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Gaúcho de bigode e poncho remendado ergue o chapéu, montado no cavalo tostado, diante de um vulto pálido de batina na boca de uma furna com brilho vermelho.

A Salamanca do Jarau

João Simões Lopes Neto

15 min de leitura a partir dos 8 anos

Campeando um boi barroso pelas coxilhas, o gaúcho pobre Blau Nunes dá com um vulto de rosto muito branco. É o santão da salamanca do Cerro do Jarau, a furna encantada escondida dentro do morro, e ele quer saber se Blau conhece a entrada. Lá dentro, só passa quem tiver alma forte e coração sereno.


Era um dia… Um gaúcho pobre, Blau Nunes de nome, andava campeando um boi barroso. De seu, só tinha o cavalo tostado, o facão afiado e as estradas. Era posteiro, o peão que mora sozinho num rancho e cuida do gado de uma ponta da estância. Ia a passo, olhando o fundo das sangas e o alto das coxilhas, aquelas colinas mansas que não acabam mais, e cantava:

Meu bonito boi barroso, que eu já dava por perdido, deixou rastro na areia e foi logo conhecido. Montei no cavalo escuro, dei de espora sem demora, e gritei pra peonada que o meu boi ia embora!

Cantando, pensava na sua pobreza. Desde o dia em que tinha topado, cara a cara, com o Caipora, nada mais dava certo na vida dele.

Era a boquinha da noite, hora de mau agouro. Na volta de uma reboleira, uma moita fechada de mato, Blau sofreou o tostado. Ali na frente, quieto e manso, estava um vulto de rosto tristonho e muito branco.

Blau já tinha ouvido falar dele, sempre baixinho, como quem tem medo. Era o santão da salamanca do Cerro do Jarau, a furna encantada escondida dentro do morro.

Correu um arrepio pelo corpo do gaúcho, mas era tarde para voltar. E como era ele quem chegava, era ele quem devia louvar:

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

— Para sempre, amém! — respondeu o vulto. — O boi barroso vai subindo o cerro, vai subindo… Tu sabe, paisano, a entrada da salamanca?

— Sei, sei! Desde guri eu ouço a minha avó charrua falar dela.

— E o que é que a tua avó contava?

E Blau contou. Do outro lado do mar, na cidade de Salamanca, viviam os mouros, mestres da magia. Numa furna escura, longe do sol, que desmancha as bruxarias, eles guardavam o seu condão mágico, e quem o guardava no colo era uma princesa moura encantada, bonita como só ela.

Vencidos numa grande batalha, alguns mouros atravessaram o mar e vieram dar nestas terras atrás de ouro, trazendo escondida a princesa. Na primeira sexta-feira, à meia-noite, receberam a visita do diabo deles, que deste lado do mundo se chamava Anhangá-pitã. O diabo esfregou o condão no suor do próprio corpo e o fez virar pedra transparente. Depois soprou o seu bafo queimante sobre a princesa e a transformou numa teiniaguá, uma lagartixa verde e sem cabeça. No lugar da cabeça, encravou a pedra.

O sol vermelho vinha nascendo, e por isso a cabeça ficou vermelha como brasa e tão brilhante que olho de gente não aguentava olhar. Num ventarrão de tormenta, Anhangá-pitã levou a teiniaguá rio Uruguai acima e lhe ensinou o caminho de todos os tesouros enterrados, e ela ficou sendo a dona de todos eles. Depois o diabo caiu num sono pesado.

Só não se deu conta de que a teiniaguá era mulher.

Então o vulto falou, com voz macia:

— É certo: ele não se deu conta de que a teiniaguá era mulher. Escuta, paisano.

O vulto contou que, duzentos anos antes, tinha sido o sacristão da igreja de São Tomé, na Missão, do outro lado do rio Uruguai. Perto da Missão havia uma lagoa larga e funda.

Um dia, na hora do mormaço, todo o povo dormia a sesta. O sacristão saiu da igreja sem pensar em nada, como se alguém o levasse. A água da lagoa fervia inteira, roncando como uma panela, sem fogo nenhum que se visse. A mão dele quis fazer o sinal da cruz e parou, pesada como chumbo. Como todo o povo sesteava, ninguém viu.

Do fundo rompeu um clarão vermelho, que veio crescendo, saiu da água e andou até ele, sem medo e sem ameaça. Era a teiniaguá, uma lagartixa verde e buliçosa, com a cabeça de pedra brilhando. “Se sai da água, é na água que vive”, pensou ele. Pegou entre os capins uma guampa, um chifre de boi, e a encheu na lagoa; depois meteu a teiniaguá lá dentro. Correu para o quarto e trancou a guampa na canastra, o baú de couro onde guardava as suas coisas.

Sacristão de batina preta, ajoelhado à beira da lagoa que borbulha, segura a guampa com a teiniaguá verde, de cabeça de pedra vermelha; ao fundo, a igreja.

Quem prendesse a teiniaguá, dizia o padre superior, seria o homem mais rico do mundo. E o sacristão sonhou acordado com palácios, gado e ouro até cair a tarde.

Lembrou que o bichinho precisava comer e foi buscar uma cabaça de mel de lechiguana, que é o mais fino. Mas, quando abriu a canastra, os pés lhe criaram raiz no chão: diante dele estava uma moça linda.

— Eu sou a princesa moura encantada — disse ela. — Sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo. Tu não veio atrás de mim com ganância, e me deu água na guampa e mel fino. Se tu quiser, eu te levo a todas as riquezas, e tu vai ser o meu par… se a cruz do teu rosário não me esconjurar.

Sobre a cabeça dela brilhou a meia-lua dos mouros.

Num quarto à luz de velas, o sacristão segura uma cabaça diante de uma moça linda de cabelos negros, com a meia-lua dourada sobre a cabeça, junto a um baú.

O sacristão passou as contas do rosário até encontrar a cruz e foi levantando o crucifixo diante dela, à altura do coração, da garganta, da boca… e ali parou. Os olhos dela, cheios de amor, eram mais fortes do que ele. Daquela noite em diante, a princesa foi o amor escondido do sacristão: vinha toda noite e sumia ao clarear do dia.

Uma noite ela quis misturar o mel com o vinho da missa, e ele foi buscar no altar o cálice de ouro consagrado. Os dois beberam e caíram no chão, abraçados.

Quando o sacristão acordou, estava cercado pelos padres, ao lado do cálice tombado e de uma faixa de seda bordada com a meia-lua. Os padres o prenderam em correntes de ferro e o torturaram para que dissesse quem era a mulher, mas ele não disse uma palavra. Foi condenado a morrer no garrote.

No dia marcado, o sino dobrou a finados, e ele entendeu que era por ele. Levado entre soldados, padres e todo o povo da Missão, sem esperança nenhuma, ele deixou cair uma lágrima de saudade da teiniaguá.

Na mesma hora, a terra tremeu, e a lagoa deu um ronco medonho e se rasgou num sangão, um valo enorme, largo e fundo. Todos viram a teiniaguá correr por ali, com a cabeça brilhando como nunca, até romper a barranca do Uruguai. Então, lá no alto, apareceu no céu a Cruz Bendita. Todos fugiram para o povoado, e o sacristão ficou sozinho.

À noite, o sacristão acorrentado a um poste olha a teiniaguá à beira do sangão de terra vermelha; no céu brilha a Cruz Bendita, e o povo foge da igreja.

Já não sentia o peso dos ferros. Ouvia dentro do pensamento o chamado da teiniaguá, e com ela atravessou o rio e foi para o Cerro do Jarau. O sangão rasgado está lá em São Tomé até hoje.

— Faz duzentos anos que estou aqui — disse o sacristão. — Muitos vieram, puxados pela cobiça, e quase todos saíram loucos. Tu foi o único que veio sem pensar nisso e o primeiro que me saudou como filho de Deus. Eu me arrependi e, como Pedro, que negou Cristo três vezes e foi perdoado, também vou ser perdoado. Quando a saudação de um cristão soar neste cerro pela terceira vez, o encanto se quebra, o meu e o da teiniaguá, e todas as riquezas da salamanca viram fumaça.

— Pois bem — continuou o sacristão. — Alma forte e coração sereno! Quem tem isso entra na salamanca e escolhe o que quiser. Lá dentro não há ninguém, mas há mãos que batem no ombro de quem entra firme. Governa o pensamento e segura a língua. Alma forte e coração sereno! Vai!

Blau amarrou o tostado num galho de camboim, que verga sem quebrar, bem junto da boca da furna, fez o sinal da cruz e entrou calado. O sacristão se desfez em sombra na sombra da reboleira.

Blau Nunes foi andando.

Deu voltas e mais voltas por corredores escuros. Numa encruzilhada, numa luz de vaga-lume, viu sombras com feitio de homem lutando de morte com espadas, sem um grito. “Alma forte e coração sereno!”, lembrou Blau, e passou pelo meio delas sem olhar para os lados. Mãos leves bateram no ombro dele, como satisfeitas.

Blau Nunes foi andando.

Num cotovelo do corredor, saltaram sobre ele jaguares e onças-pardas, de goela aberta e bafo quente. “Alma forte e coração sereno!” Ele passou sem pressa, sentindo o pelo duro das feras roçar no corpo, e as mãos afagaram os ombros dele.

Blau Nunes foi andando.

Chegou a uma sala redonda cheia de ossos, onde esqueletos encostados uns nos outros balançavam devagar, numa dança preguiçosa. O braço direito de Blau quase se ergueu para fazer o sinal da cruz. “Alma forte e coração sereno!” E passou entre as ossadas. As mãos, sempre mansas, voltaram a afagá-lo.

Blau Nunes, de chapéu e poncho remendado, passa por um corredor da furna à luz de vaga-lumes, com a mão meio erguida, diante de esqueletos que dançam.

Blau Nunes foi andando.

Depois veio uma espécie de forno, onde línguas de fogo se cruzavam com jorros de água que chiavam no calor, num redemoinho de vento. “Alma forte e coração sereno!” Ele passou, e as mãos do ar bateram nos ombros dele com mais força, como quem diz “muito bem!”.

Blau Nunes foi andando.

Na luz fraca, viu à frente a boicininga, a cascavel amaldiçoada que guardava aquela passagem, enroscada e grossa, sacudindo os guizos e mostrando as presas. O suor brotou na testa do gaúcho. “Alma forte e coração sereno!” E passou sem olhar para ela. As mãos lhe alisaram o cabelo.

Blau Nunes foi andando.

Num campinho florido, uma roda de moças, uma mais encantadora que a outra, o cercou. Umas dançavam, outras o chamavam para perto. “Alma forte e coração sereno!” Blau passou pelo meio da roda.

Blau Nunes foi andando.

No arvoredo, uma tropa de anões cambaios e cabeçudos o rodeou, dando cambalhotas e fazendo caretas. “Alma forte e coração sereno!” Blau passou sem um sorriso. Eram sete as provas.

Então o vulto de rosto branco apareceu ao lado dele e o levou pela mão a uma gruta reluzente, onde uma velha encurvada, tremendo de tão velha, estava sentada com uma varinha branca nas mãos.

— Cunhã — disse o vulto —, o paisano quer!

— Tu veio, tu chegou; então pede! — respondeu a velha, erguendo a varinha, que soltou uma chuva de faíscas. — Por sete provas que passou, sete escolhas eu te dou. Sorte para ganhar em todo jogo, de cartas, de dados, de cavalos. Tu quer?

— Não! — respondeu Blau.

Blau Nunes, de chapéu na mão, ergue a palma e recusa a oferta da velha sentada, cuja varinha branca solta faíscas; atrás dele, o sacristão de rosto branco.

— A viola e o canto, para amarrar o coração das mulheres que te ouvirem. Tu quer?

— Não!

— Conhecer as ervas e as raízes, para curar e para achar coisas perdidas. Tu quer?

— Não!

— Nunca errar o alvo, de tiro, de lança ou de faca. Tu quer?

— Não!

— Ser rico de campo e de gado. Tu quer?

— Não!

— Fazer pinturas, versos e músicas de consolar. Tu quer?

— Não!

— Pois se nada disso te farta, nada eu te dou. Vai embora!

Blau não se mexeu. Sabia o que queria, mas não sabia dizer: “Teiniaguá encantada, eu queria era tu, porque tu é tudo!”

Uma escuridão fechada caiu sobre ele, e uma força o virou para trás e o levou em linha reta até a boca da furna, onde o tostado esperava. Blau entendeu que, por querer tudo, não tinha levado nada. Com raiva, quis entrar de novo, mas bateu com o peito na parede dura do cerro: não havia mais buraco nenhum.

Desanimado, montou, e o sacristão apareceu ao lado dele, estendendo a mão com tristeza:

— Tu não quis nada. Teve alma forte e coração sereno, mas não soube governar o pensamento nem segurar a língua. Como tu é pobre, aceita este presente: uma onça de ouro, uma moeda furada pelo condão mágico. Ela vai te dar tantas outras quantas tu quiser, mas sempre uma de cada vez, nunca mais de uma.

E se desfez outra vez em sombra. Blau guardou a onça na guaiaca, o cinto largo de couro onde o gaúcho leva o dinheiro, sem contar nada a ninguém.

No dia seguinte, Blau escolheu numa venda roupas finas e esporas, uma conta de quatro onças. Com a testa latejando, sacudiu a guaiaca por baixo do poncho remendado, e caiu uma onça… e outra… e outra… e mais outra. Quatro, mas nunca duas juntas.

No outro dia, a conta de outro negociante deu quinze onças, e as moedas foram caindo, uma de cada vez, até quinze. O homem, alinhando-as no balcão, riu desconfiado:

— Cuê-pucha! Cada onça sua parece pinhão, que a gente tem de descascar um por um!

No terceiro dia, Blau comprou trinta cavalos de uma tropa que passava, por quarenta e cinco onças, e foi aparando moeda por moeda à sombra de uma figueira.

— Amigo! — disse o tropeiro. — As suas onças parecem coquinho de jerivá, que só cai um de cada vez!

Sentado numa pedra à sombra da figueira, Blau Nunes mostra uma onça de ouro ao tropeiro risonho de braços cruzados; cavalos pastam perto de um rancho.

Depois desses três dias, Blau acreditou na onça encantada. Arrendou um campo e comprou mais de dez mil cabeças de gado, um negócio de mais de três mil onças. Passou o dia inteiro sacudindo a guaiaca, até cansar o braço. O vendedor tomou o seu chimarrão, o mate amargo da cuia, dormiu a sesta e, quando voltou, lá estava Blau, ainda aparando onça atrás de onça.

Mas o dinheiro que pagavam a Blau não ficava: sumia da arca de ferro como água em tijolo quente. E quem recebia onças dele perdia depois, em maus negócios, exatamente a mesma quantia. Logo correu de boca em boca que ele tinha parte com o diabo. Os peões e os negociantes se afastaram dele. Blau passou a comer o seu churrasco sozinho, rodeado dos cachorros, que uivavam na noite.

Até que resolveu acabar com aquela solidão. Subiu o cerro e, na reboleira tão conhecida, deu de cara com o vulto de rosto branco. Como era ele quem chegava, era ele quem devia louvar:

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

— Para sempre, amém! — respondeu o vulto.

Blau jogou a onça de ouro aos pés do sacristão:

— Devolvo! Prefiro a minha pobreza de antes a esta riqueza, que só vem de moeda em moeda e separa o dono de todo mundo. Adeus! Fica com Deus, sacristão!

Era a terceira vez que Blau falava no Nome Santo naquele cerro: duas na saudação, e agora na despedida.

— Deus seja louvado! — disse o vulto, caindo de joelhos. — Pela terceira vez tu falou no Nome Santo, paisano, e quebrou o encanto! Graças! Graças! Graças!

Na mesma hora, ouviu-se um estouro imenso, e o Cerro do Jarau tremeu de cima a baixo. Lá no alto subiu uma língua de fogo, alta como um pinheiro, e depois uma fumaça preta: eram os tesouros da salamanca que se queimavam. Através do cerro, que ficou transparente como vidro, Blau viu as sombras, os jaguares, os esqueletos, a boicininga, as moças e os anões se revirando nas labaredas.

E viu a velha virar a teiniaguá, a teiniaguá virar a princesa moura, e a princesa virar uma bonita moça índia. O vulto de rosto branco voltou a ser o sacristão de São Tomé, e o sacristão virou um gaúcho moço e desempenado. De mãos dadas como namorados, os dois deram as costas ao seu desterro e foram descendo a coxilha até a várzea verde, bordada de flores.

Um gaúcho moço e uma moça índia de cabelos negros descem de mãos dadas a coxilha florida; atrás deles, sobe do cerro uma fumaça preta.

Blau fez uma cruz no peito e outra na testa do cavalo e foi descendo devagar a encosta, com o coração leve, como se dentro dele cantasse um passarinho. Era pobre como antes, e ia comer em paz o seu churrasco, tomar em paz o seu chimarrão, viver em paz a sua vida.

Assim acabou a salamanca do Cerro do Jarau, que durou duzentos anos, desde o tempo das Missões. E Anhangá-pitã nunca mais foi visto. Dizem que anda escondido, de vergonha, por não ter se dado conta de que a teiniaguá era mulher.

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Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela) Domínio público