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Um velho ajoelhado sopra no focinho de um boi escuro com uma estrela branca na testa; uma mulher grávida está ao lado, e o povo olha da cerca, junto ao fogo.

A Lenda do Bumba-meu-boi

Autor desconhecido

4 min de leitura a partir dos 5 anos

Mãe Catirina está esperando um filho e deseja comer a língua do Boi Estrela, o boi mais bonito do sertão. Pai Francisco tem medo de que o desejo faça mal à mãe e à criança e vai ao curral sem pensar duas vezes.


Era uma vez um fazendeiro, o amo, que tinha um boi chamado Estrela. Não havia no sertão boi mais bonito nem mais falado, e o dono gostava dele como de ninguém.

Na fazenda dele trabalhava um vaqueiro, Pai Francisco, casado com Mãe Catirina. Catirina estava esperando um filho e, como acontece com as grávidas, deu de ter um desejo. Só que o desejo dela era comer a língua do Boi Estrela.

Mãe Catirina, grávida, de lenço na cabeça e mão na barriga, conversa aflita com Pai Francisco na varanda; ao longe, além da cerca, um boi escuro pasta.

Pai Francisco ficou aflito. Tinha ouvido dizer que um desejo de grávida, quando não se cumpre, pode fazer mal à mãe e à criança, e isso ele não queria de jeito nenhum. Então, sem pensar duas vezes, foi ao curral e cortou a língua do Estrela.

O boi não aguentou e morreu.

Quando viu o Estrela caído, o amo deu o alarme, chamou todo mundo e jurou que ia descobrir quem tinha matado o boi que ele tanto amava. Mandou chamar o licenciado, homem de leis, e o licenciado reuniu uma junta de doutores. Vieram o Dr. dos Poetas e o Dr. Pisamacio, que examinaram o boi com todo o cuidado, de um lado e do outro.

— Quem matou este boi foi Pai Francisco — disseram ao amo. — Não há dúvida.

Então o amo chamou o Caboclo Real, o caboclo de Canindé, para prender o culpado, como faz um delegado. O caboclo sabia que Pai Francisco não ia se entregar fácil. Com medo de morrer na briga, o caboclo foi se confessar antes de sair. Depois partiu, cantando e chorando:

Cantando e chorando atrás do curral, caçando Pai Francisco sem achar sinal.

O caboclo procurou daqui, procurou dali, até que deu com ele. Parou bem na frente do vaqueiro e falou com voz de trovão:

— Pai Francisco, velho, meu amo te mandou dizer: de três coisas, uma. Ou o corpo, ou a cabeça, ou a vida.

À noite, debruçado sobre a cerca, o Caboclo Real, de penas na cabeça e arco e flechas nas costas, grita e aponta para Pai Francisco; uma candeia brilha no chão.

Pai Francisco não quis saber de nada disso. Berrou, esperneou e lutou o quanto pôde, mas no fim o caboclo o agarrou e o prendeu. Orgulhoso de ter vencido um homem tão valente, o Caboclo Real cantou:

Eu sou o Caboclo Real, caboclo de Canindé. Tenho arco, tenho flecha, tenho candeia no pé.

E o povo da fazenda respondeu em coro:

Chô, chô, chô, Geremano! Chô, chô, chô, Geremano!

Pai Francisco foi levado ao tribunal, diante dos juízes. Ali mesmo ele confessou tudo: tinha matado o Boi Estrela, sim, por causa de Mãe Catirina. Foram buscar a mulher também, e ela chegou presa, tremendo, cantando e chorando na frente dos juízes.

— E o que Mãe Catirina tem a ver com isso? — perguntaram os juízes a Pai Francisco.

— Foi pelo desejo dela, meus senhores — respondeu ele. — Por ela e pela criança.

Mas o boi estava morto, e alguém tinha que pagar. Pai Francisco levou uma surra de chicote, pulando por cima do boi caído, até que o castigo acabou. Então ficou decidido: quem tinha matado o Estrela teria que curá-lo.

Pai Francisco se ajoelhou ao lado do boi. Não trouxe remédio nenhum, nem chá, nem unguento. Encheu o peito e soprou uma vez. Soprou outra vez. Soprou pela terceira vez.

E o Estrela berrou! Ficou de pé num pulo, sacudiu a cabeça e começou a dançar no meio do terreiro. Estava vivo, e tinha a língua de novo, para quem quisesse ver.

O boi da estrela branca na testa dança com a língua de fora junto a uma fogueira no terreiro; Pai Francisco ri, de chapéu na mão, e cinco homens aplaudem.

O povo inteiro bateu palmas, e os vaqueiros cantaram bem alto:

Ê, boi! Ê, bumbá! Boi de fama como este no sertão não haverá.

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Recontado pela Talerie, fonte: A Verdadeira Marmota (abre em uma nova janela) Domínio público