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Um macaco enorme de pelo preto, com unhas compridas, cascos de burro e uma bocarra na barriga, anda pela mata; agarrado a uma árvore, um homem olha apavorado.

A Lenda do Mapinguari

João da Silva Campos

2 min de leitura a partir dos 7 anos

Dois seringueiros dividem uma barraca num canto tão afastado da mata que parece o fim do mundo. Um deles caça todo domingo, e o outro, que sempre o avisa, um dia resolve ir junto.


Era uma vez dois seringueiros que moravam na mesma barraca, no meio da mata, num lugar tão afastado que parecia o fim do mundo.

Um deles tinha um costume: todo domingo saía para caçar e passava o dia inteiro no mato. E toda vez o companheiro avisava:

— Olha, fulano, Deus deixou o domingo para a gente descansar.

O caçador só respondia:

— Ora, no domingo também se come...

E lá ia ele para a mata, de onde só voltava à noite.

De costas, um seringueiro de camisa azul, espingarda no ombro e facão, segue pela trilha; da escada da barraca de palha, o companheiro o vê partir, preocupado.

Tanto o caçador insistiu que, num domingo, o companheiro resolveu ir com ele. Entraram juntos na mata, mas logo se perderam um do outro.

Sem costume de caçar, o pobre homem andou muito tempo à toa, sem achar o caminho, tão atarantado que já não sabia para que lado ficava a barraca. Foi então que ouviu uns berros medonhos, diferentes de tudo, que o encheram de medo. Mais que depressa, subiu numa árvore bem alta e ficou lá em cima, sem se mexer, para ver o que vinha.

Sozinho numa trilha entre árvores imensas cobertas de musgo e cipós, um homem de chapéu de palha para e olha para cima de olhos arregalados, escutando.

Os berros chegavam cada vez mais perto. Por fim, apareceu um Mapinguari: um macaco enorme, peludo como um coatá, com garras de onça e pés de burro virados para trás. A boca, imensa, era um rasgo na barriga, à altura do estômago. Debaixo do braço, o monstro trazia o caçador, morto.

Lá do alto da árvore, o companheiro viu o Mapinguari comer o caçador inteiro, da cabeça aos pés. E, enquanto comia, a fera berrava com uma voz terrível:

— No domingo também se come!

À noite, entre névoa e folhas que voam, o monstro de pelo preto comprido segue pela mata com a boca dentada aberta na barriga; dois pássaros fogem das árvores.

Depois, o Mapinguari foi embora pela mata, urrando tão alto que até as árvores estremeciam:

— No domingo também se come!

Que nota você dá para esta lenda?

Recontado pela Talerie, fonte: O folk-lore no Brasil (abre em uma nova janela) Domínio público