OriginalA Lenda do Mapinguari
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Num seringal perdido na mata, um seringueiro sai para caçar todo domingo, apesar dos avisos do companheiro. Um domingo, o companheiro resolve ir junto, os dois se perdem um do outro e uns berros medonhos vêm chegando.
Era uma vez dois seringueiros que moravam na mesma barraca, num seringal muito afastado, lá nos confins da mata, longe de tudo e de todos. Um deles tinha o costume de sair para caçar todo domingo. E o companheiro sempre o avisava:
— Olha, fulano, Deus deixou o domingo para a gente descansar.
Ao que o outro respondia:
— Ora, no domingo também se come...
E lá ia ele para o mato, onde passava o dia inteiro.

Tanto o caçador insistiu que, num certo domingo, o companheiro resolveu ir junto. Saíram os dois e, no meio da mata, se perderam um do outro. O companheiro, que não estava acostumado a essas andanças, vagou muito tempo sem achar o caminho, tão atarantado que já não sabia para que lado ir. Foi então que ouviu uns berros medonhos e estranhos, que o encheram de pavor. Subiu depressa numa árvore bem alta e ficou lá em cima, sem se mexer, para ver o que era aquilo.

Os berros foram chegando cada vez mais perto, até que ele viu uma cena tão horrível que por pouco não enlouqueceu de medo. Era o Mapinguari, aquele macacão enorme, peludo como um coatá, com pés de burro virados para trás. Debaixo do braço, trazia o pobre caçador, morto, em frangalhos, pingando sangue.
Com unhas que pareciam de onça, o monstro arrancava pedaços do coitado e os enfiava na boca. Era uma bocarra do tamanho de um buraco de barranco, rasgada na altura do estômago. E, enquanto comia, berrava com uma voz alta e terrível:
— No domingo também se come!

Lá do alto da árvore, o companheiro viu a fera engolir a cabeça, os braços, as pernas, as tripas e o tronco do infeliz caçador. Depois, o Mapinguari foi embora mata adentro, urrando tão alto que até as árvores estremeciam:
— No domingo também se come!
Recontado pela Talerie, fonte: O folk-lore no Brasil (abre em uma nova janela) Domínio público Copie este texto, adapte e use como quiser. Um link para a Talerie é bem-vindo, mas não é obrigatório. CC0 1.0 (abre em uma nova janela)
