
A Cabra-cabriola
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Uma mãe pobre sai toda noite para trabalhar e deixa os três filhinhos sozinhos em casa. A porta só se abre para a voz e a cantiga da mãe. Escondida no escuro, a Cabra-cabriola escuta tudo.
Nas histórias que se contavam em Pernambuco, nenhum bicho assustava mais as crianças do que a Cabra-cabriola. Ela tinha uma bocarra enorme, dentes afiadíssimos, e soltava fogo pelos olhos, pelo nariz e pela boca. De noite, entrava nas casas sem ninguém perceber e comia os meninos que encontrava.
Era uma vez uma mulher pobre que tinha três filhinhos pequenos. Toda noite ela saía para ganhar o sustento deles e deixava as crianças sozinhas em casa.
Antes de sair, a mãe sempre recomendava:
— Meus filhinhos, cuidado com a Cabra-cabriola. Não abram a porta para ninguém, só para mim. Vocês conhecem a minha voz e conhecem a minha cantiga.

Certa noite, a Cabra-cabriola chegou e bateu na porta.
— Filhinhos, sou a mãe de vocês. Abram a porta!
Mas aquela voz era grossa, rouca e horrível, e o bicho não cantou cantiga nenhuma, porque não sabia qual era. Os meninos ficaram quietinhos e não abriram.
Furiosa, a Cabra-cabriola foi embora berrando:
Eu sou a Cabra-cabriola, que come meninos aos pares, e também vou comer vocês, seus pirralhos de nada!
Só que ela não foi para longe. Deu a volta, se escondeu no escuro perto da casa e ficou esperando a mulher chegar.
Quando a mãe voltou, já de madrugada, cantou baixinho na porta, como fazia sempre:
Filhinhos, filhinhos, abram a porta, que eu sou a mãe de vocês; trago lenha nas costas, sal na moleira, fogo nos olhos, água na boca e leite nos peitos para criar vocês.
Escondida, a Cabra-cabriola escutou tudo. Aprendeu a cantiga inteirinha e guardou bem o som daquela voz.
No dia seguinte, foi até a oficina de um ferreiro.
— Seu ferreiro, quero que o senhor bata a minha língua na bigorna.
O ferreiro bateu, bateu e bateu, até a voz grossa ficar fina e mansa, igualzinha à da mãe dos meninos.

Quando escureceu, a Cabra-cabriola voltou e ficou espiando a casa de longe. Viu a mulher sair para o trabalho, esperou um pouco, foi até a porta, bateu e cantou:
Filhinhos, filhinhos, abram a porta, que eu sou a mãe de vocês; trago lenha nas costas, sal na moleira, fogo nos olhos, água na boca e leite nos peitos para criar vocês.
Certas de que era a mãe delas, as pobres crianças correram contentes para abrir a porta.

Mas quem estava lá fora era a Cabra-cabriola, morta de fome. Avançou sobre os três irmãos e devorou todos eles.
Recontado pela Talerie, fonte: Folk-lore pernambucano (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
