
O Negrinho do Pastoreio
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Nos campos do Sul, o Negrinho é um menino escravo sem nome, que tem só Nossa Senhora por madrinha. Quando o baio perde a carreira de mil onças de ouro, o estancieiro castiga o menino e manda que ele pastoreie trinta tordilhos negros por trinta dias, sozinho no alto da coxilha.
Naquele tempo, os campos do Sul ainda eram abertos, sem divisas nem cercas, e as emas corriam soltas a perder de vista.
Vivia nesses campos um estancieiro que tinha sacos e mais sacos de moedas de ouro, mas era sovina e muito mau. Não dava pouso a ninguém, e ninguém de fora bebia água das cacimbas dele.
Só três viventes ele olhava nos olhos: o filho, um menino implicante como uma mosca; um cavalo baio de corrida, de crina preta; e um escravo ainda pequeno, a quem todos chamavam apenas de Negrinho.
Ao Negrinho não deram padrinhos nem nome. Por isso ele se dizia afilhado da Virgem, Nossa Senhora, que é madrinha de quem não tem madrinha. Toda madrugada galopava o baio, e de tarde aguentava as judiarias do menino, que o atormentava e ria.
Um dia, o estancieiro combinou uma carreira com um vizinho: o baio dele contra o mouro do vizinho, um cavalo de pelo escuro, de fios pretos e brancos misturados. O vizinho queria que a aposta fosse para os pobres; o estancieiro disse que não, que o prêmio era do dono do cavalo que ganhasse. E acertaram: trinta quadras de pista e mil onças de ouro, as grandes moedas daquele tempo.
No dia marcado, a cancha estava cheia de gente, como em festa de santo.
— Pelo baio!
— Pelo mouro!
Os cavalos largaram, e os cascos soavam como uma tempestade.
— Valha-me, Virgem madrinha, Nossa Senhora! — gemia o Negrinho, montado em pelo, sem sela. — Se o sete-léguas perder, meu senhor me mata!
— Se o corta-vento ganhar, é tudo para os pobres! — respondia o outro corredor, cravando as esporas no mouro.
Correram lado a lado até a última quadra. Então, a duas braças da chegada, o baio parou de repente, empinou e deu uma volta no lugar. O mouro passou e ganhou com folga. O Negrinho se segurou firme no lombo e não caiu.

— Foi trapaça! — gritou o estancieiro.
Mas o juiz, um velho do tempo da guerra de Sepé Tiaraju, sacudiu a cabeça branca e falou para todos ouvirem:
— Foi na lei! Perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Foi na lei!
Furioso, o estancieiro jogou as mil onças de ouro sobre o poncho do vizinho, estendido no chão, na frente de todos. E o vencedor mandou repartir tudo entre os pobres.

O estancieiro voltou para casa calado, com o coração dando pinotes de raiva, e mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos num palanque, um poste de prender cavalos. Ali o Negrinho levou uma surra de relho, o chicote de couro.
De madrugada, o estancieiro levou o Negrinho até o alto da coxilha, um morro baixo e redondo do campo, e disse:
— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeu: trinta dias tu vai ficar aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros. O baio fica amarrado na soga, e tu fica de estaca!
Os tordilhos eram trinta cavalos de pelo cinza-escuro. O Negrinho começou a chorar, enquanto eles pastavam. Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. Morto de fome, ele enrolou a soga, a corda do baio, no pulso e se deitou encostado num cupim, um monte de terra dura que os cupins levantam no campo.
Então vieram as corujas. Fizeram uma roda no ar sobre ele, com os olhos amarelos acesos no escuro, e piaram como se rissem dele. O Negrinho tremia de medo. Mas pensou na madrinha, Nossa Senhora, e sossegou e dormiu.

Antes de clarear, vieram os graxains, as raposas ladras do campo, e roeram a soga. Sentindo-se solto, o baio disparou a galope, e a tropilha inteira com ele, sumindo pelas canhadas, os vales baixos entre as coxilhas. O tropel acordou o Negrinho, mas não se via nada: a cerração tapava tudo.
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
O filho do estancieiro foi até lá e contou ao pai que os cavalos tinham sumido. O estancieiro mandou de novo amarrar o Negrinho no palanque e dar nele outra surra de relho. De noite, mandou que ele fosse procurar os cavalos.
Mancando e chorando, o Negrinho pegou o toco de vela benta que ardia no oratório da casa, diante da imagem de Nossa Senhora, e saiu para o campo. Por onde ele passava, a vela ia pingando cera no chão, e de cada pingo nascia uma luz nova, até que o campo inteiro ficou claro.

Quando os galos cantaram, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou a tropilha de volta para a coxilha.
E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu.
Depois se deitou junto ao cupim, as luzes se apagaram, e ele dormiu sonhando com a madrinha.
Dessa vez não vieram corujas nem graxains. Veio coisa pior: de manhãzinha, o filho do estancieiro chegou e espantou os cavalos, que dispararam campo afora. E o menino ruim correu para dizer ao pai que os cavalos não estavam lá.
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
O estancieiro mandou amarrar o Negrinho mais uma vez no palanque e bater nele até que não chorasse nem se mexesse mais, com o corpo todo ferido e sangrando. O Negrinho chamou pela Virgem, sua madrinha, deu um suspiro triste e ficou como morto.
Para não gastar a enxada cavando uma cova, o estancieiro mandou jogar o corpo do Negrinho num formigueiro, para que as formigas o devorassem. Ainda atiçou bem as formigas, e só foi embora, sem olhar para trás, quando elas cobriram o corpo inteiro.
Nessa noite, o estancieiro sonhou que era ele mesmo mil vezes, que tinha mil filhos e mil escravos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro, e que tudo isso cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno.
Por três dias houve cerração fechada, e por três noites ele teve o mesmo sonho. Os peões da estância bateram o campo, mas não acharam nem a tropilha nem o rastro dela. Então o estancieiro foi até o formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.
Qual não foi o seu espanto quando viu ali o Negrinho de pé, com a pele lisa e perfeita, sacudindo as formigas que ainda o cobriam! Ao lado dele estavam o baio e os trinta tordilhos. E bem na frente, de guarda, estava Nossa Senhora, a madrinha de quem não tem madrinha, serena, de pé na terra e cercada pela luz do céu.
Quando viu aquilo, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.

E o Negrinho, curado e sorridente, pulou em pelo no baio, sem rédeas, deu um estalo com a língua e tocou a tropilha a galope.
E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, nem se riu.
Logo viajantes e tropeiros começaram a contar um milagre novo: todos tinham visto passar, sempre na mesma hora, uma tropilha de tordilhos tocada por um Negrinho, em pelo num cavalo baio.
Então muitos acenderam velas e rezaram pela alma dele. Daí em diante, quando alguém perdia alguma coisa, o Negrinho procurava de noite, e achava. Mas só entregava a quem acendesse uma vela, porque levava a luz dela para pagar a do altar da madrinha, que o salvou e lhe deu uma tropilha.
Todo ano, durante três dias, o Negrinho desaparece: está num formigueiro grande, visitando as formigas, suas amigas. Ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do dono, e o Negrinho monta e vai juntar a tropilha. É nessa hora que, nas estâncias, os cavalos disparam de repente, e as pessoas olham, olham, e não veem ninguém.
Desde então, e até hoje, o Negrinho cruza os campos, sobe as coxilhas e desce às canhadas, sempre à procura das coisas perdidas.
Por isso, quem perder alguma coisa no campo, guarde a esperança: acenda uma vela para o Negrinho do Pastoreio e vá dizendo:
— Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi…
Se ele não achar… ninguém mais.
Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
