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À noite, uma moça de longos cabelos ruivos, com penas vermelhas e amarelas, se ajoelha numa pedra à beira do lago e estende a mão para o reflexo branco da Lua.Original

A Lenda da Vitória-Régia

Alfredo Ladislau

4 min de leitura a partir dos 8 anos

A princesa Naiá só deseja uma coisa: que a Lua a leve e faça dela uma estrela, como dizem os velhos adivinhos. Alta noite, enquanto a taba dorme, ela sobe sozinha as montanhas para chegar até a Lua.


Ainda no começo do mundo, numa tribo muito antiga, os velhos adivinhos, que conheciam os segredos da natureza, contavam uma história ao povo da taba. Diziam que, em certas noites do ano, a Lua se escondia no horizonte, parecia descer pelo outro lado das serras e vinha buscar as moças de quem mais gostava.

Como era esse encontro, os anciãos não sabiam dizer. Cada um que o imaginasse, porque não existiam palavras humanas capazes de descrevê-lo.

Contavam também que a Lua, com o sopro radiante dos seus beijos, transformava em luz o corpo das moças escolhidas: apagava o vermelho do sangue delas e desfazia como névoa a carne rosada. Depois fugia com as afortunadas nos braços, bebendo a vida delas, até deixá-las, já sem corpo, deitadas nas nuvens mais altas.

E era assim que iam nascendo as estrelas do céu.

Naiá, a filha do velho e respeitado cacique, era a princesa da tribo. Tinha a pele clara e a cabeleira mais ruiva que o cabelo do milho verde. Aquelas histórias de amores divinos a deixaram encantada, e ela passou a sonhar com o dia em que também seria levada.

Dois velhos de cabelos brancos, sentados junto a uma fogueira perto das cabanas de palha, falam de mãos erguidas; entre eles, Naiá olha para a lua cheia.

Por isso, alta noite, quando todos na taba dormiam e a Lua parecia tocar os picos distantes, a moça subia as montanhas. Queria ser envolvida por aquele carinho luminoso de que os velhos tanto falavam. Desejava trocar a vida pesada da terra por uma existência divina, leve e eterna.

Mas era tudo em vão. Toda vez que Naiá chegava ao alto de um morro, o amado já estava debruçado sobre outra colina, mais encantador e mais distante, sempre fugindo daquela paixão doentia.

Vista de costas, Naiá sobe descalça por pedras cobertas de musgo; lá embaixo um vale de mata fechada, e a lua cheia pousada no alto de um morro distante.

Esse mal, lento e silencioso, foi consumindo a moça, que vivia suspirando e sofrendo. Nenhuma poção preparada pelas mãos sábias dos pajés, nenhum feitiço da mais alta magia conseguiu curá-la. E a tribo deixava as coisas como estavam, porque muitos acreditavam que a Lua acabaria atendendo aos desejos loucos daquele amor.

Assim vivia a jovem doente, vagando pelas encostas nas noites de luar. Dava gargalhadas, soluçava e cantava coisas sem sentido, já fora de si.

Certa noite, quando a loucura mais lhe escurecia o juízo, Naiá viu no espelho tranquilo de um lago a imagem branca e faiscante do seu amado pálido.

Então se atirou na água iluminada para alcançá-lo e se afogou.

Durante semanas inteiras, o povo da taba vasculhou em vão as matas escuras ao redor da aldeia. Naiá nunca foi encontrada.

Mas os deuses da floresta também eram bons e sabiam agradecer. A Lua, mãe das águas, dos peixes e das plantas aquáticas, quis recompensar o sacrifício daquela vida tão pura. Em vez de colocar a moça no céu, fez dela a “estrela das águas”, a rainha de todas essas plantas, toda cor e perfume.

Do corpo branco de Naiá nasceu uma planta misteriosa. A alma dela, de imensa pureza, desabrochou na grande flor perfumada, e toda a mágoa que a tinha atormentado brotou em espinhos.

Depois, com carinho e gratidão, a Lua completou o presente: esticou as folhas da planta o mais que pôde, até que virassem a maior taça possível para receber sua luz.

Num lago da mata, à noite, folhas enormes e redondas de bordas vermelhas e espinhosas boiam em volta de uma grande flor branca, sob a lua cheia.

E até hoje, quando a noite chega, Naiá abre o vestido leve das suas longas pétalas para receber, deitada nas águas mansas, os beijos claros do luar.

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Recontado pela Talerie, fonte: Terra Immatura (abre em uma nova janela) Domínio público