OriginalO Negrinho do Pastoreio
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O Negrinho, menino escravo sem nome nem padrinhos, monta o baio de um estancieiro sovina e muito mau. Quando o cavalo perde uma carreira de mil onças de ouro, o patrão manda o menino ficar trinta dias no alto da coxilha, pastoreando sozinho uma tropilha de trinta tordilhos negros.
Naquele tempo os campos ainda eram abertos. Não havia entre eles nem divisas nem cercas; o gado xucro só se juntava nos rodeios, e os cervos e as emas corriam por toda parte sem nada que os detivesse.
Era uma vez um estancieiro que tinha uma pilha de bolsas de couro cheias de onças e meias-doblas, que eram moedas de ouro, e ainda muita prataria. Mas era muito sovina e muito mau. Não dava pouso a ninguém e não emprestava um cavalo a quem passasse a pé pela estrada. No inverno, o fogo da casa dele não chegava a fazer brasa; a geada e o minuano, o vento gelado do sul, podiam gelar um viajante até os ossos, e a porta dele não se abria. No verão, a sombra dos umbus só abrigava os cachorros, e ninguém de fora bebia água das cacimbas dele.
Por isso, quando havia serviço na estância, ninguém vinha de boa vontade dar uma ajuda, e os peões não gostavam de se empregar com ele. O homem só dava para comer um churrasco de novilho magro, farinha grossa e erva-mate ordinária, e nem um pedacinho de fumo. E dava tudo isso com tanta avareza e tanta lamúria que parecia estar cortando tiras do próprio couro.
Só para três seres vivos o estancieiro olhava nos olhos. O primeiro era o filho, um menino implicante feito mosca. O segundo era um cavalo baio de crina, cauda e patas negras, o parelheiro de confiança dele para as carreiras. O terceiro era um escravo, ainda pequeno e muito bonitinho, a quem todos chamavam só de Negrinho.
Ao Negrinho não tinham dado padrinhos nem nome. Por isso ele dizia que era afilhado da Virgem, Nossa Senhora, que é a madrinha de quem não tem. Todas as madrugadas ele galopava o baio; depois levava as coisas do chimarrão, e à tarde aguentava os maus-tratos do filho do patrão, que o atormentava e ria dele.
Um dia, depois de muito rodeio, o estancieiro combinou uma carreira com um vizinho. O vizinho queria que a aposta fosse para os pobres; o estancieiro dizia que não, que não! A aposta tinha de ser do dono do cavalo que ganhasse. E acertaram assim: a cancha, a pista da carreira, teria trinta quadras, e a aposta seria de mil onças de ouro.
No dia marcado, havia gente na cancha como em festa de santo grande. A gauchada não sabia por qual dos dois cavalos se decidir, de tão bonitos e bem-feitos que eram. Do baio diziam que, quando corria, o vento assobiava nas crinas dele, e que corria tanto que só se ouvia o barulho, sem que se vissem as patas tocarem o chão. Do mouro, de pelo escuro mesclado de fios brancos, diziam que quanto mais longa a cancha, mais ele aguentava, e que desde a largada ia ser como um laço que arrebenta.
Os partidários de cada lado abriram as guaiacas, os cintos de guardar dinheiro, e ali mesmo se apostavam arreios contra rebanhos e potros contra lenços.
— Pelo baio! Aposto o dobro!
— Pelo mouro! O dobro, e ainda dou vantagem!
Os dois corredores fizeram as suas partidas de ensaio, primeiro à vontade e depois as obrigatórias. Na última, fizeram um para o outro o sinal combinado e se desafiaram. Então, curvando o corpo e com o rebenque no ar, largaram, e os cascos dos parelheiros batiam no chão como uma tempestade.
— Empate! Empate! — gritavam os entendidos ao longo da cancha, por onde passava a parelha veloz, lado a lado como dois bois na mesma canga.
— Valha-me, Virgem madrinha, Nossa Senhora! — gemia o Negrinho. — Se o sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! Hip! Hip!
E baixava o rebenque, puxando pelo baio.
— Se o corta-vento ganhar, é tudo para os pobres! — respondia o outro corredor. — Hip! Hip!
E cravava as esporas no mouro.
Mas os dois cavalos corriam, lado a lado como dois bois na mesma canga. Na última quadra, o mouro vinha num galope cerrado, e o baio, aos arrancos, mas sempre juntos, sempre emparelhados. E a duas braças da raia, quase em cima do laço da chegada, o baio sentou de repente nas patas de trás, empinou e deu meia-volta, de modo que o mouro teve tempo de sobra para passar e ganhou com folga. O Negrinho, que montava em pelo, sem sela nenhuma, se agarrou firme como um grande ginete.

— Foi jogo sujo! — gritava o estancieiro.
— Jogo sujo! — repetiam os do lado dele.
A gauchada estava dividida. Mais de um rapaz valente levou a mão ao cabo da adaga, mais de um soltou a pistola do cinto, mais de um virou as esporas para cima do pé, pronto para brigar. Mas o juiz era um velho do tempo da guerra de Sepé Tiaraju, um juiz de respeito, que já tinha visto muito mundo. Balançando a cabeça branca, deu a sentença para todos ouvirem:
— Foi na lei! Carreira justa, aposta sem volta: perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem éguas gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei!
Não havia o que discutir. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a aposta na frente de todos, jogando as mil onças de ouro sobre o poncho do adversário, estendido no chão.

Foi uma alegria por toda aquela região, porque o ganhador logo mandou distribuir vacas de leite e bezerros mansos, cortes de baeta e potros xucros, e deu o resto, em dinheiro, aos pobres. Depois as carreiras continuaram com os cavalinhos que ainda havia.
O estancieiro voltou para casa calado, pensando, pensando, o caminho inteiro. Tinha o rosto quieto, mas o coração corcoveava como um touro de banhado laçado pelo meio do lombo. A perda das mil onças tinha arrebentado a alma dele. Assim que apeou, mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque, um poste grosso de madeira, e dar nele, dar nele uma surra de relho, o chicote de couro trançado.
De madrugada, saiu com o Negrinho, e quando chegou ao alto da coxilha, uma das colinas baixas e compridas do campo, falou assim:
— Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeu: trinta dias tu vai ficar aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros. O baio fica amarrado na soga, e a estaca vai ser tu!
O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos pastavam. Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. Tonto de fome e já sem força nas mãos, ele enrolou a soga, a corda de couro cru, num dos pulsos e se deitou encostado a um cupim, um montinho de terra dura que os cupins levantam no campo.
Vieram então as corujas e fizeram roda em volta dele, paradas no ar, e todas olhavam para ele com os olhos reluzentes, amarelos no escuro. Uma piou, e todas piaram, como se rissem dele, paradas no ar, sem barulho nas asas. O Negrinho tremia de medo. Mas de repente pensou na sua madrinha, Nossa Senhora, e se acalmou, e dormiu.

E dormiu. A noite já ia alta, e as estrelas iam passando. O Cruzeiro do Sul apareceu, subiu e passou; passaram as Três Marias; subiu a estrela-d’alva. Então vieram os graxains ladrões, aquelas raposas do campo, e farejaram o Negrinho e roeram o couro da soga.
Quando se viu solto, o baio disparou a galope, e toda a tropilha com ele, aos pinotes no escuro, cada cavalo se perdendo para um lado nas canhadas, as baixadas entre as coxilhas. O tropel acordou o Negrinho, e os graxains fugiram, latindo como quem caçoa. Os galos já estavam cantando, mas não se enxergava nem o céu nem a primeira claridade do dia: a cerração tapava tudo.
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
O filho do estancieiro foi até lá e voltou para contar ao pai que os cavalos tinham sumido. O estancieiro mandou de novo amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar nele, dar nele uma surra de relho. E quando já era noite fechada, mandou que ele fosse procurar o que tinha perdido.
Mancando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha, Nossa Senhora. Foi ao oratório da casa, pegou o toco de vela que ardia diante da imagem e saiu para o campo.

Pelas coxilhas e canhadas, na beira das lagoas, nos pousos do gado e nos capões de mato, por onde quer que o Negrinho passasse, a vela benta ia pingando cera no chão. E de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não cavoucaram a terra e as manadas xucras não dispararam.
Quando os galos cantaram, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou a tropilha à sua frente até a coxilha que o seu senhor tinha marcado.
E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu.
Gemendo, gemendo, ele se deitou encostado ao cupim, e no mesmo instante todas as luzes se apagaram. Sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu.
Dessa vez não apareceram as corujas agourentas nem os graxains ladrões. Mas, pior do que os bichos maus, quando o dia clareou veio o menino, o filho do estancieiro, e espantou os cavalos. Eles se espalharam e dispararam campo afora, pinoteando e se perdendo nas canhadas. O tropel acordou o Negrinho, e o filho do estancieiro foi dizer ao pai que os cavalos não estavam lá.
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar nele, dar nele uma surra de relho. Dar nele até que não chorasse mais nem se mexesse, com a carne toda cortada e o sangue vivo escorrendo do corpo. O Negrinho chamou pela Virgem, sua madrinha e Nossa Senhora, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que tinha morrido.
Como já era noite, e para não gastar a enxada abrindo uma cova, o estancieiro mandou jogar o corpo do Negrinho na boca de um formigueiro, para que as formigas lhe devorassem a carne, o sangue e os ossos. E atiçou bem as formigas. Só depois que elas, enfurecidas, cobriram o corpo inteiro do menino e começaram a mordê-lo, o estancieiro foi embora, sem olhar para trás.
Naquela noite, o estancieiro sonhou que era mil vezes ele mesmo, e que tinha mil filhos e mil escravos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro. E tudo isso cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno.
Caiu o sereno em silêncio e molhou os pastos, as asas dos passarinhos e a casca das frutas. Passou a noite de Deus, e veio a manhã com o sol encoberto. Durante três dias houve uma cerração fechada, e durante três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.
A peonada correu o campo inteiro, mas ninguém achou a tropilha, nem sequer um rastro. Então o patrão foi até o formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.
Que espanto o estancieiro levou quando chegou perto! Na boca do formigueiro estava o Negrinho, de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo as formigas que ainda o cobriam. Ali ao lado estava o cavalo baio, e logo adiante a tropilha dos trinta tordilhos. E bem na frente do menino, de guarda, o patrão viu a madrinha dos que não têm madrinha: viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu.
Quando viu aquilo, o patrão caiu de joelhos diante do escravo.

O Negrinho, curado e sorridente, pulou em pelo no baio, sem rédeas, estalou a língua e tocou a tropilha a galope.
E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, nem se riu.
Pela vizinhança correu a notícia da sina e da morte triste do Negrinho, devorado no formigueiro. Mas logo, de perto e de longe, começaram a chegar histórias de uma coisa que parecia um milagre novo.
Os posteiros e os viajantes, os que dormiam debaixo do telhado de palha dos ranchos e os que dormiam no meio do capim alto, os mensageiros que cortavam caminho por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, os mascates e os carreteiros, todos contavam a mesma coisa. Na mesma hora, tinham visto passar, como quem leva a tropa ao pasto, uma tropilha de tordilhos tocada por um Negrinho, montado em pelo num cavalo baio!
Então muitos acenderam velas e rezaram o pai-nosso pela alma do menino tão maltratado. Daí em diante, quando alguém perdia alguma coisa, fosse o que fosse, o Negrinho procurava e achava no meio da noite. Mas só entregava a quem acendesse uma vela, porque levava a luz dela para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o resgatou e o salvou e lhe deu uma tropilha, que ele conduz e pastoreia sem ninguém ver.
Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece. Está metido em algum formigueiro grande, visitando as formigas, suas amigas. A tropilha dele se espalha, um cavalo aqui, outro lá, brincando no meio das manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do seu cavaleiro; o Negrinho monta e vai juntar os cavalos. É quando, nas estâncias, as cavalhadas disparam de repente, e as pessoas olham, olham, e não veem ninguém, nem na frente nem atrás da tropa.
Desde então, e até hoje, tocando o seu pastoreio, o Negrinho, curado e sorridente, atravessa os campos, corta os capinzais, cruza os capões de mato, contorna os banhados, passa os arroios a vau, sobe as coxilhas e desce às canhadas.
O Negrinho anda sempre à procura das coisas perdidas e as deixa num lugar onde os donos possam encontrá-las, quando eles acendem um toco de vela. A luz dessa vela ele leva para o altar da Virgem, Nossa Senhora, madrinha dos que não têm madrinha.
Quem perder alguma coisa no campo não perca a esperança. Junto de algum mourão de cerca ou debaixo dos galhos de uma árvore, acenda uma vela para o Negrinho do Pastoreio e vá dizendo:
— Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi…
Se ele não achar… ninguém mais.
Recontado pela Talerie, fonte: Lendas do Sul (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
