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Raposa ruiva saltando com as patas dianteiras esticadas para um cacho de uvas roxo-escuras pendurado numa treliça de madeira, acima de um muro de pedra.

A raposa e as uvas

Esopo

1 min de leituraa partir dos 3 anos

Numa tarde quente, uma raposa faminta avista cachos de uva brilhantes no alto de uma parreira e salta três vezes seguidas sem conseguir alcançá-los. Afastando-se sem pressa, diz que pensava que as uvas estivessem maduras, mas que agora as vê verdes e azedas.


Numa tarde quente, uma raposa faminta passou por uma parreira e viu, lá no alto, uns cachos de uva bonitos e brilhantes.

Deu um pulo, mas as uvas ficaram longe demais. Recuou alguns passos, tomou impulso e saltou de novo, bem mais alto. Nada. Tentou ainda uma terceira vez, com toda a força que tinha, e os cachos continuaram fora do seu alcance.

A raposa parou, ajeitou o pelo e deu meia-volta, como se nada daquilo tivesse a menor importância.

A raposa se afasta pelo caminho de terra, de cabeça erguida e ar tranquilo, deixando para trás um cacho de uvas intocado na parreira ao entardecer.

— Pensei que aquelas uvas estivessem maduras — disse ela, afastando-se sem pressa. — Agora vejo que estão verdes e azedas.

Recontado pela Talerie, fonte: Aesop’s Fables: a new translation (abre em uma nova janela)Licença: Domínio público

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Sobre esta fábula

A raposa e as uvas é uma das fábulas que levam o nome de Esopo. No grego, na edição de Émile Chambry, uma raposa faminta vê cachos de uva pendurados, quer pegá-los e não consegue. Ao se afastar, diz para si: “C’est du verjus”, na tradução de Chambry. Fedro contou a fábula em versos latinos, e na versão dele a raposa salta.

Nosso texto vem das fábulas de Esopo traduzidas para o inglês por V. S. Vernon Jones; é a primeira do livro. Ali a raposa pula o mais alto que pode, vai embora com ar digno e diz que as uvas, que julgava maduras, estão azedas. Vernon Jones não traz moral. Recontamos a história em quatro parágrafos e escrevemos uma moral própria.

Vernon Jones e Monteiro Lobato lado a lado

Vernon Jones (1912)Monteiro Lobato (1921)
A raposafamintaesfaimada
As uvasnuma parreira presa a uma latada altacachos maduros numa parreira alta
A tentativapula o mais alto que podenem pulando alcança um bago
A atitudecom ar digno e indiferentetorce o focinho, com desprezo
O que dizpensava que estavam maduras; estão azedas“Estão verdes”; só cães as comeriam
Depoiso texto acaba nessa falacai uma folha e ela volta correndo
Moralnenhuma“Quem desdenha quer comprar”
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Agora vejo que estão verdes e azedas.
V. S. Vernon Jones, 1912: I thought those Grapes were ripe, but I see now they are quite sour.

O que acontece no nosso texto

A tarde quente é invenção nossa; Vernon Jones não diz quando a raposa passa pela parreira. Os três pulos, cada um mais forte que o anterior, também são nossos: Vernon Jones não conta quantas vezes a raposa pula. Depois a nossa raposa ajeita o pelo, dá meia-volta como se nada tivesse importância e, afastando-se sem pressa, diz que as uvas estão verdes e azedas. “Azedas” vem do inglês “quite sour”; “verdes” é a palavra que encontramos nos textos em português que lemos: nas fábulas de Lobato e numa edição em português das fábulas de Esopo impressa em Paris.

A nossa raposa não volta para buscar as uvas e ninguém a castiga; simplesmente vai embora, e não há nada aqui que possa assustar uma criança. A moral, “A gente costuma desprezar o que não consegue alcançar”, foi escrita por nós, já que Vernon Jones não tem nenhuma.

Parentes da fábula e uma confusão

Em Lobato, depois de dizer que as uvas estão verdes, a raposa ouve uma folha cair, pensa que é um bago e volta correndo para farejar. Numa edição posterior das fábulas dele a história ganha outras palavras (“Uvas verdes, só para cachorro”), e uma menina conta à “vóvó” que a filha do Elias Turco torceu o nariz para um vestido de chita cor-de-rosa e, uma semana depois, apareceu com um igual. No livro de fábulas de Esopo em português que saiu em Paris, a raposa tenta subir em vez de pular, diz “Estão as uvas em agraço”, e a moralidade aprova o que ela faz, acrescentando que isso “tem mais lugar nos casamentos”. La Fontaine também fica do lado da raposa: “Ils sont trop verts”, diz ela, e o poeta pergunta se isso não foi melhor do que se queixar.

O livro de Vernon Jones também nos deu outras fábulas com raposa: “O corvo e a raposa” e “A raposa e a cegonha”. São outras histórias, cada uma com a sua raposa.

Fontes

Textos de época

Catálogo

Conferido com estas fontes em 14 de outubro de 2026.

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