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À noite, sob um céu de tempestade cortado por raios, uma labareda dourada irrompe do topo de um serro escuro, entre cascatas e matos.

A Mãe do Ouro

João Simões Lopes Neto

2 min de leituraa partir dos 7 anos

Um povo de antigamente vira pedra por castigo do céu, e os nervos dessa gente viram veios de ouro guardados pela Mãe do Ouro. Quando um serro arrebenta com estrondo, é essa guardiã de mudança para outro serro: de dia só se sente o rumo que ela toma, e a nova morada ninguém fica sabendo.


As serras de pedra que hoje se veem por aí já foram gente viva. Era um povo de antigamente, e um dia caiu sobre ele um castigo do céu: tudo escureceu de repente, e cada um tombou e ficou ali mesmo, no lugar onde estava.

Onde havia alguém sozinho, ficou um serro. Onde as pessoas estavam amontoadas, umas apertadas contra as outras, ficou a serrania comprida, emendada como uma corda.

Os ossos daquela gente ainda estão lá, endurecidos, transformados em pedra pura. A carne que os cobria virou terra preta. Os cabelos são os matos, e esses matos bebem o sangue dos castigados, um sangue que nós tomamos por cascatinhas e olhos-d’água. E os buracos que você vê nas pedras são a boca e os olhos, o nariz e os ouvidos deles.

As veias viraram ferro. Os nervos, que são a parte mais delicada, viraram ouro: são os veios amarelos que descem fundo, por baixo da crosta da terra, do mesmo jeito que os nervos correm por dentro da nossa carne.

Um serro de pedra cinzenta coroado de matos, ao entardecer, com veios vermelhos de ferro e veios amarelos de ouro que se ramificam pela rocha como nervos.

Mas existe uma coisa que governa tudo isso, e ninguém sabe direito o que é. É a Alma, que não morreu, porque ficou de fora do castigo. Essa Alma é a Mãe do Ouro. É ela quem guarda os nervos dos castigados, os veios da fortuna, para que no Dia do Perdão cada um encontre o que é seu.

É por isso que, nas trovoadas, caem tantos raios sobre certos serros e tanta ventania bate neles: é a Mãe do Ouro pedindo socorro.

Numa trovoada, vários raios caem ao mesmo tempo sobre um serro sozinho; o vento verga as árvores, a chuva cai de lado e a água desce pela pedra.

Às vezes um desses serros arrebenta com um estrondo enorme. Se for de noite, dá para ver o fogo que sai lá de dentro: é a guardiã de mudança para outro serro.

Ao meio-dia, sob um sol branco que ofusca, o topo de um serro cinzento se abre numa rachadura e solta uma nuvem de poeira e pedras que voa para a direita.

Se for de dia, é sempre ao meio-dia em ponto. Com o sol ofuscando os olhos, só se sente o rumo que ela toma. Só o rumo. O lugar novo onde ela vai fazer morada, esse ninguém fica sabendo.

Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela)Licença: Domínio público