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Um velho ajoelhado sopra no focinho de um boi escuro com uma estrela branca na testa; uma mulher grávida está ao lado, e o povo olha da cerca, junto ao fogo.Original

A Lenda do Bumba-meu-boi

Autor desconhecido

4 min de leitura a partir dos 6 anos

Mãe Catirina está esperando um filho e tem um desejo estranho: quer comer a língua do Boi Estrela. Não há no sertão boi mais bonito, e o dono gosta dele mais do que de tudo, mas Pai Francisco não quer ver a mulher sofrer e vai até o boi sem pedir licença a ninguém.


Era uma vez um fazendeiro, o amo, dono de um boi conhecido em toda parte como Boi Estrela. Não havia no sertão boi mais bonito nem mais famoso, e o dono gostava dele mais do que de tudo.

Na fazenda dele trabalhava um vaqueiro, Pai Francisco, casado com Mãe Catirina. Catirina estava esperando um filho e, como acontece com muitas grávidas, deu de ter um desejo. Só que não era doce nem fruta fora de época: ela queria comer a língua do Boi Estrela.

Na varanda de uma casa de telhado de palha, Mãe Catirina, grávida, com a mão na barriga, olha aflita para Pai Francisco; ao longe, um boi escuro pasta no campo.

Pai Francisco ficou aflito. Todo mundo dizia que um desejo de grávida, quando não é atendido, pode fazer mal à mãe e à criança, e ele não queria ver a mulher sofrer naquele estado. Por isso, sem pensar duas vezes e sem pedir licença a ninguém, foi até o boi e cortou a língua dele.

Sem a língua, o Estrela não resistiu e morreu.

Quando encontrou o boi morto, o amo deu o alarme aos gritos. Chamou todo mundo e jurou que ia descobrir quem tinha matado o seu querido Estrela. Mandou chamar o licenciado, homem das leis, e o licenciado pediu que se reunisse uma junta. Vieram dois doutores, o Dr. dos Poetas e o Dr. Pisamacio, que examinaram o boi muito bem, da cabeça ao rabo, e não tiveram dúvida.

— Quem matou este boi foi Pai Francisco — disseram ao amo.

Descoberto o culpado, o amo chamou o Caboclo Real para ir prender Pai Francisco, como se fosse um delegado. O caboclo sabia que o velho vaqueiro era valente e não ia se entregar fácil. O caboclo teve medo de morrer na luta e, antes de sair, foi se confessar. Depois partiu, cantando com voz terna e mansa:

Cantando e chorando atrás do curral, caçando Pai Francisco sem achar sinal.

O caboclo procurou daqui, procurou dali, até que deu com o vaqueiro. Então avançou para ele com a fúria de um leão:

— Pai Francisco, velho, meu amo te mandou dizer: de três coisas, uma. Ou o corpo, ou a cabeça, ou a vida.

À noite, o caboclo, com arco e flechas nas costas, se debruça na cerca e grita apontando para Pai Francisco, que ergue as mãos; uma candeia brilha no chão.

Pai Francisco não se rendeu. Resistiu, berrou com o caboclo e lutou o quanto pôde, mas no fim o coitado do velho foi agarrado e preso. Orgulhoso de ter vencido um adversário tão valente, o caboclo cantou:

Eu sou o Caboclo Real, caboclo de Canindé. Tenho arco, tenho flecha, tenho candeia no pé.

E o povo da fazenda, os vaqueiros e todos os que estavam ali responderam em coro:

Chô, chô, chô, Geremano! Chô, chô, chô, Geremano!

Levaram Pai Francisco ao tribunal. Diante dos juízes, ele confessou tudo: tinha matado o Boi Estrela, sim, e tinha sido por causa de Mãe Catirina. Foram buscar a mulher também. A coitada chegou presa, tremendo, e cantava e chorava até na frente dos juízes.

— E o que é que Mãe Catirina tinha — perguntaram os juízes a Pai Francisco — para você matar o boi?

— Desejo, meus senhores — respondeu ele. — Ela está esperando um filho e queria comer a língua do Estrela.

Então veio o castigo. Pai Francisco foi açoitado, e a cada chicotada pulava por cima do boi morto, de um lado para o outro, até que as chicotadas pararam. Depois ficou decidido que ele mesmo teria de curar o boi.

O velho vaqueiro se ajoelhou ao lado do Estrela. Não trouxe remédio nenhum, nem chá, nem garrafada, e o boi não bebeu coisa alguma. Pai Francisco só encheu o peito e soprou uma vez. Soprou outra vez. Soprou pela terceira vez.

E o bicho berrou! Pulou, sacudiu a cabeça e começou a dançar no meio do terreiro. Estava vivo, e com certeza tinha a língua de novo, porque berrava para quem quisesse ouvir.

Junto a uma fogueira no terreiro, o Boi Estrela pula e berra com a língua de fora, enquanto Pai Francisco ri de chapéu na mão e cinco homens batem palmas.

Todos bateram palmas e cantaram bem alto:

Ê, boi! Ê, bumbá! Boi de fama como este no sertão não haverá.

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Recontado pela Talerie, fonte: A Verdadeira Marmota (abre em uma nova janela) Domínio público