vermelho ao lado de um dedal; a costureira dorme com a cabeça nos braços, o filho na cama.

— Que fresquinho bom — disse o menino. — Acho que estou melhorando.

E caiu num sono gostoso.

Depois a Andorinha voltou para o Príncipe Feliz e contou o que tinha feito.

— É engraçado — comentou ela —, mas estou me sentindo bem quentinha, mesmo com todo esse frio.

— Isso é porque você fez uma boa ação — disse o Príncipe.

A Andorinha começou a pensar naquilo e logo pegou no sono. Pensar sempre lhe dava sono.

De manhã, desceu até o rio para tomar banho e passou o dia voando pela cidade.

Quando a lua subiu, voltou para o Príncipe Feliz.

— Você tem algum recado para o Egito? — perguntou. — Estou de partida.

— Andorinha, Andorinha, Andorinha pequenina — disse o Príncipe —, você não quer ficar comigo mais uma noite?

— Estão me esperando no Egito — respondeu ela. — Amanhã minhas amigas sobem até a Segunda Catarata, onde o deus Mêmnon olha as estrelas a noite inteira.

— Andorinha, Andorinha, Andorinha pequenina — disse o Príncipe —, do outro lado da cidade eu vejo um rapaz num sótão. Ele está debruçado sobre uma escrivaninha coberta de papéis, e num copo, ao lado dele, há um punhado de violetas murchas. Está tentando terminar uma peça para o diretor do teatro, mas o frio não deixa que ele escreva mais. Não há fogo na lareira, e a fome o deixou fraco.

— Eu fico com você mais uma noite — disse a Andorinha, que tinha mesmo um bom coração. — Levo outro rubi para ele?

— Ai de mim, não tenho mais rubi nenhum — disse o Príncipe. — Só me restam os olhos, que são de safira. Tire um deles e leve para o rapaz. Ele vai vender a safira ao joalheiro, comprar comida e lenha, e terminar a peça.

— Querido Príncipe — disse a Andorinha —, eu não consigo fazer isso.

E começou a chorar.

— Andorinha, Andorinha, Andorinha pequenina — disse o Príncipe —, faça o que eu mando.

Então ela tirou um dos olhos do Príncipe e voou até o sótão do rapaz.

O rapaz estava com o rosto escondido nas mãos e não ouviu o bater das asas. Quando ergueu a cabeça, encontrou a linda safira em cima das violetas murchas.

Num sótão frio, um rapaz magro ergue os olhos das folhas escritas onde brilha uma safira azul, enquanto a andorinha levanta voo da mesa de madeira.

— Estou começando a ser reconhecido! — exclamou. — Isso é de algum grande admirador. Agora posso terminar minha peça.

No dia seguinte, a Andorinha desceu até o porto, onde os marinheiros carregavam um navio grande.

— Eu vou para o Egito! — anunciou ela, mas ninguém deu atenção.

Quando a lua subiu, voltou para o Príncipe Feliz.

— Vim me despedir — disse.

— Andorinha, Andorinha, Andorinha pequenina — disse o Príncipe —, você não quer ficar comigo mais uma noite?

— É inverno — respondeu a Andorinha —, e logo vai chegar a neve gelada. No Egito o sol esquenta as palmeiras verdes, e minhas companheiras já estão fazendo ninho. Querido Príncipe, eu preciso ir. Mas nunca vou esquecer você, e na próxima primavera trago duas joias lindas no lugar das que você deu. O rubi será mais vermelho do que uma rosa, e a safira será azul como o mar.

— Na praça, lá embaixo — disse o Príncipe Feliz —, está uma menina que vende fósforos. Ela deixou os fósforos caírem na sarjeta e agora estão todos estragados. Se voltar para casa sem dinheiro, o pai vai castigá-la, e por isso ela está chorando. Não tem sapatos nem meias, e a cabecinha dela está descoberta. Tire o meu outro olho e dê a ela, e o pai não vai castigá-la.

— Eu fico com você mais uma noite — disse a Andorinha —, mas não posso tirar o seu outro olho. Você ficaria completamente cego.

— Andorinha, Andorinha, Andorinha pequenina — disse o Príncipe —, faça o que eu mando.

Então ela tirou o outro olho do Príncipe e desceu voando. Passou rente à menina dos fósforos e deixou a joia cair na palma da mão dela.

— Que pedacinho de vidro mais lindo! — disse a menina, e correu para casa rindo.

Depois a Andorinha voltou para o Príncipe.

— Agora você está cego — disse ela. — Então vou ficar com você para sempre.

A estátua dourada na sua coluna, ainda de coroa e capa, com dois buracos escuros no lugar dos olhos; a andorinha na pedra, ao luar, acima da cidade.

— Não, Andorinha pequenina — disse o pobre Príncipe. — Você precisa ir para o Egito.

— Eu fico com você para sempre — respondeu ela.

E dormiu aos pés dele.

No dia seguinte, ficou o tempo todo no ombro do Príncipe, contando histórias das terras que tinha visto: das íbis vermelhas que pescam peixinhos dourados nas margens do Nilo, da Esfinge que mora no deserto e sabe todas as coisas.

— Querida Andorinha pequenina — disse o Príncipe —, você me conta coisas maravilhosas. Mas mais maravilhoso do que tudo é o sofrimento das pessoas. Não existe mistério maior do que a miséria. Voe sobre a minha cidade e me conte o que você vir.

Então a Andorinha voou sobre a cidade grande. Viu os ricos se divertindo em suas casas bonitas, enquanto os mendigos ficavam sentados nos portões. Entrou por becos escuros e viu os rostos pálidos de crianças famintas olhando as ruas sem cor.

Debaixo do arco de uma ponte, dois meninos estavam abraçados, tentando se aquecer.

— Estamos com tanta fome — diziam eles.

— Não podem ficar deitados aqui — gritou o guarda.

E os dois saíram andando na chuva.

Depois a Andorinha voltou e contou ao Príncipe o que tinha visto.

— Eu sou coberto de ouro fino — disse ele. — Você precisa tirar esse ouro, folha por folha, e dar aos meus pobres. Os vivos sempre acham que o ouro pode deixá-los felizes.

Folha por folha a Andorinha tirou o ouro fino, até o Príncipe Feliz ficar todo cinzento e sem brilho. Folha por folha ela levou o ouro aos pobres, e o rosto das crianças foi ficando mais corado. Elas riam e brincavam na rua.

Numa rua de lampiões acesos, a andorinha em voo entrega uma fina folha de ouro às mãos de duas crianças maltrapilhas; outras folhas nas pedras.

— Agora temos pão! — gritavam.

Depois veio a neve, e depois da neve veio a geada. As ruas pareciam de prata, de tão claras e brilhantes.

A pobre Andorinha foi sentindo cada vez mais frio, mas não quis deixar o Príncipe, porque gostava demais dele. Catava migalhas na porta da padaria e batia as asas para se esquentar.

Mas afinal percebeu que ia morrer. Teve forças só para subir mais uma vez até o ombro do Príncipe.

— Adeus, querido Príncipe — sussurrou. — Você me deixa beijar a sua mão?

— Fico contente que você enfim vá para o Egito, Andorinha pequenina — disse o Príncipe. — Você ficou tempo demais aqui. Mas me beije nos lábios, porque eu amo você.

— Não é para o Egito que eu vou — disse a Andorinha. — Vou para a Casa da Morte. A Morte é irmã do Sono, não é mesmo?

E beijou o Príncipe Feliz nos lábios, e caiu sem vida aos pés dele.

Nesse instante ouviu-se um estalo estranho dentro da estátua, como se alguma coisa tivesse se partido. Era o coração de chumbo, que tinha se quebrado ao meio.

A estátua, agora cinzenta e sem ouro, no alto da coluna sobre a cidade nevada ao amanhecer; aos pés dela, a andorinha caída na neve entre restos de ouro.

Bem cedo na manhã seguinte, o prefeito passeava pela praça em companhia dos vereadores. Ao passar pela coluna, olhou para cima.

— Meu Deus, como o Príncipe Feliz está maltrapilho! — disse ele.

— Maltrapilho mesmo! — repetiram os vereadores, que sempre concordavam com o prefeito.

— O rubi caiu da espada, os olhos sumiram e ele não é mais dourado — continuou o prefeito. — Na verdade, está pouco melhor que um mendigo. E ainda tem um passarinho morto aos pés dele! Precisamos publicar um decreto proibindo que os pássaros morram aqui.

O escrivão da câmara anotou a sugestão, e assim derrubaram a estátua do Príncipe Feliz.

— Como ele não é mais bonito, também não é mais útil — declarou o professor de Arte da universidade.

Depois derreteram a estátua num forno, e o prefeito reuniu a câmara para decidir o que fazer com o metal.

— Precisamos de outra estátua, é claro — disse ele. — E será uma estátua minha.

— Minha — disse cada um dos vereadores, e começaram a discutir. Da última vez que tive notícias deles, ainda estavam discutindo.

— Que coisa estranha — disse o mestre da fundição. — Este coração de chumbo quebrado não derrete de jeito nenhum. Vamos ter que jogar fora.

Então jogaram o coração num monte de lixo, onde a Andorinha também estava caída.

— Traga-me as duas coisas mais preciosas da cidade — disse Deus a um dos seus anjos.

E o anjo levou a Deus o coração de chumbo e o passarinho.

— Você escolheu certo — disse Deus. — No meu jardim do Paraíso este passarinho vai cantar para sempre, e na minha cidade de ouro o Príncipe Feliz vai louvar o meu nome.

Recontado pela Talerie, Fonte: The Happy Prince and Other Tales (abre em uma nova janela)

Licença: Domínio público