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Noite de lua nos degraus de um templo: um velho de barba branca lê um livro, fios vermelhos saem da sacola de pano, e um moço de azul se inclina para olhar.

A Lenda do Fio Vermelho

Li Fuyan

7 min de leitura a partir dos 8 anos Nota dos leitores em todos os idiomas: 4,0 de 5, com base em 6 avaliações. Que nota você dá para esta lenda?

Wei Gu procura uma esposa há dez anos, e nenhum pedido de casamento dá certo. Ao sair cedo demais para um encontro, ele dá com um velho que lê, à luz da lua, um livro numa escrita que ele não conhece. Ao lado do velho há uma sacola cheia de fios vermelhos.


Wei Gu, de Duling, perdeu o pai e a mãe ainda menino. Vinha de uma família de funcionários e queria se casar cedo, para ter filhos e não deixar o nome dos seus morrer. Mas fazia dez anos que pedia moças em casamento, e nenhum pedido dava certo.

No segundo ano da era Yuanhe, ele estava de viagem e passou a noite numa estalagem ao sul de Songcheng. Lá, um hóspede lhe falou da filha de Pan Fang, que tinha sido funcionário em Qinghe, e marcou com ele ao amanhecer, no portão do templo Longxing, a oeste da estalagem, para acertar o casamento. Wei Gu estava tão ansioso que saiu muito cedo, quando a lua ainda brilhava no céu.

Antes do amanhecer, sob a lua, Wei Gu, de roupa azul e lenço preto na cabeça, segue apressado por uma rua de terra até o portão de um templo, onde um velho lê.

Nos degraus do templo havia um velho sentado, encostado numa sacola de pano, lendo um livro à luz da lua. Wei Gu chegou perto para espiar e não reconheceu as letras. Ele tinha estudado muito desde pequeno e lia todas as escritas do mundo, até o sânscrito, mas nunca tinha visto aquela.

— Que livro o senhor está lendo? — perguntou. — Sei ler todas as escritas que existem, e esta eu não conheço.

O velho sorriu.

— Este livro não é do mundo dos vivos. Como foi que você conseguiu vê-lo?

— E de onde ele é, então?

— Do mundo dos mortos.

— E o que um homem do mundo dos mortos faz aqui?

— Você é que saiu cedo demais, moço. Eu tinha mesmo de estar aqui. Nós, funcionários do outro mundo, cuidamos da vida das pessoas, e por isso andamos entre elas. Metade de quem passa pelas estradas é fantasma; os vivos é que não percebem.

— E de que o senhor cuida?

— Dos registros de casamento de todas as pessoas debaixo do céu.

Wei Gu se animou.

— Perdi meus pais muito cedo e sempre quis me casar logo, para ter filhos. Faz dez anos que procuro uma esposa e não consigo. Hoje marcaram comigo para tratar do casamento com a filha de Pan Fang. Vai dar certo?

— Não vai — respondeu o velho. — Quando o destino não une duas pessoas, nada adianta. Nem um nobre que se rebaixasse a pedir a filha de um açougueiro conseguiria casar com ela; imagine você com a filha de um funcionário. Sua esposa tem só três anos agora. Quando fizer dezessete, vai entrar na sua casa.

Wei Gu perguntou o que havia na sacola.

— Fios vermelhos — disse o velho. — Quando um marido e uma mulher nascem, eu amarro em segredo os pés dos dois com um desses fios. Depois de amarrados, nada os separa: nem famílias inimigas, nem a distância entre ricos e pobres, nem um cargo numa província do outro lado do mundo. O seu pé já está amarrado ao da sua futura esposa. De que adianta procurar outra?

— E onde está essa minha esposa? Quem é a família dela?

— É a filha da velha Chen, que vende verduras ao norte desta estalagem.

— Posso vê-la?

— A velha Chen costuma levá-la ao mercado quando vai vender as verduras. Venha comigo, e eu lhe mostro.

O dia clareou, e ninguém apareceu para o encontro marcado. O velho fechou o livro, pôs a sacola no ombro e saiu andando. Wei Gu foi atrás dele até o mercado de verduras. Lá vinha uma velha cega de um olho, com uma menina de uns três anos no colo, as duas muito malvestidas.

— Aquela é sua esposa — disse o velho, apontando.

No mercado de verduras, o velho de barba branca, com a sacola de pano no ombro, aponta para uma mulher pobre com uma menina no colo, e Wei Gu olha espantado.

Wei Gu ficou furioso.

— E se eu mandar matá-la?

— Não pode. Essa menina nasceu para receber as bênçãos do céu, e um dia o filho dela vai trazer honras e terras para ela. Ninguém pode matá-la.

E, dizendo isso, o velho sumiu.

Wei Gu começou a xingar:

— Velho fantasma, mentiroso! Uma família de letrados como a minha só se casa com gente do mesmo nível. Ou, pelo menos, com uma cantora bonita. Nunca com a filha feia de uma velha cega de um olho!

Então afiou uma faca pequena e a entregou ao criado.

— Você sempre foi um homem de confiança. Se matar aquela menina para mim, eu te dou dez mil moedas.

— Sim, patrão — respondeu o criado.

No dia seguinte, o criado escondeu a faca na manga, foi ao mercado de verduras, feriu a menina com a faca no meio da multidão e fugiu. O mercado virou uma confusão, e Wei Gu e o criado conseguiram escapar.

— Acertou? — perguntou Wei Gu.

— Mirei no coração, mas só acertei entre as sobrancelhas.

Depois disso, Wei Gu continuou pedindo moças em casamento, e nenhum pedido dava certo. Assim se passaram mais catorze anos.

Graças ao cargo que o pai tinha ocupado, Wei Gu conseguiu um posto em Xiangzhou. O prefeito Wang Tai o encarregou de julgar as queixas e as disputas do povo, e ele fez isso tão bem que o prefeito lhe deu a filha em casamento. A moça tinha uns dezesseis ou dezessete anos e era muito bonita. Wei Gu não cabia em si de contente.

Mas a esposa usava sempre uma florzinha pintada, colada entre as sobrancelhas, e nunca a tirava, nem para tomar banho, nem quando estava à vontade em casa. Mais de um ano se passou. Wei Gu achava aquilo estranho e, um dia, de repente, se lembrou do que o criado tinha dito. Então insistiu com a esposa até ela contar a verdade.

À luz de uma lamparina, Wei Gu, de barba preta e roupa verde, observa intrigado a esposa, que tem uma florzinha vermelha colada entre as sobrancelhas.

A esposa começou a chorar.

— Não sou filha do prefeito, sou sobrinha dele. Meu pai era magistrado de Songcheng e morreu no cargo quando eu ainda era bebê. Pouco depois morreram minha mãe e meu irmão. Fiquei só com minha ama de leite, a Chen, num sítio perto da estalagem, ao sul de Songcheng. A gente vivia de vender verduras. Ela gostava tanto de mim que não me deixava sozinha nem um instante. Quando eu tinha três anos, ela me levava no colo pelo mercado, e um louco me feriu com uma faca. A cicatriz ficou, e por isso eu a cubro com a flor. Há uns sete ou oito anos, meu tio foi servir em Lulong e me levou para viver com ele. Ele me criou como filha e, como filha dele, me casou com você.

— A velha Chen era cega de um olho? — perguntou Wei Gu.

— Era. Como você sabe?

— Quem mandou ferir você fui eu.

Os dois acharam aquilo muito estranho e disseram que era o destino. Wei Gu contou tudo o que tinha acontecido, e daquele dia em diante os dois passaram a se respeitar ainda mais.

Num pátio ensolarado, Wei Gu, de barba grisalha, e a esposa, com a florzinha vermelha na testa, dão a mão a um menino pequeno que olha para a mãe.

Mais tarde, tiveram um filho, Kun, que se tornou prefeito de Yanmen, e a mãe dele recebeu o título de Grande Senhora de Taiyuan. Assim se soube que aquilo que o céu decide em segredo não se pode mudar. Quando o magistrado de Songcheng ouviu essa história, deu à estalagem um novo nome: Estalagem do Casamento Selado.

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Recontado pela Talerie, fonte: Xu Youguai lu (續幽怪錄) (abre em uma nova janela) Domínio público