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Numa olaria à beira do rio, uma velha negra curvada, de lenço na cabeça e saia remendada, se apoia numa bengala e estende a mão a um moço espantado.

A Lenda da Matinta Perera

João Hosannah de Oliveira

6 min de leitura a partir dos 8 anos

À meia-noite, um assobio agudo e uma voz cavernosa que repete “matinta-perera” atravessam a praça da vila. O doutor, que acorda num susto e corre para a janela, acha que é só um passarinho noturno. Mestre José, o vizinho, jura que no Pinheiro todos sabem muito bem quem é a Matinta Perera.


Um assobio fortíssimo me acordou num susto, e logo depois ouvi uma voz cavernosa: “matinta-perera”.

Pulei da cama e abri a janela do quarto, que dava para a praça, para ver o que estava acontecendo lá fora. O relógio bateu devagar as doze badaladas da meia-noite.

O silêncio era completo. No céu sem nuvens havia milhares de estrelas, quase apagadas por um luar tão claro que iluminava a praça inteira e a estrada que seguia reta até o cemitério, no fim da vila.

Sob a lua cheia, um homem de bigode e camisa branca se debruça na janela e olha a praça vazia e a estrada reta até as cruzes do cemitério.

O assobio agudo, estridente, e a voz cavernosa que repetia “matinta-perera” continuaram a soar em intervalos curtos. Atravessaram a praça e foram se afastando na direção do cemitério.

Eu conhecia a história da Matinta Perera desde menino. Gente séria, incapaz de mentir, já tinha me contado coisas extraordinárias sobre ela, e com essas histórias na cabeça senti uma espécie de pavor quando aquele assobio terrível quebrou o silêncio da noite. “Não será só um pássaro noturno, desses que existem aos montes nas nossas matas, assustando com seus gritos a gente simples do interior?”, pensei.

Um velho amigo meu, dono de uma fazenda, me contou certa vez que, numa linda noite de luar, ouviu o grito da Matinta Perera bem junto à janela do quarto. A casa ficava no meio de um grande terreiro, todo descampado.

Ele resolveu tirar o mistério a limpo. Chamou os escravos, cercou o terreiro com eles, e todos deram tiros de espingarda para o lado de onde vinha o assobio. O assobio, em vez de parar, ficava cada vez mais frequente e mais irritado, passando de um lado para o outro, bem perto deles. A noite estava clara, mas ninguém conseguia ver o bicho ou a assombração que o soltava.

De repente, tudo parou, e logo o assobio e a voz soaram muito longe dali. Meu velho amigo concluiu que a Matinta Perera era um passarinho branco, que ninguém tinha conseguido enxergar.

De manhã, eu ainda estava impressionado com aquele assobio.

— Bom dia, senhor doutor.

— Bom dia, mestre José.

Numa manhã de sol, mestre José, um velho negro de cabelo grisalho, aperta o chapéu de palha contra o peito e fala com o doutor de terno branco, que sorri.

Mestre José era meu vizinho, um homem muito bom, mas muito falador e cheio de superstições. Muitas vezes me distraía com suas histórias misteriosas e ficava desesperado porque eu não acreditava nelas.

Sabia benzer contra quebranto, mau-olhado, espinhela caída, cobreiro e tudo o mais. Conhecia os lugares onde havia dinheiro enterrado e ouvia vozes que o avisavam do perigo, ou que ralhavam com ele quando voltava para casa tarde da noite, sempre cambaleando.

— E então, mestre José, o que há de novo?

— O senhor doutor não ouviu esta noite a Matinta Perera passando aqui pela praça?

— Ouvi, mestre José, e fiquei convencido de que essa assombração terrível não passa de um passarinho noturno que gosta de cantar nas noites de lua.

— Cantar! Então o senhor chama de cantar aqueles gritos que deixam a gente de cabelo em pé? Cantar, essa é boa! Passarinho, passarinho, é sempre a mesma coisa. Nem parece que o senhor é homem religioso, seu doutor. Parece até que não acredita nas coisas de Deus.

— Alto lá, mestre José. Nas coisas de Deus eu acredito, e muito. Não acredito é nessas bruxarias, que para mim são coisas do diabo.

— Não diga isso. Nós estamos com Deus, e é por isso que essas bruxas que viram lobisomem, Matinta Perera e o resto não podem fazer mal à gente.

— Como? A Matinta Perera também é bruxa?

— Se é! Se, quando ela passou aqui pela praça esta noite, o senhor tivesse dito “Vem buscar tabaco amanhã”, a Matinta já estaria na sua porta, cobrando a promessa. Aqui no Pinheiro a gente sabe muito bem quem é a Matinta Perera.

— Então me diga quem é.

— Ora, o senhor conhece a velha Catarina, manca e meio cega, que mora para os lados do cemitério, atrás do casebre do velho Claudino?

Fiquei olhando para ele, sem dizer nada.

— Pois é ela.

Não consegui segurar uma boa gargalhada.

— Pobre Catarina! Já não basta ser doente e miserável, e vocês ainda fazem dela uma Matinta Perera! Coitada da velha!

— Ela está cumprindo a sina dela. Se o senhor doutor soubesse o que essa velha fez no tempo da Cabanagem, quando ia fazer farra nos cemitérios com os cabanos, os companheiros dela, não teria pena dessa bruxa.

— Na lua passada — contou mestre José — ela andou para os lados do Cruzeiro. O Estanislau estava queimando tijolos na olaria do senhor cônego e, quando ouviu aquele assobio danado, disse na hora, morrendo de medo: “Vem buscar tabaco amanhã”. Pois no dia seguinte, às sete da manhã, quem entra na olaria? A velha Catarina! E ela disse para o Estanislau: “Eu vim buscar o tabaco que você me prometeu ontem.”

— Quem te contou isso?

— O próprio Estanislau. E eu garanto que ele não estava bêbado, porque o coitado do Estanislau já não bebe mais...

— Já não bebe? Será mesmo?

— Não bebe, não senhor. E tem mais: no dia de São João, a gente estava numa festa na casa do Desidério quando ouviu a Matinta Perera. A rapaziada gritou logo: “Vamos pegar essa danada!” Saímos todos para o terreiro e começamos a jogar pedras para o lado de onde vinham os assobios.

À noite, seis rapazes de chapéu de palha e camisa branca, vistos de costas, jogam pedras na direção da mata escura, junto a uma fogueira de São João.

— De repente — continuou ele — a danada ficou quieta, e se ouviu um barulho como de um pássaro grande voando para longe. Pois no dia seguinte a velha Catarina estava de cama, com a cabeça machucada e o corpo cheio de arranhões, e quando perguntavam o que tinha acontecido, ela respondia: “Foram uns malvados que me jogaram pedras.” Acredite, senhor doutor: Matinta Perera são essas bruxas velhas que, quando moças, cometeram grandes pecados e por isso ficam cumprindo a sina delas.

Numa cabana de palha, a velha Catarina, de olhos fechados e pano branco na cabeça, está deitada numa rede, com um lampião aceso ao lado e cruzes lá fora.

— Pois você está enganado. A velha Catarina é uma infeliz que todo mundo maltrata, principalmente esse bando de crianças que ainda não entendem como é feio zombar dos velhos pobres. Cuidado, mestre José, que um dia pode chegar a sua vez. E pode ter certeza: a Matinta Perera não passa de um passarinho noturno, que não faz mal a ninguém.

Mestre José ficou calado, mas não me pareceu convencido.

Que nota você dá para esta lenda?

Recontado pela Talerie, fonte: Lendas Amazônicas (abre em uma nova janela) Domínio público