
A Salamanca do Jarau
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Campeando um boi barroso pelas coxilhas, o gaúcho pobre Blau Nunes dá com um vulto de rosto muito branco. É o santão da salamanca do Cerro do Jarau, a furna encantada escondida dentro do morro, e ele quer saber se Blau conhece a entrada. Lá dentro, só passa quem tiver alma forte e coração sereno.
Era um dia… Um gaúcho pobre, Blau Nunes de nome, andava campeando um boi barroso. De seu, só tinha o cavalo tostado, o facão afiado e as estradas. Era posteiro, o peão que mora sozinho num rancho e cuida do gado de uma ponta da estância. Ia a passo, olhando o fundo das sangas e o alto das coxilhas, aquelas colinas mansas que não acabam mais, e cantava:
Meu bonito boi barroso, que eu já dava por perdido, deixou rastro na areia e foi logo conhecido. Montei no cavalo escuro, dei de espora sem demora, e gritei pra peonada que o meu boi ia embora!
Cantando, pensava na sua pobreza. Desde o dia em que tinha topado, cara a cara, com o Caipora, nada mais dava certo na vida dele.
Era a boquinha da noite, hora de mau agouro. Na volta de uma reboleira, uma moita fechada de mato, Blau sofreou o tostado. Ali na frente, quieto e manso, estava um vulto de rosto tristonho e muito branco.
Blau já tinha ouvido falar dele, sempre baixinho, como quem tem medo. Era o santão da salamanca do Cerro do Jarau, a furna encantada escondida dentro do morro.
Correu um arrepio pelo corpo do gaúcho, mas era tarde para voltar. E como era ele quem chegava, era ele quem devia louvar:
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
— Para sempre, amém! — respondeu o vulto. — O boi barroso vai subindo o cerro, vai subindo… Tu sabe, paisano, a entrada da salamanca?
— Sei, sei! Desde guri eu ouço a minha avó charrua falar dela.
— E o que é que a tua avó contava?
E Blau contou. Do outro lado do mar, na cidade de Salamanca, viviam os mouros, mestres da magia. Numa furna escura, longe do sol, que desmancha as bruxarias, eles guardavam o seu condão mágico, e quem o guardava no colo era uma princesa moura encantada, bonita como só ela.
Vencidos numa grande batalha, alguns mouros atravessaram o mar e vieram dar nestas terras atrás de ouro, trazendo escondida a princesa. Na primeira sexta-feira, à meia-noite, receberam a visita do diabo deles, que deste lado do mundo se chamava Anhangá-pitã. O diabo esfregou o condão no suor do próprio corpo e o fez virar pedra transparente. Depois soprou o seu bafo queimante sobre a princesa e a transformou numa teiniaguá, uma lagartixa verde e sem cabeça. No lugar da cabeça, encravou a pedra.
O sol vermelho vinha nascendo, e por isso a cabeça ficou vermelha como brasa e tão brilhante que olho de gente não aguentava olhar. Num ventarrão de tormenta, Anhangá-pitã levou a teiniaguá rio Uruguai acima e lhe ensinou o caminho de todos os tesouros enterrados, e ela ficou sendo a dona de todos eles. Depois o diabo caiu num sono pesado.
Só não se deu conta de que a teiniaguá era mulher.
Então o vulto falou, com voz macia:
— É certo: ele não se deu conta de que a teiniaguá era mulher. Escuta, paisano.
O vulto contou que, duzentos anos antes, tinha sido o sacristão da igreja de São Tomé, na Missão, do outro lado do rio Uruguai. Perto da Missão havia uma lagoa larga e funda.
Um dia, na hora do mormaço, todo o povo dormia a sesta. O sacristão saiu da igreja sem pensar em nada, como se alguém o levasse. A água da lagoa fervia inteira, roncando como uma panela, sem fogo nenhum que se visse. A mão dele quis fazer o sinal da cruz e parou, pesada como chumbo. Como todo o povo sesteava, ninguém viu.
Do fundo rompeu um clarão vermelho, que veio crescendo, saiu da água e andou até ele, sem medo e sem ameaça. Era a teiniaguá, uma lagartixa verde e buliçosa, com a cabeça de pedra brilhando. “Se sai da água, é na água que vive”, pensou ele. Pegou entre os capins uma guampa, um chifre de boi, e a encheu na lagoa; depois meteu a teiniaguá lá dentro. Correu para o quarto e trancou a guampa na canastra, o baú de couro onde guardava as suas coisas.

Quem prendesse a teiniaguá, dizia o padre superior, seria o homem mais rico do mundo. E o sacristão sonhou acordado com palácios, gado e ouro até cair a tarde.
Lembrou que o bichinho precisava comer e foi buscar uma cabaça de mel de lechiguana, que é o mais fino. Mas, quando abriu a canastra, os pés lhe criaram raiz no chão: diante dele estava uma moça linda.
— Eu sou a princesa moura encantada — disse ela. — Sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo. Tu não veio atrás de mim com ganância, e me deu água na guampa e mel fino. Se tu quiser, eu te levo a todas as riquezas, e tu vai ser o meu par… se a cruz do teu rosário não me esconjurar.
Sobre a cabeça dela brilhou a meia-lua dos mouros.

O sacristão passou as contas do rosário até encontrar a cruz e foi levantando o crucifixo diante dela, à altura do coração, da garganta, da boca… e ali parou. Os olhos dela, cheios de amor, eram mais fortes do que ele. Daquela noite em diante, a princesa foi o amor escondido do sacristão: vinha toda noite e sumia ao clarear do dia.
Uma noite ela quis misturar o mel com o vinho da missa, e ele foi buscar no altar o cálice de ouro consagrado. Os dois beberam e caíram no chão, abraçados.
Quando o sacristão acordou, estava cercado pelos padres, ao lado do cálice tombado e de uma faixa de seda bordada com a meia-lua. Os padres o prenderam em correntes de ferro e o torturaram para que dissesse quem era a mulher, mas ele não disse uma palavra. Foi condenado a morrer no garrote.
No dia marcado, o sino dobrou a finados, e ele entendeu que era por ele. Levado entre soldados, padres e todo o povo da Missão, sem esperança nenhuma, ele deixou cair uma lágrima de saudade da teiniaguá.
Na mesma hora, a terra tremeu, e a lagoa deu um ronco medonho e se rasgou num sangão, um valo enorme, largo e fundo. Todos viram a teiniaguá correr por ali, com a cabeça brilhando como nunca, até romper a barranca do Uruguai. Então, lá no alto, apareceu no céu a Cruz Bendita. Todos fugiram para o povoado, e o sacristão ficou sozinho.

Já não sentia o peso dos ferros. Ouvia dentro do pensamento o chamado da teiniaguá, e com ela atravessou o rio e foi para o Cerro do Jarau. O sangão rasgado está lá em São Tomé até hoje.
— Faz duzentos anos que estou aqui — disse o sacristão. — Muitos vieram, puxados pela cobiça, e quase todos saíram loucos. Tu foi o único que veio sem pensar nisso e o primeiro que me saudou como filho de Deus. Eu me arrependi e, como Pedro, que negou Cristo três vezes e foi perdoado, também vou ser perdoado. Quando a saudação de um cristão soar neste cerro pela terceira vez, o encanto se quebra, o meu e o da teiniaguá, e todas as riquezas da salamanca viram fumaça.
— Pois bem — continuou o sacristão. — Alma forte e coração sereno! Quem tem isso entra na salamanca e escolhe o que quiser. Lá dentro não há ninguém, mas há mãos que batem no ombro de quem entra firme. Governa o pensamento e segura a língua. Alma forte e coração sereno! Vai!
Blau amarrou o tostado num galho de camboim, que verga sem quebrar, bem junto da boca da furna, fez o sinal da cruz e entrou calado. O sacristão se desfez em sombra na sombra da reboleira.
Blau Nunes foi andando.
Deu voltas e mais voltas por corredores escuros. Numa encruzilhada, numa luz de vaga-lume, viu sombras com feitio de homem lutando de morte com espadas, sem um grito. “Alma forte e coração sereno!”, lembrou Blau, e passou pelo meio delas sem olhar para os lados. Mãos leves bateram no ombro dele, como satisfeitas.
Blau Nunes foi andando.
Num cotovelo do corredor, saltaram sobre ele jaguares e onças-pardas, de goela aberta e bafo quente. “Alma forte e coração sereno!” Ele passou sem pressa, sentindo o pelo duro das feras roçar no corpo, e as mãos afagaram os ombros dele.
Blau Nunes foi andando.
Chegou a uma sala redonda cheia de ossos, onde esqueletos encostados uns nos outros balançavam devagar, numa dança preguiçosa. O braço direito de Blau quase se ergueu para fazer o sinal da cruz. “Alma forte e coração sereno!” E passou entre as ossadas. As mãos, sempre mansas, voltaram a afagá-lo.

Blau Nunes foi andando.
Depois veio uma espécie de forno, onde línguas de fogo se cruzavam com jorros de água que chiavam no calor, num redemoinho de vento. “Alma forte e coração sereno!” Ele passou, e as mãos do ar bateram nos ombros dele com mais força, como quem diz “muito bem!”.
Blau Nunes foi andando.
Na luz fraca, viu à frente a boicininga, a cascavel amaldiçoada que guardava aquela passagem, enroscada e grossa, sacudindo os guizos e mostrando as presas. O suor brotou na testa do gaúcho. “Alma forte e coração sereno!” E passou sem olhar para ela. As mãos lhe alisaram o cabelo.
Blau Nunes foi andando.
Num campinho florido, uma roda de moças, uma mais encantadora que a outra, o cercou. Umas dançavam, outras o chamavam para perto. “Alma forte e coração sereno!” Blau passou pelo meio da roda.
Blau Nunes foi andando.
No arvoredo, uma tropa de anões cambaios e cabeçudos o rodeou, dando cambalhotas e fazendo caretas. “Alma forte e coração sereno!” Blau passou sem um sorriso. Eram sete as provas.
Então o vulto de rosto branco apareceu ao lado dele e o levou pela mão a uma gruta reluzente, onde uma velha encurvada, tremendo de tão velha, estava sentada com uma varinha branca nas mãos.
— Cunhã — disse o vulto —, o paisano quer!
— Tu veio, tu chegou; então pede! — respondeu a velha, erguendo a varinha, que soltou uma chuva de faíscas. — Por sete provas que passou, sete escolhas eu te dou. Sorte para ganhar em todo jogo, de cartas, de dados, de cavalos. Tu quer?
— Não! — respondeu Blau.

— A viola e o canto, para amarrar o coração das mulheres que te ouvirem. Tu quer?
— Não!
— Conhecer as ervas e as raízes, para curar e para achar coisas perdidas. Tu quer?
— Não!
— Nunca errar o alvo, de tiro, de lança ou de faca. Tu quer?
— Não!
— Ser rico de campo e de gado. Tu quer?
— Não!
— Fazer pinturas, versos e músicas de consolar. Tu quer?
— Não!
— Pois se nada disso te farta, nada eu te dou. Vai embora!
Blau não se mexeu. Sabia o que queria, mas não sabia dizer: “Teiniaguá encantada, eu queria era tu, porque tu é tudo!”
Uma escuridão fechada caiu sobre ele, e uma força o virou para trás e o levou em linha reta até a boca da furna, onde o tostado esperava. Blau entendeu que, por querer tudo, não tinha levado nada. Com raiva, quis entrar de novo, mas bateu com o peito na parede dura do cerro: não havia mais buraco nenhum.
Desanimado, montou, e o sacristão apareceu ao lado dele, estendendo a mão com tristeza:
— Tu não quis nada. Teve alma forte e coração sereno, mas não soube governar o pensamento nem segurar a língua. Como tu é pobre, aceita este presente: uma onça de ouro, uma moeda furada pelo condão mágico. Ela vai te dar tantas outras quantas tu quiser, mas sempre uma de cada vez, nunca mais de uma.
E se desfez outra vez em sombra. Blau guardou a onça na guaiaca, o cinto largo de couro onde o gaúcho leva o dinheiro, sem contar nada a ninguém.
No dia seguinte, Blau escolheu numa venda roupas finas e esporas, uma conta de quatro onças. Com a testa latejando, sacudiu a guaiaca por baixo do poncho remendado, e caiu uma onça… e outra… e outra… e mais outra. Quatro, mas nunca duas juntas.
No outro dia, a conta de outro negociante deu quinze onças, e as moedas foram caindo, uma de cada vez, até quinze. O homem, alinhando-as no balcão, riu desconfiado:
— Cuê-pucha! Cada onça sua parece pinhão, que a gente tem de descascar um por um!
No terceiro dia, Blau comprou trinta cavalos de uma tropa que passava, por quarenta e cinco onças, e foi aparando moeda por moeda à sombra de uma figueira.
— Amigo! — disse o tropeiro. — As suas onças parecem coquinho de jerivá, que só cai um de cada vez!

Depois desses três dias, Blau acreditou na onça encantada. Arrendou um campo e comprou mais de dez mil cabeças de gado, um negócio de mais de três mil onças. Passou o dia inteiro sacudindo a guaiaca, até cansar o braço. O vendedor tomou o seu chimarrão, o mate amargo da cuia, dormiu a sesta e, quando voltou, lá estava Blau, ainda aparando onça atrás de onça.
Mas o dinheiro que pagavam a Blau não ficava: sumia da arca de ferro como água em tijolo quente. E quem recebia onças dele perdia depois, em maus negócios, exatamente a mesma quantia. Logo correu de boca em boca que ele tinha parte com o diabo. Os peões e os negociantes se afastaram dele. Blau passou a comer o seu churrasco sozinho, rodeado dos cachorros, que uivavam na noite.
Até que resolveu acabar com aquela solidão. Subiu o cerro e, na reboleira tão conhecida, deu de cara com o vulto de rosto branco. Como era ele quem chegava, era ele quem devia louvar:
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
— Para sempre, amém! — respondeu o vulto.
Blau jogou a onça de ouro aos pés do sacristão:
— Devolvo! Prefiro a minha pobreza de antes a esta riqueza, que só vem de moeda em moeda e separa o dono de todo mundo. Adeus! Fica com Deus, sacristão!
Era a terceira vez que Blau falava no Nome Santo naquele cerro: duas na saudação, e agora na despedida.
— Deus seja louvado! — disse o vulto, caindo de joelhos. — Pela terceira vez tu falou no Nome Santo, paisano, e quebrou o encanto! Graças! Graças! Graças!
Na mesma hora, ouviu-se um estouro imenso, e o Cerro do Jarau tremeu de cima a baixo. Lá no alto subiu uma língua de fogo, alta como um pinheiro, e depois uma fumaça preta: eram os tesouros da salamanca que se queimavam. Através do cerro, que ficou transparente como vidro, Blau viu as sombras, os jaguares, os esqueletos, a boicininga, as moças e os anões se revirando nas labaredas.
E viu a velha virar a teiniaguá, a teiniaguá virar a princesa moura, e a princesa virar uma bonita moça índia. O vulto de rosto branco voltou a ser o sacristão de São Tomé, e o sacristão virou um gaúcho moço e desempenado. De mãos dadas como namorados, os dois deram as costas ao seu desterro e foram descendo a coxilha até a várzea verde, bordada de flores.

Blau fez uma cruz no peito e outra na testa do cavalo e foi descendo devagar a encosta, com o coração leve, como se dentro dele cantasse um passarinho. Era pobre como antes, e ia comer em paz o seu churrasco, tomar em paz o seu chimarrão, viver em paz a sua vida.
Assim acabou a salamanca do Cerro do Jarau, que durou duzentos anos, desde o tempo das Missões. E Anhangá-pitã nunca mais foi visto. Dizem que anda escondido, de vergonha, por não ter se dado conta de que a teiniaguá era mulher.
Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
