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Um macaco enorme de pelo preto, com unhas compridas, cascos de burro e uma bocarra na barriga, anda pela mata; agarrado a uma árvore, um homem olha apavorado.Original

A Lenda do Mapinguari

João da Silva Campos

2 min de leitura a partir dos 9 anos

Num seringal perdido na mata, um seringueiro sai para caçar todo domingo, apesar dos avisos do companheiro. Um domingo, o companheiro resolve ir junto, os dois se perdem um do outro e uns berros medonhos vêm chegando.


Era uma vez dois seringueiros que moravam na mesma barraca, num seringal muito afastado, lá nos confins da mata, longe de tudo e de todos. Um deles tinha o costume de sair para caçar todo domingo. E o companheiro sempre o avisava:

— Olha, fulano, Deus deixou o domingo para a gente descansar.

Ao que o outro respondia:

— Ora, no domingo também se come...

E lá ia ele para o mato, onde passava o dia inteiro.

De costas, o caçador de chapéu de palha segue pela trilha com a espingarda no ombro e o facão na cintura; da escada da barraca, o companheiro o olha preocupado.

Tanto o caçador insistiu que, num certo domingo, o companheiro resolveu ir junto. Saíram os dois e, no meio da mata, se perderam um do outro. O companheiro, que não estava acostumado a essas andanças, vagou muito tempo sem achar o caminho, tão atarantado que já não sabia para que lado ir. Foi então que ouviu uns berros medonhos e estranhos, que o encheram de pavor. Subiu depressa numa árvore bem alta e ficou lá em cima, sem se mexer, para ver o que era aquilo.

Sozinho numa trilha entre árvores enormes e cipós, o companheiro, de chapéu de palha e facão na cintura, para e olha para cima de olhos arregalados, escutando.

Os berros foram chegando cada vez mais perto, até que ele viu uma cena tão horrível que por pouco não enlouqueceu de medo. Era o Mapinguari, aquele macacão enorme, peludo como um coatá, com pés de burro virados para trás. Debaixo do braço, trazia o pobre caçador, morto, em frangalhos, pingando sangue.

Com unhas que pareciam de onça, o monstro arrancava pedaços do coitado e os enfiava na boca. Era uma bocarra do tamanho de um buraco de barranco, rasgada na altura do estômago. E, enquanto comia, berrava com uma voz alta e terrível:

— No domingo também se come!

À noite, entre folhas que voam, o Mapinguari de pelo preto comprido avança pela mata com as garras à mostra e a bocarra na barriga; a névoa cobre as pernas.

Lá do alto da árvore, o companheiro viu a fera engolir a cabeça, os braços, as pernas, as tripas e o tronco do infeliz caçador. Depois, o Mapinguari foi embora mata adentro, urrando tão alto que até as árvores estremeciam:

— No domingo também se come!

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Recontado pela Talerie, fonte: O folk-lore no Brasil (abre em uma nova janela) Domínio público